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Mario Mandzukic, um guerreiro talhado para lutar pela Juventus

Não é habitual para um jogador chegar a um novo time na fase final de sua carreira e, mesmo assim, desenvolver fortes laços com os seus torcedores e a própria agremiação. Mario Mandzukic foi uma das exceções. O croata já tinha vencido praticamente tudo o que disputara em nível de clubes quando chegou à Juventus e, através de sua vontade de continuar ganhando, se tornou um dos atletas mais queridos pelos bianconeri. Afinal, ele incorporava uma irônica frase basilar para os juventinos: “vencer não é importante, é a única coisa que conta”.

Nascido em 1986 em Slavonski Brod, uma pequena cidade da Croácia, uma das repúblicas integrantes da antiga Iugoslávia, Mario teve uma infância complicada já que o país atravessava um cenário interno bem conturbado. Devido à guerra de independência croata, a família Mandzukic se refugiou na Alemanha e, com apenas 6 anos, o jovem ingressou nas categorias de base do TSF Ditzingen, um modesto clube da região de Stuttgart. Em 1996, quando o conflito se apaziguou, eles voltaram para os Bálcãs.

De volta à Croácia, Mandzukic se desenvolveu por Marsonia e Zeljeznicar Slavonski Brod, estreando como profissional no primeiro clube, em 2004-05. Com 1,90m, aliava força física a velocidade, alguma técnica, inteligência tática, muito poder de explosão nos contra-ataques e um estilo voluntarioso. Mario era centroavante de formação, mas também podia atuar pelos flancos e, às vezes, até como um camisa 10. Por tais características, logo foi comparado ao compatriota Alen Boksic, que fez sucesso por Lazio, Juventus e seleção.

Pelo Marsonia, Mandzukic balançou as redes em 14 oportunidades, distribuídas em 23 jogos da segunda divisão da Croácia. A partir daí, foi galgando degraus: chegou à seleção sub-19 e ao NK Zagreb; depois do sucesso na elite do país, passou ao Dinamo Zagreb como substituto de Eduardo da Silva e também à equipe nacional adulta. No maior clube do país, Mario se tornou uma máquina de gols, o que compensou algumas polêmicas: anotou 63 vezes em 128 aparições, conquistou nove taças e, em 2009, além de ser artilheiro do Campeonato Croata, foi eleito como melhor jogador da competição.

Em 2010, já consolidado na seleção, o atacante de 24 anos acertou com o Wolfsburg – anteriormente, o Dinamo Zagreb havia rejeitado uma proposta do Werder Bremen. Para Mandzukic, rumar novamente para a Alemanha, um país que já conhecia e cujo idioma dominava, era uma decisão bastante simples. Pelos lobos, contudo, o croata foi escalado como ponta-esquerda por Steve McLaren, já que o treinador preferia jogar com um centroavante – Edin Dzeko. Em janeiro de 2011, o bósnio foi vendido para o Manchester City e, então, Mario assumiu o seu posto.

Super Mario passou a se destacar apenas depois da demissão de McLaren e a contratação do disciplinador Felix Magath, que havia conseguido o título da Bundesliga pela equipe na temporada 2008-09. O novo treinador conseguiu afastar Mandzukic das confusões e o croata rendeu: marcou oito gols nos últimos sete jogos, sendo dois contra o Hoffenheim, e salvou o time do rebaixamento. Na campanha posterior, o camisa 18 foi um dos artilheiros dos lobos, com 12 tentos.

Como centroavante ou ponta-esquerda, Mandzukic construiu carreira vitoriosa, com ápice pela Juventus (Getty)

No verão de 2012, Mandzukic participou da Euro 2012 e foi um dos jogadores que se salvaram na campanha da Croácia. Os xadrezes, que já haviam ficado de fora da Copa do Mundo de 2010, foram sorteados num grupo complicado, ao lado de Itália e Espanha, e não avançaram. Super Mario anotou contra a Nazionale e guardou uma doppietta contra a Irlanda, terminando a competição como um de seus seis artilheiros. Depois do torneio, o atacante foi adquirido pelo Bayern Munique.

Bastou um biênio na Baviera para que Mario conquistasse todos os títulos possíveis: Supercopa da Alemanha, Bundesliga, Copa da Alemanha, Champions League, Supercopa Uefa e Mundial de Clubes. Na temporada de debute pelos roten, sob o comando de Jupp Heynckes, o croata se encaixou muito bem num time que já tinha grandes estrelas e teve um ano excelente. Mandzukic anotou 15 gols em 24 jogos na Bundesliga, carimbou o rival Borussia Dortmund na final da Liga dos Campeões e se tornou o primeiro atleta de seu país a marcar na decisão do maior torneio do continente.

Com a aposentadoria de Heynckes, o Bayern foi buscar Pep Guardiola. Era esperado que a equipe atingisse um nível mais alto, mas não foi bem assim que as coisas correram. As taças nacionais continuaram a ser conquistadas, ao passo que o rendimento na Champions League não se repetiu. Mandzukic, por sua vez, não se encaixava muito bem no esquema tático do treinador espanhol. Apesar disso, anotou 26 gols em 48 partidas e foi o vice-artilheiro da Bundesliga, com 18 tentos.

Inclusive, a disputa perdida para Robert Lewandowski, que marcou duas vezes a mais, foi um os motivos de sua saída: o croata chegou a dizer que o técnico havia lhe colocado no banco nas últimas rodadas do campeonato para que ele não fosse o grande goleador da competição. As brigas com Guardiola e o fato de o Bayern ter acertado com o artilheiro polonês fizeram com que não houvesse mais qualquer chance de permanência de Mandzukic no clube.

Antes de deixar o Bayern Munique, porém, Mario veio ao Brasil e, mais uma vez, foi um dos que se salvaram no naufrágio da Croácia. Os xadrezes tinham elenco para irem mais longe na Copa do Mundo, mas caíram na primeira fase – brasileiros e mexicanos se classificaram no Grupo A. Na única partida em que os croatas pontuaram, Mandzukic anotou uma doppietta no 4 a 0 sobre Camarões, em Manaus, e foi eleito o melhor do jogo.

Super Mario ganhou notoriedade por brilhar em jogos decisivos, principalmente pela Juventus (Getty)

Alguns dias após o Mundial, o atacante rumou ao futebol espanhol, acertando um vínculo de quatro anos com o Atlético de Madrid. O camisa 9 substituiu Diego Costa e se adaptou bem ao time de Diego Simeone – a ponto de, no segundo minuto de seu segundo compromisso pelo clube, marcar o gol mais rápido da história da Supercopa da Espanha e decretar o triunfo sobre o Real Madrid. Voluntarioso, Mandzukic ganhou o carinho da torcida colchonera por sua raça e terminou a temporada 2014-15 com 20 tentos em 43 jogos.

O contrato longo com o time da capital espanhol, porém, se encerraria prematuramente. É que, no início do verão europeu de 2015, a Juventus apareceu com 19 milhões de euros e tanto o Atleti quanto Mandzukic aceitaram a proposta. Juntamente a Paulo Dybala, o croata chegava para suprir as saídas de Carlos Tévez e Fernando Llorente. Na Itália, Marione alcançou a glória: a Velha Senhora seria a agremiação que defenderia em mais ocasiões na carreira (162).

Aos 29 anos, o experiente Mandzukic se adaptou rapidamente ao futebol italiano e ao estilo de Massimiliano Allegri. Muito competitivo, o croata se tornou um dos líderes do elenco bianconero e ratificou o seu apreço pelos jogos grandes: para começar, o dono da camisa 17 precisou de apenas 69 minutos para marcar um gol decisivo em sua estreia, ao abrir o placar contra a Lazio na Supercopa nacional, vencida pela Juventus graças a um 2 a 0 em Xangai, na China.

Jogando como centroavante da Juventus, Super Mario voltou a anotar gols importantes na Champions League, garantindo que a Velha Senhora batesse o Manchester City duas vezes pela fase de grupos – a equipe piemontesa, no entanto, perderia para o Bayern Munique nas oitavas de final. Mandzukic sofreu com algumas lesões, mas mesmo assim garantiu tentos em clássicos com Fiorentina e Milan, terminando a temporada como vice-artilheiro bianconero, com 13 bolas nas redes em 36 aparições. Sem dúvidas, colaborou bastante para que a equipe de Turim faturasse a Serie A e a Coppa Italia.

No verão de 2016, Mandzukic representou a Croácia na Eurocopa e, dessa vez, passou em branco – a seleção foi até as oitavas de final, sendo derrotada por Portugal na prorrogação. Poucos dias depois, viu a Juventus desembolsa 90 milhões de euros para assegurar a contratação de Gonzalo Higuaín, que havia batido o recorde de gols numa temporada da Serie A (fez 36 pelo Napoli) e seria o seu novo centroavante. Assim, Mario voltou a ser utilizado como ponta-esquerda.

Competidor por excelência, Mandzukic foi um dos líderes de uma Juventus vencedora (Getty)

Mais longe da baliza adversária, Marione viu a quantidade de gols marcados diminuir. No entanto, contornou esse aspecto ao compensar com muita dedicação em prol do coletivo, sempre de maneira consistente, o que o levou a cair nas graças da torcida – volta e meia o croata participava do esforço defensivo com aquele tipo de carrinho que todo torcedor adora ver no estádio.

A troca de posição promovida por Allegri ainda teve um bônus ofensivo: quando Mandzukic centralizava alguma jogada, a Juventus ficava com dois centroavantes de ofício na área adversária. Essa vantagem ficou evidente na final da Champions League 2016-17, contra o Real Madrid. Apesar de a Velha Senhora ter levado 4 a 1 em Cardiff, Super Mario anotou um golaço, que foi escolhido como o mais bonito do ano pela Uefa: ajeitou a bola de peito para Higuaín, recebeu de volta e, a 14 metros da meta de Keylor Navas, encobriu o costarriquenho com um arremate de bicicleta.

Na terceira temporada pela Juventus, Mandzukic continuou a fazer gols importantes e acumular boas atuações. Pela Coppa Italia, marcou no clássico contra o Torino e deu uma assistência na final contra o Milan, contribuindo para que a Velha Senhora faturasse mais uma dobradinha nacional. O croata também se esforçou muito para que a Champions League deixasse de ser apenas uma obsessão para os bianconeri. Nas quartas de final da edição 2017-18 do torneio, após Cristiano Ronaldo lhe responder com uma bicicleta no 3 a 0 do Real Madrid em Turim, Marione se tornou o primeiro jogador adversário a anotar duas vezes na etapa inicial de uma partida da competição no Santiago Bernabéu. Apesar disso, um pênalti no final do duelo decretou o insuficiente triunfo italiano por 3 a 1 e o avanço dos merengues.

Em alta pela Juventus, Mandzukic foi um dos veteranos que integraram o forte elenco da Croácia na Copa de 2018. Os vatreni estavam no Grupo D, com Argentina, Nigéria e Islândia, dominaram a chave e se classificaram com 100% de aproveitamento. Super Mario, que participou dos tentos na vitória por 2 a 0 sobre os nigerianos, cresceu no mata-mata: marcou nas oitavas, contra a Dinamarca, e nas semifinais, consumou a virada sobre a Inglaterra na prorrogação. Muito cansada, após ter de superar três vezes o tempo extra, a seleção balcânica não foi páreo para a França e terminou com o vice-campeonato. Marione anotou um gol contra e outro a favor no 4 a 2 da decisão, que foi a sua última partida pela equipe croata. Inclusive, ele é um de seus três principais artilheiros, com 33 bolas nas redes.

De volta a Turim, o atacante de 32 anos teve a sua última grande sequência pela Juventus – e, dessa vez, tendo Ronaldo como colega de ataque. Os jornais italianos destacam que o croata era o parceiro perfeito para o português, pois estabelecia com CR7 uma conexão de força e habilidade. Em 2018-19, Cristiano marcou 28 gols e Mandzukic dividiu a vice-artilharia com Dybala, cada um com 10. Na campanha do título da Serie A, Super Mario anotou tentos que decidiram ou ajudaram a tornar o placar mais elástico em partidas contra alguns dos principais adversários da Velha Senhora, como Atalanta, Inter, Lazio, Milan, Napoli e Roma. Além disso, chegou a utilizar a braçadeira de capitão em algumas oportunidades.

No fim da carreira, já longe do ápice físico, Mandzukic teve curta e frustrante passagem pelo Milan (Getty)

Na temporada 2019-20, a chegada de Maurizio Sarri ao comando da Juventus encerrou a trajetória de Mandzukic em Turim. O treinador não contava com o croata em seus planos e até o deixou de fora da lista da Champions League. Após ficar no banco em três rodadas do Campeonato Italiano, Marione foi barrado de vez e ficou sem jogar até janeiro, quando pode estrear pelo Al-Duhail, do Catar. Em 162 partidas pela Juve, Super Mario anotou 44 gols, forneceu 18 assistências e conquistou nove títulos.

Mandzukic ficou apenas seis meses no Oriente Médico: após 10 jogos e dois gols, entrou em acordo com o Al-Duhail para rescindir o contrato. O atacante passou algum tempo sem clube, embora tenha sido sondado por diversas agremiações europeias, e só escolheu um novo destino em meados de janeiro de 2021: voltou à Itália para atuar pelo Milan.

As condições físicas do croata, porém, não eram ideais. Marione estava visivelmente sem ritmo e chegou a ficar afastado por um mês e meio por conta de uma lesão muscular. Desapontado por isso, teve um gesto nobre ao renunciar ao salário de março por não ter podido entrar em campo, doando os seus rendimentos a projetos sociais coordenados pelo Milan. No fim das contas, Mandzukic representou o Diavolo por 287 minutos distribuídos em 11 jogos, sendo apenas dois como titular, e não marcou gols.

Super Mario agradeceu ao Milan pela oportunidade e se despediu do clube em maio, após o vice-campeonato da Serie A e a vaga na Champions League terem sido confirmadas. Depois de meses de especulações quanto a seu futuro, o atacante anunciou a aposentadoria em setembro de 2021. Em novembro, se tornou o principal auxiliar técnico da seleção croata, comandada por Zlatko Dalic.

Sem dúvidas, a qualidade e o suor derramado por Mandzukic em seus anos de Juventus fizeram com que ele se tornasse um dos maiores ídolos recentes da torcida bianconera. Parte do desgaste que Sarri teve em Turim, inclusive, se deve ao fato de o técnico ter sido o pivô de um fim de passagem melancólico e imerecido para o croata. O fato de Marione ser ovacionado pelo Allianz Stadium e o treinador napolitano continuar sendo alvo de vaias das arquibancadas evidencia quem levou a melhor neste cabo de guerra.

Mario Mandzukic
Nascimento: 21 de maio de 1986, em Slavonski Brond, Croácia (antiga Iugoslávia)
Posição: atacante
Clubes: Marsonia (2004-05), NK Zagreb (2005-07), Dinamo Zagreb (2007-10), Wolfsburg (2010-12), Bayern Munique (2012-14), Atlético de Madrid (2014-15), Juventus (2015-19), Al-Duhail (2019-20) e Milan (2021)
Títulos: Campeonato Croata (2008, 2009 e 2010), Copa da Croácia (2008 e 2009), Supercopa da Alemanha (2012), Bundesliga (2013 e 2014), Copa da Alemanha (2013 e 2014), Champions League (2013), Supercopa Uefa (2013), Mundial de Clubes da Fifa (2013), Supercopa da Espanha (2014), Supercopa Italiana (2015), Serie A (2016, 2017, 2018 e 2019), Coppa Italia (2016, 2017 e 2018) e Qatar Stars League (2020)
Seleção croata: 89 jogos e 33 gols

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