Extracampo

Mais que apenas atacantes

Atacante. Substantivo masculino derivado do verbo atacar. Futebol. Jogador da linha de ataque; avante; dianteiro. Para o Michaelis, a isto se resume aqueles que têm a função de agredir o adversário para marcar os gols de seu time. A tradição brasileira manda dividir a categoria entre ponta e vários ordinais: primeiro, segundo e até terceiro atacante. Ou centroavante, ponta de lança, atacante de velocidade…

O meia ofensivo, típico camisa dez da forma em que vemos aqui, no calcio é chamado por trequartista, mezzapunta ou rifinitore. A primeira nomenclatura devendo-se ao fato deste jogador, algo atacante, algo meio-campista, atuar na altura dos três quartos do campo, alternando finalizações com a construção do jogo. Pela qualidade técnica, muitas vezes é conhecido por fantasista. Gianni Rivera, atualmente um dos 78 deputados italianos no Parlamento Europeu, fez 527 jogos pela Serie A, venceu a Bola de Ouro em 1969 e se tornou um dos grandes exemplos da posição. Bem como Zidane, que venceu o prêmio em 1998, ano em que foi campeão mundial pela França e italiano pela Juventus.

Roberto Baggio, único jogador italiano a marcar em três Copas do Mundo diferentes, tornou-se um capítulo à parte. Nas palavras de Platini, “um nove e meio”. Não um atacante puro, pela fantasia em seus pés. Não um trequartista puro, pela facilidade nas finalizações. Já Kaká, consagrando-se no calcio, é talvez o mais efetivo intérprete da posição, hoje. O brasileiro tem colecionado todos os prêmios de melhor jogador do mundo em 2007, após uma Liga dos Campeões fantástica. Reflexo da dificuldade de lapidar talentos na posição, os rifinitori mais prolíficos, como Maradona, Cruijff e Di Stéfano, se eternizam com relativa facilidade.

Pela vasta técnica manifestada pelos jogadores da posição, não é difícil vê-los como cada vez mais avançados graças ao natural desgaste físico. Gianfranco Zola, em seus últimos anos de Chelsea e no Cagliari é um bom exemplo. Caminho inverso percorreu Roberto Mancini, que começou a carreira no ataque e tornou-se trequartista com o passar dos anos. Na primeira condição, o caso mais recente é Francesco Totti, ídolo máximo da torcida romanista e jogador em atividade com mais gols na Serie A. Já capitano no título italiano de 2001, quando sua função principal no tridente de Capello era servir a dupla de ataque, foi ainda como trequartista que Totti venceu a última Copa pela seleção. Mas os problemas no tornozelo, principalmente, fizeram Spalletti efetivá-lo como centravanti. E o sucesso da experiência se deu logo na primeira temporada, com a conquista da Chuteira de Ouro.

A “doutrina” do calcio tende a dividir os atacantes em duas classes. O centravanti, ou prima punta, que costuma liderar as tabelas de artilharia, e o seconda punta, que tende a trabalhar no suporte a esse. Um exemplo desde último é o lendário Giuseppe Meazza, maior artilheiro da história da Inter, que cedeu seu nome ao estádio de Milão após sua morte, em 1979. Meazza foi eternizado por uma grande técnica percebida na facilidade nos dribles e nas cobranças de falta desviando da barreira, à folha seca. A mesma que consagraria Didi alguns anos mais tarde.

Alessandro Del Piero é, certamente, o seconda punta de melhor passado recente na Itália. Crescido na base do Padova, em 1993 foi negociado com a Juventus e apenas dois anos depois herdaria a camisa dez de Baggio. Pela Juve, venceu doze títulos nacionais, tornando-se o jogador com mais gols e partidas pelo time. Outro nome que despontou para a fama foi Antonio Cassano, mas o que o talento de Bari Vecchia tinha nos pés faltava em maturidade. Após três anos de alto nível na Roma, suas seguidas intempestividades ganharam até substantivo próprio: cassanate. Hoje, ressurgindo na Sampdoria em meio a polêmicas, Cassano pede para retornar à squadra Azzurra.

Sem tanta fantasia, geralmente é o centravanti que entra nos anais do futebol. Pela função exclusiva de marcar gols, alguns se destacam por fazê-los em boa dose. Igor Protti, que eternizou a camisa número dez do Livorno, é o único a Europa a conseguir a artilharia das três primeiras divisões nacionais. Vincenzo Iaquinta, logo em sua estréia na Liga dos Campeões, defendendo a Udinese contra o Panathinaikos, marcou três gols. Paolo Rossi também se consagrou com uma tripletta, sepultando o Brasil de Falcão e Zico na Copa de 1982. Na inauguração do novo Wembley, outro italiano deixou sua marca por três vezes: Giampaolo Pazzini.

Mas o poker, quando o jogador marca quatro vezes numa só partida, é ainda mais especial. Que o diga Vincenzo Montella, autor de um enquanto defendia a Roma, num dérbi com a Lazio, em fevereiro de 2002. Em terras européias, um laziale já deixou sua marca: Simone Inzaghi anotou quatro gols contra o Olympique Marseille, em 1999. Mas o verdadeiro Inzaghi, em âmbito europeu, é o irmão mais velho. Filippo deixou sua marca em todas as competições que disputou, desde a Serie C1, com a extinta Leffe, até a Copa do Mundo, com a seleção italiana. Nas competições de clubes da Uefa, se consagrou na última temporada. Além do título da Liga dos Campeões, a marca individual de maior artilheiro da história, com 63 gols por Parma, Juventus e Milan.

Christian Vieri também se notabilizou por um número de gols inversamente proporcional à sua técnica. Entre seus feitos alheios às polêmicas extracampo, o milésimo gol da história da Nazionale e o fato de ser o único a se sagrar artilheiro das primeiras divisões espanhola e italiana, por Atlético de Madrid – em sua única temporada no clube – e Inter. Entre os antigos, destacam-se Gunnar Nordahl e Silvio Piola. O sueco tem a melhor média de gols (0,77) da história da Serie A, enquanto o italiano é o melhor marcador da história do certame. Outro estrangeiro de sucesso no calcio foi Gabriel Batistuta. Imortalizado pela torcida da Fiorentina como Batigol, passou nove temporadas no clube toscano, mas seu único scudetto da carreira veio pela Roma. Em seu primeiro reencontro com os viola, marcou o gol da vitória romanista nos minutos finais e saiu às lágrimas.

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