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O arrependimento de Christian Ziege: de destaque na Alemanha à disputa de posição no Milan

Christian Ziege foi um dos principais laterais-esquerdos do futebol europeu na década de 1990. Jogava como ala ou até mesmo mais avançado, como um meia mais aberto, chegando com muita força ao terço final do campo. Uma de suas principais características era um venenoso arremate, que lhe permitia furar bloqueios e vencer goleiros com arremates potentes. A boa batida na bola se estendia às assistências e era comum vê-lo dar passes para seus companheiros marcarem. Consolidado na Alemanha, correu atrás de um desejo que tinha desde pequeno: atuar na Itália. O tiro, contudo, saiu pela culatra.

Produto de uma Berlim dividida

Ziege nasceu na parte ocidental de uma Berlim dividida pela Guerra Fria. Durante a infância, costumava jogar futebol na frente do Muro de Berlim depois da escola, mesmo que isso significasse perder algumas bolas que fossem chutadas para o outro lado. Chegou a tentar se arriscar na posição de goleiro, mas logo viu que não daria certo e passou a ter uma predileção por atuar na faixa canhota do campo, como lateral-esquerdo.

Foi jogar na base do Hertha Zehlendorf, clube situado nas imediações da cidade. Quando completou 18 anos, acertou com o gigante Bayern Munique, seu primeiro desafio como atleta profissional. Ziege estreou pelos Roten em 1990, se tornou titular a partir da temporada seguinte e, em 1993, passou a ter espaço na seleção alemã. O troféu que inaugurou as suas conquistas foi o da Bundesliga, em 1994.

Na Baviera, foi comandado por Giovanni Trapattoni, em 1994-95. Ao italiano, Ziege sempre fez questão de expressar gratidão pela ajuda prestada para seu desenvolvimento. “Ele mudou completamente as sessões de treinamento e a sua duração. Nós tínhamos muitos treinos táticos longos, para saber por que as coisas acontecem em campo – se você faz isso ou aquilo. Obviamente isso leva tempo, mas aprendi muito com ele”, afirmou.

Em 1996, estabelecido como nome constante nas convocações para a seleção alemã, disputou a Eurocopa. A Alemanha se sagrou campeã ao bater a Chéquia na final, com Ziege, melhor de sua posição no torneio, sendo o responsável pela assistência – um cruzamento certeiro – para Oliver Bierhoff igualar o placar no tempo normal. Na prorrogação, o atacante voltaria a ser decisivo ao marcar o gol de ouro, que garantiu o triunfo por 2 a 1.

Aos 25 anos, em pleno auge físico e técnico, buscou novos desafios. Desde criança, ele tinha três sonhos: atuar e ser campeão pelo Bayern (cumpriu), ser convocado para a seleção e erguer um troféu importante (igualmente cumprido) e, por fim, atuar no futebol italiano, algo que ele também iria concretizar. Em virtude das boas exibições que teve ao longo do título europeu, Ziege foi cortejado por alguns clubes. Teve conversas com Sir Alex Ferguson, treinador do Manchester United, e esteve nos radares de Milan, Juventus, Barcelona, Atlético de Madrid e Newcastle.

Dificuldades em Milão

No fim, optou por assinar com o Milan, que buscava apagar a imagem negativa que havia ficado no ano anterior, quando terminou a Serie A na 11ª colocação. Algo que o motivou a fechar com o Diavolo foi a admiração que passou a nutrir pelo clube, ainda jovem, ao assistir à histórica geração que contava com os holandeses Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Marco van Basten. Em sete temporadas na Alemanha, disputou 185 partidas, anotou um elevado número de gols (35) para um jogador de defesa, foi bicampeão alemão e venceu uma Copa Uefa.

Com a vinda do mais novo reforço, os rossoneri, que contavam com ninguém mais ninguém menos do que Paolo Maldini para o setor, ganhavam uma opção capaz de oferecer alternativas ofensivas. A expectativa para sua chegada era grande. Muitos já consideravam que Maldini seria deslocado para o centro de defesa, mas Fabio Capello, treinador do Milan, o moveu para a lateral direita, promovendo a entrada de Ziege no primeiro compromisso pela Serie A, em um empate em 1 a 1, fora de casa, contra o Piacenza.

Após o sucesso na Alemanha, Ziege chegou ao Milan com todas as condições de fazer sucesso (imago/Baering)

O resultado foi decepcionante, mas Ziege deixou uma boa primeira impressão justamente por conta de suas principais credenciais: a capacidade de subir ao ataque em boas condições. Foi assim que nasceu o gol rossonero, quando ele recebeu bom passe de Marcel Desailly na ponta esquerda e cruzou buscando Zvonimir Boban. No meio do caminho estava Daniele Delli Carri, zagueiro dos papaveri, que desviou contra o próprio patrimônio. O beque foi às redes novamente na segunda etapa, mas desta vez a favor de sua equipe.

Nem sempre a primeira impressão é a que fica. A passagem de Ziege pelo Milan ilustra bem isso. Nas partidas seguintes, o lateral-esquerdo começou a apresentar inconsistência defensiva, cometendo algumas falhas e sendo advertido com cartões amarelos considerados infantis; na Itália, diziam que não havia domingo que ele não passasse sem ser advertido. De elogiado a criticado, conviveu com ironias em relação a seu sobrenome, visto que “Ziege”, em alemão, significa “cabra”, ou “goat”, em inglês. Sobre Maldini, o germânico chegou a declarar que nunca viu o capitão rossonero reclamar por ter sido movido de posição, e o elegeu como o companheiro mais profissional com quem trabalhou em toda a carreira. Mas a pressão que ele sentia quando cometia algum erro era tremenda e isso foi minando sua confiança.

O Milan só viria a obter seu primeiro triunfo na quinta rodada, quando visitou o Empoli e venceu pelo placar mínimo. A mediocridade que havia assolado o clube no ano anterior permanecia e os rossoneri encerraram a participação na Serie A ocupando apenas o 10º lugar. Ziege marcou dois gols, ambos contra a Sampdoria. No Luigi Ferraris, foi ele quem deu números finais na vitória por 3 a 0, aproveitando um bom passe de Ibrahim Ba; George Weah, com uma doppietta, fez os outros dois. No segundo turno, agora escalado como meia aberto pela esquerda, anotou o único tento do jogo após receber bom passe de Boban e fuzilar para as redes, em bom chute cruzado.

O único ponto positivo na temporada vinha sendo a boa trajetória na Coppa Italia, mas o título escapou de forma dolorosa nos 30 minutos finais, quando a Lazio marcou duas vezes e venceu por 3 a 1, desfazendo a vantagem de 1 a 0 construída pelo Diavolo na primeira partida. Ao término da campanha, e já pensando no ano seguinte, a constatação dentro do Milan era de que a passagem de Ziege pelos rossoneri vinha sendo decepcionante e a continuidade do alemão no clube passou a ser questionada. Contudo, o alto valor investido (6 milhões de euros) e a falta de possíveis compradores fizeram com que ele permanecesse em Milão, mas na condição de reserva.

Para a temporada 1998-99, as principais mudanças no clube foram as chegadas de Bierhoff, Thomas Helveg, Andrés Guglielminpietro (mais conhecido como Guly) e dos goleiros Jens Lehmann e Christian Abbiati, além da mudança no comando técnico. Fabio Capello deu lugar a Alberto Zaccheroni, que implementou o sistema 3-4-3 e passou a escalar Ziege na ala esquerda.

O alemão começou o campeonato com mais espaço do que o esperado e estreou na quinta rodada, na derrota por 1 a 0 para o Cagliari. No compromisso subsequente, contra a Roma, aproveitou uma assistência acrobática de Weah e deixou sua marca na vitória por 3 a 2. Também anotou um gol na 16ª jornada, diante do Empoli, desta vez selando o empate ao aproveitar, de perna direita, uma bola que estava viva dentro da área. Outro destaque naquele dia, mas negativo, foi sua expulsão, por conta do segundo cartão amarelo, um pouco depois da igualdade no placar.

Desfrutando de mais tempo em campo, passou a ser escalado de maneira mais ofensiva e atuou em 14 partidas em um tridente ofensivo. No entanto, a explosão do argentino Guly, mais novo queridinho de Zac, que inicialmente era escalado pela direita mas depois passou para a esquerda, tirou de vez o espaço de Ziege. Sua última aparição pelos rossoneri foi na 26ª rodada, quando entrou aos 21 da segunda etapa no empate em 2 a 2 fora de casa contra o Bari. O Milan, que chegou a estar sete pontos atrás da líder Lazio, conquistou o scudetto e Christian teve sua contribuição ao longo da campanha, muito embora tenha sentido um sabor amargo pela perda de espaço na reta final.

Da Itália para o mundo

Ziege queria permanecer no Milan e lutar novamente por espaço, mas os dirigentes rossoneri explicitaram o desejo de vê-lo partir, alegando que, caso ele permanecesse em Milão, não atuaria pelo time. Incomodado com o fim de qualquer possibilidade de voltar a atuar pelo clube lombardo, encerrou a sua passagem pela Itália com 47 partidas e quatro gols, acertou transferência para a Inglaterra e foi jogar no Middlesbrough, que contava com Paul Gascoigne. Anos mais tarde, Christian admitiu. “Em retrospectiva, talvez não tenha sido muito inteligente ir para uma equipe que já tinha o melhor lateral-esquerdo do mundo, mas com Maldini nunca tive problemas. Ele é uma ótima pessoa e sou feliz por ter jogado com ele”. A dificuldade para aprender o idioma italiano foi outro complicador.

Pelo Milan, o alemão oscilou bastante, mas conquistou uma Serie A (imago)

No Boro, voltou a desempenhar um papel de destaque, colecionando boas atuações e fazendo gols marcantes, mas conviveu com alguns problemas extracampo. A rotina britânica, com seus incontáveis pubs, foi uma tentação para o alemão, que chegou a alegar ter passado noites em claro bebendo cerveja, sem saber como foi parar em casa. Em 2000, foi para o Liverpool mediante o pagamento da cláusula de liberação prevista em seu contrato. A passagem pelos Reds deixou a desejar por conta de problemas com o treinador Gérard Houllier. “Eu deveria ter permanecido no Middlesbrough por pelo menos mais uma temporada, ou talvez mais”, lamentou Christian. Apesar do período turbulento, adicionou mais três títulos à sua coleção pessoal de conquistas: FA Cup, Copa da Liga Inglesa e mais uma Copa Uefa.

Um ano mais tarde, no verão de 2001, foi para o Tottenham e recuperou seu melhor futebol. Voltou a ser importante na seleção alemã e garantiu sua vaga entre os convocados para a Copa do Mundo de 2002. Foi titular em toda a fase de grupos, mas ficou de fora nas oitavas (1 a 0 sobre o Paraguai), suspenso por conta de cartões amarelos. Voltou entre os titulares contra os Estados Unidos (vitória por 1 a 0) pelas quartas, mas foi para o banco de reservas no triunfo por 1 a 0 sobre a anfitriã Coreia do Sul, na semifinal. A razão foi uma alteração tática promovida pelo treinador Rudi Völler, que abandonou o 3-5-2 para apostar no 4-4-2. Na decisão, perdida para o Brasil (2 a 0), Ziege entrou apenas no final, quando Ronaldo já havia brilhado e resolvido o confronto.

De volta aos Spurs, enfrentou o episódio mais preocupante de sua carreira. Foi em um empate em 2 a 2 contra o Charlton, partida em que sofreu uma pancada na coxa e também acabou expulso. Acreditando estar inicialmente sofrendo apenas com cãibras, ligou para os médicos do Tottenham de madrugada, depois que sua esposa olhou sua perna e percebeu que havia um inchaço anormal na região, e parou no hospital. Os médicos disseram que se ele tivesse demorado mais 30, 45 minutos, correria o risco de sofrer uma amputação, caso contrário ele poderia morrer.

Felizmente deu tudo certo e o pior cenário acabou sendo evitado, mas o tratamento e a recuperação foram longos, deixando-o ausente dos gramados por mais de um ano. Até hoje ele tem uma profunda cicatriz de 25 centímetros na perna, o que o impede de caminhar regularmente. O final de carreira de Ziege foi marcado por dificuldades físicas, longos períodos fora e motivação para voltar a fazer o que mais gostava: estar em campo.

Em 2004, retornou à Alemanha para jogar pelo Mönchengladbach, último clube de sua carreira. Todavia, as lesões continuaram a persegui-lo. Em 2005, um persistente problema no tornozelo o forçou a anunciar a aposentadoria. Ele tinha 33 anos.

Um dos jogadores mais vitoriosos de sua geração, Ziege se encantou pela Itália e sua cultura, mesmo após a passagem frustrada pelo Milan. Ele costuma passar as férias na Bota e pôs o nome de Alessandro em seu filho, que seguiu os passos do pai e tornou-se lateral-esquerdo, mas em um cenário de menor projeção. Christian também teve outras duas filhas: Maria e Caterina.

Ziege continuou ligado ao futebol e treinou as categorias de base do Mönchengladbach, teve uma rápida passagem pelo Arminia Bielefeld, depois foi comandar as seleções sub-18 e sub-19 da Alemanha e se aventurou na quarta divisão alemã. Em 2015, começou a viajar o mundo e assumiu equipes da Espanha, Tailândia e está, desde 2019, no comando do Pingzau Saalfelden, da terceira categoria da Áustria.

Christian Ziege
Nascimento: 1º de fevereiro de 1972, em Berlim, Alemanha (antiga Alemanha Ocidental)
Posição: lateral-esquerdo e meio-campista
Clubes: Bayern Munique (1990-97), Milan (1997-99), Middlesbrough (1999-2000), Liverpool (2000-01), Tottenham (2001-04) e Mönchengladbach (2004-05)
Títulos: Bundesliga (1994 e 1997), Copa Uefa (1996 e 2001), Serie A (1999), FA Cup (2001) e Copa da Liga Inglesa (2001)
Carreira como treinador: Arminia Bielefeld (2010), seleções de base da Alemanha (2011-14), Unterhaching (2014-15), Atlético Baleares (2015-17), Ratchaburi Mitr Phol (2018) e Pingzau Saalfelden (2019-presente)
Seleção alemã: 72 jogos e 9 gols

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