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Líder nato, Daniele Gastaldello foi capitão da Sampdoria e chegou à seleção italiana



Não é novidade para ninguém que, ao longo da história, a fortíssima escola de zagueiros do futebol italiano fez com que alguns bons jogadores do setor ficassem à margem da seleção e dos grandes clubes. Daniele Gastaldello, que viveu o seu auge como pilar da defesa da Sampdoria, até foi capaz de romper essa barreira e receber chances na Nazionale, mas se destacou mesmo em sua trajetória como estrela de times médios, pelos quais mostrou qualidade e espírito de liderança.

Gastaldello é natural do Vêneto e foi em sua própria região que iniciou no esporte. Aos 10 anos, o garoto entrou no time juvenil do Montebelluna e, aos 12, rumou ao Padova. Com a camisa biancoscudata, Daniele estreou na equipe profissional antes mesmo de ser maior de idade, já que atuou em algumas partidas da Serie C2 2000-01 com 17 anos. Depois do título da quarta divisão, o zagueiro foi utilizado com maior frequência pelos patavini e chamou a atenção da Juventus, que o adquiriu no verão de 2002. Àquela altura, o beque já era jogador das seleções sub-19 e sub-20 da Itália.

Em Turim, o defensor foi integrado à equipe Primavera da Velha Senhora, então treinada por Gian Piero Gasperini. Com a camisa bianconera, Gastaldello conquistou a Copa Viareggio de 2003, mas nunca teve espaço no time de cima e, depois de um ano e meio, acabou negociado com o Chievo. Imediatamente, o zagueiro foi emprestado pelos clivensi ao Crotone, que disputava a Serie C1. A contratação foi um pedido expresso de Gasp, que estreava em um time profissional.

O vêneto deslanchou no sul da Itália e, rapidamente, se tornou um dos principais jogadores dos squali. O Crotone conseguiu o acesso para a Serie B em 2003-04 e se manteve na categoria na temporada seguinte – numa campanha em que Gastaldello, além de ajudar na defesa, marcou três gols. Ainda jovem, com 22 anos, o zagueiro já mostrava algumas das principais características que o acompanhariam ao longo de sua trajetória: o apurado senso de posicionamento e a destreza nas jogadas aéreas.

Gastaldello estreou na Serie A com a camisa do Siena (imago/Buzzi)

Após 51 partidas pelos pitagóricos, Gastaldello trocou a Calábria pela Toscana e, finalmente, recebeu uma oportunidade na elite do futebol italiano. O Siena adquiriu os direitos econômicos do zagueiro junto ao Chievo e reforçou uma defesa gabaritada, que tinha Alberto Valentim, Daniele Portanova, Nicola Legrottaglie, Paolo Negro, Igor Tudor e Gianluca Falsini. Daniele revezou entre os titulares e contribuiu para a terceira campanha de permanência dos bianconeri na elite. O vêneto disputou 25 partidas e marcou um gol importantíssimo, ao empatar duelo com a Inter aos 93 minutos.

Em 2006-07, o defensor continuou alternando entre os reservas e o titulares, e mais uma vez auxiliou na permanência dos toscanos na elite. Ao fim da temporada, Gastaldello se tornou um dos primeiros reforços de Walter Mazzarri na Sampdoria, recebendo, assim, sua primeira grande oportunidade da carreira. Com 24 anos, Daniele se tornou absoluto do 3-5-2 blucerchiato e se consolidou como ídolo da torcida. Ao mesmo tempo, virou adversário de Gasperini, que treinava o Genoa, arquirrival dos dorianos.

Na sua primeira temporada em Gênova, Gastaldello jogou como central do trio formado com Luigi Sala e um entre Stefano Lucchini e Hugo Campagnaro, tendo o papel de proteger o gol defendido por Luca Castellazzi. Peça mais sólida do setor, o zagueiro foi – ao lado de Angelo Palombo, Christian Maggio e Antonio Cassano – um dos principais responsáveis por fazer a Sampdoria lutar por uma vaga na Champions League. No fim das contas, os lígures acabaram a Serie A na sexta colocação e conquistaram o direito de disputar a Copa Uefa. A Fiorentina, última classificada para a UCL, teve seis pontos a mais.

Gastaldello passou oito temporadas na Sampdoria e se tornou capitão da equipe blucerchiata (Getty)

Em 2008-09, o vêneto contribuiu para que a Sampdoria fosse vice-campeã da Coppa Italia e, na temporada seguinte, se transformou num dos melhores zagueiros do país. Mazzarri rumou ao Napoli e os blucerchiati contrataram Luigi Delneri para seu lugar, o que ocasionou a mudança do 3-5-2 para o 4-4-2. Gastaldello e Lucchini, então, formaram uma espécie de dupla low cost ao estilo Lúcio e Walter Samuel ou Rio Ferdinand e Nemanja Vidic. Em suma, apesar de os dois beques terem características físicas similares e serem ótimos em jogadas aéreas, um deles caçava os atacantes adversários e o outro jogava como referência – neste caso, Gastaldello.

No novo esquema, Daniele já começou voando: aos 94 minutos de jogo, na primeira rodada da Serie A, garantiu a vitória da Sampdoria sobre o Catania. Era o prelúdio do que estava por vir, uma vez que a Samp fez uma temporada fantástica: o time teve a terceira melhor defesa do campeonato, com 41 gols sofridos, e se classificou para a fase preliminar da Champions League graças à quarta colocação no certame. Apesar das ótimas atuações, Gastaldello não foi considerado por Marcello Lippi para a seleção que fracassou no Mundial da África do Sul.

A temporada 2010-11 não seria boa para a Sampdoria. Delneri rumou à Juventus e o seu substituto, Domenico Di Carlo, não colheu os mesmos resultados. Na primeira metade da campanha, a equipe blucerchiata foi eliminada pelo Werder Bremen na Liga dos Campeões e não superou a fase de grupos da Europa League; na Serie A, ocupava o meio da tabela. Do alto de sua regularidade, Gastaldello, porém, podia comemorar suas primeiras convocações para a seleção italiana.

Em pouco tempo de casa, Gastaldello virou líder em Bolonha (Arquivo/Bologna FC)

Chamado por Cesare Prandelli, Daniele ficou no banco em seis partidas da Nazionale até ser utilizado, em março de 2011. O zagueiro da Samp foi titular num amistoso contra a Ucrânia, vencido pela Itália por 2 a 0, e nunca mais entrou em campo pela Squadra Azzurra. Primeiro, acabou ficando afastado do grupo até agosto de 2012, já que a temporada melancólica do time da Ligúria terminou com um improvável rebaixamento para a Serie B.

Gastaldello permaneceu em Gênova para tirar o time da segundona e cumpriu o seu papel. O fez como capitão, inclusive, após o empréstimo de Angelo Palombo à Inter. O zagueiro liderou a equipe, efetivamente, e corrigiu uma temporada de percalços para os blucerchiati. Embora tivesse um elenco de elite, a Samp ficou apenas na sexta colocação da categoria e precisou jogar os playoffs de acesso. Daniele, então, marcou dois gols importantíssimos na partida de ida da final, contra o Varese, e devolveu os dorianos à primeira divisão.

Na temporada 2012-13, além do retorno à Serie A, Gastaldello recebeu suas últimas convocações para a seleção – e não foi utilizado em duelos com Inglaterra e Holanda. Pela Sampdoria, continuou atuando em bom nível e com sua habitual regularidade, ainda que a equipe sentisse a diminuição dos investimentos por parte da diretoria, o que aumentou após a morte do patrono Riccardo Garrone, em janeiro de 2013. Sempre como titular absoluto, o capitão contribuiu para duas campanhas medianas da Samp até deixá-la, em janeiro de 2015, seis meses após Massimo Ferrero adquirir o clube.

Em sua última experiência, Gastaldello também foi capitão: desta vez, no Brescia (imago)

Após 260 partidas e 14 gols pela Sampdoria, o zagueiro de 31 anos aceitou disputar a Serie B pelo Bologna, que iniciava um projeto ambicioso, comandado pelos empresários Joey Saputo e Joe Tacopina. Gastaldello vestiu sua habitual camisa de número 28, assumiu a titularidade do time emiliano e o tirou da segundona. Já na elite, manteve seu posto como preferido no onze inicial dos técnicos Delio Rossi e Roberto Donadoni e, de quebra, virou capitão. Seu espírito de liderança e sua experiência foram importantes para que os rossoblù conquistassem duas permanências na Serie A com absoluta tranquilidade.

 

Na janela de verão de 2017, o Bologna buscou Sebastien De Maio e Giancarlo González, zagueiros mais jovens do que Gastaldello – o que sugeria uma sensível diminuição de espaço para o veterano. Com 34 anos, Daniele estava no ocaso da carreira, mas sentia que ainda poderia ser útil em campo. Sendo assim, negociou sua saída do clube bolonhês e acabou sendo liberado gratuitamente para o Brescia, então na Serie B. Depois de uma primeira temporada ruim na Lombardia, Daniele herdou a capitania de Andrea Caracciolo e levantou o título da segundona de 2018-19.

Gastaldello merecia mesmo encerrar sua trajetória profissional na elite do futebol italiano. Talvez não do jeito que foi, durante uma pandemia que afetou severamente a província de Brescia e deixou estádios vazios, o que lhe impediu de receber calorosos aplausos dos torcedores. O destino também poderia ter lhe reservado mais do que as oito aparições numa campanha de rebaixamento dos andorinhas e uma marca negativa no último jogo da carreira, contra a sua Sampdoria. Nele, o zagueiro cometeu um pênalti, desperdiçado por Fabio Quagliarella, e acabou fazendo um gol contra insólito, num chute torto de Mehdi Léris – benevolente, a liga deu o gol para o francês. Melhor assim.

Daniele Gastaldello
Nascimento: 25 de abril de 1983, em Camposampiero, Itália
Posição: zagueiro
Clubes: Padova (2000-02), Juventus (2002-03), Chievo (2003-04), Crotone (2004-05), Siena (2005-07), Sampdoria (2007-15), Bologna (2015-17) e Brescia (2017-20)
Títulos: Serie C2 (2001), Copa Viareggio (2003) e Serie B (2019)
Seleção italiana: 1 jogo



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