Mercado

Os mercenários

Sem pancadaria ou explosões, Aquilani e Ibrahimovic
esquentaram o mercado na Itália (Getty Images)

Tanto Alberto Aquilani quanto Zlatan Ibrahimovic não se deram bem em seus últimos desafios. O primeiro, ex-Roma e grande promessa italiana há tempos, continuou perseguido por problemas físicos e não se firmou num Liverpool decepcionante. O sueco, por sua vez, deixou a Inter almejando a Liga dos Campeões e, além de não tê-la conquistado, viu sua antiga equipe levantar o troféu máximo do continente europeu. Como se não bastasse, caiu diante dos nerrazzurri nas semifinais do torneio. Uma temporada depois, ambos estão de volta à Itália, mas não ao mesmo lugar de onde partiram: o meio-campista acertou com a Juventus, enquanto Ibra é o mais novo (e festejado) reforço do Milan.

Em Hollywood, que pouco se importa ou tem a ver com o futebol italiano, o filme Os Mercenários, lançado no meio de agosto, reuniu grandes nomes. Sylvester Stallone, Jet Li, Bruce Willis e até Arnold Schwarzenegger fizeram parte do elenco, numa produção que custou aproximadamente 80 milhões de dólares. Quem valeu (um pouco) mais que todo o filme foi Ibrahimovic: o Barcelona pagou sessenta e cinco em seu passe, e também cedeu Samuel Eto’o, avaliado em vinte. Já Aquilani foi uma negociação modesta, se comparada à do então interista: 20 milhões de euros tiraram-no da Roma para substituir Xabi Alonso nos Reds. Ao contrário dos dois jogadores, Mercenários parece dar retorno, não obstante o fato de ser mais um desses filmes cheios de pancadaria e explosões.

Embora o sueco seja conhecido por seu caráter questionável, não dá para negar a sua ligação com a Inter. Foi lá que, guiado por Roberto Mancini (e depois José Mourinho), encontrou-se na Itália; visto que suas duas temporadas na Juve não haviam convencido por completo. Em alguns momentos delicados, Ibra chegou a carregar a Inter nas costas, atingindo seu ápice na temporada 2008-09, quando marcou 25 gols e terminou artilheiro da Serie A. Seu time, porém, foi campeão nacional, algo que já havia virado (e continua sendo) rotina. Aí, vendo o Barcelona levar a tríplice coroa, o atacante não se segurou e rumou à Catalunha em busca do mesmo sucesso.

Seria injusto dizer que sua experiência blaugrana foi um fracasso total, mas é inegável que, caso tivesse obtido êxito, jamais encerraria seu ciclo assim; negociado da maneira que acabou sendo. Ibrahimovic foi emprestado gratuitamente ao Milan, com um direito de compra fixado em aproximadamente 30 milhões de dólares. Ou seja, em um ano, em uma temporada, a valoração do jogador caiu de quase 90 para 30 milhões. Se não representa uma queda absurda no mercado, é, então, no mínimo bastante estranho.

A relação de Aquilani com a Roma, se comparada com a aquela entre Ibra e Inter, era mais sentimental do que funcional: chamado de Príncipe em Trigoria, ele nasceu na capital e cresceu nas categorias de base do clube. Valorizado, sempre recebeu muita estima por parte dos torcedores e da mídia. Todavia, constantes problemas físicos atrapalhavam sua manutenção no elenco, e o meio-campista não era capaz de manter a titularidade. Considerado inegociável pela diretoria, foi vendido num momento em que os giallorossi precisavam de dinheiro, e ele de uma nova tentativa.

Os mesmos problemas acompanharam-no em Liverpool: Aquilani só reuniu condições de iniciar partidas no fim do primeiro turno. Como resultado, passou o pior ano de sua carreira na pior temporada do clube desde 1998-99, quando também não ganhou nada e terminou em sétimo. Seu empréstimo à Juve também foi gratuito, enquanto seu valor de compra caiu em quatro milhões de euros.

Classificar os dois jogadores como mercenários é um exagero oportunista. Não foi pelo dinheiro que Aquilani e Ibrahimovic decidiriam voltar à bota – até porque i soldi não são um problema para a dupla. Com a chegada de Roy Hodgson ao comando do Liverpool, o italiano não teve a paciência de esperar outra temporada na Inglaterra e, com cada vez mais pressa, corre para fazer seu nome no futebol – ainda longe da consagração. Não só: ele foi excluído da primeira convocação de Cesare Prandelli, e um retorno à Itália certamente pode facilitar sua vida na Nazionale.

O sueco também teve seus motivos: o péssimo relacionamento com Josep Guardiola é uma boa razão para buscar uma transferência. Não se pode negar, para Ibrahimovic, o rancor de ver seu principal objetivo ser conquistado pela equipe que ajudou a montar, e que, contudo, abandonou. Isso certamente lhe deu motivação para defender o Milan. Alguém duvida? Pois em sua apresentação, o orgulhoso atacante afirmou, sem mais nem menos, que antes dele a Inter não havia vencido nada. Também retrucou o capitão Zanetti, que havia dito não estar surpreso com o destino de Ibra. Vale lembrar que esse tipo de declaração não costuma sair da boca do argentino.

Ambos chegam em seus novos clubes com responsabilidade. Desde já considerados titulares, Aquilani e Ibrahimovic terão a meta de esquecer seus passados recentes em equipes rivais, fazer seus torcedores – que radicalmente mudaram de um ano para outro – também esquecerem, e aproveitar a oportunidade de reerguer suas carreiras. Ambos têm um objetivo em comum, que é acabar com a hegemonia interista (nacional e agora europeia). Às antigas torcidas caberá a tradicional vaia, mas quem sabe se de uma dessas traições não surgirá um amor hollywoodiano, nem tão caro e tampouco explosivo.

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