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O cavalo louco e a loba: a fábula de Mario Appignani, o romano que invadia campos

A segunda metade do século XX assistiu à difusão da contracultura no mundo ocidental. Há consenso em atribuir ao Maio de 1968 na França o início de um novo modo de se fazer protesto: os estudantes foram às ruas contra a organização comportamental daquele tempo, mas dessa vez rebentava já um outro paradigma político, uma outra reinvenção. A revolução havia sido pulverizada: a narrativa dualista da Guerra Fria dá lugar à perspectiva dos focos de poder. A ideia de uma grande frente já não cabia em questão. O flower power murchava; nada é novo sob o sol.

Mario Appignani é, muito provavelmente, o rosto mais conhecido do culture jamming na Itália. Participou ativamente do Movimento de 77 (em especial o episódio da Universidade La Sapienza), liderando a ala dos Indiani Metropolitani – grupo de influência “anarco-dadaísta” – contra a repressão do Estado italiano, mas também contra decisões tomadas pelos partidos de esquerda tradicionais e ao programa de luta armada do movimento de esquerda extraparlamentar Autonomia Operária. Pouco depois, o grupo de Mario ficaria totalmente entregue à chegada e expansão da heroína no país.

Nos anos seguintes, Cavallo Pazzo – codinome com o qual ficaria conhecido – seria personagem frequente em programas de televisão, premiações, comícios, e, inclusive, nos jogos da sua amada Roma. Em 1995, o estádio Mario Rigamonti, em jogo entre a Loba e o Brescia, se tornou o último palco de suas enérgicas aparições.

O ativista Appignani foi um dos nomes mais célebres dos movimentos contraculturais italianos da década de 1970 (L’Unità)

Um nascimento, dois batismos

Mario veio ao mundo em 13 de dezembro de 1954. Filho de uma prostituta, foi abandonado pela mãe e passou a infância migrando de orfanato em orfanato: sua experiência mais aterradora veio justamente no Instituto Santa Rita em Grottaferrata, sob as ordens da Irmã Maria Diletta Pagliuca, que anos depois viria a ser presa por maus tratos às crianças do abrigo.

Aos seis anos ele foi castigado e levado para passar um dia de inverno no terraço do orfanato, apenas de cueca, juntamente a Francesco, de oito anos. Na intenção de trocar algum calor e se protegerem, eles se abraçaram.  Mario voltou da punição, mas não Francesco: horas depois, um jardineiro encontrou o corpo do menino, irreconhecível, numa horta. Essa é a primeira memória de Appignani, que seria publicada em sua autobiografia “Un ragazzo all’inferno: viaggio allucinante in 19 istituti di rieducazione”, lançada em 1975, com a colaboração do jornalista Lamberto Antonelli. O relato culminaria no fechamento do Instituto Grotaferrata.

Até a maioridade, a vida de Mario não seria melhor do que em seus primeiros anos: aos 12, a uma tentativa de suicídio se seguiu uma detenção, logo após ser pego se prostituindo. Aos 18, encontrou sua mãe, mas nenhum relacionamento posterior foi desenvolvido entre os dois. Foi somente depois do lançamento da autobiografia, que Mario Appignani ganhou um norte. Um processo consolidado em 1977, quando tinha 23 anos, com o ativismo pelo Partido Radical e pelos Indiani Metropolitani.

Appignani se tornou amigo de Pasolini, um dos maiores artistas italianos, que também era amante do futebol (l’Ultimo Uomo)

O segundo grupo supracitado era considerado como a ala mais libertária e criativa do Movimento de 77, e era influenciado por movimentos contraculturais como o situacionismo e a Geração Beat – popularizada por autores como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William S. Burroughs e Lawrence Ferlinghetti. Tal qual os beats, os ativistas italianos admiravam os indígenas norte-americanos e se influenciavam por sua cultura: pintavam seus rostos, utilizavam cocares e outros adereços típicos em protestos, além de se organizarem em tribos urbanas, coordenadas por líderes que assumiam codinomes idênticos ao de chefes ameríndios. Gerônimo, Cochise, Nuvem Vermelha… e Cavalo Louco. Ou, em italiano, Cavallo Pazzo, alcunha adotada por Appignani no centenário de morte do famoso guerreiro dacota.

Em fevereiro daquele ano, Appignani liderou o movimento no protesto contra o secretário da Confederação Geral Italiana do Trabalho – a CGIL, maior central sindical do país. Luciano Lama fazia um comício na Universidade La Sapienza, em Roma, mas foi interrompido pelos Indiani Metropolitani e demais estudantes organizados, o que gerou um conflito entre as militâncias que participaram dos eventos daquele ano: expulso, o político teve de deixar o local escoltado por operários, no episódio conhecido como Cacciata di Lama. O filósofo Franco Berardi chamaria 1977 – se referindo basicamente à Itália e à Europa – de “o ano do fim do futuro”. Ali onde residia o fim de um projeto estampado no berro dos Sex Pistols: “No future for you”.

A partir daí, e com o início da dissolução do movimento, Cavallo Pazzo faria inúmeras aparições em eventos dos mais diversos: em 1979, invadiu o Festival de Veneza vestido de índio com mais dois cúmplices; em 1980, subiu, disfarçado, ao palco na estreia da peça O Leproso e tomou o lugar do personagem principal, destruindo todo o cenário quando foi percebido pela plateia; e, em 1985, acusou fascistas de terem assassinado, uma década antes, o amigo Pier Paolo Pasolini – que retratara muitos personagens similares a Appignani em seus filmes ambientados nas hostis periferias romanas.

No decênio seguinte, prosseguiu com as invasões. Em 1991, novamente no Festival de Veneza, Cavallo Pazzo se atracou ao microfone do apresentador Pippo Baudo e implorou para que o mesmo não chamasse a polícia. Em 1992, no Festival de Sanremo e novamente com Baudo como “antagonista”, Mario invadiu o palco e anunciou ao público: “Este festival é armado, Fausto Leali vai vencer!”. Seguranças ensandecidos o arrastaram e tentaram tapar a boca do inconfidente. Leali não venceu – foi o nono colocado.

A paixão pela realeza giallorossa

Estima-se em 35 o número de vezes que Cavallo Pazzo invadiu ou tentou invadir os gramados em jogos da Roma. Torcedor fanático dos giallorossi, tornou-se membro da Curva Sud nos anos 1980 e figura carimbada nas excursões do clube pela Serie A na década seguinte. A primeira invasão documentada aconteceu ainda em 1981, num jogo contra o Avellino. As arquibancadas do Olímpico estavam lotadas e muitos torcedores pularam para o campo, com receio de serem pisoteados. Appignani, com o antebraço engessado, aproveitou para correr pelo gramado antes de a partida começar.

Na década de 1990, alguns jornalistas apontaram Mario como um bode expiatório dos ultras romanistas, já que suas aparições resultavam em pesadas multas para o clube – algo em torno de 20 milhões de liras por partida. Eles levantaram a hipótese de que Cavallo Pazzo seria usado como instrumento de vingança contra o presidente Franco Sensi, que assumiu o comando da Roma em 1993 e, instantaneamente, retirou das organizadas algumas benesses, como ingressos gratuitos e apoio financeiro em viagens para partidas fora de casa – o que recebiam na gestão do questionado Giuseppe Ciarrapico.

O fato é que Cavallo Pazzo fazia qualquer lugar de palco. Se nos festivais havia sempre uma mensagem sufocada – por mais desconexa que fosse –, nos gramados que ele se tornaria o emissário de sua verdade singular. Tanto aquela imponente Roma do técnico Nils Liedholm, vencedora do scudetto de 1982-1983 – com o protagonismo do brasileiro Paulo Roberto Falcão, o “Rei de Roma” –, quanto a vice-campeã da Copa Uefa de 1991, tiveram de dividir espaço com as recorrentes e breves invasões do bárbaro decadente.

Na temporada 1994-95, Appignani viveria o curto auge na atividade a que se propunha. Pouco antes, em abril de 1994, na antepenúltima rodada da Serie A 1993-94, deu uma prévia do que estava por vir: conseguiu acessar a cobertura do Olímpico e, da marquise do estádio, agitava continuamente um guarda-chuva giallorosso para inflamar a torcida da Roma em duelo com o Piacenza.

Dali em diante, Cavallo Pazzo promoveu enormes e contínuas dores de cabeça aos policiais italianos. Entre a terceira e a 14ª rodadas da campanha de 1994-95, tentou sete invasões, das quais quatro bem-sucedidas. Contra Genoa e Cagliari, correu no gramado sob aplausos da torcida enquanto carregava a bandeira italiana; depois, viajou até Parma para conhecer o terreno de jogo do Ennio Tardini.

O jogo seguinte, contra o Napoli, exigiu de Cavallo Pazzo uma operação mais complexa. As forças de segurança estavam na sua cola e policiais haviam recebido retratos do ativista para tentar identificá-lo o mais rapidamente possível nos arredores do Olímpico – câmeras de segurança também vigiavam as arquibancadas e o entorno da arena. Appignani até conseguiu entrar no estádio e se misturou à torcida da Roma na Curva Sud, mas foi parado antes da invasão. Usava uma peruca tingida de um tom vibrante de castanho e um bigode falso. Dessa vez, o disfarce não funcionou.

Triunfante, Cavallo Pazzo é conduzido para fora do gramado do Rigamonti (LaPresse)

A despedida escorraçada

Em 20 de novembro de 1994, o vice-comissário de polícia de Brescia, Giovanni Selmin, foi esfaqueado na estação ferroviária onde desembarcavam os torcedores da Roma para a partida contra o time local. Os arredores do estádio Mário Rigamonti estavam tomados de torcedores empunhando pedaços de pau, machados e bombas: foram 32 feridos gravemente, sendo 12 torcedores e 21 policiais. Segundo a versão oficial, o conflito se deu porque ultras giallorossi saltaram do trem e partiram para cima da escolta responsável pela segurança do jogo.

Dentro do estádio a confusão continuou, desta vez entre as torcidas das equipes. Em campo, os jogadores assistiam ao terror das arquibancadas: rojões lançados de um lado a outro, bombas estourando, pedras arremessadas contra a polícia e saudações que não deixavam dúvida do seu teor. Com a partida rolando e a guerra já apaziguada, eis que, aos 10 minutos, surgiu Cavallo Pazzo. O romano partiu da lateral do campo e saiu correndo em direção ao centro do gramado.

Portava óculos escuros e estava inteiramente vestido de preto e de óculos escuros – num visual muito similar ao do cantor gaúcho Júpiter Maçã. Ou quase: o cachecol aurirrubro da Roma o fazia companhia, enquanto driblava seguranças e ria enquanto os deixava para trás. O invasor foi lançado ao chão por Marco Nappi, o “Nippo” do Brescia. Depois de ser contido, Appignani até tentou resistir, mas os oficiais não encontraram dificuldades em carregar o corpo fragilizado de Cavallo Pazzo, definido pelo jornal Il Messaggero como “o porta-bandeira da loucura”, para sua última volta semiolímpica.

Cavallo Pazzo era proibido de ir aos estádios e deveria se apresentar, sempre que houvesse jogo da Roma, numa delegacia. Obviamente, não o fazia – e parte da imprensa o apoiava. O jornalista Bruno Tucci, do Corriere della Sera, chegou a escrever numa coluna que a solução era simples: como o ativista queria apenas aplausos, dizia o escriba, bastaria ao presidente Sensi pedir que a imagem de Appignani fosse exibida no telão do Olímpico antes das partidas. Em entrevista a Tucci, o invasor romano declarou que o seu sonho era “aparecer um dia na televisão sem receio de levar porrada”. Franco, por sua vez, torcia para que o cavalo cansasse de trotar.

Depois da invasão do Rigamonti, Appignani tentou fazer farra no gramado do Olímpico duas outras vezes, mas sem sucesso: era muito famoso e dificilmente conseguia se disfarçar. Antes do clássico contra a Lazio de 27 de novembro de 1994, Cavallo Pazzo foi identificado por policiais nos arredores do estádio, mesmo usando capuz e um penteado diferente do habitual – acabou, então, levado à delegacia.

Em 18 de dezembro de 1994, raspou os cabelos e os tingiu de loiro na tentativa de interromper a partida com o Milan. Dessa vez conseguiu acessar a praça esportiva e até pintou o rosto como um guerreiro sioux, já se preparando para o bote. Contudo, foi visto por fotógrafos e, denunciado aos seguranças, teve seu plano frustrado. Dignamente travestido como um dos Indiani Metropolitani, Cavallo Pazzo fez sua última aparição pública.

Não havia nenhum propósito nas aparições de Mario senão promover um evento-interferência no evento principal: o jogo. Uma quebra do estatuto que não realiza outro, sem durar mais do que alguns segundos. Algo como uma reivindicação fracionada daqueles 15 minutos de fama profetizados por Andy Warhol, e sem nenhum convite em mãos. Era um sabotador da própria imagem.

Acometido pelo vírus HIV, Cavallo Pazzo morreu de AIDS aos 41 anos, na primavera de 1996. Guardava um smoking no armário de seu quarto no hospital para o último evento e chegou a planejar um segundo livro que teria o nome de Seppelitte il mio cuore in Curva Sud (“Enterrem meu coração na Curva Sud”, em português), no qual mesclaria sua pose de ameríndio urbano ao amor pela Roma – porém, não chegou a ser publicado.

Com cabelo raspado e tingido, Cavallo Pazzo foi detido em sua última aparição pública (AS Roma Ultras)

Amado pela torcida, Cavallo Pazzo era próximo a Fabrizio Carroccia, o Mortadela, um dos fundadores do Comando Ultrà da Curva SUD – CUCS e foi homenageado pela organizada com faixas recordatórias após o seu falecimento. Em abril de 1996, dias depois do sepultamento do ativista, Marco Erler, amigo de longa data e comparsa de aventuras nos Indiani Metropolitani (onde era conhecido pelo codinome Nuvem Vermelha), também tentou homenagear Appignani. Da forma mais ensandecida possível, planejou uma invasão de campo no início do segundo tempo de jogo contra a Juventus, mas acabou sendo detido pelos seguranças.

Erler e Carroccia se uniram em 2001, em ocasião do scudetto da Roma, e relembraram o companheiro. Durante os festejos pelo título da Loba, estenderam uma faixa na fachada de um estabelecimento localizado na feira do Campo das Flores, região central da Cidade Eterna. “Cavallo Pazzo: esta [a conquista] foi uma magia dedicada a você”, lia-se na bandeira.

Seria um exagero pensar num legado de Cavallo Pazzo, mas sem dúvidas será difícil apagar o rastro que ainda deixa a sua aparição. A marca foi dada e a cultura dos holofotes não poderia mais ser a mesma. Na fábula da sociedade do espetáculo, a moral da história se resume a uma conhecida frase: “falem mal, mas falem de mim”.

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