Mais do que interromper trajetórias, algumas tragédias reorganizam estruturas inteiras. O Desastre de Superga, em 1949, pertence a esta categoria. Não se limitou à perda do Grande Torino, um dos times mais dominantes da história do futebol italiano, mas atingiu diretamente o curso de uma seleção que vinha de dois títulos mundiais consecutivos e se preparava para disputar uma nova Copa do Mundo, no Brasil, em posição de força. Não fosse o acidente, o Maracanazo, com sotaque espanhol, poderia muito bem ter sido um Maracanaccio.
Naquele momento, a Itália ainda carregava o peso – e o prestígio – das conquistas de 1934 e 1938, sob o comando de Vittorio Pozzo, nascido na mesma Turim que se coloriu de grená na década seguinte. Depois dela, apenas o Brasil conseguiria repetir o feito do bicampeonato mundial, em 1958 e 1962. Nenhuma seleção, até hoje, venceu três Copas do Mundo consecutivas. E a equipe que poderia desafiar esse limite histórico era construída, em grande parte, sobre a base do Grande Torino.
O time de Valentino Mazzola – e de Valerio Bacigalupo, Aldo Ballarin, Mario Rigamonti, Virgilio Maroso, Giuseppe Grezar, Ezio Loik, Franco Ossola, Romeo Menti, Guglielmo Gabetto e outros – não era apenas dominante em âmbito doméstico. Era a espinha dorsal da seleção nacional. Sua estrutura coletiva, seu entrosamento e sua superioridade técnica faziam dele algo próximo a uma seleção dentro do próprio Campeonato Italiano. Mesmo mudando de técnico frequentemente, foi pentacampeão consecutivo, sendo a última delas com a dobradinha formada pelo inglês Leslie Lievesley e pelo húngaro Ernő Egri Erbstein. A perda simultânea desse núcleo, às vésperas do Mundial de 1950, não deixou espaço para reposição gradual ou adaptação. Foi uma ruptura imediata.
A participação italiana na Copa do Mundo realizada no Brasil refletiu esse impacto de forma direta. Sob o trauma do acidente que dizimou o Grande Torino, a delegação optou por atravessar o Oceano Atlântico de navio, evitando deslocamentos aéreos. A equipe comandada por Ferruccio Novo – presidente do clube piemontês desde 1939 e à frente também da seleção desde fevereiro de 1949 – já não tinha no elenco a base grená que a sustentara nos anos anteriores.
O antigo vínculo entre Torino e Nazionale foi reduzido a apenas dois convocados: o goleiro Giuseppe Moro e o atacante Riccardo Carappellese, capitão tanto no clube quanto na seleção. Ambos chegaram após a tragédia e se somaram aos quatro remanescentes do elenco que escaparam do acidente por não terem viajado a Lisboa para o amistoso com o Benfica – Renato Gandolfi, Sauro Tomà, Luigi Giuliano e Alfio Balbiano.
Os azzurri foram sorteados no Grupo 3, ao lado de Suécia e Paraguai. Dentro de campo, derrota para os suecos e vitória sobre os paraguaios, resultando na eliminação ainda na primeira fase – um desfecho incompatível com o status que a seleção havia construído na década de 1930. A Itália chegava ao torneio como bicampeã mundial, mas já não era, na prática, uma equipe com o mesmo talento e, sobretudo, com tanto entrosamento.
Nos anos seguintes, a seleção buscou reconstruir sua competitividade recorrendo com maior intensidade aos oriundi – jogadores de ascendência italiana formados no exterior. A prática não era nova: já havia sido utilizada nas conquistas de 1934 e 1938. O que mudou no pós-Superga foi o contexto. Antes, a incorporação doesses atletas era tratada principalmente como um complemento às equipes; depois, passou a ser encarada mais fortemente como tentativa de reconstrução a partir da injeção de talento adicional.
Entre esses nomes estavam Juan Alberto Schiaffino e Alcides Ghiggia, protagonistas da conquista uruguaia em 1950. Ambos se transferiram para o futebol italiano e, posteriormente, passaram a defender a seleção – em tempos em que a Fifa permitia tal prática. A presença de jogadores desse nível, que se juntavam a um grupo liderado por peças como Giampiero Boniperti e Cesare Maldini, poderia sugerir uma retomada competitiva. Na prática, não foi o que ocorreu.
O fato mais emblemático dessa fase ocorreu nas eliminatórias para a Copa de 1958. Na derrota para a Irlanda do Norte, que selou a eliminação italiana, Schiaffino e Ghiggia estavam em campo e o segundo deles, que foi o carrasco brasileiro no Maracanazo, acabou expulso. Era a primeira vez que a Itália ficava fora de um Mundial por critérios esportivos – não participara da edição de 1930 porque declinou o convite. A tentativa de reconstrução não apenas falhava em restabelecer o nível anterior, como evidenciava a ausência de uma base sólida de trabalho, apesar dos vários jogadores talentosos na equipe e nas gerações posteriores.
O recorte mais amplo reforçaria essa leitura. Entre 1950 e 1966, a Itália não passou da primeira fase em Copas do Mundo. Foram seis edições consecutivas sem protagonismo: eliminações precoces em 1950, 1954, 1962 e 1966, além da ausência em 1958. Para uma seleção que havia sido bicampeã mundial, tratava-se de uma queda abrupta e prolongada. Lembra o cenário pós-conquista de 2006, com quedas nas fases de grupos de 2010 e 2014 e três refugadas nas eliminatórias seguintes.

Carrasco do Brasil em 1950, o uruguaio Ghiggia passou a defender a Itália e foi expulso em jogo decisivo com a Irlanda do Norte (PA Images)
O impacto de Superga na Serie A
O impacto da tragédia grená não se restringiu à seleção. No âmbito doméstico, o desaparecimento do Grande Torino alterou a correlação de forças do futebol italiano.
Até 1949, o clube era um dos mais vitoriosos do país e, antes do Desastre de Superga, caminhava para o pentacampeonato consecutivo da Serie A – que foi conquistado após o acidente, com os juvenis em campo, e levou o Torino aos mesmos seis títulos nacionais de Bologna e Pro Vercelli. O Toro superava tanto Inter (cinco) quanto Milan (três) e ficava atrás apenas de Genoa (nove) e Juventus (sete). O time piemontês dividia o protagonismo com essas equipes tradicionais, com a exceção da Pro Vercelli, já relegada a segundo plano, e estava mais do que consolidado como uma potência.
O Grande Torino não deixou um sucessor específico. O vácuo deixado pelo timaço grená, dominante na época, não foi ocupado por um novo dominador único, mas redistribuído entre os principais clubes do norte, seguindo no eixo Milão-Turim – sem os grenás, que não voltariam a ocupar um espaço congruente com a grandeza que construíram.
A Inter conquistou títulos sob o comando de Alfredo Foni, liderada em campo por nomes como Benito Lorenzi, Lennart Skoglund e István Nyers. Foram dois scudetti no início da década de 1950, encerrando um jejum de quase 15 anos sem títulos da Serie A. Assim, os nerazzurri voltavam ao centro da disputa nacional.
A Juventus se reorganizou e venceu a Serie A seguinte ao Desastre de Superga, encerrando um jejum de 15 anos sem títulos da competição. A equipe bianconera também formaria um de seus ataques mais emblemáticos, com Boniperti, John Charles e Omar Sívori – o Trio Mágico. Entre 1950 e 1960, a Velha Senhora conquistou quatro títulos italianos e, em 1958, colocou a primeira estrela em sua camisa.

Schiaffino não emplacou na seleção italiana, mas foi um dos nomes da ascensão do Milan após o fim do Grande Torino (Guerin Sportivo)
O Milan, por fim, deu um salto. Em suma, iniciou seu ciclo de crescimento nos anos 1950: o clube, que somava três títulos até 1949, conquistou quatro na década seguinte e iniciou o processo que o transformaria em uma potência do futebol europeu. O ciclo começou com o trio Gre-No-Li, formado pelos suecos Gunnar Gren, Gunnar Nordahl e Nils Liedholm, e se prolongou com uma nova base liderada pelo próprio Liedholm, único remanescente do trio após 1956, e também pelos já citados Schiaffino e Maldini.
O próprio Torino, por sua vez, perdeu competitividade rapidamente. Já no início da década de 1950 passou a frequentar a parte inferior da tabela e, em 1959, sofreu o primeiro rebaixamento à Serie B de sua história, em meio a dificuldades financeiras. Em poucos anos, o clube que havia sido referência técnica e simbólica do futebol italiano deixou de integrar o grupo de elite que passou a definir o campeonato.
O que se configurou, portanto, não foi a simples substituição de um protagonista por outro, mas a eliminação de um polo. O futebol italiano seguiu forte, reorganizou suas forças e construiu novos ciclos vitoriosos. Mas o espaço que o Grande Torino ocupava – simultaneamente esportivo, estrutural e simbólico – não foi preenchido por uma nova geração grená.
Houve momentos em que se imaginou uma recuperação, como na campanha do scudetto de 1976. O Toro foi um time que brigou na metade superior da tabela da Serie A e disputou títulos até os anos 1990, mas nada que se comparasse ao que havia representado na década de 1940. Depois, sucessivas crises financeiras de grandes proporções o levaram à falência e o redimensionaram como uma equipe sem ambições.
O Desastre de Superga, no fim das contas, não apenas ceifou uma equipe. Interrompeu diversas linhas históricas possíveis. A Itália que poderia ter disputado o terceiro título mundial consecutivo nunca entrou em campo. O sistema que orbitava ao redor daquele time foi reconstruído a partir de uma ausência que se prolongou por anos. E o Torino jamais se reabraçou com a sua grandeza.

