Jogadores

Antonio Nocerino se beneficiou de parceria com Ibra e brilhou num Milan pré-decadência

No futebol, existe um termo para se referir a jogadores que se destacam em apenas um ano — geralmente o primeiro a serviço de um clube: one-season wonder, cuja tradução é “prodígio de uma temporada”. O meio-campista Antonio Nocerino se fez valer dessa máxima no último Milan competitivo antes de uma época de vacas magras. O italiano se entrosou bem com Zlatan Ibrahimovic, foi um dos destaques do time e até alcançou a seleção. Nos anos seguintes, porém, não conseguiu repetir o desempenho de 2011-12 e chegou a jogar na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Nocerino é natural de Pallonetto di Santa Lucia, uma das regiões mais antigas da cidade de Nápoles. Assim como quase todos os seus conterrâneos, Antonio cresceu torcendo pelo Napoli. Com 5 anos de idade, ele já mostrava paixão por futebol e tinha em seu pai o apoio necessário para seguir carreira no esporte. O futebol do adolescente Totò agradou os olheiros da Juventus e, aos 13 anos, o garoto deixou sua zona de conforto para tentar, em Turim, realizar o sonho de ser jogador profissional. A mãe sofreu com a ida do menino para o norte da Itália, mas, no fim das contas, valeu a pena.

O jovem evoluiu nas categorias de base da Juve e se tornou homem feito em Turim, onde também terminou os estudos. No Piemonte, ele ainda conheceu sua futura esposa, Federica, com a qual namorou durante oito anos — eles têm quatro filhos. De fato, ele foi forjado no clube bianconero, mas não encontraria espaço entre os profissionais da Vecchia Signora num primeiro momento. Assim, em 2002, o meio-campista acabou emprestado ao Avellino, cujo comandante, na época, era Zdenek Zeman. Estreou contra o Palermo, em casa, na estreia dos biancoverdi na Serie B 2003-04: disputou os 90 minutos no empate em 1 a 1. Totò foi titular na campanha dos irpini na segundona, mas a equipe da Campânia não conseguiu escapar do rebaixamento.

Jovem promessa, Nocerino não permaneceu no Avellino para disputar a terceira divisão e, em 2004, acertou com o Genoa, que, na época, estava na Serie B. Enquanto isso, ele ganhava suas primeiras oportunidades nas seleções de base da Itália: jogou pelas equipes sub-19, sub-20 e sub-21. Em meados dos anos 2000, o meio-campista custou para se firmar em um clube. Não convenceu em Gênova e foi repassado a Catanzaro, Crotone e, por fim, Messina – estes três, do sul do país. Nesse último, o napolitano estreou na elite do futebol italiano. Tudo bem que a passagem pelos giallorossi durou menos de seis meses, mas lhe garantiu uma transferência ao Piacenza.

Na equipe emiliana, Nocerino deslanchou. Foi titular dos papaveri na Serie B 2006-07, perdeu apenas cinco dos 42 jogos na segundona e balançou as redes seis vezes — marcou contra o Napoli e não comemorou. O Piacenza daquele ano, aliás, terminou o campeonato no quarto lugar. Como recompensa pela boa performance no time da Emília-Romanha, o jogador voltou à Juventus na temporada seguinte.

Nocerino foi revelado pela Juventus, mas só teve chances na equipe após rodar pela Itália (New Press/Getty)

Em reconstrução após o escândalo Calciopoli, a Vecchia Signora não contava com um elenco estrelado de outrora, já que muitas de suas principais peças optaram por deixar o time depois da sentença que condenou os bianconeri ao inferno da segunda divisão. Assim, jogadores sem tanta grife, como Nocerino, ganharam oportunidade de mostrar serviço. Aliás, aqui cabe um parêntese: em 2007, Antonio esteve próximo de defender o Napoli, seu clube de coração, mas Claudio Ranieri, então comandante da equipe juventina, não deu aval para a negociação porque pretendia contar com o atleta.

As atuações do meio-campista no início da temporada 2007-08 o conduziram à seleção italiana, então treinada por Roberto Donadoni. Aos 22 anos, o napolitano disputou 15 minutos em amistoso contra a África do Sul, vencido por 2 a 0, e a partida inteira contra a Holanda Sub-21, em outro duelo amigável com vitória para a Nazionale. Com idade olímpica, Totò também foi convocado para os Jogos de 2008, em Pequim, onde capitaneou os azzurrini no torneio. Na Olimpíada, a Itália se classificou em primeiro do Grupo D e caiu nas quartas de final após derrota por 3 a 2 para a Bélgica, que tinha nomes como Vincent Kompany, Marouane Fellaini, Thomas Vermaelen e Jan Vertonghen.

Na Juve, Nocerino atuou em várias posições do meio-campo. Isso porque Ranieri utilizou diversas formações táticas durante a Serie A: 3-5-2, 4-4-2, 4-2-3-1 e 4-4-1-1. Ao todo, o camisa 23 participou de 36 jogos (quatro deles na Coppa Italia), forneceu duas assistências, recebeu incríveis 13 cartões amarelos (sem expulsão) e não estufou as redes. Noce, portanto, foi peça importante da Juventus na campanha que marcava o retorno à elite. Os bianconeri terminaram o certame na terceira posição, atrás da campeã Inter e da vice Roma, mas bem à frente, em pontos, da surpreendente Fiorentina e do Milan.

Entretanto, apesar do ano positivo no norte da Itália, Nocerino não permaneceu na Juventus para a temporada 2008-09. É que a diretoria juventina envolveu o meio-campista em uma transação com o Palermo: o centroavante Amauri rumou a Turim e Totò, a Sicília. “Estou honrado por ter vestido a camisa da Juventus. Terminamos muito bem e sem rancor. Me encontrei muito bem em Turim, mas agora cada um pega seu caminho”, disse o jogador ao se despedir da Velha Senhora.

No Palermo, Nocerino deu continuidade à sua evolução, apesar de uma primeira temporada irregular sob o comando de Davide Ballardini: começou a época como titular na trinca de meio-campista no 4-3-1-2, mas acabou perdendo espaço nos últimos jogos daquela Serie A. Já na campanha seguinte, o time siciliano encaixou no segundo turno, muito em função da saída da troca de treinadores: Walter Zenga, contratado no verão, caiu em novembro de 2009, após três partidas sem vitória e deixar os rosanero na 12ª posição no campeonato; para seu lugar, o presidente Maurizio Zamparini fechou com Delio Rossi, que havia conquistado a Coppa Italia de 2007-08 à frente da Lazio.

Com a camisa do Palermo, Nocerino se consolidou como meio-campista de muita utilidade e voltou à seleção (Getty)

Nocerino começou e concluiu a Serie A de 2009-10 no onze inicial. Num frenético empate com a Roma, no Renzo Barbera, Noce pegou rebote do goleiro Júlio Sérgio e soltou um míssil para anotar o terceiro tento dos rosanero — mais tarde, porém, os romanos igualariam o placar novamente, decretando o 3 a 3 no duelo. Ele faria mais uma vítima da Capital Eterna no decorrer do certame: marcou e deu assistência no triunfo por 3 a 1 sobre a Lazio, novamente em casa, pela 25ª rodada da liga. O meio-campista teve uma temporada de destaque, ajudando a equipe a finalizar o campeonato na quinta colocação e, assim, obter vaga na Liga Europa.

Antes do início da temporada 2010-11, Nocerino deixou o número 9 para o atacante uruguaio Abel Hernández e escolheu a camisa 23, dia da morte do frade e sacerdote católico italiano Padre Pio, do qual se declara devoto. Vale lembrar também que, antes da 9, o napolitano havia usado o número 33 em seu primeiro ano defendendo o rosa e preto siciliano. Mas, voltando ao campo e bola, Noce continuou jogando bem pelo Palermo e, em 2011, foi premiado com convocação à seleção de Cesare Prandelli depois de três anos de ausência. Naquele ano, recebeu diversas oportunidades de mostrar seu potencial a serviço da Squadra Azzurra.

O ano de 2011 foi muito bom, futebolisticamente, para o meio-campista. Além do retorno à Nazionale, ele contribuiu para o Palermo chegar à final da Coppa Italia (os rosanero foram derrotados pela Inter por 3 a 1) e deu um grande passo em sua carreira: firmou vínculo de quatro anos com o Milan em 31 de agosto de 2011, no deadline day da janela de transferências, por apenas 500 mil euros. O napolitano custou tão pouco aos cofres do Diavolo porque seu contrato com os sicilianos se encerraria em junho de 2012. Ele fez 122 jogos pelas águias, marcou seis gols e forneceu oito assistências.

Noce chegou ao time milanês para dar mais robustez ao setor de meio-campo, que estava desfalcado do francês Mathieu Flamini, que perdeu praticamente a temporada inteira devido ao rompimento nos ligamentos cruzados do joelho direito e problemas musculares. Havia também uma expectativa em cima de Totò para ele ser o “novo Gennaro Gattuso“. O novo reforço rossonero escolheu o número 22 para utilizar nas costas, visto que a camisa 23, sua favorita, era de Massimo Ambrosini.

A primeira temporada de Nocerino pelo Milan foi assombrosa, no bom sentido: ratificou a evolução técnica, sobretudo na parte ofensiva, vivida pelo volante formado pela Juventus. Contrariando a desconfiança da torcida – que, antes de Noce ser adquirido, havia sonhado com Marek Hamsík e Cesc Fàbregas –, o napolitano estufou as redes 11 vezes e disputou 50 partidas, somando todas as competições. O registro de gols impressiona porque o jogador atuava numa trinca da meiuca, ao lado de Clarence Seedorf e Mark van Bommel, embora tivesse muita liberdade para avançar ao ataque. O “padrinho” do meio-campista foi Ibrahimovic, artilheiro do time naquela época, com 35 tentos em 44 jogos, e principal garçom de Totò.

No Milan, Nocerino mostrou uma versão goleadora de seu futebol (Getty)

Curiosamente, o primeiro gol de Nocerino com a camisa rossonera saiu justamente contra o Palermo, na vitória por 3 a 0, em San Siro, pela sétima rodada da Serie A: Ibra colocou a bola na cabeça de Alberto Aquilani, que encontrou o camisa 23 livre na pequena área. Ante o Parma, duas rodadas depois, a grande exibição de Totò pelo Diavolo: anotou uma tripletta no triunfo por 3 a 1, em Milão. O segundo gol foi um chutaço de canhota, no ângulo de Antonio Mirante.

Ao fim da temporada, Nocerino havia caído nas graças da torcida. Não à toa, a Curva Sud, setor onde ficam os torcedores organizados do Milan, fez uma música para o atleta: “Ohhh Nocerino, chega forte, marca um gol. Eles te chamavam de Mister X, por dois centavos veio pra cá. Agora luta, marca e comemora com os ultras”, diziam os versos, em tradução livre. Com os 10 gols marcados na Serie A em 2011-12, o camisa 22 superou o recorde de tentos realizados por um meio-campista puro do Diavolo no campeonato, que perdurava desde Romeo Benetti, autor do feito na década de 1970.

Era de esperar que, com tamanho destaque no gigante lombardo, Nocerino ganhasse mais espaço na seleção italiana. E assim aconteceu. Prandelli o levou para a Eurocopa 2012, realizada na Polônia e na Ucrânia, onde a Itália terminou como vice-campeã. Nas quartas de final, a Nazionale precisou superar a Inglaterra na disputa de pênaltis para avançar à etapa seguinte, e Noce converteu sua cobrança. Em setembro de 2012, o jogador entrou em campo pela última vez para defender o seu paíss. Afinal, ele caiu de produção — assim como o time do Milan, que perdeu Ibrahimovic e Thiago Silva para o Paris Saint-Germain — e se distanciou da Squadra Azzurra.

No verão europeu de 2012, Gattuso deixou o Milan para viver, no suíço Sion, sua última temporada como jogador profissional. Assim, Nocerino herdou o número 8. Dentro das quatro linhas, no entanto, não conseguiu repetir, em 2012-13, o desempenho do ídolo milanista, tampouco foi efetivo no ataque como na época anterior.

Ele trocou de número novamente na temporada 2013-14, dessa vez pegando o seu preferido, o 23, que ficara vago após a ida de Ambrosini à Fiorentina. Mas Noce não utilizou muito a nova camisa, já que, pouco aproveitado no plantel, arrumou as malas e partiu para a Inglaterra, por empréstimo, em janeiro de 2014. Sua aventura pelo West Ham, contudo, foi um desastre, de modo que o italiano entrou em campo somente 10 vezes e não balançou as redes.

Vivendo a fase final de sua carreira, Nocerino integrou um Parma atormentado pelo fantasma da falência (Getty)

Retornou à Itália no verão de 2014 e foi cedido, de novo emprestado, ao Torino. Assim como ocorrera em terras britânicas, Nocerino “flopou” no Toro e, em janeiro do ano seguinte, o Milan o cedeu ao Parma. Na Emília-Romanha, o meio-campista se tornou titular da equipe treinada por Donadoni, técnico este que lhe dera a oportunidade de estrear na seleção italiana principal, em 2007. Noce marcou três gols no segundo turno da temporada 2014-15, e o primeiro saiu logo contra o Diavolo, em uma derrota por 3 a 1, em San Siro. No entanto, o Parma – rebaixado e falido – não o comprou, o napolitano voltou ao Diavolo e, em fevereiro de 2016, encerrou seu contrato com os rossoneri, de forma consensual.

Livre no mercado, Nocerino viajou aos Estados Unidos e se aventurou pela Major League Soccer, principal liga de futebol na terra do Tio Sam, ao acertar com o Orlando City. Em Orlando, o italiano voltou a dividir vestiário com Kaká, seu ex-companheiro nos tempos de Milan. A passagem pela América do Norte terminou em dezembro de 2017. O meio-campista permaneceu seis meses sem jogar até entrar em acordo com o Benevento, então na Serie B. Entretanto, após apenas um semestre, atleta e clube rescindiram o vínculo, em dezembro de 2018. Só em janeiro de 2020 Noce anunciou oficialmente sua aposentadoria dos gramados, aos 34 anos.

No mesmo mês em que pendurou as chuteiras, Nocerino foi anunciado como comandante dos times sub-15 e assistente do sub-17 do Orlando City. Em julho de 2021, o ex-meio-campista recebeu o registro Uefa A, a segunda patente mais importante para um técnico a nível europeu, pois o habilita a treinar equipes juvenis, femininas e da Serie C masculina. Também é possível atuar como auxiliar nas séries A e B. Nocerino se formou na mesma turma que contava com Andrea Barzagli e Antonio Di Natale.

O ex-meia ainda revelou sua faceta empreendedora em janeiro de 2022, quando inaugurou uma pizzaria em Nápoles. “Finalmente começou a nossa história, uma história de amor e paixão pela pizza e pela nossa cidade. Queremos exaltar os lados positivos de uma e de outra, e esperamos que você queira escrever essa história com a gente, dia após dia”, escreveu na legenda de um vídeo Reels publicado no Instagram. No fim da contas, Nocerino não fugiu do clichê napolitano ao aliar o apreço pelo futebol e pela mais famosa iguaria local.

Antonio Nocerino
Nascimento: 9 de abril de 1985, em Nápoles, Itália
Posição: meio-campista
Clubes: Avellino (2003-04), Genoa (2004-05), Catanzaro (2005), Crotone (2005-06), Messina (2006), Piacenza (2006-07), Juventus (2007-08), Palermo (2008-11), Milan (2011-14 e 2015-16), West Ham (2014), Torino (2014-15), Parma (2015), Orlando City (2016-17) e Benevento (2018)
Títulos: Torneio de Toulon (2008)
Seleção italiana: 15 jogos

Compartilhe!

Deixe um comentário