Brasileiros no calcio

Quando Garrincha foi laziale

Todo amante do futebol conhece Mané Garrincha, o Anjo das Pernas Tortas, um dos maiores jogadores que o esporte bretão já teve. Famoso por seus dribles desconcertantes – e muitas vezes humilhantes -, o ponta aterrorizou os adversários do Botafogo e da seleção brasileira na década de 60.

O bicampeão mundial tem lugar garantido no Olimpo do futebol e no coração dos fãs do esporte. Garrincha era “a alegria do povo”, um gênio com a bola nos pés. Isso é do conhecimento de todos. O que pouca gente sabe é que a história do ponta direita com a Europa vai além de duas Copas do Mundo disputadas no Velho Continente, um título mundial e um filho bastardo. Além da estrela solitária do Botafogo e do amarelinho da Seleção, o camisa 7 já vestiu o branco e o celeste da Lazio. Mesmo que o craque não tenha entrado em campo em nenhum jogo oficial, nem mesmo em amistosos, ele passou pelo clube mais antigo de Roma e, por dois dias, foi atração para poucos torcedores italianos.

Em 1970, Garrincha acompanhou a sua esposa, a cantora Elza Soares, em uma turnê pela Itália. Garrincha estava sem jogar há pouco mais de dois meses, quando deixara o Flamengo. O ponta, então, treinou com a Lazio durante sua estadia na Cidade Eterna. Durante os dias 19 e 20 de fevereiro, Mané suou o uniforme biancoceleste e surpreendeu a todos que o viram jogar com a divisa laziale. E não pelo lado bom.

Uma reportagem publicada pela revista Placar, à época, é bem descritiva sobre o parco estado físico, técnico e emocional de Garrincha. Escreve Fulvio Befacchi: “Tudo fica destruído quando Garrincha entra em campo, como na semana passada, no estádio da Lazio. Ele tropeça no eu peso, na falta de velocidade, na falta de raciocínio, e seus dribles sensacionais não passam de inúteis tentativas. Quem destrói os sonhos de Garrincha não são mais os grandes zagueiros do mundo, são jogadores modestos, esforçados, quase sem técnica. Para eles ainda estava viva a imagem do grande Garrincha. Morreu quando lhe pediram para bater um pênalti e o chute saiu desajeitado, torto, forte, alto, bem longe do gol. Os jogadores da Lazio ficaram decepcionados”.

Eram poucos torcedores, no centro de treinamentos da Lazio, cerca de 20. Garrincha não atraía mais grandes multidões, aos 36 anos. Então, os torcedores do clube capitolino, que poderiam ficar maravilhados com a magia das pernas tortas do brasileiro, não viram lá o que esperavam. Por dois dias, a Lazio foi a casa do maior driblador da história do futebol, que não era mais o mesmo. Garrincha estava esperando uma chance em qualquer time da Itália – e apesar de ter treinado na Lazio, o jogador nutria simpatia por Helenio Herrera, técnico da Roma naquele momento. No entanto, o mercado italiano estava fechado para a contratação de estrangeiros desde 1966 e Garrincha e Elza tinham a ilusão de que a lei seria revogada – apenas em 1980, 10 anos depois, a contratação de estrangeiros foi liberada.

Apesar de tudo, o evento teve destaque na imprensa italiana. “Garrincha ‘laziale’: também ontem, como quinta-feira, Garrincha treinou com a Lazio. Aqui está o brasileiro todo empenhado em um exercício no chão com os outros biancazzurri”, estampou um jornal da época, que trazia a foto do ponta-direita fazendo um aquecimento com os atletas da equipe azul e branca. “Garrincha treinou com a Lazio”, dizia outro jornal. “Treinou ontem com a Lazio o ponta brasileiro Garrincha. Um pouco fora de forma, mas capaz de números extraordinários, Garrincha divertiu o público e os próprios jogadores biancazzurri, participando da partida na melhor faixa do campo”, exagerou um terceiro.

“Sempre foi o maior sonho de minha vida jogar aqui. Roma é uma cidade maravilhosa. Vim para a Itália só com alguns contatos e por enquanto não mudou nada. Mas ainda vou jogar na Roma”, disse o ingrato craque à Placar, para depois emendar uma opinião sobre o melhor jogador do mundo: “É Riva, da Itália. Pelé já não pode mais ser considerado um atacante puro. Riva sim”, disse. Garrincha não chegou a atuar por nenhum clube italiano, mas, quem o viu treinar aqueles minutos com a camisa da Lazio certamente ficou pensando em como o tempo faz mal até aos grandes craques do futebol.

Colaborou Nelson Oliveira. Leia a reportagem completa da Placar aqui.

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