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Fabrizio Miccoli, o ‘Romário do Salento’, virou ídolo do Palermo e se envolveu com a máfia

No mundo do futebol, é comum que a imprensa e os torcedores associem o nome de jogadores promissores ao de craques da atualidade ou do passado. É difícil contar, por exemplo, quantos novos Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar surgiram desde 2010. Na década de 2000, um talentoso atacante baixinho ganhou alcunha de “Romário do Salento”, em alusão ao craque brasileiro. Trata-se de Fabrizio Miccoli. Embora não tenha nem metade do status de Romário, ele virou um dos maiores ídolos da história do Palermo, ganhou a simpatia da torcida do Benfica e se encrencou por ligação com a máfia italiana.

Miccoli é natural de Nardò, município localizado no “calcanhar” da Itália, mas cresceu em San Donato di Lecce, cidade apuliana da qual seus pais eram oriundos. Desde muito cedo, deu indícios do talento que possuía com a bola nos pés. Não à toa, aos 6 anos, o garotinho teve a idade alterada pelos dirigentes do San Donato, time amador baseado na província de Lecce, para poder jogar com meninos que tinham dois anos a mais que ele. Nessa época, recebeu o apelido de “Lu Maradona”, alcunha que mais tarde seria substituída por “Romário do Salento” e “Pibe de Nardò”.

Aos 12 anos, Miccoli deixou sua terra natal com o objetivo de virar jogador profissional. Em 1992, aportou em Milão e integrou as divisões de base do Milan. Os rossoneri pagaram 10 bilhões de velhas liras para contratá-lo. O atacante se destacou vestindo vermelho e preto, ajudou a equipe a ganhar o campeonato Giovanissimi (sub-15) de 1993 e marcou incríveis 28 gols em uma temporada pelo Diavolo. Porém, depois de dois anos, retornou para sua terra natal, pois estava com saudade de casa. Assim, negociou para reforçar o Lecce, seu time do coração.

No entanto, os dirigentes do clube giallorosso não podiam garantir que Miccoli seria titular, o que levou o jovem a assinar com o Casarano, também da província de Lecce. Por lá, foi campeão do torneio Dante Berretti – correspondente ao Primavera (sub-19), mas voltado para times da terceira divisão e das inferiores – e teve a sua estreia no futebol profissional.

Miccoli teve passagem atribulada pela Juventus, onde teve diferenças com o diretor Moggi (AFP/Getty)

O debute ocorreu no início da Serie C1 de 1996-97, contra o Ancona, em casa; ele jogou durante os 90 minutos e deixou a sua marca no empate por 1 a 1. Fabrizio terminou sua primeira temporada com 29 jogos e oito bolas na rede, desempenho que melhorou no ano seguinte e lhe rendeu convocações para a seleção sub-18 da Itália e uma transferência à Ternana, à época na Serie B.

Na Ternana, Miccoli continuou seu processo de amadurecimento, aumentou sua média de gols e, depois de quatro anos no equipe rossoverde, chamou a atenção de uma potência da elite. No verão europeu de 2002, a Juventus o contratou e, em seguida, o emprestou ao Perugia – que, à época, também disputava a Serie A. O atacante chegou à nova agremiação, pegou a camisa de titular e fez uma boa temporada. Somando todas as competições, disputou 42 partidas e anotou 16 gols (incluindo cinco tentos pela Coppa Italia, torneio do qual foi artilheiro).

Atravessando ótimo momento na carreira, o atacante de 1,68m recebeu sua primeira convocação para a seleção italiana principal, então comandada por Giovanni Trapattoni, em fevereiro de 2003. O bomber fez a sua estreia em um amistoso contra Portugal, realizado no Luigi Ferraris, em Gênova – os italianos venceram por 1 a 0. O jogador bianconero permaneceu na lista de convocados de Trapattoni até 2004 e chegou a marcar gol olímpico em outro amistoso contra Portugal, mas, nos anos seguintes, nunca mais voltou à Nazionale. Ao todo, o Romário do Salento realizou 10 jogos e anotou dois tentos pela Squadra Azzurra.

Após o empréstimo ao Perugia, Miccoli retornou à Juventus para ser reserva da dupla de ataque titular, composta por Alessandro Del Piero e David Trezeguet. O técnico juventino Marcello Lippi o escalou em várias posições: aberto pela direita, caindo pela esquerda, segundo atacante, no comando do ataque. Apesar da reserva, o camisa 9 entrava no decorrer dos confrontos constantemente. Não à toa foi a campo 38 vezes e guardou 10 gols na temporada 2003-04, além de três assistências (todas na goleada por 7 a 0 sobre o Olympiacos, em Turim, pela fase de grupos da Liga dos Campeões). De quebra, Fabrizio ganhou seu primeiro título como profissional: a Supercopa Italiana, vencida em cima do Milan, nos pênaltis.

O bom desempenho em uma temporada pela Fiorentina ajudou a carreira do atacante a entrar nos trilhos (imago/IPA)

No entanto, tudo mudou no verão de 2004. O clima conturbado com a diretoria bianconera, cujo epicentro era o controverso Luciano Moggi, e a chegada de Zlatan Ibrahimovic tiraram espaço de Miccoli na Vecchia Signora. Em entrevista à Gazzetta dello Sport, o Romário do Salento pedia explicações sobre seu futuro ao cartola, que falava ao jogador para “ficar tranquilo”. O salentino tinha duas opções: buscar novos ares em outra equipe (o atleta tentou facilitar uma transação ao Lecce, seu time de coração) ou permanecer em Turim e brigar por posição.

Entretanto, quando a Fiorentina apresentou uma proposta de 14 milhões de euros, dinheiro que ajudaria a Juve pagar o Ajax pela contratação de Ibrahimovic, Moggi aceitou a oferta e mandou Miccoli para Florença. “Eles tiveram que sacrificar um entre mim e Del Piero e me sacrificaram”, afirmou o apuliano. Fabrizio chegou a sofrer ameaças de um intermediário do cartola, no intuito de forçar a sua saída.

Na Fiorentina, que havia acabado de voltar da Serie B após falir em 2002, o Pibe de Nardò teve um bom desempenho em 2004-05. Com o número 11 às costas, foi o artilheiro da Viola na temporada, com 39 jogos e 12 gols. Ele marcou o primeiro gol da vitória por 3 a 0 sobre o Brescia, no Artemio Franchi, valendo pela última rodada da Serie A. O triunfo salvou a Fiorentina do rebaixamento e sentenciou os biancazzurri à segundona. Após o término da temporada, contudo, a Juventus exerceu um acordo que havia realizado com a Fiorentina um ano antes e recomprou o talentoso atacante por apenas 2 milhões de euros.

Contudo, Miccoli não permaneceu em Turim: a cúpula juventina optou por emprestá-lo ao Benfica. Em terras portuguesas, o italiano escolheu a camisa de número 30 e deixou boa impressão nos dois anos que viveu por lá. Foram 56 jogos, 19 gols, cinco assistências, um título (Supercopa de Portugal) e muito carinho por parte dos torcedores benfiquistas. O empréstimo expirou ao fim da temporada 2006-07 e, assim, o atacante retornou à Itália.

Miccoli defendeu o Benfica por dois anos e se tornou ídolo da torcida encarnada (AFP/Getty)

De volta ao país natal, Miccoli não permaneceu na Juventus, que voltava à elite após a punição por envolvimento de diretores no Calciopoli. O Palermo queria contar com o atacante e ofereceu 4,3 milhões de euros pagáveis no decorrer de três anos para tê-lo no time rosanero. A Vecchia Signora aceitou a proposta, o Romário do Salento assinou com a equipe siciliana e pegou a camisa de número 10. Em sua primeira temporada no Palermo, Miccoli sofreu com lesões, mas, quando esteve apto, foi escalado por Stefano Colantuono como atacante, meia aberto pela esquerda e até como trequartista. Por isso, forneceu cinco assistências, além de haver balançado as redes oito vezes.

Em sua segunda temporada com a camisa rosanero, o camisa 10 se mostrou um ótimo companheiro para o artilheiro Edinson Cavani. Dos 58 gols que o Palermo marcou, a dupla foi responsável por metade (29). Os comandados de Davide Ballardini obtiveram bons resultados contra os clubes grandes: venceram Roma, Juventus, Milan, Napoli e Lazio; também empataram com a campeã Inter. Os triunfos ajudaram o Palermo a concluir o campeonato na oitava posição. Miccoli se consolidava como um dos jogadores mais talentosos em solo italiano, com técnica refinada para encontrar os colegas ou marcar gols de falta.

Ainda em 2008-09, o Pibe de Nardò capitaneou a equipe pela primeira vez. Ele se tornaria o capitão oficial das águias em novembro de 2009. Com a faixa no braço e o amadurecimento da idade, Miccoli cresceu ainda mais de rendimento e virou um dos grandes atacantes do futebol italiano. Não à toa, o camisa 10 teve uma excelente performance na temporada 2009-10 – 38 jogos, 22 gols e nove assistências –, ajudando o Palermo a garantir uma vaga na Liga Europa.

Por sua ótima fase, Miccoli foi especulado pela imprensa para representar a Itália na Copa do Mundo de 2010, mas o treinador Marcello Lippi não lhe deu chances – o jogador também encerrou a temporada com uma lesão no joelho direito. Em 2010-11, o atacante rosanero debutou em competições europeias pelo time siciliano, que também alcançou a final da Coppa Italia, onde sucumbiu diante da Inter: 3 a 1. O Romário do Salento, contudo, sofreu com algumas lesões, que limitaram sua atuação em vários jogos da temporada.

Em seis anos de Palermo, o Romário do Salento mostrou o seu melhor futebol (imago/Gribaudi/IPA)

Em maio de 2012, Miccoli realizou uma grande atuação contra a Inter, em San Siro. As equipes empataram em 4 a 4, o atacante foi às redes três vezes – sua segunda tripletta pelas águias – e ainda forneceu uma assistência. O salentino repetiu a dose duas vezes contra o Chievo: pela penúltima rodada do campeonato 2011-12 e pela sexta rodada da edição 2012-13. Nessa última, Fabrizio marcou o que talvez seja o gol mais bonito de sua carreira.

Após o meio-campista Jasmin Kurtic ganhar disputa no alto, a bola foi decaindo em direção ao camisa 10, posicionado a cerca de dois metros à frente do grande círculo central. O capitão percebeu o goleiro Stefano Sorrentino adiantado e deu uma chicoteada na redonda, encobrindo o arqueiro. “Miccoli foi meu carrasco no Palermo”, resumiu Sorrentino.

O salentino não renovou contrato e deixou o Palermo no verão europeu de 2013 como maior artilheiro do clube (81 gols) e jogador que mais vezes vestiu a camisa rosanero na Serie A (165). Porém, não conseguiu salvar o clube do rebaixamento à Serie B. Em sua última partida pelas águias, ele marcou, de falta, o único gol da equipe na derrota por 3 a 1 ante o Parma, no Renzo Barbera. O revés, entretanto, não impediu a torcida de ovacioná-lo, com coros de “C’è solo un capitano” (“Só existe um capitão”) e “Fabrizio Miccoli, salta con noi” (“Fabrizio Miccoli, pule com a gente”).

O ano de 2013 foi bruto de muitas maneiras para Miccoli. Além da queda do Palermo, o atleta foi flagrado pela justiça em atividades suspeitas com pessoas ligadas à Cosa Nostra: Giacomo Pampillonia e, principalmente, Mauro Lauricella, filho de um boss palermitano. Embora tenha alegado que não sabia do background dos amigos, ligações e mensagens de SMS interceptadas apanharam Miccoli xingando um dos principais combatentes da máfia – o juiz Giovanni Falcone, morto num atentado em 1992. O episódio fez o Romário do Salento perder a cidadania honorária de Corleone, cidade da região de Palermo. Às lágrimas, ele foi a público pedir desculpas pelo que falou. Nesta reportagem sobre os tentáculos da máfia italiana, explicamos o caso completo.

Miccoli realizou o sonho de defender o Lecce apenas nos últimos momentos de sua carreira (imago)

Após a saída do Palermo, Miccoli finalmente realizou o sonho de jogar pelo Lecce, então na terceira divisão. Rapidamente, o técnico Francesco Moriero deu a faixa de capitão ao atacante e o elegeu como o líder da equipe. Ele permaneceu dois anos na equipe salentina. Na primeira temporada, foi peça importante na campanha que culminou na quase subida para a Serie B – os giallorossi perderam o último playoff para o Frosinone –, marcando 14 gols e fornecendo cinco assistências em 31 jogos, considerando todas as competições. Já a última época do baixinho no Lecce foi bem fraca: 20 partidas, cinco tentos e três passes para gol. Ele deixou a agremiação no verão europeu de 2014.

A última aventura de Miccoli no futebol profissional foi com as cores do Birkirkara, clube de Malta. Ele defendeu o time por cinco meses, contabilizando 17 jogos, 10 gols e 10 assistências, e pendurou as chuteiras em dezembro de 2015. Em lista da Calciopédia, o fã de Diego Maradona, Che Guevara, WWE e poker figura entre os 100 maiores jogadores da história da Serie A. Apesar da curta lista de títulos e de não ter feito sucesso em gigantes do país ou na seleção, o Romário do Salento mostrou uma habilidade raramente registrada nos campos da Bota.

Aposentado, o Pibe de Nardò foi condenado, em janeiro de 2020, a três anos e seis meses de prisão por extorsão agravada – mas passou a cumprir a pena em regime aberto. Em dezembro do mesmo ano, o ex-jogador aceitou o desafio do Dinamo Tirana, da Albânia, para exercer uma dupla função: auxiliar de Moriero, que fora seu técnico no Lecce, e responsável pelo setor juvenil da agremiação.

Fabrizio Miccoli
Nascimento: 27 de junho de 1979, em Nardò, Itália
Posição: atacante
Clubes: Casarano (1996-98), Ternana (1998-02), Perugia (2002-03), Juventus (2003-04), Fiorentina (2004-05), Benfica (2005-07), Palermo (2007-13), Lecce (2013-15) e Birkirkara (2015)
Títulos: Supercopa Italiana (2003) e Supercopa de Portugal (2005)
Seleção italiana: 10 jogos e dois gols

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