Brasileiros no calcio

Na Itália, Júnior virou meia e foi vice-campeão pelo Torino

A década de 1980 ficou marcada no futebol brasileiro pelo surgimento de dois grandes times. Ele esteve presente, como titular, em ambos. Se não venceu em ambas as oportunidades, marcou seu nome na história pela qualidade absurda com a qual apoiava o ataque e ajudava a defesa na marcação, funções primordiais de um lateral clássico. Seja pelo Flamengo ou pela seleção brasileira de Telê Santana, Leovegildo Lins da Gama Júnior, ou apenas Júnior, foi um dos maiores craques que já atuaram pela lateral esquerda no futebol mundial.

Nascido em João Pessoa, na Paraíba, o jogador desembarcou no Rio de Janeiro ainda quando criança, criando o hábito de jogar futebol na orla carioca. Foi assistindo a uma dessas peladas que o então técnico da base do Flamengo, Modesto Bria, convidou o ambidestro Júnior para testes entre os jovens rubro-negros. A habilidade e a visão de jogo apuradas fizeram com que o lateral fosse aceito e, em apenas um ano, tivesse sua primeira oportunidade entre os profissionais. Atuando como lateral-direito, estreou em 1974, obtendo destaque logo de cara, ao anotar dois gols na vitória sobre o América que valeu ao Fla o gás necessário para o título carioca.

Os anos passaram e, em 1976, uma mudança definitiva marcaria a carreira do jogador. Com a chegada do consagrado treinador Claudio Coutinho, Júnior passou a atuar improvisado na lateral-esquerda e se mostrou um jogador muito mais útil ao time naquele lado do campo. O fato de ser ambidestro e a rápida adaptação à nova posição consagraram o atleta como versátil, tornando-o, com apenas 22 anos, essencial para o Flamengo. Júnior marcou 44 vezes em sua primeira passagem com a camisa rubro-negra, que durou exatos dez anos, mas era mesmo essencial nos lançamentos e cruzamentos, que municiavam um ataque que começava a se formar com Zico, Adílio, Andrade e Nunes.

O ápice, porém, começaria apenas na década de 80, quando já consolidado como um dos maiores jogadores do país e um dos melhores de sua posição no mundo, ajudou a conduzir o Fla ao seu primeiro título nacional, em 1980. No ano seguinte, se não conseguiu repetir a conquista nacional, brilhou nas trilhas das mais importantes glórias da história flamenguista: a Libertadores e o Mundial Interclubes de 1981. A ótima fase continuaria em 82 e 83, quando os rubronegros conquistariam mais dois Brasileiros. Invencível com o time carioca, o lateral passou, então, a acumular seguidas convocações para a seleção brasileira.

Famoso mundialmente devido ao título mundial de 1981, consolidou de vez sua carreira internacional ao integrar o mágico time de Telê Santana que disputou a Copa do Mundo de 1982. Reconhecido como um dos melhores times de todos os tempos mesmo com a inesquecível eliminação para a Itália de Paolo Rossi, o esquadrão canarinho tinha em Júnior uma arma fundamental para a troca de bola precisa e veloz que encantou o mundo – e mesmo de motivação: antes do torneio, Júnior, muito ligado ao samba, havia gravado a música Povo Feliz (Voa Canarinho), de grande sucesso no país.

A fama conquistada em campo, somada aos títulos cariocas, brasileiros e internacionais, chamou a atenção do mercado europeu e seus pagamentos muito maiores do que os vistos no Brasil. Foi assim que, em 1984, Júnior deixou o Flamengo para tentar reproduzir na Europa o sucesso que obtera no futebol brasileiro.

Por aproximadamente 2 milhões de dólares, o Torino adquiriu o lateral brasileiro, de 30 anos, para ser a principal peça de seu time. Na campanha que rendeu ao time de Turim o vice-campeonato italiano – o scudetto daquela temporada iria para o Verona -, o jogador pediu para ser deslocado para atuar mais avançado, preservando-se mais para poder continuar sua carreira por mais tempo.

Assim, Júnor – ou Léo Júnior, como também era conhecido na Itália – começou sua trajetória no futebol italiano jogando pela primeira vez em sua carreira como meio-campista. A mudança deu certo: aliando a velocidade para atuar pelas pontas que os anos na lateral lhe deram com sua visão de jogo acima do comum, o maestro Júnior foi eleito o melhor jogador da temporada granata. O brasileiro também marcou sete gols e foi, ao lado do meio-campista Giuseppe Dossena, o arquiteto do time treinado por Luigi Radice, que quase retonou as glórias de um time que havia dominado o futebol italiano na década de 1940 com astros como Mario Rigamonti, Ezio Loik e Valentino Mazzola.

O primeiro ano de Júnior na Itália, apesar da idolatria da torcida granata, teve também algumas turbulências sérias. Vindo do Brasil, o então meio-campista sofreu em duas oportunidades com o preconceito de torcidas rivais. O primeiro caso aconteceu em um duelo contra o Milan, foi insultado diante toda a partida no San Siro, sendo ainda alvo de mais xingamentos e cusparadas quando saía do estádio ao lado de seus parentes. Na outra ocasião, sofreu com torcedores da Juventus que levaram ao dérbi faixas ofensivas ao jogador, mencionando principalmente a cor de sua pele. Como resposta, a torcida do Torino tentou fazer sua parte e levou cartazes de apoio. Esses, porém, ainda continham certo cunho racista nos dizeres “Melhor negro do que juventino”.

Preconceitos à parte, Júnior manteve seu futebol de alto nível em seu segundo ano na Itália, sendo a principal peça de um Torino que chegou ao quarto lugar da Serie A. A idade, porém, chegava. Após participação na Copa do Mundo de 1986 – na qual Telê, novamente treinador, levou ao México a geração de 1982 envelhecida e com alguns reforços – o brasileiro voltou ao Belpaese para fazer aquela que seria sua última temporada pelos granata. A queda de rendimento do jogador, já com 32 anos, e desentendimentos com o técnico Radice – a quem Júnior chamou de egoísta, por não reconhecer erros – foram essenciais para que ele não fosse mais utilizado com frequência em um Torino que terminou o campeonato daquele ano em uma modesta décima colocação.

Júnior, porém, continuou na Itália. Saiu do Torino para se apresentar ao Pescara, equipe que, sob o comando do histórico técnico Giovanni Galeone, havia acabado de subir para a Serie A. Os golfinhos do Abruzzo viam no jogador brasileiro a peça ideal para dar experiência necessária a um time que teria que lutar muito para se manter na primeira divisão. Gian Piero Gasperini, ex-técnico do Genoa e que, à época, era capitão do Pescara, cedeu-lhe a faixa, por conta do grande carisma do brasileiro. Júnior mantinha também um programa na TV local chamado “Brasi… Leo”, onde falava de futebol, mas também de música, uma de suas grandes paixões.

No pequeno Pescara, Júnior viveu últimos momentos da passagem pela Itália

Atuando ainda como meio-campo mas sem contar com a velocidade que lhe era característica, livrou os azzurri do rebaixamento apenas nas últimas rodadas, permanecendo no clube por mais uma temporada. Em seu último ano, não resistiu à falta de qualidade do time, que voltou à Serie B – por coincidência, a queda da equipe de Júnior aconteceu no mesmo ano em que o Torino foi rebaixado. No entanto, Júnior foi eleito o segundo melhor estrangeiro da Serie A, ficando à frente de nomes como Careca, Gullit, Rijkaard, van Basten e Maradona, perdendo apenas para Matthäus, que levou a Inter a um scudetto cheio de recordes.

De volta ao Brasil, vestiu novamente a camisa rubronegra, pela qual ficou por mais quatro anos, de 1989 a 1993. Nesse período, venceu a Copa do Brasil de 1990 e voltou a conquistar um campeonato brasileiro, o quarto de sua carreira, quinto da história do Flamengo, em 1992. Nestes anos, Júnior ainda teve a chance de vestir a camisa do Torino pela última vez. Em junho de 1991, foi emprestado por alguns dias pelo Fla ao Toro para disputar a Copa Mitropa, vencida pelo time grená sobre o Pisa.

Depois de se aposentar passou a atuar pela seleção brasileira de futebol de areia, na qual foi o grande destaque por alguns anos. Treinou o Flamengo de maneira interina por duas vezes e teve uma experiência frustrada como treinador do Corinthians, cargo que exerceu por apenas três partidas, que culminaram em três derrotas. Atualmente, é comentarista da Rede Globo.

A relação entre Júnior e o Torino continuou após a aposentadoria do jogador. Sinal disso foi a partida amistosa, de cunho beneficente, entre veteranos da equipe contra os grandes rivais da Juventus, em partida que contou com a presença de lendas como Platini, Zidane e Vialli. O brasileiro, por sinal, foi responsável por marcar o primeiro gol dos granata no empate em 2 a 2 do duelo festivo realizado no último dia 23 de março.

Leovegildo Lins da Gama Júnior
Nascimento: 29 de junho de 1954, em João Pessoa
Posição: lateral e meio-campo
Clubes: Flamengo (1974-1984 e 1989-1993), Torino (1984-1987) e Pescara (1987-1989)
Títulos: 5 Campeonatos Cariocas (1974, 1978, 1979, 1981 e 1991), 4 Campeonatos Brasileiros (1980, 1982, 1983 e 1992), 1 Libertadores (1981), 1 Mundial de Clubes (1981), 1 Copa do Brasil (1990) e 1 Copa Mitropa (1991)
Seleção brasileira: 70 jogos e seis gols

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