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Ahn Jung-hwan foi escorraçado do Perugia após marcar contra a Itália na Copa do Mundo

O cartola Luciano Gaucci era, digamos, excêntrico. Não existia propaganda boa ou ruim; existia publicidade. Se falassem do Perugia, ótimo. Em 2000, ele tinha acabado de vender Hidetoshi Nakata para a Roma. O sucesso do japonês era estrondoso e o presidente queria continuar na mesma toada. Decidiu, então, continuar investido no mercado asiático e trouxe dois reforços, por empréstimo, para a temporada: o chinês Ma Mingyu (um flop de salário alto que nunca teve a idade verdadeira confirmada) e o sul-coreano Ahn Jung-hwan.

Os honorários altos, aliás, eram normalidade para Gaucci. Oferecer acordos polpudos aos jogadores de centros menores chamava a atenção – e o presidente adorava isso. A contratação de Ahn pelo marketing fazia muito sentido: na Coreia do Sul, ele só não era mais famoso que David Beckham.

O empréstimo foi um acordo intermediado pela Daewoo, empresa automobilística que controlava o Busan e seria a patrocinadora do time perugino. O futebol, porém, era inconsistente. Nos dois anos pelos grifoni, Ahn jogou pouco mais de 30 partidas (somando campeonato e Coppa) e marcou cinco gols. O nível das apresentações variava demais e, já na segunda temporada, geralmente entrava como substituto.

Parte dos motivos de sua irregularidade tinha origem na falta de ambientação do atacante com seus colegas de clube. Depois que se aposentou, Ahn concedeu uma entrevista à televisão sul-coreana na qual dizia que sofria nas mãos do zagueiro Marco Materazzi. O capitão do Perugia, declarou o jogador asiático, gritou na frente de todo mundo no vestiário que o atacante fedia a alho. “Não entendia muito bem o que ele dizia, mas o tradutor, que também era coreano, ficou ruborizado e, inicialmente, ficou envergonhado de traduzir”, falou. A modelo Lee Hye-won, Miss Coreia do Sul e esposa de Ahn, disse que o comportamento de Materazzi fez com que o jogador parasse de comer alimentos coreanos com muito tempero. O capitão nunca falou sobre o assunto.

Na Copa do Mundo de 2002, Itália e Coreia do Sul se encontraram nas oitavas de final, num dos jogos de arbitragem mais polêmica (para dizer o mínimo) da história da competição. Enquanto todo o Belpaese elegia o árbitro Byron Moreno como o responsável pela eliminação, o verborrágico Gaucci direcionou as críticas xenófobas a Ahn – que, presumivelmente, seria o herói se os tigres de Taegeuk fossem eliminados (ele perdeu um pênalti no primeiro tempo).

“O que você espera que vou fazer? Que vou manter um jogador que arruinou o futebol italiano? Ele tinha de ter mostrado o talento dele enquanto estava conosco. Ele terá de voltar a Coreia para ganhar 100 mil liras (à época, cerca de 50 dólares) por mês. Não vou estender o contrato dele, pois ele não merece. Quando ele chegou, ele parecia uma cabra, pequena e perdida, que não tinha dinheiro para comprar um sanduíche. Ele ficou rico fazendo nada de excepcional e então, no Mundial, ele denegriu o futebol italiano”, disse o presidente.

Para o dirigente, Ahn só foi um fenômeno ao jogar contra a Azzurra. “Sou um nacionalista e esse tipo de comportamento não só é uma afronta para o orgulho italiano como uma ofensa ao país que lhe abriu as portas há dois anos”, finalizou. O secretário-geral da Confederação Asiática, Peter Velappan, entrou na briga pelo boicote: afirmou que, em caso de demissão do jogador, o Perugia jamais contraria outro asiático. O técnico da seleção sul-coreana, Guus Hiddink, afirmou que Gaucci teve uma “reação infantil”, mas preferiu seguir a linha com uma comparação: “por acaso Franck Leboeuf e Marcel Desailly [ex-jogadores do Chelsea] não podem marcar contra a Inglaterra? É até muito ridículo falar sobre isso”.

O atacante sul-coreano alega que sofreu até bullying de companheiros durante seus anos de Itália (Getty)

Às vésperas da partida que valia o bronze na Copa, contra a Turquia, Ahn repudiou as declarações de Gaucci. O jogador afirmou que as palavras do presidente lhe fizeram mal. “Ele me ofendeu dizendo, entre outras coisas, que eu não tinha dinheiro para comprar pão antes de assinar pelo clube. Agradeço a Itália, que me acolheu. Tenho orgulho de dizer que joguei a Serie A, mas não quero atuar novamente pelo Perugia”, falou. O agente do jogador também foi a público criticar o mandatário, declarando que “não tinha intenção de continuar um relacionamento com quem tratava Ahn como criminoso após o gol da eliminação italiana”.

A história foi e voltou durante 10 dias. Alguém falava, outro respondia; réplicas e tréplicas, geralmente em forma de defesa. O presidente do Perugia, mais tarde, declarou que não ficou bravo com o gol de Ahn, mas com a atitude dele após a partida. Para Gaucci, o atacante podia fazer quantos gols quisesse. O que machucou o mandatário foi ouvir do jogador que o futebol coreano era melhor que o italiano.

O problema era que Serse Cosmi não queria que Ahn fosse negociado. O técnico acreditava que, apesar dos 26 anos, o sul-coreano tinha um enorme potencial para evoluir na Úmbria. Por sua vez, Ahn estava farto de ser boicotado pelos próprios companheiros – alegava que não recebia passes mesmo quando estava livre – e a ePlayers, empresa que gerenciava a carreira dele, tentou negociá-lo com clubes de Reino Unido, Espanha e Alemanha. O atleta estava emprestado e o Busan queria a aumentar a pedida inicialmente acordada em 1 milhão de dólares.

O diretor-geral do Perugia e filho do presidente, Alessandro Gaucci, confirmou ainda em junho que o clube e o jogador chegaram a um consenso pela permanência (fato negado por Ahn). O staff do jogador estava preparando um contrato para que, caso o Perugia concordasse com a compra, ele seria imediatamente transferido para outro clube europeu. À época, diziam que o West Ham (por 10 milhões de euros) e o Blackburn (que não emitiu visto de trabalho) estavam interessados no jogador, que acabou retornando à Ásia para atuar no Japão.

O resto da carreira de Ahn passou longe de causar o mesmo estardalhaço dos tempos de Itália. No Japão, ele atuou bem por Shimizu S-Pulse e Yokohama F. Marinos, conquistando até o título da primeira divisão com o segundo dos times citados. A boa performance e os gols até renderam ao sul-coreano uma nova oportunidade na Europa, mas o fracasso com as camisas de Metz e Duisburg foi retumbante. Em nível de clubes, Ahn ainda jogou novamente na Coreia do Sul e na China até se aposentar, em 2011. Além da polêmica participação na Copa do Mundo de 2002, o atacante também representou a sua seleção nos dois Mundiais seguintes.

Ahn Jung-hwan
Nascimento: 27 de janeiro de 1976, em Paju, Coreia do Sul
Posição: atacante
Clubes: Busan (1998-2000 e 2008), Perugia (2000-02), Shimizu S-Pulse (2002-03), Yokohama F. Marinos (2004-05), Metz (2005-06), Duisburg (2006), Suwon Samsung Bluewings (2007) e Dalian Shide (2009-11)
Títulos: J1 League (2004) e Copa do Leste Asiático (2003)
Seleção sul-coreana: 71 jogos e 17 gols

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