A emoção das últimas rodadas da Serie A parece estar bem desenhada. A luta por vagas em competições europeias deve ser decidida apenas no último suspiro do campeonato. Afinal, o Milan, que era um dos times mais próximos de assegurar espaço no G4 – e, consequentemente, na Liga dos Campeões – depois da Inter, despencou. Além do já costumeiro descontentamento da torcida rossonera com a atual gestão, a sequência de resultados negativos, especialmente a pesada derrota em casa para a Atalanta, colocou os homens de Massimiliano Allegri à beira do precipício. O Diavolo ficou na quarta posição apenas devido a critérios de desempate.
É o confronto direto desfavorável que deixa a Roma na quinta posição, apesar de a equipe capitolina viver atmosfera completamente distinta. No domingo, a Loba protagonizou um dos jogos mais incríveis da temporada contra o Parma. Ao virar nos acréscimos, contando com recordes quebrados pelo fenômeno Malen, os giallorossi igualaram a pontuação do Milan às vésperas do dérbi com a Lazio.
E se há alguns meses parecia improvável uma Juventus entrando nas quatro primeiras posições, imagine então um terceiro lugar? Com mais uma vitória e uma longa sequência de invencibilidade, a Velha Senhora segue escalando a tabela e encaminha um fim de temporada muito mais feliz do que o previsto após os primeiros capítulos com Igor Tudor. À sua frente agora, apenas a campeã Inter, que passeou contra a Lazio na prévia da final da Coppa Italia, e o Napoli, que tropeçou diante do Bologna e ainda não carimbou presença na próxima Champions League – até o vice-campeonato é possibilidade concreta para a Velha Senhora.
Na luta contra o rebaixamento, brilhou a estrela de Vardy diante do Pisa e a Cremonese encostou no Lecce, ficando a apenas um ponto dos salentinos. A Fiorentina assegurou sua permanência com um empate monótono frente ao Genoa, mas o Cagliari, derrotado pela Udinese, ainda pode entrar nesse bolo e até, se bobear, acabar em um improvável spareggio com o time de Cremona. Confira essa e outras histórias no resumo da jornada!
>>> Classificação e artilharia da Serie A
Milan 2-3 Atalanta
Gols e assistências: Pavlovic (Ricci) e Nkunku (pênalti); Éderson, Zappacosta (Krstovic) e Raspadori (Éderson)
Tops: Éderson e Zappacosta (Atalanta)
Flops: De Winter e Rafael Leão (Milan)
O extracampo roubou a cena em um dos jogos mais importantes do Milan nesta reta final de Serie A. Como de costume, houve enorme descontentamento com a gestão de Gerry Cardinale entre os ultras e, desta vez, até mosaico personalizado direcionado ao diretor Giorgio Furlani – que riu ironicamente da manifestação juntamente com o presidente Paolo Scaroni. E, depois que a partida já havia ido para o escambau, um torcedor apareceu com a camisa de Paolo Maldini como provocação à atual diretoria, responsável pela demissão da lenda enquanto dirigente.
Sem se envolver em nada disso, a Atalanta fez um excelente primeiro tempo. Atuando com um ataque mais leve, utilizando uma dupla de meias-atacantes atrás de Krstovic, a Dea viu Éderson abrir o placar infiltrando na área. Zappacosta ampliou e, já na etapa complementar, Raspadori marcou o terceiro após receber do brasileiro. E olha que a equipe visitante nem precisou fazer tanta força para construir uma vantagem enorme – parecia fácil atravessar a defesa rossonera, que já foi quase intransponível em determinados momentos na temporada.
Precisando mudar rapidamente o cenário, Massimiliano Allegri sacou o displicente Rafael Leão, que perdeu a bola no terceiro gol nerazzurro e só ficou olhando, além de Giménez e De Winter. O técnico apostou em Fullkrug e Nkunku formando a dupla ofensiva. Carnesecchi foi exigido e parou o atacante francês em duas grandes oportunidades. Na bola parada, Pavlovic descontou para os mandantes no finalzinho. Nos acréscimos, Nkunku soltou o pé para converter um pênalti sofrido por ele mesmo. E, na última bola da partida, Gabbia e Fullkrug se atrapalharam e desperdiçaram uma oportunidade de ouro para empatar, o que seria absurdo, dado o andamento da partida. Foi mais relaxamento da equipe de Raffaele Palladino do que propriamente uma reação consistente dos rossoneri. Clima pesadíssimo para os compromissos finais dos milanistas.
Parma 2-3 Roma
Gols e assistências: Gabriel Strefezza (Nicolussi Caviglia) e Keita (Estévez); Malen (Dybala), Rensch e Malen (pênalti)
Tops: Malen e Rensch (Roma)
Flops: Britschgi e Elphege (Parma)
A vitória da Roma sobre o Parma entrou para a lista dos jogos mais dramáticos da temporada. A equipe comandada por Gian Piero Gasperini alcançou o terceiro triunfo consecutivo após uma partida marcada por mudanças constantes de cenário no Ennio Tardini. Mais uma vez, Malen foi o principal protagonista: além da doppietta, o holandês estabeleceu novo recorde individual na competição.
Titular pela primeira vez desde janeiro, Dybala – que declarou não ter sido contactado pela diretoria giallorossa para renovar o seu contrato, que se encerra em junho – foi determinante na etapa inicial, amplamente controlada pelos visitantes. Coube ao argentino fornecer a assistência para o primeiro gol de Malen, que dominou com categoria antes de finalizar diante de Suzuki.
O Parma cresceu após o intervalo, sobretudo diante da queda de intensidade da Roma. O empate surgiu em bela conclusão do brasileiro Gabriel Strefezza, e a entrada de Pellegrino aumentou significativamente o poder físico do ataque crociato. Demorou poucos minutos para o argentino colocar a bola na rede, mas o gol foi anulado por impedimento do compatriota Troilo. A virada começou a amadurecer rapidamente, mas só foi concretizada aos 87, quando Keita marcou pela primeira vez no futebol italiano e dedicou o gol à mãe, presente no estádio.
Nos acréscimos, porém, a Roma encontrou forças para reagir. Rensch empatou em chute desviado, atravessando uma área congestionada, e posteriormente sofreu o pênalti cometido por Britschgi – que recebeu dois cartões amarelos em menos de 20 minutos em campo e foi expulso. Sob enorme pressão, Malen converteu a cobrança com firmeza e alcançou 13 gols, superando Balotelli como jogador com mais bolas nas redes na Serie A após chegar durante a janela de inverno. De cabeça quente, o técnico Carlos Cuesta reclamou demais da arbitragem, mas Daniele Chiffi acertou nas decisões. Seu único erro (inicialmente deu falta de ataque no lance da penalidade) foi corrigido pelo VAR.
Lecce 0-1 Juventus
Gol e assistência: Vlahovic (Cambiaso)
Tops: Vlahovic e Bremer (Juventus)
Flops: Tiago Gabriel e Ramadani (Lecce)
Na última derrota da Juventus, para o Como, na 26ª rodada, os bianconeri ocupavam apenas a sexta posição e conviviam com dúvidas significativas em relação ao restante da temporada. Dez jornadas de invencibilidade depois, a equipe comandada por Luciano Spalletti não apenas ingressou no G4 como alcançou a terceira colocação, ultrapassando o Milan e encostando no Napoli – em uma recuperação difícil de imaginar meses atrás. O cenário evidencia a consistência do trabalho desenvolvido no Piemonte.
Diante de um dos poucos times ainda ameaçados pelo rebaixamento, a Velha Senhora produziu um primeiro tempo dominante. O gol surgiu logo na primeira investida: aos 13 segundos, Vlahovic marcou pela segunda rodada consecutiva e registrou o tento mais rápido da história da Juventus no campeonato. Apesar da superioridade, a equipe desperdiçou oportunidades para construir uma vantagem mais confortável diante de Falcone e teve dois tentos anulados por impedimento – ambos do sérvio. De qualquer forma, o triunfo foi tranquilo e Di Gregorio mal sujou o uniforme.
Napoli 2-3 Bologna
Gols e assistências: Di Lorenzo e Alisson Santos (Højlund); Bernardeschi (Miranda), Orsolini (pênalti) e Rowe
Tops: Miranda e Bernardeschi (Bologna)
Flops: Spinazzola e Rrahmani (Napoli)
A escalação escolhida por Vincenzo Italiano deu resultado imediato. Com Orsolini e Bernardeschi desde o início, o Bologna foi superior ao Napoli e venceu no Diego Armando Maradona pela segunda vez em três temporadas – os rossoblù também ganharam em turno e returno, o que não ocorria desde 2002. Depois de passar três rodadas consecutivas sem marcar, a equipe voltou a demonstrar eficiência ofensiva justamente diante do conjunto de Antonio Conte.
Bernardeschi abriu o placar em chute cruzado de grande qualidade. Pouco depois, Orsolini ampliou em cobrança de pênalti firme no canto, marcando o seu primeiro contra os azzurri na Serie A após 14 aparições. O Napoli reagiu antes do intervalo: Di Lorenzo, responsável pela infração que originou a penalidade, compensou o erro ao diminuir a vantagem. Já no segundo tempo, Alisson Santos marcou seu quarto gol neste campeonato após parede de Højlund.
O brasileiro representa uma das principais notícias positivas para os partenopei nesta reta final da temporada. Titular pela sétima vez desde janeiro, tornou-se alternativa criativa em um elenco profundamente afetado por desfalques e limitações ofensivas. Ainda assim, o Napoli não conseguiu sustentar a reação e passou mais a se defender do que a pressionar pela virada. O Bologna retomou o controle da partida e definiu a vitória em bela jogada de Rowe, que aproveitou rebote após finalização de Miranda – que participou dos três gols – para marcar em voleio preciso. Com a derrota, os azzurri terão que vencer uma vez nas próximas duas rodadas para assegurarem vaga na Champions League.
Verona 0-1 Como
Gol e assistência: Douvikas (Kempf)
Tops: Douvikas e Rodríguez (Como)
Flops: Edmundsson e Akpa Akpro (Verona)
Conhecido pelo futebol ofensivo e envolvente, o Como construiu sua vitória a partir da solidez defensiva desta vez. O triunfo sobre o rebaixado Verona assegurou ao clube ao menos uma vaga em competições europeias na próxima temporada – feito inédito em sua história. Já são três rodadas consecutivas sem sofrer gols para os lariani, que ocupam a sexta posição.
Embora tenha controlado a partida, o conjunto dirigido por Cesc Fàbregas encontrou dificuldades para transformar a superioridade em um placar mais amplo. O único gol surgiu em disputa física entre Douvikas e Edmundsson, vencida pelo atacante antes da finalização precisa. Artilheiro da equipe, o grego também havia sido decisivo na rodada anterior, diante do Genoa, assumindo protagonismo que Morata não conseguiu exercer ao longo da temporada. E olha que o camisa 11 só anotou dois de seus 13 tentos contra times que estão na parte superior da tabela atualmente – o fez ante Lazio e Roma.
Lazio 0-3 Inter
Gols e assistências: Lautaro (Thuram), Sucic (Lautaro) e Mkhitaryan (Bonny)
Tops: Lautaro e Diouf (Inter)
Flops: Romagnoli e Dele-Bashiru (Lazio)
A expectativa de uma prévia equilibrada da final da Coppa Iaália não se confirmou. Mesmo com alterações em ambos os lados, a Inter demonstrou a profundidade de seu elenco e dominou completamente o confronto no Olímpico. Com exceção da decisão nacional marcada para o meio de semana, a temporada da Lazio permanece decepcionante, marcada tanto pelos problemas extracampo quanto pela limitação técnica do elenco e pelos resultados insuficientes, que mantêm os aquilotti afastados da disputa por vagas continentais.
A Inter aproveitou o cenário sem maiores dificuldades. Lautaro, em busca de mais uma artilharia da Serie A, teve atuação decisiva. Bem cedo, abriu o placar com um belo voleio, chegando aos 17 tentos no campeonato, e, posteriormente, participou da construção da jogada que terminou no gol de Sucic. O domínio da Beneamata foi ainda mais amplo do que sugere o resultado, ampliado apenas na reta final, quando Mkhitaryan aproveitou a superioridade numérica após a expulsão de Romagnoli. Ainda assim, é improvável imaginar um panorama semelhante na decisão da Coppa Italia.

Com tropeço caseiro no Bologna, o Napoli adiou confirmação de vaga na Champions League da próxima temporada (Getty)
Fiorentina 0-0 Genoa
Tops: De Gea (Fiorentina) e Østigard (Genoa)
Flops: Fagioli (Fiorentina) e Colombo (Genoa)
Sob protestos da torcida, a Fiorentina confirmou o ponto necessário para assegurar a permanência na elite. A partida, tecnicamente pobre, simbolizou o encerramento de uma temporada decepcionante para a Viola, que chegou ao terceiro jogo consecutivo sem balançar as redes. Depois de salvar a equipe, o técnico Paolo Vanoli dedicou o feito ao ex-presidente Rocco Commisso, falecido meses atrás.
Sem Kean e ainda sem respostas ofensivas consistentes de Piccoli, o treinador optou por dar oportunidade ao jovem Braschi. Um dos principais jogadores da Primavera em participações em gols, o atacante teve atuação discreta, mas acumulou seus primeiros minutos como titular na Serie A. Em um contexto no qual atletas com 19 anos ou menos raramente recebem espaço imediato na primeira divisão italiana, a escolha merece registro. E, num jogo bastante fechado, no qual as defesas se sobressaíram, talvez tenha sido o único fato digno de nota.
Torino 2-1 Sassuolo
Gols e assistências: Simeone (Ebosse) e Pedersen (Zapata); Thorstvedt (Lipani)
Tops: Pedersen e Simeone (Torino)
Flops: Muharemovic e Doig (Sassuolo)
No confronto entre times de meio de tabela que abriu a rodada, o Torino ampliou sua sequência invicta em casa ao vencer o Sassuolo de virada. O destaque voltou a ser Cholito Simeone, autor de gols nas últimas cinco partidas disputadas no Olímpico e atual artilheiro granata na Serie A, com 11 tentos em 30 jogos – a maioria deles marcada na segunda metade do campeonato.
Thorstvedt colocou os neroverdi em vantagem, mas a reação piemontesa ocorreu rapidamente. Em um intervalo de quatro minutos, Simeone empatou de cabeça e Pedersen completou a virada após grande jogada de Zapata, acionado no decorrer da partida – desde 2023 na Itália, o lateral norueguês ainda não havia anotado no campeonato, mas acionou a lei do ex contra o Sassuolo. Superior durante boa parte do duelo, o time de Roberto D’Aversa ainda acertou o travessão em duas oportunidades e fez por merecer os três pontos.
Cagliari 0-2 Udinese
Gols e assistências: Buksa (Kamara) e Gueye (Davis)
Tops: Buksa e Karlström (Udinese)
Flops: Mendy e Rodríguez (Cagliari)
Ssustentando uma campanha consistente como visitante, a Udinese alcançou o quinto compromisso consecutivo sem derrotas fora de casa. A equipe conquistou sua segunda vitória seguida por 2 a 0 e contou com atuação sólida do sistema defensivo para neutralizar as investidas do Cagliari. Karlström e Mlacic, por exemplo, evitaram gols praticamente sobre a linha.
Apesar dos tentos anotados por Buksa e Gueye, já no segundo tempo, o episódio mais relevante da partida ocorreu fora do aspecto técnico. Mais uma vez, a Serie A foi marcada por uma denúncia de injúria racial. “Esse racista covarde me chamou de macaco durante a partida de hoje. Espero que a liga faça algo a respeito”, afirmou Davis, responsável pela assistência do gol da vitória, ao acusar o zagueiro Dossena. O defensor rossoblù nega as acusações, e o caso segue sob investigação.
Cremonese 3-0 Pisa
Gols e assistências: Vardy, Bonazzoli (Vandeputte) e Okereke (Zerbin)
Tops: Vardy e Barbieri (Cremonese)
Flops: Bozhinov e Loyola (Pisa)
A fragilidade do Pisa voltou a ficar evidente. Embora a Cremonese mereça reconhecimento pela atuação consistente, o adversário ofereceu pouca resistência e foi amplamente dominado pelos mandantes, que realizaram uma de suas melhores apresentações no campeonato. Restando apenas duas rodadas, a disputa contra o Lecce promete permanecer equilibrada até o fim, com possibilidade concreta de jogo extra para a definição do último rebaixado.
Aos 24 minutos, a precoce expulsão de Bozhinov, após receber dois cartões amarelos em um espaço de apenas oito, facilitou ainda mais o cenário para os grigiorossi. Vardy, novamente titular, abriu o placar e deu tranquilidade à equipe. Na etapa complementar, Bonazzoli ampliou após rápido contra-ataque conduzido pelo inglês e chegou ao nono tento na competição. Pouco depois, Loyola também recebeu cartão vermelho, deixando o Pisa com nove jogadores. Já na reta final da peleja, a terceira bola na rede saiu de uma finalização sem ângulo de Okereke, aceita por Semper.
Seleção da rodada
Carnesecchi (Atalanta); Rensch (Roma), Kempf (Como), Bremer (Juventus), Miranda (Bologna); Diouf (Inter), Éderson (Atalanta), Mkhitaryan (Inter), Zappacosta (Atalanta); Lautaro (Inter), Malen (Roma). Técnico: Raffaele Palladino (Atalanta).



