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Histórico capitão da Inter, Graziano Bini é lembrado por gols importantes pelo clube

Em sua história, a Inter se notabiliza por ter fincado raízes em estilos de futebol de proposta mais cautelosa. Nesse contexto, revelou grandes defensores e volantes, mas nem todos tiveram o mesmo reconhecimento ao qual foram submetidos Giacinto Facchetti, Giuseppe Bergomi ou Gabriele Oriali. Um desses jogadores menos badalados da história nerazzurra foi o líbero Graziano Bini, capitão durante os anos 1970 e 1980.

Como todo garoto da Lombardia que amava futebol nas décadas de 1950 e 1960, o pequeno Graziano sonhava vestir a camisa de um dos grandes clubes da região. Em 1966, aos 11 anos, teve uma passagem pelas categorias de base da modesta Cremonese, então na Serie C, e, um pouco mais tarde – em 1968 – começou a ver o seu desejo ficar mais próximo de se tornar realidade. A Inter realizou uma peneira com adolescentes em Appiano Gentile e Bini foi um dos escolhidos. Os testes eram coordenados pelo “mago” Helenio Herrera, técnico que liderou a fantástica equipe da Beneamata que fora bicampeã europeia e mundial pouco antes.

Na base interista, o jogador ganhou o apelido de Bino e aprendeu bastante com o treinador Giovanni Invernizzi, bandeira do time nerazzurro e seu capitão por uma temporada. Foi justamente o ex-meia que deu a Graziano o privilégio de estrear pela Inter antes mesmo de completar 18 anos. Quatro meses após comemorar 17 primaveras, em maio de 1972, Bini substituiu Mario Giubertoni contra a Sampdoria, em jogo válido pela antepenúltima rodada da Serie A. Naquela temporada, o zagueiro ainda entrou em campo como titular em duas partidas da Coppa Italia. Uma delas era o Derby della Madonnina, contra o Milan.

Com o passar das temporadas, Bini foi ganhando mais espaço: fez nove jogos em 1972-73 e 11 em 1973-74, escalado por Invernizzi, Herrera e Enea Masiero. Em 1974-75, Luis Suárez iniciaria o seu primeiro trabalho como técnico de um clube profissional na Inter, onde brilhara como jogador. Curiosamente, o ex-meia nerazzurro defendia a Sampdoria no dia em que Graziano fez o seu debute e, naquela ocasião – de acordo com Bino – lhe proferiu palavras de incentivo, apesar de ser um adversário. No posto de comandante, o espanhol faria ainda mais ao lançá-lo como titular, com apenas 19 anos.

O jovem zagueiro nerazzurro encarou o Milan logo em suas primeiras partidas como profissional (Arquivo/Inter)

O jovem de 1,87m atuaria como zagueiro ao lado do experiente Facchetti. Giacinto vinha sendo utilizado como líbero e, até aquele momento, Bini era seu reserva. Graziano era tido como seu herdeiro, por compartilharem algumas características. Entre elas, o bom trabalho com os dois pés, a eficiência no início da construção de jogadas e o porte físico – o veterano era apenas um centímetro mais alto.

Suárez, porém, entendia que o jovem tinha um futuro brilhante pela frente e que não podia ter o espaço limitado por questões táticas. A experiência proposta pelo espanhol na defesa funcionou, mas a Inter não teve bom rendimento no geral. A equipe foi precocemente eliminada nas copas e acabou sendo apenas nona colocada na Serie A, o que levou à troca no comando para 1975-76. Sob as ordens de Giuseppe Chiappella, Bino voltou para a reserva.

A saída do time titular não contribuiu muito para a ambientação do tímido e sério Graziano ao grupo interista. O rapaz era tão acanhado e respeitoso que tratava os jogadores mais velhos do elenco (como Facchetti, Sandro Mazzola e Roberto Boninsegna) de maneira polida. O grandalhão preferia não usar o pronome coloquial de tratamento italiano “tu” (equivalente a “você”, em português) e conversava com os colegas utilizando o formal “lei”, correspondente a “o senhor”.

O líbero Bini ganhou a faixa de capitão da Inter em 1978 e a utilizou por sete anos (imago)

Durante o biênio em que Chiappella dirigiu a Inter, Bino foi um reserva utilizado com alguma frequência e fez 42 jogos. O zagueiro também teve o prazer de marcar o seu primeiro gol pelo clube em 1976, numa vitória sobre o Varese, pela Coppa Italia. Foi apenas depois da chegada do “sargento de ferro” Eugenio Bersellini, em 1977-78, que o defensor se tornou titular e teve mais chances de colocar seu físico, sua liderança e seu apurado senso de posicionamento a serviço da Beneamata.

Sob o comando de Bersellini, Graziano se tornou vice-capitão da Inter e começou a utilizar a faixa quando Facchetti não jogava. Confiante, o líbero teve uma temporada fantástica, na qual também marcou gols em jogos de prestígio. Primeiro, anotou um lindo tento numa jogada individual num clássico contra a Juventus, terminado em 2 a 2; depois, no último compromisso da campanha, aos 87 minutos, decretou a vitória da Beneamata sobre o Napoli, na final da Coppa Italia. Naquele dia, Bini era o capitão e levantou sua primeira taça como líder nerazzurro.

Naqueles anos, a Inter mesclava duas gerações oriundas das categorias de base a alguns reforços pescados no mercado italiano. Bini, Oriali, Ivano Bordon, Giuseppe Baresi, Nazzareno Canuti e Carlo Muraro eram os atletas formados em Appiano Gentile do elenco nerazzurro e foram valorizados no esquema defensivo de Bersellini. Para que o meia-atacante Evaristo Beccalossi e o centroavante Alessandro Altobelli tivessem liberdade na frente, o sargento de ferro montou uma barricada no meio-campo com Gianpiero Marini, Domenico Caso e Giancarlo Pasinato. Isso, por outro lado, também permitia que Bino, com sua elegância, participasse da construção de jogadas.

Bini comemora com a torcida interista o seu gol mais famoso, contra o Real Madrid (Getty)

No centro do projeto interista, o líbero comandou a Inter na campanha do seu 12º scudetto, em 1979-80. Bini ficou em campo durante os 90 minutos das partidas em 28 das 30 rodadas do campeonato e marcou um gol na vitória contra o Bologna. Apesar da regularidade, quis o destino que uma leve lesão o obrigasse a ficar de fora justamente no jogo em que a Beneamata garantiu o título, ao empatar em 2 a 2 contra a Roma.

Bino voltou ao centro das atenções na trajetória nerazzurra na Copa dos Campeões de 1980-81. A Inter eliminou Universitatea Craiova, Nantes e Estrela Vermelha, até chegar às semifinais contra o Real Madrid de Vujadin Boskov. Na ida, derrota por 2 a 0 na Espanha. Na busca pela revanche, em Milão, Herbert Prohaska chegou a acertar a trave no primeiro tempo, mas foi Graziano que abriu o marcador com um golaço. Aos 11 da etapa final, o camisa 6 arrancou do meio-campo, tabelou com Beccalossi e Muraro, recebeu dois passes de calcanhar e fuzilou de canhota. Apesar de ter anotado o seu gol mais famoso, Bini não pode celebrar a passagem à decisão, já que o placar permaneceu em 1 a 0 e os merengues se classificaram no placar agregado.

Apesar de confessar não ter o hábito de remoer o passado, o defensor afirmou numa entrevista ao site oficial da Inter que, na sua opinião, a ausência de Oriali na partida de ida foi um fator determinante para a eliminação ante o Real Madrid. “Oriali fez falta porque era ele quem deveria ter marcado Uli Stielike. Estou convencido de que, com Lele em campo, teríamos avançado e vencido a final com o Liverpool”. Na decisão, os Reds de Bob Paisley, Graeme Souness e Kenny Dalglish superaram os espanhóis e ficaram com o título.

Apesar da ótima e duradoura fase em Milão, Bino nunca vestiu a camisa da Nazionale italiana (Arquivo/Inter)

Em 1981-82, Bini teve sua última temporada em altíssimo nível e, no mesmo ano em que Bersellini se despediu da Inter, conquistou mais uma Coppa Italia. Aquele seria o terceiro e último título do zagueiro pelo clube – todos eles vencidos como capitão. Em sua carreira, Graziano acabou levantando canecas numa proporções inversa a seu profissionalismo e sua qualidade, mas a verdade é que o futebol italiano era muito disputado naquela época e havia grande rodízio de campeões nos torneios nacionais. Entre 1972 e 1987, período em que Bino atuou como profissional, Serie A e copa foram palco para o sucesso de 11 diferentes clubes.

Na Inter, o defensor ainda atuou nas três temporadas seguintes ao título da Coppa Italia. O número de jogos foi caindo na medida em que as lesões lhe acometiam e a ascensão dos jovens Giuseppe Bergomi e Riccardo Ferri se confirmava: foram 29 aparições em 1982-83, 24 em 1983-84 e 16 em 1984-85. Na última campanha pela Beneamata, Bino precisou fazer uma cirurgia reparatória na veia de um dos pés, que foi comprometida pela entrada de um adversário.

Longe da melhor forma, Graziano deixou a Inter no verão de 1985, após 345 partidas e 13 gols pelo clube, além de sete campanhas como capitão. Apenas Leopoldo Conti, Giuseppe Meazza e Javier Zanetti utilizaram a braçadeira nerazzurra em mais temporadas: nove, no caso dos dois primeiros, e 13, no do argentino. Em seu último biênio como profissional, o lombardo fez apenas 32 jogos com a camisa do Genoa, que militava na Serie B. Em 1987, após os grifoni perderem a chance do retorno à elite por apenas dois pontos, Bino decidiu se aposentar. Tinha apenas 32 anos.

Já na fase final da carreira, Bini fornecia experiência à Inter nas competições europeias (imago/Kicker/Liedel)

Em sua brilhante carreira, Bini nunca teve espaço na seleção italiana. Depois de fazer algumas partidas pelos times sub-21 e sub-23 da Squadra Azzurra o zagueiro só atuou num amistoso extraoficial pela Nazionale adulta, em 1975, contra a Noruega. Graziano tinha o azar de concorrer com líberos históricos, como Gaetano Scirea, Pietro Vierchowod e Franco Baresi. Essa condição fez com que ficasse à margem dos planos de Enzo Bearzot, comandante da Itália no período em que vivia seus tempos áureos.

Avesso aos holofotes, o ex-zagueiro teve uma carreira nos bastidores do esporte após pendurar as chuteiras. Bini foi técnico das categorias de base da Inter e, entre 2000 e 2009, esteve a serviço do Piacenza, clube em que ocupou as funções de olheiro e de responsável pelo setor juvenil. Em sua experiência na Emília-Romanha, Bino foi responsável por levar Hugo Campagnaro e Radja Nainggolan ao futebol italiano.

Graziano também teve breve trabalho no Bellinzona, da Suíça, e comandou a Free Players, equipe formada por atletas sem contrato, que se reúnem no verão para manter a forma enquanto esperam por propostas. Hoje, Bino está aposentado, mas sua ligação com a Inter continua forte. O ex-capitão é frequentemente entrevistado para opinar sobre contratações e episódios que envolvam o clube que, orgulhosamente, defendeu por quase toda a sua trajetória como profissional.

Graziano Bini
Nascimento: 7 de janeiro de 1955, em San Daniele Po, Itália
Posição: zagueiro
Clubes: Inter (1971-85) e Genoa (1985-87)
Títulos: Coppa Italia (1978 e 1982) e Serie A (1980)

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