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Andarilho do futebol, o chileno Mauricio Pinilla teve longa trajetória na Itália

Conhecido no mundo da bola como o jogador que quase eliminou a seleção brasileira em sua própria casa na prorrogação de uma partida de Copa do Mundo, o chileno Mauricio Pinilla construiu um caminho muito maior do que o relacionado a essa memória – que ele até tatuou em sua própria pele. O atacante goleador colecionou passagens por incríveis 15 clubes, inclusive o Vasco da Gama. Porém, foi na Itália que conseguiu firmar o seu nome no cenário internacional.

Natural de Santiago, capital do Chile, Pinilla começou sua carreira em um dos clubes mais tradicionais do país, a Universidad de Chile. Depois de chamar muita atenção na base, onde chegou a ser comparado a Iván Zamorano e Marcelo Salas, Mauricio estreou no profissional em 2002 e logo deixou sua marca: foram 20 gols anotados em 39 aparições por La U. Já com fama de artilheiro, fez crescer os olhos de grandes times europeus e, no verão de 2003, foi adquirido pela Inter. O fato de Zamorano, ex-nerazzurro, ser empresário do atacante impulsionou o negócio.

A jovem joia chilena, que passara a receber comparações com Christian Vieri, tinha apenas 19 anos. Como não teria espaço em Milão, Pinilla foi emprestado de imediato, para ganhar experiência num time em que pudesse atuar com mais frequência. O seu destino foi o Chievo, mas ele não se firmou por lá: na primeira metade da temporada 2003-04, fez somente oito jogos pelos gialloblù, nenhum como titular, e foi cedido ao Celta de Vigo, da Espanha. Pelos galegos, repetiu a dose: oito aparições e nenhum gol. A única diferença foi a chance que recebeu no onze inicial contra o Arsenal, pelas oitavas da Champions League.

No verão de 2004, o Sporting comprou 50% dos direitos esportivos do chileno, que teve um brilhareco em Portugal. Em 2004-05, Pinilla anotou uma tripletta em vitória sobre o Braga, contribuiu para o vice-campeonato dos leões na Copa Uefa e pouco mais. Em janeiro de 2006, após sete gols em 28 partidas, deixou Lisboa rumo ao Racing Santander. Em sua segunda chance na Espanha, pouco fez, mas viu os verdiblancos se salvarem do descenso.

Apesar do péssimo desempenho por clubes, Pinilla foi figura frequente nas convocações da seleção do Chile até novembro de 2006. Nessa época, o atacante tinha acabado de ser vendido para o Heart of Midlothian, tradicional time escocês, e também fracassou por lá – o que, finalmente, lhe fechou temporariamente as portas de La Roja.

Depois de circular bastante e somar muitos fracassos, Pinilla se encontrou com a camisa do Grosseto, na Serie B italiana (Getty)

Mauricio já era um andarilho e assim permaneceu até 2009. Não se firmou nos Hearts em nenhuma das duas temporadas que defendeu o clube – entre elas, chegou a ser emprestado à Universidad de Chile, equipe que o revelou – e também fracassou por Vasco e Apollon Limassol, do Chipre. No Brasil, Pinilla só fez três partidas, contra Flamengo, Athlético Paranaense e Fluminense, e acabou ficando marcado como uma das piores contratações do ano do primeiro rebaixamento do cruzmaltino para a segunda divisão.

Durante todos esses anos, o atacante jamais teve um comportamento de atleta profissional. Depois de se aposentar, Pinilla revelou em entrevista ao Canal 13, do Chile, que tratou a sua chegada à Europa como “um passeio na Disney” e que não se dedicava muito aos treinamentos. Além disso, consumia muitas bebidas alcoólicas, o que lhe deixava propenso às lesões musculares. Esse comportamento errático fora dos campos, que incluiu até uma rixa com Luis Jiménez, colega de seleção, lhe causou muitos arrependimentos.

Pinilla começou a dar um basta nisso no fim de 2008, quando procurou uma clínica de reabilitação para se desintoxicar. O processo não foi imediato e o atacante deu uma amostra de amadurecimento ao não desistir de buscar clubes pouco expressivos ao ficar sem contrato com o Apollon e, inclusive, ser submetido a um período de testes nesses times. O chileno chegou a ser reprovado pelo Eupen, da segunda divisão belga, mas convenceu o Grosseto, da Serie B, a contratá-lo, num vínculo de apenas uma temporada.

O Grosseto, pequeno clube do litoral da Toscana, que disputava a segundona da Velha Bota apenas pela terceira vez em sua história, certamente não era o time mais badalado para alguém que chegou à Itália pela porta da frente, ao assinar com uma gigante como a Inter. E era justamente disso que Pinilla, doravante apelidado Pinigol, precisava: com a camisa dos maremmani, o chileno recuperou sua fama de goleador e colocou sua carreira nos trilhos.

O sucesso no Grosseto permitiu que o chileno voltasse à elite italiana como reforço do Palermo (Getty)

Jogando com a camisa 51, o atacante entrou em campo em “apenas” 24 das 38 rodadas da Serie B – acabou sofrendo uma lesão muscular no primeiro turno e teve de operar o menisco na reta final do certame. No entanto, marcou em 19 delas, chegando a 24 gols e à vice-artilharia do campeonato, empatado com Andrea Caracciolo, Rolando Bianchi e Mirco Antenucci, ficando atrás apenas do ítalo-brasileiro Éder (27). Pinilla conseguiu balançar as redes em 13 jogos consecutivos, um recorde da competição.

Esse bom desempenho no Grosseto, sétimo colocado da Serie B, chamou a atenção de Marcelo Bielsa, técnico da seleção chilena na época. O argentino não pode contar com Pinilla para a disputa da Copa do Mundo na África do Sul, mas o convocou para um amistoso contra a Ucrânia, logo após a competição, em agosto de 2010. No entanto, Mauricio foi cortado por uma lesão na coxa.

Naquele momento, Pinilla já havia trocado de clube: o Palermo pagara cerca de 3 milhões de euros para levá-lo para a Sicília, vencendo a concorrência da Fiorentina. O centroavante foi uma peça importante no ataque do time rosanero, ao lado de Abel Hernández, Massimo Maccarone, Javier Pastore, Josip Ilicic e Fabrizio Miccoli, e teve um bom início de passagem pela equipe, com quatro gols anotados nas 11 primeiras rodadas da Serie A.

No entanto, as lesões continuaram a perseguir Pinilla, que várias vezes ficou fora de combate ao longo de 2010-11. Isso, inclusive, adiou a sua volta aos campos pela seleção do Chile: Mauricio foi cortado de vários amistosos e até da disputa da Copa América por conta de problemas físicos, e só voltou a vestir a camisa de La Roja  em outubro de 2011, contra a Argentina, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014.

Com a camisa do Cagliari, Pinilla teve os momentos mais regulares de sua carreira (Getty)

Pinigol terminou a temporada 2010-11 com desempenho razoável pelo Palermo – nove tentos e seis assistências em 31 aparições, além do vice-campeonato da Coppa Italia – e começou o ano seguinte com um momento especial. Saindo do banco, entrou para marcar o quarto gol do Palermo em uma vitória por 4 a 3 sobre a Inter, seu antigo clube e carrasco na decisão da copa nacional. No entanto, o chileno não terminaria a campanha na Sicília, mas em outra ilha: em janeiro, foi emprestado ao Cagliari, da Sardenha.

Em um semestre pelos rossoblù, Pinilla foi decisivo: disputou 14 partidas e marcou oito gols. O atacante contribuiu diretamente para vitórias sobre Roma, Palermo, Atalanta, Catania e Cesena (neste último caso, com uma tripletta), e também para empate com a Inter. Com posicionamento invejável, presença de área e poder de fogo com as duas pernas e pelo alto, além de ser eficaz em jogadas acrobáticas, o chileno foi o combustível para evitar o rebaixamento do Cagliari. E, como tinha direito de compra por seu passe, o clube sardo o contratou definitivamente por mais duas temporadas.

O Cagliari foi o clube em que Pinilla mais atuou no futebol italiano. Em suas 67 aparições pelo time rossoblù, o chileno conseguiu somar 25 gols e sete assistências, além de se consagrar como batedor oficial de pênaltis da equipe: foram 12 tentos a partir da marca da cal para o centroavante. Com 14 redes balançadas, distribuídas igualmente nas edições 2012-13 e 2013-14 da Serie A, ele ajudou os isolani a realizarem mais duas campanhas tranquilas na elite.

Por seu destaque no Cagliari, Pinilla foi convocado por Jorge Sampaoli para disputar a Copa do Mundo de 2014, na condição de reserva de Alexis Sánchez e Eduardo Vargas. Depois de atuar por alguns minutos nos duelos contra Austrália e Holanda, Mauricio foi a campo no fim do tempo regulamentar da partida de oitavas de final, contra o Brasil, e protagonizou, como apontamos no início, um dos episódios mais emblemáticos de sua carreira: com o confronto empatado em 1 a 1, a segundos do fim da prorrogação, o camisa 9 emendou um petardo de fora da área, carimbou o travessão de Julio Cesar e quase eliminou os anfitriões. A decisão foi para os pênaltis e, então, Pinigol desperdiçou a sua cobrança. Derrotado por 3 a 2, o Chile voltou para casa.

Já veterano, Pinigol teve duas passagens pelo Genoa (Getty)

Antes do início da temporada 2014-15, o chileno mudou de clube novamente: foi contratado pelo Genoa, que buscava substituto para Alberto Gilardino. Pinilla dividiu essa função com Alessandro Matri, mas por pouco tempo. Depois de apenas 14 aparições e quatro gols marcados, o centroavante recebeu uma proposta da Atalanta, que precisava reforçar o seu ataque para evitar o descenso, e aceitou rumar a Bérgamo.

Em sua primeira temporada com a camisa da Dea, Pinilla contribuiu de forma mágica para manter a equipe na Serie A. Em 14 jogos, o chileno guardou seis gols e forneceu duas assistências. O detalhe é que metade desses tentos foram anotados através de bicicletas e voleios, sua marca registrada. O centroavante balançou as redes dessa forma contra Cagliari, Torino e Cesena.

Na sua segunda temporada pelo clube, o acrobático centroavante continuou a aprontar das suas no campeonato nacional. Pinilla marcou mais dois lindos gols, sendo um numa puxeta contra o Sassuolo – quando teve atuação de gala e guardou uma doppietta no empate por 2 a 2 – e o outro numa bicicleta na vitória por 2 a 1 sobre o Milan. Mais arrumada, a Atalanta de Edy Reja, que contava com nomes como Rafael Toloi, Marten De Roon e Alejandro Gómez, foi 13ª colocada da Serie A.

Enquanto defendia a Atalanta, Pinilla conquistou os dois únicos títulos de sua carreira. Novamente como reserva da seleção chilena, o atacante participou das campanhas da Copa América de 2015 e de 2016, vencidas por La Roja – que jamais havia ganhado taças em torneios oficiais. Mauricio encerrou sua carreira pela equipe nacional com 45 jogos e oito gols.

Em dois anos e meio de Atalanta, Pinilla se distinguiu pela quantidade de gols acrobáticos que marcou (Getty)

A temporada 2016-17 seria a última de Pinigol na Itália e no futebol europeu. O chileno atravessou os primeiros meses da campanha na Atalanta, mas sem receber muitas oportunidades, encerrou a sua experiência pela equipe de Bérgamo com 39 aparições e 13 tentos. Em janeiro de 2017, foi recontratado pelo Genoa, mas não rendeu o esperado e teve mais uma passagem apagada pela Ligúria.

Aos 33 anos, o atacante decidiu rescindir seu contrato com os italianos e retornou para sua terra natal e para seu clube de origem, a Universidad de Chile. Em duas temporadas, anotou 18 gols em 32 partidas por La U e, em 2018, acertou com o modesto Coquimbo Unido.

O clube da cidade portuária de Coquimbo havia ascendido à elite do futebol chileno e contratou Pinilla por duas temporadas. O time caiu de imediato para a segundona, mas Mauricio fez a sua parte, com oito gols anotados pelos piratas. No começo de 2021, aos 37 anos, o atacante decidiu deixar o futebol profissional: as lesões constantes foram o principal motivo levado em consideração pelo jogador para se aposentar dos gramados. Pouco depois, passou a compor o quadro de comentaristas da ESPN Chile.

Embora sua carreira tenha sido modesta em termos de títulos, Pinilla colecionou histórias importantes pelos clubes em que passou. O seu auge, atuando nos gramados italianos, lhe rendeu 78 gols marcados. Além disso, ele jamais esqueceu de suas origens e pode ser feliz com a camisa de seu país, provando ser mais do que o jogador de um só lance.

Mauricio Ricardo Pinilla Ferrera
Nascimento: 4 de fevereiro de 1984, em Santiago, Chile
Posição: atacante
Clubes: Universidad de Chile (2002-03, 2007 e 2017-18), Inter (2003), Chievo (2003), Celta (2004), Sporting (2004-05), Racing Santander (2006), Heart of Midlothian (2006 e 2007), Vasco (2008), Apollon Limassol (2009), Grosseto (2009-10), Palermo (2010-12), Cagliari (2012-14), Genoa (2014 e 2017), Atalanta (2015-16) e Coquimbo Unido (2019-20)
Títulos: Copa América (2015 e 2016)
Seleção chilena: 45 jogos e 8 gols

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