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Estrategista revolucionário, Gipo Viani se sagrou vitorioso em uma década de Milan

Giuseppe Viani, o Gipo, como era popularmente conhecido, foi uma das mentes mais disruptivas e únicas que o futebol já teve. Viveu o esporte intensamente e exerceu praticamente todas as funções possíveis: foi atleta, treinador e dirigente, além de ter deixado um inestimável legado no que tange ao campo tático. Apaixonado por pôquer e carros, não se privou de aproveitar a vida, mesmo que isso significasse extrapolar certos limites.

Sonhos: o início de tudo

Nascido em 1909, Gipo cresceu na região do Vêneto. Vindo de uma família de pequenos agricultores, teve uma infância com poucas oportunidades de estudo, que o afastou inclusive de um desejo que tinha de ser advogado. Sem querer perder tempo, o jovem viu no futebol, uma de suas primeiras paixões, um caminho mais viável de ser trilhado. Com a ajuda da mãe, e escondido do pai, partiu para Milão em busca de seus sonhos.

A relação entre Gipo Viani e a cidade de Milão seria mais do que especial, mas não naquele momento. Atuando como ponta, acabou retornando à sua cidade natal para jogar pelo Treviso e, mesmo aparentando ser um pouco lento para a posição, marcou 10 gols em 21 jogos nos dois anos em que lá esteve.

Sua carreira deu um salto quando foi contratado pela gigante Inter – que, naquele período, tinha o nome de Ambrosiana por causa da política fascista que buscava acabar com quaisquer estrangeirismos. A equipe era treinada pelo húngaro József Viola, que logo mudou a posição de Viani em campo, deslocando-o da ponta para a faixa central, compensando assim sua falta de velocidade. Atuando na nova função, firmou-se nos nerazzurri e lhes representou por seis temporadas, nas quais realizou 137 partidas e 11 gols.

Além disso, Gipo comemorou a conquista de um scudetto – o de 1929-30, no primeiro ano da Serie A em pontos corridos –, fazendo parte de um histórico time, que contava com Giuseppe Meazza e Fulvio Bernardini. O treinador era um velho conhecido da Inter, o também húngaro Árpád Weisz, antecessor de Viola e responsável por revelar Meazza. Weisz, um dentre os milhões de judeus dizimados pelo nazismo, morreu em Auschwitz, em 1944.

A ascensão e a consequente fama por conta do sucesso nos gramados redimensionaram a vida de Gipo Viani, que passou a frequentar a vida noturna de Milão. Longas e longas noites foram gastas em função do pôquer, desabrochando cada vez mais sua paixão por esse jogo. Mas para tudo há um preço: a Inter não quis mais contar com os serviços do meio-campista, que foi para a Lazio. Permaneceu na capital italiana durante quatro anos, período em que fez 117 jogos e anotou um gol.

Em evidente queda física e com a carreira cada vez mais comprometida por conta dos excessos, Viani jogou uma temporada pelo Livorno, com 27 jogos na campanha que culminou no rebaixamento dos labronici, e outra na Juventus – cinco partidas. Aos 30 anos, estava acabado fisicamente e se viu sem ter um clube sequer interessado em contratá-lo. A aposentadoria parecia cada vez mais próxima, até que Ottorino Barassi, amigo de Viani e presidente da Federação Italiana de Futebol (FIGC), o aconselhou a escrever cartas aos clubes e oferecer seus serviços como jogador-treinador. O pequeno Siracusa, da Serie C, se interessou pela dupla função e Gipo logo fez as malas para a Sicília, onde teria um novo desafio.

Em meio à Segunda Guerra Mundial e com a economia do país caótica, Viani passou a lucrar substancialmente nas noites de pôquer, quando jogava contra oficiais portuários e levantava uma quantia capaz de pagar salários e premiações. O carteado estava presente na rotina dele e de sua família; era comum Gipo fazer o trajeto Cascia-Roma em seu caminhão, acompanhado da esposa Mariella e do filho Giorgio para jogar.

Na Serie C, o Siracusa garantiu a primeira colocação de seu grupo. Em 22 partidas disputadas, a equipe siciliana obteve 14 vitórias, três empates e cinco derrotas, classificando-se junto às outras sete equipes que também lideraram seus respectivos grupos para a fase final. Em dois grupos compostos de quatro times, os melhores de cada um garantiriam o acesso à Serie B. O Siracusa terminou na terceira posição, um ponto atrás dos classificados Prato e Pro Patria. Na sequência, Viani foi jogador e técnico da Salernitana, de 1941 a 1943, e conseguiu o acesso à segunda divisão, mas o auge da guerra, em sua fase decisiva, suspendeu os campeonatos em curso.

Como treinador, Viani levou herança tática da Salernitana para o Milan e modificou a função de Liedholm (imago/Buzzi)

Pós-guerra e o Vianema

Passado o período de inatividade, Gipo Viani continuou na região da Campânia e comandou o Benevento numa breve passagem. Depois, também por alguns meses, treinou o Colleferro, do Lácio. Em 1946, poucos meses após o fim da guerra, retornou à cidade de Salerno para treinar mais uma vez o clube granata e entrar definitivamente para a história.

O time assumiu a liderança da segundona no início da competição e de lá não saiu mais, subindo para a Serie A ao lado de Pro Patria e Lucchese. A performance defensiva chamou atenção: foram apenas 23 gols sofridos em 32 partidas, demonstrando a eficiência do catenaccio, que se consolidava cada vez mais e viria a se popularizar com Nereo Rocco e Helenio Herrera. Em um contexto pós-Segunda Guerra, os regulamentos dos campeonatos acabaram sofrendo algumas alterações em comparação a anos anteriores.

Foi neste período que surgiu o famoso Vianema: o esquema tático usado pelo treinador foi batizado pela imprensa em alusão ao seu sobrenome. Para explicá-la e justificar o porquê de se considerar o pai do catenaccio, Gipo tinha uma história um tanto quanto curiosa. Ele alegava que, certo dia, enquanto caminhava, avistou pescadores utilizando duas redes e percebeu que os peixes fugiam da primeira rede, mas não da segunda. Ele comparou essa situação com o futebol e vislumbrou alguém atuando atrás da linha de defesa, a fim de evitar que algum jogador adversário escapasse, tal como os peixes.

O Vianema teve inspiração na ideia de Antonio Valese, que havia sido comandado por Viani na Salernitana e que também exerceu a função de jogador-treinador na agremiação. O conceito surgiu no verão de 1947, em um torneio festivo para celebrar o acesso dos cavalos marinhos à primeira divisão: Valese sugeriu que Alberto Piccinini, meio0campista, herdasse a camisa de centroavante, que estava vaga depois que o dono da posição, Vincenzo Volpe, havia desistido de jogar por conta de um curioso motivo: Dante, seu irmão, seria o goleiro adversário, e ele não queria enfrentá-lo.

Assim, Piccinini recebeu a camisa 9 e foi escalado para jogar no lugar de Ivo Buzzegoli, zagueiro central, agora recuado para atuar atrás da primeira linha, na função de líbero – sem a obrigação de marcar algum jogador, mas responsável por proteger uma área específica do campo e devendo ficar atento a quaisquer espaços livres. O líbero executa funções muito específicas e, com o passar do tempo, contribuiu para modernizar o jogo com atletas completos. Por exemplo, Franco Baresi, um jogador capaz de defender, se antecipar, ler os espaços e com qualidade técnica para conduzir a bola e iniciar as jogadas logo após a recuperação da posse.

Para confundir os adversários, Viani manteve a camisa de número 9 para o agora zagueiro central Piccinini, que era responsável por marcar o centroavante do outro time. Deu certo e a tática passou a ser adotada, mas Valese acabou saindo da Salernitana após divergências com Viani. Os dois tornaram-se desafetos e, durante anos, brigaram pela autoria da estratégia. Não é injusto considerar Gipo o autor, visto que foi ele quem começou a usá-la repetidas vezes e que obteve sucesso naquilo que se propunha a fazer.

O estratagema tático de Viani teve uma de suas origens no verrou da Suíça – o célebre ferrolho suíço utilizado na Copa do Mundo de 1938, na França. O treinador era Karl Rappan, que pedia para que seus zagueiros se postassem em linha ao invés de atuarem constantemente lado a lado, criando, então, um sistema de cobertura no qual sobraria um homem livre, apelidado de verrouller, posteriormente conhecido como líbero. É interessante levar em conta o que disse o jornalista Jonathan Wilson, autor do livro “A Pirâmide Invertida” (2008), sobre a disseminação da ideia em si. Wilson pontua que a essência do jogo defensivo em questão era mais um conceito, e não uma fórmula tática que passou a ser copiada.

Na elite do futebol italiano, Viani considerava o Vianema o plano de jogo ideal e fez com que os homens de frente voltassem para marcar na intermediária, envolvendo todos em um sistema de marcação a ponto de sobrar um jogador em comparação com o rival: justamente o líbero. A Salernitana ganhou a fama de equipe mais defensiva da Itália e recebeu críticas da imprensa, que dizia que o estilo de jogo era conservador e tinha o conceito baseado em obstruir as investidas adversárias. Mas essa estratégia funcionava, então como culpar uma equipe pequena e de baixo poderio financeiro em comparação aos grandes clubes, em especial os grandes do norte?

Com uma pitada de azar, a equipe grená acabou rebaixada: teve um ponto a menos do que a Roma, primeira equipe livre da zona de descenso. Fontes da época afirmam que o jogo decisivo entre as agremiações, que ocorreu na penúltima rodada e teve vitória romana por 1 a 0, teve péssima arbitragem de Vittorio Pera. Ao longo da campanha, porém, a Salernitana sofria quando atuava na condição de visitante e tinha notória dificuldade para marcar gols, embora se notabilizasse pelo desempenho defensivo. Apesar do insucesso na tabela, o treinador valorizou sua invenção e foi a público para explicá-la aos jornalistas. Ele e seu Vianema tornavam-se cada vez mais conhecidos.

Gipo Viani tinha olho calibrado para jovens: no Milan, lançou jogadores como Trapattoni (imago/Buzzi)

Andanças e o hotel Gallia, sede do “calciomercato”

O destino seguinte de Gipo foi a Lucchese. Na Serie A, conduziu o time de Lucca a um louvável oitavo lugar. Depois, treinou o Palermo a pedido do presidente Raimondo Lanza di Trabia, um dândi que ficou reconhecido como um dos maiores bon vivants que a Velha Bota já teve. Assíduo frequentador do Cinecittà, gostava de desfrutar dos verões sicilianos em companhia de estrelas de Hollywood, como Erroll Flynn e Rita Hayworth.

Lanza di Trabia morou durante um tempo no tradicional Hotel Gallia, próximo ao centro de Milão. Era lá que se reunia com Viani, como na vez em que chamou o treinador para o seu quarto, o 131. Era de manhã e o playboy bebia um Martini gelado enquanto folheava uma pilha de jornais. Quando o convidado chegou, ele o recebeu nu em uma banheira perfumada com sais e essências herbais, produtos que adquirira em Paris. Ele encomendou uma garrafa de Biancosarti para Viani e começou a interpelar o treinador: “Ele já decidiu o futuro? Se ele permanecer conosco, quero um time para brigar pelo scudetto”, dizia sobre um atleta qualquer.

Lanza di Trabia acreditava ser possível disputar títulos com a Juventus de seu amigo Gianni Agnelli. Mas, nas duas temporadas em Gipo que esteve à frente do rosanero, isso sequer chegou perto de acontecer: o Palermo terminou a Serie A em 13º e 10º, respectivamente. Por causa do presidente, o hotel virou a sede do “calciomercato”: nesse biênio, o Gallia viveu lotado de gente no saguão ao mesmo tempo que muitos contratos eram redigidos e inúmeras garrafas de champanhe eram abertas.

Posteriormente, Viani foi contratado pela Roma, que flertou com o rebaixamento durante os cinco anos que sucederam a guerra. Na Serie A 1950-51, a Loba teve decretada a primeira e única queda em sua história. Gipo tinha como missão devolver a equipe à elite e alcançou o objetivo ao transformar os giallorossi em campeões da categoria. O treinador, que vinha em grande forma e estava em plena ascensão, abandonou o cargo ao final da temporada.

Viani treinou o Bologna durante quatro temporadas e sempre deixou a equipe em boas posições na Serie A, próxima dos primeiros colocados: 5º lugar em 1952-53, 6º em 1953-54, 4º em 1954-55 e 5º em 1955-56. Assertivo nas janelas de transferências, conseguiu construir uma relação harmoniosa com o icônico presidente Renato Dall’Ara, apesar da desconfiança que acometia o mandatário quando o técnico tinha suas noites de festa e jogatina.

Em 1956, o telefone de Gipo Viani tocou. Quem falava do outro lado da linha era Andrea Rizzoli, dono e presidente do Milan. O magnata lhe convidava para treinar o rossonero: a proposta foi aceita e o técnico deixou a Emília-Romanha para retornar à amada Milão.

Viani e Liedholm tiveram relação de cumplicidade: foi sob supervisão do italiano que o sueco deu os seus primeiros passos como técnico (imago/Buzzi)

O Milan e os azzurri de Gipo

Quando chegou a Milão para assumir o Diavolo, Viani logo ganhou um apelido: Lo Sceriffo (ou “O Xerife”, em português), em virtude da semelhança que tinha com o ator John Wayne, símbolo dos filmes de faroeste, e de sua fama de ser durão e resoluto. Com moral, o técnico contaria com nomes do porte do craque sueco e capitão Nils Liedholm, e do uruguaio Juan Alberto Schiaffino, exímio articulador de jogadas. Também teria à disposição outros grandes, como o zagueiro Cesare Maldini, pai de Paolo Maldini, e o goleiro Lorenzo Buffon, primo de segundo grau do avô de Gianluigi Buffon.

Viani deslocou Liedholm para atuar livre na frente de seus defensores e conquistou o scudetto, o sexto da história do Milan, também com participação decisiva de Gastone Bean, autor de 17 gols na vitoriosa campanha. Na temporada seguinte, mesmo com uma campanha irregular no campeonato nacional, colocou o time rossonero na final da Copa dos Campeões. O adversário era o Real Madrid, de Alfredo Di Stéfano (artilheiro do torneio com 10 gols) e Francisco Gento, e que buscava o tricampeonato. Os blancos venceram por 3 a 2, gols de Di Stéfano, Héctor Rial e Gento; Schiaffino e Ernesto Grillo descontaram para o lado italiano.

Após o vice-campeonato europeu em 1958, Viani teve novas atribuições no Milan: suas grandes habilidades como gestor de grupo levaram o presidente Andrea Rizzoli a confiar-lhe o cargo de diretor técnico. Na prática, Gipo estaria encarregado da supervisão técnica, mas simultaneamente atuava no mercado de transferências e ainda era uma ponte entre diretoria e plantel, administrando os relacionamentos e transcendendo a função que lhe fora designada.

O Milan conquistou mais um scudetto, agora em 1958-59. No momento seguinte à conquista, Viani passou a atuar “somente” como diretor técnico; Luigi Bonizzoni foi o substituto à beira do campo. Naquele momento, o nome de Gipo Viani era respeitado em todo o território nacional. Profundo conhecedor e extremamente atuante no mercado de transferências, sempre estava a par de todas as transações, fosse para abençoar alguma negociação ou para desaprovar alguma sondagem em um tom não muito afável.

Sua popularidade era tão grande que acabou recebendo um convite da Federação Italiana de Futebol para, inicialmente, integrar a comissão técnica da Squadra Azzurra ao lado de Vincenzo Biancone e Pino Mocchetti. A capacidade que Viani demonstrou ao lançar uma série de jovens atletas na Nazionale, como Giovanni Trapattoni, Ambrogio Pelagalli, Sandro Salvadore e Mario Trabbi, por exemplo, encantaram Rizzoli. Entretanto, depois de um ano, o técnico resolveu dedicar-se exclusivamente ao Milan.

Viani retornou a se dividir entre clube e seleção na primavera de 1960. Na Itália, tinha duas metas: classificar a seleção para a Copa do Mundo de 1962, no Chile, e formar um time jovem e qualificado para disputar os Jogos Olímpicos daquele ano, a serem realizadas em Roma. Resolveu, então, convidar Nereo Rocco, que vinha fazendo um trabalho espetacular à frente do Padova: juntos, os dois foram os comandantes da Itália naquela Olimpíada. O elenco contava com nomes como Gianni Rivera, Trapattoni, Giacomo Bulgarelli, Tarcisio Burgich, entre outros. Teve boa participação, classificando-se em primeiro em um grupo que tinha o Brasil, de Carlos Alberto Torres, Gérson, Didi e companhia (vitória por 3 a 1), Grã-Bretanha (empate em 2 a 2) e China (triunfo por 4 a 1).

Na semifinal, a Squadra Azzurra enfrentou a Iugoslávia, que havia se classificado na fase anterior através da sorte, em um cara ou coroa após o empate em 3 a 3 contra a Bulgária – as duas seleções terminaram com a mesma pontuação. O jogo ficou empatado em 1 a 1 e a Iugoslávia repetiu a dose: contou mais uma vez com o destino para vencer na moedinha e se garantir na decisão, na qual ficou com o outro após bater a Dinamarca por 3 a 1. A Itália disputou a partida que valia a medalha de bronze e acabou derrotada para a Hungria, pelo placar de 2 a 1.

No dia seguinte à disputa pelo terceiro lugar, Viani entregou o cargo na seleção e voltou para casa, o Milan. De olho na temporada 1960-61, chamou o leal amigo Rocco para comandar o rossonero. Um dos reforços do Diavolo foi Rivera, talento de 17 anos que vinha chamando a atenção pelo Alessandria e havia impressionado na expedição olímpica. Gianni representou uma das maiores vitórias de Viani no Milan: Rocco não parecia muito convencido de deixar aquele jovem franzino ir a campo, mas Gipo, com sua típica expressão firme, bancou a escalação. “Enquanto eu estiver no Milan, Rivera vai jogar aqui. Ele vai ser o novo Schiaffino”, garantiu.

Rocco acabou desenvolvendo uma relação especial com Rivera e armou uma sólida defesa para que ele, cada vez mais inserido entre os destaques do time, tivesse condições de ditar o ritmo das partidas. Dividindo o protagonismo com nomes como o ítalo-brasileiro José Altafini, Rivera não demorou para colher os frutos do trabalho feito por Gipo e Nereo. O Milan de Viani e Rocco venceu o scudetto de 1961-62 e a cobiçada Copa dos Campeões no ano seguinte, quando bateu o Benfica de virada por 2 a 1, em Wembley. Eusébio, lenda encarnada, abriu o placar e Altafini foi o autor dos dois gols que selaram a virada, tornando o Milan o primeiro clube italiano a erguer a cobiçada taça europeia.

Em nove anos, como treinador ou diretor técnico, Gipo ganhou quatro títulos pelo Milan (imago/Buzzi)

Após a conquista do mais prestigiado troféu europeu e o estrondoso sucesso, Rizzoli deixou a presidência após nove anos e Rocco, após alguns atritos com Viani, optou por trilhar mais uma vez seu próprio caminho: foi treinar o Torino. A magia daqueles gloriosos dias começava a desvanecer-se. Era o início da derrocada de Viani, cada vez mais solitário e melancólico. Ele, que havia sido vítima de um infarto no início de 1961, levou outro susto dois anos mais tarde. Louco por carros, sofreu um acidente enquanto dirigia perto de Milanello.

Ainda debilitado, efetivou o então assistente técnico Liedholm como treinador principal. O antecessor, Luis Carniglia, foi demitido após perder o Mundial Interclubes para o Santos de Pelé. Esta decisão, aliás, rendeu uma polêmica entre Viani e Altafini no terceiro e decisivo jogo da série contra o clube brasileiro – uma derrota por 1 a 0. Depois do apito final, Altafini reclamou muito com o árbitro argentino Juan Regis Brozzi, alegando ter sido caçado o tempo inteiro. Viani chamou seu comandado de “coniglio”: literalmente, a palavra significa “coelho”, mas serve para chamar alguém de covarde. Gipo, portanto, insinuava que o atacante estava fugindo do calor de uma decisão. Altafini acabou fora do elenco e se recusou a retornar à Itália por não conseguir chegar a um acordo sobre a renovação de seu contrato.

Mesmo com a ausência do ídolo (que retornou no meio da temporada, após muita insistência de Felice Riva, novo presidente rossonero), Gipo conseguiu montar um excepcional esquadrão com o agora treinador Liedholm, que estreou na função na temporada 1963-64. Em seus primeiros 20 jogos, liderou a Serie A com folga, com sete pontos a mais que a Inter.

Entretanto, o ambiente conturbado, especialmente por causa da polêmica entre Viani e Altafini, fez o clube perder um scudetto que já parecia garantido. O Milan terminou a Serie A no terceiro lugar, atrás da Inter e do campeão Bologna, do artilheiro dinamarquês Harald Nielsen. A curiosidade é que os primeiros colocados somaram os mesmos 54 pontos e, pela primeira e única vez na história da Serie A, dois clubes tiveram de disputar uma partida extra para desempatar. O Bologna venceu por 2 a 0.

Na temporada subsequente, os rossoneri tiveram um bom desempenho e brigaram pelo título, mas a Inter, comandada por Helenio Herrera, fez uma campanha histórica e não lhe deu chances. Os nerazzurri venceram o scudetto e a Copa dos Campeões, quando bateram o Benfica por 1 a 0, com gol de Jair da Costa, campeão da Copa do Mundo de 1962 pelo Brasil e reserva de Garrincha, craque da competição. A relação entre Viani e Felice Riva foi se desgastando até o diretor técnico optar por deixar Milão, em 1965.

Somando todos os cargos que ocupou, Viani fez quase 400 jogos pelo Milan em nove temporadas. Uma de suas mais memoráveis transações foi a ida do peruano Víctor Benítez para a Roma, em uma troca pelo alemão Karl-Heinz Schnellinger, um dos melhores laterais esquerdos do mundo, e de dois atacantes, o ítalo-brasileiro Angelo Sormani e o ítalo-argentino Antonio Angelillo.

Os últimos passos do ídolo

Os caminhos do futebol levaram Viani a disputar a Serie B pelo Genoa, onde se dividiu entre as funções de diretor técnico e também integrou a comissão de Luigi Bonizzoni. No dia 4 de abril de 1966, sofreu outro acidente, desta vez gravíssimo, enquanto dirigia na província de Pavia. Foi socorrido após cair de um despenhadeiro e ficou dois anos inativo enquanto se recuperava. As cicatrizes em seu corpo, bastante visíveis, indicavam a gravidade do episódio. Recuperado e liberado para voltar a trabalhar, regressou ao Bologna para comandar o time rossoblù no lugar de Carniglia, mas agora sem a energia de outrora.

Seu último trabalho foi na Udinese, como diretor técnico, em meados de 1968. Certo dia, estava a caminho de Bolonha e resolveu fazer uma parada e passar a noite em Ferrara. O dia amanheceu e ele não despertou. Quando estranharam e foram acordá-lo, viram que já estava sem vida. Gipo foi vítima de uma parada cardíaca enquanto dormia e faleceu no dia 6 de janeiro de 1969. Depois de uma vida tão atribulada, o xerife foi repousar.

Giuseppe Ferruccio “Gipo” Viani
Nascimento: 13 de setembro de 1909, em Treviso, Itália
Morte: 6 de janeiro de 1969, em Ferrara, Itália
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Treviso (1926-28), Inter (1928-34), Lazio (1934-38), Livorno (1938-39), Juventus (1939-40), Siracusa (1940-41) e Salernitana (1941-43)
Títulos como jogador: Serie A (1930)
Carreira como técnico: Siracusa (1940-41), Salernitana (1941-43 e 1946-48), Benevento (1945), Colleferro (1945-46), Lucchese (1948-49), Palermo (1949-51), Roma (1951-52), Bologna (1952-56 e 1968), Milan (1956-65), Itália (1958 e 1960), Itália (olímpica; 1960), Genoa (1965-66) e Udinese (1968-69)
Títulos como técnico: Serie C (1943), Serie B (1947 e 1952), Serie A (1957, 1959 e 1962) e Copa dos Campeões (1963)

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