Jogos históricos

Com intervalo de 27 anos, o Milan repetiu triunfo sobre o Benfica na conquista da Europa

Na transição entre os anos 1980 e 1990, o Milan atravessava um dos melhores períodos de sua história, com amplo sucesso em torneios continentais. O time comandado por Arrigo Sacchi era herdeiro de uma tradição iniciada com Nereo Rocco, que conquistou a Europa com seu catenaccio em 1963 e 1969, mas praticava um futebol bem diferente do preconizado por seu antecessor.

Sob o comando do Mago de Fusignano, o Diavolo tinha um vistoso estilo de jogo e, por isso, amealhava aficionados dentro e fora da Itália. O Milan de Sacchi, claro, também ganhava títulos: faturou a orelhuda em 1989 e, em maio de 1990, reencontrou o adversário de seu primeiro título de Copa dos Campeões, 27 anos após o primeiro duelo. Em Viena, encarava o Benfica em mais um embate que parou a Europa.

Gullit e Aldair foram destaques de seus times na final de Viena (Arquivo/Uefa)

O sucesso do Milan e as ideias de Sacchi

Os anos 1990 foram mágicos. Não apenas pela popularização da internet ou pelos avanços tecnológicos, mas também para os torcedores italianos que vestiam vermelho e preto. O time do Milan era sólido da zaga ao ataque e, como o próprio “Diavolo”, virou um pesadelo para os outros clubes europeus. Além disso, um treinador histórico comandava a equipe e, junto com seu elenco, foi o artífice de uma verdadeira revolução no futebol através de uma marcante disciplina tática.

O elenco rossonero também ficou conhecido como um dos melhores, ou até o melhor, da história do clube. No gol, se encontrava o veterano Giovanni Galli, tricampeão mundial com a Itália, em 1982. A defesa tinha Franco Baresi, o líbero, e Alessandro Costacurta, e se completava com Mauro Tassotti e um jovem em ascensão, chamado Paolo Maldini, pelas laterais. O meio era compacto, com o quarteto formado por Carlo Ancelotti, Alberico Evani, Roberto Donadoni (ou Angelo Colombo) e Frank Rijkaard, integrante do trio holandês. No pelotão de frente, e completando o tridente neerlandês, os frios e calculistas Marco van Basten e Ruud Gullit formavam um ataque forte e responsável pela lamentação dos zagueiros adversários.

Porém, não existe time sem uma cabeça pensante por trás, prevendo movimentos e decidindo a melhor estratégia. O homem escolhido para comandar a máquina italiana foi Sacchi, que contrariava a ideia de defesa como principal arma, ditada pelo catenaccio. O seu Milan era ofensivo e buscava oportunidades fortes no ataque para surpreender e obrigar o adversário a se adaptar dentro de campo.

Foi com este novo paradigma de futebol que o Milan derrubou um jejum de 20 anos e voltou a erguer a orelhuda, em 1989. Na temporada 1988-89, o time fez uma campanha brilhante e, com direito a goleadas sobre Real Madrid e Steaua Bucareste, levantou a Copa dos Campeões pela terceira vez. Em 1989-90, com esta mesma base vitoriosa, o Diavolo reencontrou o Benfica, seu velho adversário.

No segundo tempo, Rijkaard marcou o gol da vitória do Milan com uma jogada de inteligência tática (Arquivo/Uefa)

A volta de uma figura notável

Após a derrota para o Milan, na Copa dos Campeões de 1962-63, o Benfica viveu um jejum de títulos internacionais – para os supersticiosos, era obra da maldição de Béla Guttmann. O clube português, que conquistou o bicampeonato no começo dos anos 1960, chegou a outras finais, mas ainda não tinha repetido a dose das glórias vividas no passado. O time era diferente, sem o faro de gol de Eusébio ou o comando do chileno Fernando Riera.

O elenco benfiquista, que sofrera com a saída do importante Mozer, havia sido reforçado pelo também brasileiro Aldair, que fazia dupla de zaga com o compatriota Ricardo Gomes – mais à frente, Valdo era o principal criador. No entanto, a estrela estava no banco: no fim da década de 1980, o treinador Sven-Göran Eriksson, campeão da Copa Uefa pelo IFK Göteborg, voltou à Luz com o intuito de mudar a história do clube.

Em sua primeira experiência pelo clube português, de 1982 a 1984, o sueco tinha levantado dois troféus da Primeira Liga, o campeonato nacional, e uma Taça de Portugal. O objetivo, dessa vez, era devolver os encarnados às glórias internacionais, que ficaram próximas na Copa dos Campeões de 1987-88, perdida para o PSV Eindhoven, nos pênaltis. A final de 1990 era a sétima do Benfica em sua história e o time de Lisboa tinha um trunfo na figura de Eriksson: Svennie havia treinado a Roma por três anos e enfrentado o Milan de Sacchi no biênio em que comandou a Fiorentina, entre 1987 e 1989. Portanto, conhecia bem o adversário.

Os caminhos até a final

Na temporada 1988-89, o Milan teve a competência de trilhar um caminho altivo, eliminando obstáculos sem dificuldades excessivas. Antes de golear o Steaua Bucareste na decisão, os rossoneri se impuseram ante Vitosha Sofia, Werder Bremen e Real Madrid. O osso duro de roer foi o Estrela Vermelha, nas oitavas de final – o Diavolo avançou nos pênaltis. Mesmo assim, foi campeão invicto.

Em 1989-90, no entanto, a trajetória rossonera teve grandes percalços. Nas duas primeiras fases, o Milan passou por HJK Helsinki e Real Madrid, acumulando sua primeira derrota para os merengues – 1 a 0 na volta, após triunfo por 2 a 0 em San Siro. O Diavolo teve, contudo, sérias dificuldades para superar Mechelen e Bayern Munique: as duas partidas foram levadas à prorrogação. Nas semifinais, o time italiano perdeu por 2 a 1 na Alemanha, mas avançou por conta do gol qualificado, anotado por Stefano Borgonovo.

Do outro lado, o Benfica passou por Derry City, Honvéd e Dnipro com tranquilidade. O seu grande desafio foi vencer o Marseille, que tinha a gestão do presidente Bernard Tapie e iniciava o período mais glorioso de sua existência. O time francês foi eliminado pela regra do gol fora de casa: venceu em casa por 2 a 1 e perdeu em Lisboa por 1 a 0.

Relembrando 1963, quando o Milan quebrou a boa sequência do Benfica e impediu os encarnados de conquistarem o tricampeonato, o time português chegava forte e tinha chances concretas de finalmente voltar ao topo do futebol europeu. Porém, teria pela frente um adversário que brincava de empilhar taças e queria mais.

27 anos depois de Cesare Maldini levantar a taça contra o Benfica, Baresi conseguiu o feito diante do mesmo rival (Arquivo/Uefa)

O jogo

Diante de cerca de 57,5 mil pessoas, Milan e Benfica batalharam no Praterstadion, atual Ernst-Happel-Stadion, em Viena. As expectativas pairavam no ar da capital da Áustria e só cresciam na medida em que se aproximava o pontapé inicial entre dois times vencedores, mas em patamares diferentes naquele momento.

O Milan era brilhante, mas enfrentava um adversário à altura. A principal arma do arsenal português era a velocidade que Pacheco impunha pelo flanco esquerdo, numa tentativa do Benfica de se desvencilhar do congestionamento pelo centro, provocado principalmente pela movimentação incansável de Baresi. Do outro lado, Aldair fazia algo similar ao que propunha o italiano e segurava Van Basten. O holandês teve apenas uma chance na etapa inicial, ao receber de Tassotti na meia-lua, usar o corpo para se livrar da marcação e finalizar para a boa defesa de Silvino.

A bola não chegava da melhor forma para Gullit e Van Basten, de um lado, e para Mats Magnusson, do outro, tendo em vista que os dois times sabiam se defender e os espaços estavam ficando curtos. Assim, o Benfica arriscava finalizações de fora da área, mas não incomodava Galli.

Depois de uma etapa inicial sem muita inspiração ofensiva dos times, o segundo tempo entregou as maiores emoções da partida – apesar de poucas chances claras. Na primeira delas, Van Basten fez o pivô e Gullit, ao se infiltrar pela marcação, recebeu para finalizar e parar em Silvino. Através do contra-ataque, o Milan voltou a levar perigo: o Benfica teve escanteio afastado, Ancelotti recuperou a bola dentro da área e saiu jogando pelo lado direito. Na sequência do lance, Silvino saiu da sua baliza para se antecipar a Gullit, que arrancava em velocidade.

Insistência gera resistência e foi isso que garantiu a vitória ao Milan. Se a pontaria de Van Basten e a postura de Gullit não eram suficientes para chegar ao gol, o bom posicionamento do terceiro integrante do trio holandês trouxe o triunfo. Costacurta fez a leitura do jogo e encontrou Van Basten fora da grande área, puxando a marcação. Ao fazer esse movimento, o atacante já via Rijkaard passando em velocidade: então, assim que recebeu a bola, tocou de primeira para o camisa 8 sair no mano a mano com Silvino e levar a torcida rossonera ao êxtase, com uma finalização com a parte externa do pé direito.

Apesar das tentativas do Benfica, nem Galli nem a defesa rubro-negra pareciam dispostos a largar a vantagem. O Milan, por sua vez, ficou perto de ampliar com Gullit, mas o atacante acabou desperdiçando uma boa chance ao não aproveitar um erro da zaga e finalizar por cima da meta benfiquista.

Quando o árbitro alemão Helmut Kohl apitou, ao fim dos 90 minutos, um filme se passou na cabeça daqueles que acompanharam o primeiro triunfo rossonero sobre os portugueses, 27 anos antes – ainda que o jejum de duas décadas sem títulos da maior competição continental de clubes tenha sido quebrado na temporada anterior. Os torcedores que viram o Milan superar o Benfica em Londres, em 1963, podiam chamar os encarnados de fregueses e transmitir a felicidade aos mais jovens, que ainda não estavam vivos quase Cesare Maldini levantou a orelhuda em Wembley.

Milan 1-0 Benfica

Milan: G. Galli; Tassotti, Costacurta, Baresi, Maldini; Colombo (F. Galli), Ancelotti (Massaro), Rijkaard, Evani; Van Basten, Gullit. Técnico: Arrigo Sacchi.
Benfica: Silvino; José Carlos, Ricardo Gomes, Aldair, Samuel; Hernâni; Vítor Paneira (Vata), Valdo, Thern, Pacheco (César Brito); Magnusson. Técnico: Sven-Göran Eriksson.
Gol: Rijkaard (68’)
Árbitro: Helmut Kohl (Alemanha)
Local e data: Praterstadion, Viena (Áustria), em 23 de maio de 1990

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