Categorias de base

Campeonato Primavera: os destaques

Inter fez muitos gols e se sagrou campeã do Campeonato Primavera (ForzaItalianFootball.com)
Se na Serie B os jovens se destacaram, alguns dos principais jogadores do principal campeonato das categorias de base na Itália, o Campeonato Primavera – que integra atletas entre 15 e 21 anos -, mostraram, mais uma vez, como vale a pena investir na base, ou seja, investir no futuro. E quem vem desfrutando desse investimento é a Internazionale, tão conhecida por contratar jogadores internacionais e revelar (e aproveitar) poucos valores nos últimos anos – com exceção a alguns, como Goran Pandev, Marco Andreolli, Leonardo Bonucci, Jonathan Biabiany, Davide Santon e Mario Balotelli.
Campeã da Copa Viareggio em 2011, da primeira edição da Champions League juvenil (NextGen Series), em 2012, e agora do Campionato Primavera 2011-12, a Inter vem tendo um destaque impressionante nas categoriais de base – e não só no sub-21, mas também no sub-19 e no sub-17 –, fruto da passagem de José Mourinho, que bancou a revitalização do setor juvenil interista e contou com o apoio de Massimo Moratti, motivado pela queda no orçamento e no temeroso Fair Play Financeiro da Uefa.
Para a temporada 2011-12, Ernesto Paolillo e Roberto Samaden, diretor-geral e diretor das divisões de base da Inter, apostaram no jovem e promissor Andrea Stramaccioni para substituir Fulvio Pea – que assumiu o Sassuolo – no comando do time Primavera. Credenciado pelo ótimo trabalho desenvolvido nos times Giovanissimi Nazionali e Allievi Nazionali da Roma, Stramaccioni não demorou a mostrar suas qualidades. Tendo como base o time campeão de Viareggio meses atrás, ele conseguiu adaptar os jogadores ao seu estilo. Revezando entre 4-3-3, 4-3-2-1 e 4-2-3-1 (de acordo com o adversário), o romano deu outra cara a equipe, tornando-a mais equilibrada e também com maior ímpeto ofensivo, valorizando a posse de bola, mas com a mesma objetividade e frieza do time de Pea.
Apesar disso, os verdadeiros destaques da fase de grupos foram os times romanos, que fizeram grande embate no Grupo C, ao centro e sul italiano, disputando quem mais massacrava os outros adversários. Roma e Lazio deitaram e rolaram no grupo que ainda tinha os bons Palermo (3º) e Reggina (6ª, não se classificando para a fase final). Com 70 e 62 pontos respectivamente, os times marcaram juntos 188 gols (95 e 93) em 52 partidas (26 cada), sofrendo apenas 43 tentos (23 e 20). No outro grupo, o A, do norte e noroeste do país, o destaque ficou para a Juventus, fazendo uma campanha regular, sem maiores sustos, e também muito efetiva no ataque (67 gols em 26 jogos). De volta ao Grupo B, ao norte e nordeste da Bota, sem maiores surpresas nos dois colocados, com a Inter levando vantagem sobre o Milan por ter vencido ambos os confrontos (como o time principal). As surpresas ficaram por conta de um crescente Varese – que também teve boa temporada no time principal pela Serie B, na qual perdeu para a Sampdoria na final do play-off na briga pela terceira vaga na Serie A 2011-12 – e da péssima campanha da Udinese, que ficou na nona colocação, decepcionando Giampaolo Pozzo, que costuma investir na base.
Vice-campeã, a Lazio mostrou talentos como o atacante Gonzalo Barreto (S.S. Lazio Brasil)
No play-off para decidir quais os times que participariam da fase final com Roma, Juventus, Inter, Lazio, Milan e Torino, o Palermo que havia batido o Napoli passou pelo Chievo e o Varese voltou a surpreender, batendo a sempre boa base da Fiorentina, após ter passado pelo AlbinoLeffe. Já na fase final, deu mais ou menos o óbvio: a Roma goleou o Varese (4 a 0), Lazio e Inter venceram Torino e Palermo respectivamente (2 a 1 e 2 a 0), enquanto o organizado Milan de Aldo Docetti passou pela Juventus de Spinazzola, Libertazzi, Bouy e dos irmãos  brasileiros Gabriel e Guilherme Appelt, vice-campeã da Coppa Italia Primavera e campeã da Copa Viareggio deste ano.
Toda a emoção ficou reservada para as semifinais e, claro, a grande final. Nas semifinais, aconteceriam nada menos que os dérbis da capital, entre Lazio e Roma, e o de Milão, entre Inter e Milan. No Derby della Capitale entre os garotos, uma partida bem equilibrada, com a Roma tendo o domínio da posse de bola e a Lazio buscando atacar com seu rápido, habilidoso e decisivo trio de ataque. E quem saiu vitorioso no confronto foram os objetivos laziale. Zampa, Emmanuel e Rozzi marcaram para o time da águia, enquanto Viviani marcou o único gol giallorosso. 3 a 1.
Assim como Roma-Lazio, o Derby della Madonnina juvenil foi muito equilibrado, com chances de gols para ambos os lados. A Inter tinha a posse de bola e encontrava certa facilidade para criar, mas não para finalizar. Enquanto o Milan procurava se fechar mais, mas sem abdicar do ataque, levando perigo nas eficientes transições ofensivas – futebol do time principal refletindo na base, cada qual com sua proposta de jogo. Venceu aquele que não se entregou nos minutos finais, que buscou a vitória no último minuto (literalmente, aos 32’ da prorrogação e 122’ do jogo), a Inter, que virou duas vezes, e fez 4 a 3, com direito a tripletta de Samuele Longo e gol do capitão Romanò. Já o Milan contou com uma doppietta do artilheiro Comi, e um belo chute de fora da área de Innocenti.
Longo marcou em todos os jogos importantes na temporada. De longe, o destaque da Inter (Getty Images)
Na final em Gubbio (assim como em toda a fase final), a Internazionale de Daniele Bernazzani – que substituiu Andrea Stramaccioni no comando do time Primavera – conseguiu ter controle maior sobre a organizada e bem distribuída Lazio de Alberto Bollini. Tinha o controle do meio-campo, consequentemente da posse e das principais chances criadas. Mas foi sob o comando do envolvente trio de ataque (Livaja, Longo e Garritano, esse que entrou ainda no primeiro tempo, no lugar do lesionado ítalo-brasileiro Daniel Bessa) que os gols da vitória por 3 a 2 saíram. Os três fizeram para os nerazzurri, enquanto Gonzalo Barreto e Onazi descontaram para os laziale.
Um Campeonato Primavera cheio de emoção, surpresa e bons valores. É justamente isso que se pede do futebol italiano, em um momento no qual busca revitalização e, com a perda de poder aquisitivo dos clubes, faz-se mais que necessário investir na formação. Os jogadores estão aí, para serem bem aproveitados – o que não quer dizer que devam corresponder de imediato, muito menos que se sobre muito, afinal são garotos de menos de 20 anos –, resta aos clubes, dirigentes e técnicos utilizá-los. 

A lição vale para a Internazionale, que perdeu a boa safra campeã em Viareggio (2008), e que já tem uma nova, tão promissora quanto. Com Andrea Stramaccioni de contrato novo e um Moratti mais cauteloso no mercado, espera-se que alguns jogadores já subam para o time principal, como são os casos de Raffaele Di Gennaro, Joseph Duncan, Lorenzo Crisetig, Marko Livaja e Samuele Longo, que treinaram várias vezes com o time principal desde que “Strama” substituiu Claudio Ranieri. Hoje, Longo está em copropriedade entre Inter e Genoa e ambas as equipes querem muito contar com ele para 2012-13. A situação indefinida está até gerando atritos entre as duas direções, que tem mantido ótimas relações desde o negócio que levou Thiago Motta e Milito à equipe de Appiano Gentile.

Mas não é só a campeã Inter que merece destaque. Pelo contrário. Lazio e Roma estão bem servidos no time Primavera, e com comandantes novos (Vladimir Petković e Zdeněk Zeman, respectivamente), estes jovens devem ganhar cada vez mais espaço, especialmente os romanos com Zeman, que fez excelente trabalho no Pescara na Serie B 2011-12. Petković já disse que pretende trabalhar no 3-4-3 (e por que não revezar com o 4-3-3, certo?), esquema que muito se assemelha ao 4-3-3 de Bollini

Já Zeman, como já é sabido, só trabalha no seu 4-3-3, apelidado de “Zemanlandia”. A equipe de Alberto De Rossi reveza entre 4-3-3 e 4-2-3-1, ou seja, não terá dificuldades em aproveitar alguns dos jogadores. O Milan também merece atenção especial, justamente agora que vários veteranos saíram, e outros ainda devem sair. O time de Aldo Docetti (no 4-3-1-2) lembra muito o time Allegri – e não é mera coincidência, já que Docetti foi recomendação do próprio treinador toscano –, tanto na parte tática, como na proposta de jogo. Outras equipes, como a Juventus, não devem dar espaço aos jovens no time principal por enquanto, já que o elenco é inchado, mas tem bom networking para fazer com que eles sejam emprestados para outras equipes, a fim de conquistarem espaço. Um espaço que os jovens estão fazendo por merecer no futebol italiano.

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