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Karl Aage Hansen, um dos vikings que abrilhantaram a Serie A na década de 1950

Historicamente, os vikings ficaram conhecidos como povos guerreiros que viviam na região da Escandinávia, que abrange principalmente o que conhecemos hoje como Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia, Islândia e Ilhas Faroé. Ótimos navegadores, esses povos organizaram uma série de incursões durante a Idade Média para a Europa cristã, invadindo Inglaterra, França e outras localidades, com o propósito de pilhagem, assentamento agrário e até comércio.

O futebol italiano do século XX mostrou que o sangue invasor, mesmo que no esporte, permaneceu nas veias nórdicas, pois o que se viu foi uma profusão de jogadores escandinavos que rumaram para as principais agremiações da Velha Bota, principalmente a partir do fim da década de 1940. Um dos pioneiros foi Karl Aage Hansen, que teve destacada participação na Juventus do início dos anos 1950 e foi medalhista olímpico com a seleção dinamarquesa. Se os guerreiros escandinavos gostavam de pilhar e saquear, Hansen redimiu seus antepassados ao entregar um atuações vistosas e um grande título para a equipe bianconera.

A opção pelo futebol e a liderança na Dinamarca da década de 1940

Hansen nasceu em 1921, na cidade de Mesinge, Dinamarca. Próximo dali, na capital Copenhagen, o jovem dedicou sua juventude à prática de diversos esportes. Praticou decatlo – que inclui dez modalidades de atletismo –, fez ginástica e jogou handebol, desporto em que foi campeão nacional pelo HG e chegou até a seleção de seu país. Entretanto, a preferência do nórdico ficou mesmo com o futebol e ele já demonstrava isso quando, em 1939, saiu do clube esportivo KFUM para jogar pelo Akademisk Boldklub, agremiação que tinha mais visibilidade. No AB, ele teria mais chances de ser convocado para a seleção dinamarquesa de futebol.

A prática poliesportiva levou o escandinavo a desenvolver um porte físico robusto e grande capacidade atlética e técnica, o que lhe ajudaria a se promover nacionalmente no futebol. Pelo AB, faturou três campeonatos dinamarqueses na década de 1940, ainda em uma época de um amadorismo reforçado pelo fato de o país ter sido ocupado militarmente pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. O meio-campista central de bom drible, visão de jogo e excepcional finalização acumulou brilhantes atuações e ganhou uma vaga na seleção já em 1943, quando estreou numa vitória por 3 a 2 contra a Suécia, em amistoso.

A partir daquele clássico, a sua presença na seleção se tornou cada vez mais frequente. Dos 15 amistosos que os escandinavos disputaram entre 1945 e 1947, ele esteve presente em 14, com um aproveitamento inacreditável: fez 13 gols nesse período e foi capitão em 13 ocasiões. Números absurdos que aumentaram na última partida de preparação para os Jogos Olímpicos de 1948, contra a Polônia, a qual a Dinamarca massacrou com o placar de 8 a 0, com dois tentos anotados por Hansen.

Naqueles amistosos, o meio-campista desfilou com facilidade atlética sem a bola, sabendo exatamente quais espaços ocupar, fosse para gerar jogadas de ataque ou para ajudar na defesa, como um verdadeiro viking do medievo, perito na espada e no escudo com a mesma destreza. Com a pelota em seus pés, demonstrou técnica o bastante para se tornar meia-atacante nos lances ofensivos e com a fina capacidade de fazer gols. Iniciava também a sua fama de operário: um futebolista que, apesar de ter bastante talento, desempenhava um estilo menos individualista e mais voltado para fazer o coletivo funcionar, com passes e criatividade acima da média.

Já no início da Olimpíada de 1948, sediada em Londres, Karl mostrou ao mundo do que era capaz em um evento de visibilidade mundial. Justo a primeira competição internacional de grande porte realizada após o término da guerra. Jogando como meia-atacante e encostando nos quatro homens de frente – John Hansen, Karl Aage Praest, Knud Lundberg e Johannes Plöger –, formou um belo quinteto ofensivo, o qual ele mesmo comandou na estreia contra o Egito.

A partida terminou com triunfo dinamarquês por 3 a 1, mas foi bastante tensa e só foi decidida na prorrogação, com Karl Aage Hansen fazendo os dois primeiros gols nórdicos, um no tempo normal e o outro no extratime. Um deles, uma pintura, em jogada de grande habilidade individual, surgiu com um drible no meio-campo e só terminou com a bola na meta do arqueiro egípcio. Um lance que deixava claro que se o coletivo de que tanto gostava não funcionasse, ele também tinha recursos técnicos para resolver sozinho.

Aage Praest, Pilmark, Hansen, Jensen e Aage Hansen: os dinamarqueses se encontram em duelo entre Bologna e Juve (Danske Gladiatorer i Serie A)

Com uma bela exibição na estreia, Karl consolidou a sua posição de líder e de jogador mais importante daquela seleção olímpica, treinada pelo inglês Reginald Mountford – feito notável para quem atuava ao lado de colegas do nível de Hansen e Aage Praest. O ponto em que sua trajetória se mescla ao futebol italiano foi originado na fase seguinte, nas quartas de final, contra a Itália. Naquela partida, o maestro escandinavo capitaneou a grande vitória da sua seleção sobre os azzurri pelo placar de 5 a 3, dessa vez utilizando de seu estilo mais cerebral e criativo, arquitetando os passes no meio. Na frente, o destaque ficou para John Hansen, que anotou incríveis quatro gols.

Aquele encontro e o talento da geração dinamarquesa ficaram tão marcados na memória dos italianos que, já a partir de 1948, vários jogadores daquela seleção foram contratados por clubes da Bota. A Itália foi o destino do zagueiro Dion Örnvold, que foi para a Spal em 1951; dos meias Axel Pilmark e Ivan Jensen, que se dirigiram ao Bologna em 1950; do atacante Jorgen Leschly Sorensen, que chegou à Atalanta em 1949; e dos também avançados John Hansen, Plöger e Praest, que foram contratados pela Juventus em 1948 (caso dos dois primeiros) e em 1949, respectivamente. O próprio Karl chegaria ao time do Piemonte em 1950.

Antes disso, a Dinamarca avançava nos Jogos de Londres. Nas semifinais, a seleção alvirrubra encontrou a rival Suécia, que também possuía uma brilhante geração, simbolizada pelo forte trio ofensivo Gre-No-Li, composto pelos atacantes Gunnar Gren e Gunnar Nordahl e pelo cérebro da trinca, o meio-campista Nils Liedholm – em 1949, eles também rumariam à Itália para formarem um histórico tridente de ataque no Milan. Os dinamarqueses foram a campo animados, mas sofreram um pesado revés ao longo da partida: a contusão de Karl Hansen. Na época, não existiam substituições, o que levou o meia a permanecer no gramado mesmo lesionado. O resultado foi o triunfo sueco por 4 a 2, que levaria os azuis e amarelos para a final (e o ouro) diante da Iugoslávia.

A Dinamarca finalizou sua participação no torneio contra os donos da casa e fez bonito. Mesmo sem seu craque, ainda lesionado, derrotou os ingleses por 5 a 3 e consagrou sua ótima geração com a medalha de bronze olímpica. Ao final dos Jogos, Karl Praest e Karl Hansen foram considerados os dois melhores alvirrubros e chamaram a atenção dos clubes italianos e ingleses. Hansen ainda defendeu a seleção em duas partidas amistosas antes de ser contratado pelo Huddersfield Town para iniciar sua trajetória no futebol profissional inglês – o que significava um adeus a sua seleção, que só convocava jogadores que atuavam no campeonato amador dinamarquês. Encerrava-se assim um ciclo que resultou em 22 aparições e 17 gols, além da própria medalha conquistada em Londres.

Desembarcando em território italiano

Antes de chegar ao Belpaese, Hansen jogou a temporada 1948-49 pelo Huddersfield e ajudou o time inglês a se livrar do rebaixamento para a segunda divisão, disputando 15 partidas e anotando três tentos. Entretanto, já após o fim da campanha, o Milan quis contratá-lo, mas ficou impossibilitado porque já tinha três estrangeiros em seu elenco – exatamente os suecos do Gre-No-Li. Quem ganhou foi a Atalanta, que estava de olho no escandinavo havia algum tempo e aproveitou a chance de levar o meio-campista para fazer parte do elenco treinado por Giovanni Varglien e que já contava com Sorensen, parceiro de Karl na façanha olímpica.

Parecendo ter encarnado em seu espírito o frio do inverno nórdico, já na estreia pelo Campeonato Italiano, o dinamarquês não sentiu a pressão e deu o tom do que seria a sua temporada na equipe nerazzurra, marcando uma tripletta na vitória contra o Bologna, por 6 a 2. Nas seis rodadas que se seguiram, Hansen marcou seis gols, registrando até a sétima partida uma média de mais de um tento por jogo, ratificando que era mesmo um meia que sabia chegar ao ataque.

Dessa forma, o escandinavo foi ganhando de vez a simpatia dos dirigentes e da torcida da Dea, com as suas atuações abrilhantadas pelo entrosamento que tinha com o atacante Sorensen, que sempre deixava seus tentos também. Hansen terminou a temporada com 18 e o seu parceiro com 17, dando uma ideia do quanto a dupla foi fundamental para entregar aos orobici um desempenho bastante seguro no campeonato: a Atalanta concluiu o certame na oitava posição. Juntos, totalizaram 35 dos 66 gols feitos pelo time de Bérgamo na Serie A de 1949-50.

Aage Praest, Aage Hansen e Hansen: o trio de dinamarqueses em viagem de trem nos tempos de Juventus (Fabbri Editori)

A grande pilhagem: o viking conquista o scudetto pela Velha Senhora

A ótima temporada feita por Hansen na Atalanta não deixou de chamar a atenção da Juventus, que estava atrás de um terceiro estrangeiro para compor o seu elenco e substituir o meio-campista ítalo-argentino Rinaldo Martino, que já não agradava. Essenciais para a vinda do escandinavo para a Velha Senhora foram as mediações dos amigos olímpicos que já estavam Turim e tinham sido campeões italianos em 1949-50. Praest e John Hansen convenceram os dirigentes dos bianconeri a levarem a terceira ponta do tridente dinamarquês para Turim, o que de fato aconteceu em 1950.

A temporada 1950-51 foi uma verdadeira batalha entre descendentes de vikings pelo scudetto. O Milan tinha o Gre-No-Li e o clube do Piemonte, treinado pelo inglês Jesse Carver, tinha o trio dinamarquês, além de Ermes Muccinelli e do ídolo Giampiero Boniperti. A Inter também tinha contratado o seu escandinavo: o sueco Lennart Skoglund, que chegou para se somar ao artilheiro magiar da Beneamata, István Nyers.

O que se viu na Serie A daquela temporada foi um atropelo dos três gigantes do norte sobre as outras adversárias. Aage Hansen foi o destaque da equipe piemontesa, sendo o seu artilheiro no campeonato, com 23 gols e feitos memoráveis. Pode-se citar a doppietta em cima da Pro Patria em um triunfo avassalador pelo placar de 7 a 0, já na estreia; uma tripletta marcada contra a Roma em um 7 a 2; e o poker sobre a Sampdoria noutro 7 a 2. Entretanto, nos duelos diretos contra seus principais concorrentes ao título, a Juve não venceu: perdeu nos dois turnos para a Inter e, contra o Milan, somou um empate e uma derrota.

Esses resultados fizeram a diferença no final: a Velha Senhora terminou na terceira posição, com seis pontos a menos que o vitorioso Milan. A tabela sinaliza o quanto a disputa pelo título foi desbalanceada. O clube rossonero da Lombardia marcou 107 gols, mesmo número da Inter vice-campeã, enquanto a Juventus fez 103. A quarta equipe com mais bolas nas redes foi a Lazio, que fez apenas 64. Um abismo separava os times.

Ao fim da temporada, a gigante de Turim foi convidada para mais um torneio, a Copa Rio de 1951, organizada pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD), a ser disputada no Maracanã e no Pacaembu. Era o primeiro torneio intercontinental realizado até então e previa, a princípio, a participação dos clubes vencedores dos certames nacionais dos seis países de melhor desempenho na Copa de 1950, além dos campeões estaduais de Rio e São Paulo.

O representante italiano deveria ser o Milan, que recusou o convite, pois já iria jogar a Copa Latina, competição continental europeia organizada pela Fifa. Automaticamente, a Juve assumiu a vaga por ter sido a campeã italiana em 1950 e isso também aconteceu com os representantes de outros países, como a Áustria ou a Inglaterra, que nem enviou clube algum.

Em solo brasileiro, o viking fez o que lhe era de costume e esbanjou qualidade nos jogos: disputou todos, sendo decisivo na maioria deles. Aage Hansen foi autor de passe direto para o gol de Pasquale Vivolo na vitória por 3 a 2 sobre o Nice; converteu o pênalti que colocou os bianconeri à frente no 3 a 2 contra o Estrela Vermelha; e anotou mais um tento na terceira partida da fase de grupos, realizada contra o Palmeiras em pleno Pacaembu, com mais de 37 mil pessoas no estádio. Karl, novamente em cobrança de penalidade, fez o terceiro de uma goleada por 4 a 0 sobre o alviverde paulista.

Sob o comando dos dinamarqueses e do artilheiro Boniperti, a equipe de Turim passou tranquilamente na liderança do grupo e foi à semifinal contra o Austria Vienna, empatando a partida de ida em 3 a 3 e vencendo a volta por 3 a 1. Na final, houve o reencontro com o Palmeiras. A primeira peleja terminou com magra vitória palmeirense e o jogo de volta da decisão, empatado em 2 a 2, o que deu a taça aos brasileiros. A Copa significou para o time piemontês uma grande oportunidade de fazer uma boa pré-temporada e preparar o elenco para o principal objetivo, que seria conquistar o título do próximo Italiano.

Ao fim da carreira, Aage Hansen se tornou ídolo do Catania (Arquivo/Catania)

Quando a jornada de 1951-52 teve início, Karl já tinha 30 anos, com muita experiência e, sobretudo, vontade de conquistar um título enquanto profissional – o que aconteceu exatamente nessa temporada. Dono do meio-campo, Aage Hansen atuava como o regista da esquadra agora treinada por Luigi Bertolini e que, na metade do campeonato passaria a ser comandada pelo húngaro György Sárosi.

Correndo grandes distâncias e sempre criando oportunidades para os companheiros com seus belos passes, ele foi o cérebro do time que conquistou o scudetto naquela oportunidade. E, claro, sempre descolava espaço para os seus gols: foram 12, incluindo um num acachapante 6 a 0 sobre o Torino. A sua grande técnica, aliada à imposição física, fizeram com que Boniperti, o grande ídolo juventino do período, dedicasse palavras elogiosas a Aage Hansen em entrevista ao jornalista Vladimiro Caminiti. O craque resumiu em poucas palavras a relevância do escandinavo para o funcionamento do coletivo bianconero: “Karl podia muito bem jogar três partidas em um dia”.

Ao fim, Hansen conseguiu ali a grande conquista da sua carreira e se sagrou campeão da Serie A italiana, naquele que representaria o seu primeiro e único título no futebol profissional. Ficou ainda mais uma temporada em Turim, mas ao fim de 1952-53, depois de 87 partidas oficiais e 38 gols pelos bianconeri, transferiu-se para a Sampdoria, ficando ele mesmo com o valor da transação.

Em Gênova, aos 32 anos, não conseguiu repetir o desempenho de antes em grande parte porque não tinha companheiros à altura. Aage Hansen era um jogador que fazia o coletivo funcionar, mas na Samp não encontrou um time tão cheio de opções quanto o da Juventus. Fez quatro gols em 29 aparições com a camisa blucerchiata na Serie A e ajudou a equipe a ficar com um oitavo lugar na liga antes de, outra vez, receber integralmente para si o valor de uma transferência. A nova aventura seria no Catania, recém-promovido à elite pela primeira vez na história.

No clube siciliano, o escandinavo foi mais longevo e fez uma boa campanha na Serie A de 1954-55, participando de 31 jogos e guardando dois gols – um deles contra a Juventus em um empate em 2 a 2. Os rossazzurri terminaram no 12º posto na tabela, mas se envolveram um esquema de manipulação de resultados, sendo punidos com o rebaixamento para a segunda divisão.

Aage Hansen ainda jogaria as duas temporadas seguintes pelo Catania na Serie B, totalizando 79 partidas pelos elefantes e seis gols. O craque conseguiu fazer o time brigar pelo acesso nas campanhas pela categoria, mas o retorno não aconteceu por muito pouco. Mesmo assim, Karl é considerado como um dos primeiros ídolos da história dos etnei.

Em 1957, então com 35 anos, o dinamarquês encerrou a sua carreira e retornou ao seu país natal, com a certeza de que tinha feito um bom estrago em Londres e uma ótima exploração em terras italianas, com uma boa reserva de dinheiro oriunda de suas transações. Além disso, conseguira os melhores saques possíveis, resultados de seu grande esforço e qualidade técnica no meio-campo: o título de campeão da Serie A com a Juventus e o reconhecimento de seus pares como um dos melhores jogadores do futebol italiano daquela época. Feitos que nem a sua morte, em 1990, pode apagar.

Karl Aage Hansen
Nascimento: 4 de julho de 1921, em Mesinge, Dinamarca
Morte: 23 de novembro de 1990, em Gentofte, Dinamarca
Posição: meio-campista
Clubes: Akademisk Boldklub (1941-48), Huddersfield (1948-49), Atalanta (1949-50), Juventus (1950-53), Sampdoria (1953-54) e Catania (1954-57)
Títulos: Campeonato Dinamarquês (1943, 1945 e 1947), Bronze Olímpico (1948) e Serie A (1952)
Seleção dinamarquesa: 22 jogos e 17 gols

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