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Emil Hallfredsson, o guerreiro islandês que adotou a Itália como segunda pátria

Primeiro islandês a jogar no futebol italiano em quase seis décadas, Emil Hallfredsson não teve trajetória semelhante à de Albert Gudmundsson, o pioneiro, e seus dois outros compatriotas que passaram pelo Belpaese. Se o trio passou rapidamente pela Bota, o meio-campista fincou raízes e, com suas atuações, se tornou um dos líderes da geração que levou a Islândia ao debute na Eurocopa e na Copa do Mundo. Jogador de força física, boa técnica com a canhota e personalidade discreta, silenciosamente construiu uma carreira bastante digna às margens quentes do Mediterrâneo, muito longe da ilha glacial.

Nascido em Hafnarfjördur, terceira maior cidade do país e vizinha da capital Reykjavík, o meia surgiu para o futebol no início da década passada no clube da sua cidade, o Fimleikafelag Hafnarfjördur, ou simplesmente FH. Descoberto no final de 2004 pelo atento Frank Arnesen, na época diretor esportivo do Tottenham, Hallfredsson desembarcou em Londres para jogar no time principal dos Spurs. Mas ao passo que o ex-defensor dinamarquês foi demitido do clube, as portas começaram a se fechar: o novo manager Martin Jol jamais contou com o islandês e o relegou ao time reserva.

A primeira experiência profissional de Hallfredsson fora do seu país aconteceu somente em 2006, quando ele jogou pelo sueco Malmö. O meia foi titular e destaque de uma campanha mediana da equipe, mas não convenceu os ingleses de que merecia uma oportunidade – que nunca foi concedida. O islandês retornou para a Escandinávia, dessa vez para atuar pelo norueguês Lyn, mas sua experiência durou somente um mês, já que a Reggina o contratou na mesma janela de transferências.

O islandês teve dificuldades de se adaptar ao clima, mas foi bem na Reggina (Getty Images)

Hallfredsson fez parte de um momento de reformulação do clube calabrês, que em 2007 teve de se adaptar às saídas do técnico Walter Mazzarri e de alguns destaques. Naquela década, a Reggina conseguiu sólidas campanhas na elite, mas a primeira experiência do nórdico na Serie A não foi tão memorável. Titular no início da primeira temporada, o meia (que usava uma exótica camisa de número 2) perdeu espaço com a troca de Massimo Ficcadenti por Renzo Ulivieri e depois foi ignorado por Nevio Orlandi, que salvou a equipe do rebaixamento no final do campeonato.

A salvação não seria repetida um ano depois e Emil nem mesmo teve presença relevante no time titular, com a permanência de Orlandi no comando técnico. O islandês fez 21 partidas na primeira temporada, quando jogou praticamente todo o primeiro turno, e somente 13 na segunda – poucas no onze inicial. Nem mesmo o golaço contra a Juventus no final da temporada serviu para convencer o clube, que o emprestou para o Barnsley. De volta à Inglaterra, foi titular de uma campanha discreta do clube na Championship e seguiu sem espaço na Reggina.

Foi então que apareceu a oportunidade de jogar no Hellas Verona. O histórico clube da cidade de Romeu e Julieta estava há três temporadas na terceira divisão italiana, mas o que parecia um retrocesso na carreira de Hallfredsson acabou virando sua grande chance de se afirmar no futebol. Na segunda passagem pela Itália, o islandês não precisou encarar o calor – um dos motivos para a falta de adaptação a Reggio Calabria. No clima ameno do Vêneto, rapidamente se tornou uma referência no time de Andrea Mandorlini e acabou eleito o melhor jogador do ano do clube, que finalmente conquistou o acesso para a Serie B.

O nórdico vestiu por seis anos a camisa do Hellas (Image Photo Agency)

Contratado em definitivo, após um ano emprestado, Hallfredsson seguiu como titular absoluto na formação do Verona, que também tinha um ainda jovem Jorginho surgindo como um talentoso regista. O ítalo-brasileiro tinha todo o suporte do colosso islandês, que se destacava pela força física e a potência combinada com precisão no pé esquerdo. Depois de bater na trave no acesso para a elite em 2011-12, a promoção enfim veio na temporada seguinte.

O retorno para a Serie A foi muito mais prazeroso para o meio-campista, que se consolidou como um dos líderes da equipe que surpreendeu na elite e chegou a sonhar com vaga europeia, em 2013-14. Na temporada seguinte o Hellas teve desempenho mediano, mas Hallfredsson ajudou Luca Toni a conseguir sua histórica e inesperada artilharia no campeonato. Dos 22 gols do veterano, cinco contaram com passe final do islandês, que concluiu o certame como líder de assistências do time, com nove. Sempre absoluto no elenco, Hallfredsson deixou os butei apenas em janeiro de 2016, quando o clube fazia uma campanha que lhe renderia o rebaixamento.

Hallfredsson deixou o Vêneto e se mudou um pouco mais a leste, com destino a Údine. O islandês começou como titular sob as ordens de Stefano Colantuono, mas acabou perdendo a titularidade com a mudança no comando. A chegada de Luigi De Canio à Udinese tirou um pouco do espaço do nórdico, que encerrou a fraca campanha dos bianconeri como um jogador para rotação do elenco. Giuseppe Iachini foi escolhido como o treinador para a temporada seguinte e Hallfredsson estava no centro do projeto até se lesionar em setembro.

Hallfredsson mostra espírito de luta no meio-campo da Udinese (Getty Images)

Quando se recuperou do problema físico, um mês depois, o comando tinha mudado novamente. Dessa vez, no entanto, Luigi Delneri também contava com o experiente meio-campista, com quem trabalhara em Verona. A equipe enfim ganhou equilíbrio e teve um ano tranquilo no meio da tabela, enquanto Emil serviu como um importante suporte para os jovens Seko Fofana e Jakub Jankto se destacarem no setor.

Os problemas físicos começaram a surgir no ano passado, quando Hallfredsson completou 33 anos. Seu tempo de jogo caiu drasticamente em 2017-18, mas especialmente por causa da confusa gestão da diretoria da Udinese. Nesse ínterim, a equipe voltou a flertar perigosamente com o rebaixamento após a queda de rendimento do time de Massimo Oddo no segundo turno. Hallfredsson passou boa parte do período de 14 partidas sem vencer esquentando o banco, retornando apenas nas últimas rodadas, com a chegada de Igor Tudor.

Enquanto se prepara a primeira Copa do Mundo da carreira, dois anos depois da estreia na Eurocopa, Emil sabe que provavelmente será reserva, mas tem motivos para se orgulhar da carreira que construiu. É um dos líderes do grupo, o quarto jogador mais velho do elenco nórdico e o sétimo com mais presenças na história da seleção islandesa. Hallfredsson também pode olhar para trás e admirar sua sólida passagem no futebol italiano, com quase 300 partidas entre as três primeiras divisões. Um trabalho que continuará pelo menos até 2020, quando seu contrato com a Udinese se encerrará.

Emil Hallfredsson
Nascimento: 29 de junho de 1984, em Hafnarfjördur, Islândia
Posição: meio-campista
Clubes: FH (2002-04), Tottenham (2005-06, 2007), Malmö (2006), Lyn (2007), Reggina (2007-09), Barnsley (2009-10), Hellas Verona (2010-16), Udinese (2016-atualmente)
Seleção islandesa: 62 partidas e um gol

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