Seleção italiana

Um técnico incompetente e teimoso foi o protagonista do vexame da Itália

Em respeito aos nossos leitores, não colocaremos foto do futuro ex-treinador da Itália no texto. Gostaríamos de não mencionar o seu nome também, mas o faremos apenas por uma questão de justiça. O maior culpado pelo vexame azzurro precisa ser citado: ele se chama Gian Piero Ventura. Os jogadores ficaram reféns das idiossincrasias do treinador e sempre tentaram fazer o que podiam, mesmo atrapalhados pelo velhaco que foi levado ao cargo.

Ventura é o homem que fez a Itália ficar fora da Copa do Mundo pela primeira vez em 60 anos: as outras únicas vezes em que a Nazionale não havia disputado o torneio foram em 1930, quando não havia Eliminatórias, mas apenas convites, e em 1958, quando perdeu no qualificatório para a Irlanda do Norte. Ventura é o responsável por fazer da Squadra Azzurra a única seleção que venceu mais de duas Copas a não se classificar para a competição. Por causa de Ventura, os garotinhos que nasceram após junho de 2014 só terão a chance de assistir a Itália em um Mundial em 2022. Talvez.

Foi Ventura que impediu Buffon de ser o único jogador a disputar seis Copas do Mundo. Foi ele que fez Gigi chorar em sua última partida pela seleção italiana. Quem destinou também Barzagli, Chiellini e De Rossi à uma triste aposentadoria da Nazionale? Ventura. Quem escalou a Itália no 4-2-4 quando não tinha peças para isso? Quem só optou por Jorginho na hora da pressão? Quem deixou Insigne no banco nas decisões? Ventura, Ventura, Ventura.

Quem deu entrevista para se explicar logo após o vexame? Ventura é que não foi. O covarde técnico italiano driblou os microfones da imprensa e só falou uma hora após a partida contra a Suécia, já na coletiva. Ainda mais frouxo, Ventura não se demitiu após o maior desastre da história do futebol italiano. Se limitou a agradecer aos jogadores e à torcida e disse que discutiria seu futuro com os diretores da federação amanhã. Molenga.

Ventura é tão fraco quanto Carlo Tavecchio, presidente da FIGC, que não se pronunciou oficialmente sobre nada: é como se a Itália não tivesse jogado. Logo ele, que havia dito meses atrás que não ir ao Mundial seria como o apocalipse. Pois bem, o fim do mundo chegou e nada foi feito. Por muito menos, Dino Zoff se demitiu, em 2000 (logo após ser vice-campeão da Euro graças a um gol de ouro da França), e Cesare Prandelli e o ex-chefe da entidade, Giancarlo Abete, entregaram seus cargos ainda em Natal, após a derrota frente ao Uruguai, que eliminou a Nazionale na Copa de 2014. Tavecchio, por suas atitudes racistas e seu corporativismo, não deveria nem ocupar o cargo que sustenta. Que saia junto com Ventura.

Buffon seria o único a disputar seis Copas do Mundo, nas teve o desprazer de topar com Ventura (Getty)

O canto do cisne em San Siro

Só quem acredita em números poderia ter bons presságios para a partida desta segunda, em San Siro. Entre várias coisas, eles diziam que a Itália só havia perdido um de seus 10 jogos em casa contra a Suécia (em 1983); que desde 1999 a Squadra Azzurra não era derrotada em um jogo oficial disputado no Belpaese, com 36 triunfos no período; e que a Nazionale nunca havia sido vencida no estádio Giuseppe Meazza. O problema é que um simples empate classificaria os suecos.

O segundo e principal problema é que a Itália não vinha jogando nada bem desde a derrota para a Espanha. Naquela ocasião ficou claro que os jogadores perderam a confiança em seu treinador. Quantos defenderam Ventura publicamente após a eliminação? Nenhum – e não é surpresa. Nenhum italiano em campo fez corpo mole ou tentou derrubar o comissário técnico, mas ficou claro que os azzurri não tinham um plano de jogo bem definido e contavam apenas com o talento individual de seus jogadores.

Uma individualidade, aliás, chamava mais atenção. Jorginho finalmente começaria jogando, após ser tido como carta fora do baralho de Ventura por um ano e meio. Não cabia no esquema, dizia o técnico. De uma hora para outra, num time mal montado, com uma escalação inédita, o ítalo-brasileiro se tornou solução e ainda foi o melhor em campo. Imagine se atuasse em uma equipe organizada e não em uma armada num 3-5-2 com Florenzi fora de sua posição de origem e Gabbiadini.

De qualquer forma, assim como no filme Suburra (uma das melhores produções italianas da década), se contavam os minutos para o apocalipse. Quem dirigia o último ato, assistido presencialmente por mais de 72 mil pessoas, era um árbitro que não queria se comprometer: Antonio Mateu Lahoz alcançou a proeza de não assinalar quatro pênaltis, dois para cada lado. Nos 45 primeiros minutos da contagem regressiva (ou, em italiano, conto alla rovescia, só para deixar a situação mais poética), Jorginho deu o tom e criou as melhores chances da Itália, desperdiçadas por Candreva, Immobile e Florenzi. O goleiro Olsen apareceu bem para segurar o zero no placar.

Após o intervalo, a Itália tentou não se entregar ao nervosismo, mas com o passar do tempo, o gol não saía: Lustig quase fez contra, Florenzi também chegou perto de marcar e El Shaarawy exigiu mais uma ótima intervenção de Olsen. Completamente perdido e agarrado a ideias absurdas, Ventura deixou Insigne no banco e deu espaço ao já citado ítalo-egípcio e também a Belotti e Bernardeschi – antes disso, tentou colocar De Rossi, mas o capitão da Roma se mostrou contrariado e pediu por atacantes. O resultado é que o jogo terminou com Chiellini lançando bola na área de qualquer jeito para Buffon (!) tentar cabecear. Não tinha como dar certo.

O desespero dos jogadores da Itália no apito final (LaPresse)

Sem caça às bruxas: renovação tem que acontecer no comando

Tudo o que colocamos na conta de Ventura na primeira parte do nosso texto é uma lista de feitos negativos muito maiores do que o currículo do treinador. Em 40 anos de carreira, o genovês só conseguiu levantar a Serie C. A priori, ser um técnico sem títulos não o descredenciaria nem mesmo a ocupar o cargo de uma gigante do futebol mundial, como a Itália. Afinal, o futebol europeu é concentrado financeiramente e provoca desequilíbrios técnicos. Ademais, nem Enzo Bearzot havia conquistado qualquer coisa antes de ser tricampeão com a Squadra Azzurra.

Após o empate contra a Macedônia, escrevemos: “O treinador da seleção italiana nunca passou por clubes gigantescos, não teve experiência na nata do esporte ou conquistou títulos importantes. Perder, para ele, é algo que faz parte de sua carreira”. Agora, concluímos: a pior característica de um fracassado só pode ser aceitar a derrota. Além disso, Ventura mostrou não ter a noção da grandeza da vitória e dos caminhos que devem ser seguidos até chegar lá. Sua boa passagem pelo Torino não foi o suficiente para lhe ensinar isto.

É verdade que Ventura não foi contratado porque dele se esperavam títulos. Taças seriam uma bem-vinda consequência se ele tivesse sucesso no que demonstrou ter mais competência em fazer: trabalhar com jovens. O principal objetivo no pós-Antonio Conte era renovar o grupo da seleção e preparar a geração para atingir seu auge em 2022. Só que o genovês não classificou a Itália para 2018, deixou várias promessas de fora de suas convocatórias, se apegou a ideias idiossincráticas e, no jogo decisivo, nem mesmo deu espaço a Insigne – o melhor deles. Tudo errado: não entregou o prometido e nunca foi cobrado de maneira eficaz por não se ater a seus planos iniciais. Os dirigentes da FIGC são igualmente responsáveis pelo desastre e, em um mundo ideal, deveriam se demitir.

Infelizmente, alguns pilares da Nazionale pagarão pela incompetência e pela teimosia de terceiros: se aposentarão e não farão parte do novo projeto. Buffon, Barzagli e De Rossi são ausências certas no ciclo para a Euro 2020 e para a Copa de 2022, enquanto Chiellini talvez apareça ainda em algumas listas para o torneio continental – a não ser que, de fato, oficialize a aposentadoria azzurra, mencionada por um choroso Buffon ao fim da partida em Milão. Bonucci, Parolo, Candreva e Éder também estão no fim da linha e é possível que somente o zagueiro seja aproveitado pelo novo treinador. Por critérios técnicos, vale ressaltar.

Alguns dos presentes na triste noite de San Siro serão peças-chave da renovação e ocuparão o espaço deixado pelos senadores. Não convocar Jorginho em todo o ciclo e ofuscar Insigne foram dois dos maiores erros de Ventura, futuro ex-treinador azzurro. Falhas que não poderão ser cometidas por seu sucessor: qualquer projeto sério de seleção italiana deverá ter a dupla do Napoli como seu centro, sem discussão.

O novo treinador deverá partir ainda de Donnarumma, Pellegrini, Bernardeschi, Belotti e Immobile, sem falar em coadjuvantes como Conti, Caldara, Romagnoli, Rugani, Gagliardini, Chiesa, El Shaarawy, Berardi e tantos outros. Verratti, por sua vez deve ter sua função reavaliada: não é possível que seja vital ao Paris Saint-Germain e que na Nazionale não consiga chegar perto do alto nível que demonstra com o time francês.

O fato é que não faltam nomes à Itália. A geração é ótima e já falamos disso há tempos. Não há porque não seguir apostando nestes jogadores. Além disso, o nível da Serie A tem subido nos últimos anos e há vários treinadores italianos fazendo grandes trabalhos não só na Velha Bota, mas em toda a Europa – Maurizio Sarri, Carlo Ancelotti, Massimiliano Allegri, Antonio Conte, Luciano Spalletti, Simone Inzaghi, Roberto Mancini, só para citar alguns. Não há crise de nomes dentro das quatro linhas nem de conceitos sendo aplicados pelos treinadores à beira delas. Basta saber escolher a quem confiar o futuro.

Quem será o substituto de Ventura? Embora a FIGC não se manifeste, o escolhido deverá receber um alto salário, comparável aos oferecidos por grandes clubes do panorama europeu. Por isso, a tendência é que a Itália tenha um nome de peso no comando: os principais cotados para a sucessão são Ancelotti, Allegri, Mancini e Conte. Só Don Carletto está livre no momento, mas se cogita que Luigi Di Biagio, atual treinador da seleção sub-21, assuma o cargo interinamente até junho de 2018.

Até lá, a sina dos azzurri será aguentar a sequência de vexames. Vale lembrar e repetir como mantra: após o tetracampeonato, em 2006, a Itália não passou da fase de grupos da Copa do Mundo em 2010 e 2014 e nem participará do torneio em 2018.

2 comentários

  • – Eliminação contra Espanha em 2008 nos penaltes, 1V 2E 1D.
    – Eliminação vexatória na Copa de 2010, 0V 2E 1D.
    – Vice-Campeã da Euro 2012 2V 3E 1D,única partida boa contra a Alemanha.
    – Nova Eliminação na primeira fase da Copa, 1V 0E 2D.
    – Eliminação da Euro 16 pela Alemanha que é eterna freguês,porém jogando razoavelmente bem contra Bélgica e Espanha, 3V 1E 1D.

    Competições oficiais: 21 Jogos, 7 Vitórias, 8 Empates, 6 Derrotas, 46,03%.

    Futebol local enfraquecido e sem grandes estrelas,estava na cara que uma hora ia acontecer isto.

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