Serie A

A reviravolta da juventude?

Pogba e Kovacic são alguns dos jovens mais utilizados na Serie A (Getty Images)

A Serie A foi o principal campeonato nacional do mundo nos anos 80. O torneio, que já estava entre os mais fortes do planeta desde o fim dos anos 50, quando o esporte começava a se globalizar, ganhou o seu auge há mais de 30 anos, e até mesmo equipes da Serie B tinham em seu elenco nomes importantes de seleções tradicionais, como a brasileira e a argentina. 

A Itália viveu um período de glórias econômicas que durou até os anos 90, quando “As sete irmãs” dominavam o campeonato – Juventus, Milan e Inter à frente, Fiorentina, Lazio, Parma e Roma mais atrás. Equipes grandes, como o Napoli, e outras medianas, como Genoa, Sampdoria, Verona e Torino faliram ou tiveram problemas econômicos – o que veio a acontecer depois, em maior ou menor escala, com quase todos os times italianos. 

Nos anos 90, o campeonato era bastante competitivo, e com tantas equipes grandes e médias lutando em boas condições, o desequilíbrio econômico começou a pesar. Ficou mais difícil que equipes modestas, como a Udinese, furassem o bloqueio e entrassem na briga na parte de cima da tabela. Com a eclosão da bolha econômica e, depois, com o Calciopoli, a quantidade de investimentos no futebol local caiu e, com o crescimento da Premier League, de La Liga e da Bundesliga, a Itália foi relegada a segundo plano. Não à toa, perdeu a quarta vaga na Liga dos Campeões e, só agora, pode esboçar alguma reação no ranking europeu. Este especial organizado pela Trivela é um bom resumo para este percurso.

Em 2013-14, anos após a época de ouro do futebol italiano, a Serie A voltou a apresentar um nível técnico bastante razoável, muitas vezes bom, em grande parte da competição. O caminho para a reviravolta que pode estar em curso atravessa toda a Serie A e passa, primeiramente, por duas variáveis, comuns a todas as equipes do país: hoje, se gasta menos e melhor na Itália, porque os times melhoraram sua rede de olheiros, em virtude da crise e do pouco lucro que as equipes obtém de marketing, venda de produtos do clube e com estádios vazios e problemáticos. E, além disso, se investe mais em jovens em todas as esferas, dos grandes aos menores clubes. A valorização destes atletas tem gerado frutos dentro e fora de campo para as equipes e até mesmo para a seleção italiana, que tem se rejuvenescido com Cesare Prandelli.

De acordo com número levantado por Braitner Moreira, até agora, 53 atletas sub-21 tiveram ao menos um jogo como titular no campeonato. 25 desses jovens fizeram ao menos dez partidas – sete deles são italianos e nenhum está na seleção de Prandelli. O número não é dos mais altos, mas devemos relativizar o conceito de juventude na Itália, como sempre fazemos.

Claro, nem sempre estamos falando de jogadores tão jovens, mas para os padrões do que vinha sendo o futebol italiano é importante ressaltar que o uso de medalhões tem diminuído. Contratar ou jogar pelo nome ou pela idade na Serie A tem sido cada vez mais difícil e os clubes tem percebido isso, dando mais espaço a jogadores mais jovens ao invés de medalhões sem a qualidade necessária – especialmente entre os times que brigam contra o rebaixamento, costumeiramente afeitos a buscar nomes “com experiência de Serie A”, sem primar pela técnica. Com isso, a utilização de atletas menores de 25 anos tem sido muito maior do que nos anos 90 e eles chegam a compor, em boa parte dos casos, 50% dos elencos do certame. Cada vez menor é o número de atletas que superam os 30.

Hoje, formar atletas tem feito parte da política dos maiores clubes, que ou os utilizam ou os negociam com equipes menores, em troca dos seus destaques – nem sempre é a melhor opção, mas é um expediente que tem servido na Serie A. Historicamente, as categorias de base de Atalanta, Fiorentina, Inter, Juventus, Lazio, Milan, Sampdoria e Torino estão entre as melhores da Europa. Atualmente, outros times, como Chievo, Genoa, Parma e Udinese também tem formado talentos, sejam italianos ou jovens observados muito cedo fora do país.

A média de idade do campeonato, 25,68, tem caído nos últimos anos, se aproximando das médias dos outros campeonatos de ponta europeus – Bundesliga e La Liga tem as menores, com pouco mais de 25. Entre os grandes times europeus, destacam-se as médias de Borussia Dortmund (24,69), Bayern Munique (25,15), Arsenal (24,61), Tottenham (24,56), Liverpool (24), Real Madrid (24,96) Barcelona (25,66) e Atlético Madrid (25,21). Manchester United e Manchester City, mais velhos, atingem quase os 27. 

Na Itália, o elenco mais velho é o do Verona (27,19) e o mais novo é o da Sampdoria (23,97). Dentre os grandes, o mais velho é o do Napoli, com quase 27, enquanto Inter e Juventus superam os 26, mas devem se rejuvenescer em breve, com a saída de medalhões. Milan, Fiorentina e Roma superam, por pouco, os 25 – veja a lista completa aqui. Através do ótimo Transfermarkt, apuramos que, na década seguinte à explosão da bolha financeira e com o Calciopoli, boa parte das equipes escalou o seu onze inicial mas velho da história – com média de idade superior a 31 anos em muitos casos. 

Após 2010, a tendência se inverteu: as médias das equipes, em alguns casos, caíram para 22 a 24 anos. Um bom indício da mudança de mentalidade, em parte forçada, dos gestores. Hoje, jogadores sub-21 como Pogba, Icardi, Kovacic, De Sciglio, Berardi, Bardi, Perin e Romagnoli são titulares ou flertam com o onze inicial em seus clubes. Alguns ocupam papeis importantes. Se estendermos a lista até os menores de 25, veremos que entre os destaques da Serie A, grande parte não ultrapassa esta faixa.

Se isto vai permanecer nos próximos anos, apenas a manutenção e aprimoramento das políticas de formação, observação e menores custos vão dizer. As mudanças, ao menos, estão acontecendo e essas atitudes, atreladas a novos investimentos que aportam na Serie A – inicialmente nos grandes clubes – e trazem consigo a renovação de estádios ou construção de novas arenas pode ajudar a tirar o futebol italiano do marasmo e da falta de títulos internacionais. O processo é longo, ainda diremos algumas vezes “agora vai!” e não teremos resultado, mas a Itália está tentando diminuir o abismo para as outras ligas.

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