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Valerio Bacigalupo, o goleiro do Grande Torino, teve carreira tão curta quanto brilhante

Um desses ditados batidos do futebol dá conta de que uma grande equipe começa sempre com um grande goleiro. Por mais que possam existir questionamentos sobre a veracidade da frase, o time que ficaria conhecido como Grande Torino decidiu cumpri-la à risca. A equipe que assombrou o futebol italiano com cinco títulos nacionais consecutivos e um estilo de jogo de encher os olhos tinha, em sua baliza, um craque chamado Valerio Bacigalupo.

Italiano da pequena comuna de Vado Ligure, “Baci” nasceu em março de 1924, no seio de uma enorme família: seus pais tiveram 11 filhos, sendo sete homens e quatro mulheres. O mais velho deles, Manlio, também foi goleiro e teve passagens por Genoa, Andrea Doria (uma das equipes que deram origem à Sampdoria), Venezia e Torino. No clube grená, fez história, uma vez que integrou o plantel que conquistou o primeiro scudetto do Toro, na temporada 1927-28. Valerio, com quatro apenas anos, ainda não tinha ciência de que superaria o seu irmão e se transformaria num dos grandes arqueiros do time grená e do futebol italiano.

Seguindo os passos dos familiares e tendo o irmão como exemplo, Baci começou a caminhada no futebol no clube da cidade onde nasceu, o Vado. Impressionava como, mesmo tendo 1,76m de altura, saltava e fazia acrobacias para defender os chutes adversários. Ele jogou pela equipe da sua terra natal de 1937 até 1941, quando disputava a Serie C. Após concluir a formação e estrear pelo time de adultos dos rossoblù, Valerio rumou à Cairese, outra pequena equipe da Ligúria que disputava a mesma divisão. Bacigalupo também disputou uma temporada pelo Savona, então na Serie B.

No início de sua carreira, Bacigalupo treina enquanto é observado por curiosos (Arquivo/Città di Savona)

A Segunda Guerra Mundial paralisou o futebol profissional na Itália durante as temporadas 1943-1944 e 1944-1945. No período, em que foram realizadas apenas competições regionais no país, Baci foi emprestado ao Genoa, que representou no Campeonato da Alta Itália. Defendendo um clube de relevância nacional pela primeira vez, Valerio ficou em quinto lugar no grupo Piemonte-Ligúria e, em 1945, foi campeão da Copa da Cidade de Gênova. A camisa dos grifoni colocou Bacigalupo numa vitrine e despertou olhares de outros clubes da elite.

Em 1945, Baci retornou ao Vado para disputar uma série de amistosos com a equipe de sua terra natal, mas passou pouco tempo por lá. O Campeonato da Alta Itália e os amistosos foram bem aproveitados pelo goleiro, que demonstrou uma técnica muito apurada tanto debaixo das traves quanto ao sair delas para intervir em cruzamentos. Bacigalupo também era arrojado ao sair do gol para tentar parar atacantes que invadiam a área por terra.

Foram essas atuações e características que chamaram atenção de Ferruccio Novo, presidente do Torino. Numa partida entre um combinado de jogadores da Ligúria e jogadores de Piemonte, o mandatário grená se convenceu de que era Baci o nome certo para defender o gol do Toro. A equipe havia sido campeã italiana na temporada 1942-43, mas não tinha um titular absoluto: Filippo Cavalli e Alfredo Bodoira se alternavam com a camisa 1.

Bacigalupo era um dos líderes do elenco do Torino e às vezes usava a braçadeira de capitão (Archivio Storico Salvatore Giglio)

No início de 1945, apenas Bodoira integrava o elenco do Toro e já tinha 34 anos Novo, então, fez proposta de 160 mil liras ao Savona, que ainda detinha o passe de Bacigalupo, e levou o goleiro para o Piemonte. Reza a lenda que Manlio o convenceu a aceitar a proposta do clube que já defendera e com o qual fora campeão anos antes. A chance de seguir carreira no time em que seu irmão mais velho brilhara não poderia ser desperdiçada.

A estreia de Bacigalupo pela nova equipe aconteceu em outubro de 1945, logo num dérbi diante da Juventus. A sorte não estava ao lado do novo goleiro grená, que não conseguiu evitar a derrota para a maior rival, pelo placar de 2 a 1. Aquele primeiro resultado, contudo, não ditou o tom da temporada. No seu ano de estreia, Baci encantou os torcedores e os companheiros de equipe com seu talento debaixo das traves. A bravura e o comprometimento do arqueiro se mostraram quando, mesmo com o punho fraturado numa partida contra o Bologna, se manteve em campo num tempo em que ainda não eram permitidas substituições. Valente, ajudou a selar a vitória por 2 a 0.

Aquela campanha consolidaria a trajetória que o Torino começara a escrever com o título de 1942-43 e mostraria que o time dominaria o futebol na Velha Bota. Por causa dos efeitos da guerra, o Campeonato Italiano de 1945-46 foi o único após a instituição da Serie A, em 1929, que não foi disputado em pontos corridos. Na primeira etapa do torneio, Bacigalupo ajudou o Torino a sofrer apenas 18 gols em 26 partidas e estabelecer a melhor marca entre os postulantes ao título – até hoje, com 690 minutos seguidos sem ser vazado, detém o recorde do clube no quesito. Na fase final, Baci novamente foi parte importante do time que perdeu apenas três dos 14 jogos disputados: presente nas 40 partidas da campanha, Valerio foi absoluto no gol do campeão.

Baci foi adorado pela torcida do Torino (Camera – Centro Italiano per la Fotografia)

O azar da derrota na estreia pelo Torino virou sorte um pouco antes do início da temporada 1946-47. O Corriere dello Sport do dia 22 de agosto de 1946 trazia a informação de que Baci conseguira “evitar uma transferência muito importante”. No decorrer da nota, o periódico deixava claro de que se tratava de uma viagem para o além, após um acidente de carro sofrido em Savona. O goleiro granata driblou a morte e escapou apenas com alguns hematomas. Um amigo, que o acompanhava no veículo, não teve a mesma sorte e faleceu no local da ocorrência.

Fora das quatro linhas, Valerio Bacigalupo tinha uma personalidade extrovertida, sempre exaltada por seus companheiros, e era conhecido como alguém que sabia viver a vida. Assim que chegou a Turim, se acomodou numa pensão na Via Nizza, famosa rua no coração da cidade, onde dividia quarto com Danilo Martelli e Mario Rigamonti, seus companheiros de time. A amizade entre eles se tornou tão forte que o grupo ficou conhecido pelo epíteto Trio Nizza, em alusão ao local em que moravam. Os três, solteiros, eram figurinhas carimbadas numa época em que jogadores de futebol frequentavam cafés, bares e outros lugares sem muito constrangimento. Eles eram os “informantes” do Torino sobre o que acontecia no cotidiano da capital do Piemonte.

Dentro de campo, Baci continuava encantando com suas atuações e o Torino caminhava para enfileirar títulos. A temporada de 1946-1947 trouxe o bicampeonato para um time que marcou 104 gols em 38 jogos. Baci ficou afastado após nova lesão no pulso, numa vitória por 3 a 1 diante da Roma. Ainda sim, foi titular na maior parte do tempo naquela campanha.

O goleiro do Torino acabou tendo poucas oportunidades pela seleção italiana (Getty)

Acontece que o melhor daquela equipe – e, consequentemente, de Bacigalupo – ainda estava por vir. Foi apenas em 1947 que o arqueiro foi convocado pelo lendário treinador da Squadra Azzurra, Vittorio Pozzo. Valerio realizou sua estreia defendendo a Nazionale numa vitória por 3 a 1 diante da então Checoslováquia, em Bari. Dividindo espaço com o juventino Lucidio Sentimenti, seu ídolo, ele faria mais outras quatro atuações pela Itália, todas em partidas amistosas. O grená também esteve em campo na primeira vitória dos italianos como visitantes contra a Espanha, em março de 1949.

A temporada do terceiro título consecutivo para Baci – o quarto para o Toro –, em 1947-1948, foi espetacular tanto para a equipe quanto para o arqueiro. Bacigalupo foi titular em todas as 40 partidas daquele campeonato, que o seu time venceu de maneira avassaladora, com 125 gols marcados durante a campanha.

As goleadas eram recorrentes e quase sempre os adversários não vazavam os grenás: foi assim no 10 a 0 diante do Alessandria e no 7 a 0 contra a Roma, em plena capital italiana. Debaixo das traves, a segurança e o talento de Valerio limitaram os atacantes adversários a apenas 33 tentos, um recorde na época. Baci terminou a campanha não só como o goleiro menos vazado da Itália, mas cada vez mais na condição de ídolo da equipe.

Bacigalupo mantém, até hoje, o recorde de mais minutos seguidos sem sofrer gols pelo Torino (Guerin Sportivo)

Na temporada 1948-49, o Torino passou a ser treinado por Erno Egri Erbstein e se mostrou menos dominante que em anos passados, mas estava firme na briga por mais um scudetto. A última partida daquela equipe realizada em solo italiano foi um empate sem gols contra a Inter, então vice-líder da Serie A, logo atrás do Toro. A partida, importante para o campeonato, teve como destaque a atuação de Bacigalupo. O goleiro defendeu tudo que veio em sua direção naquela tarde, no estádio San Siro, e saiu aplaudido pela torcida adversária ao final do jogo.

Aquela derradeira partida em solo italiano pode ser considerada uma síntese da curta e vitoriosa carreira do goleiro lígure, que viveu de atuações seguras, com defesas que garantiram bons resultados para o seu time – e, volta e meia, encantou até os adversários. O estilo de jogo de Bacigalupo foi espelhado pelos goleiros em anos seguintes. Longe de ter uma altura avantajada, Valerio mostrava que a técnica e os reflexos eram suficientes para dar segurança à equipe debaixo das traves. As saídas arrojadas do gol para cortar cruzamentos também ficaram como legado.

Diferentemente de 1946, Baci não conseguiu evitar a morte em 4 de maio de 1949. A delegação do Torino voltava de Lisboa, onde disputara um amistoso com o Benfica, a bordo de um avião Fiat G.212CP. Às 17h05 de um fim de tarde nebuloso, a aeronave colidiu com o muro da basílica de Superga, localizada num morro nos arredores de Turim. O impacto não deixou sobreviventes: a morte dos 31 tripulantes representa, até hoje, a maior tragédia do futebol italiano.

Bacigalupo, à direita, posa com o amigo Rigamonti e o técnico Erbstein (These Football Times)

Valerio Bacigalupo foi enterrado no cemitério Bossarino, em Vado Ligure, sua cidade natal. Uma década após a sua morte, o estádio do Savona, clube que defendeu antes de ser vendido ao Torino, foi inaugurado e recebeu o seu nome. A rigor, uma homenagem feita a um garoto. Afinal, como muitos dos jogadores do Grande Torino, Baci faleceu muito jovem: tinha apenas 25 anos.

As mortes do arqueiro e de outros craques, como Rigamonti, Ezio Loik, Romeo Menti, Guglielmo Gabetto e Valentino Mazzola, deixaram um enorme vazio no coração de Turim. O lado grená da cidade pode saudar os heróis dias depois, quando os juvenis foram a campo e conquistram o scudetto, dedicado postumamente aos craques. A lacuna também foi sentida por milhares de italianos. Até hoje, fãs de futebol se perguntam até onde aquele Toro seria capaz de chegar e como a seleção italiana se sairia na Copa do Mundo de 1950 se tivesse a sua base original, formada pelos grenás. Obviamente, aquela grande equipe começaria com um grande goleiro. E ele seria Bacigalupo.

Valerio Bacigalupo
Nascimento: 12 de março de 1924, em Vado Ligure, Itália
Morte: 4 de maio de 1949, em Superga, Itália
Posição: goleiro
Clubes: Vado (1940-41 e 1945), Cairese (1941-42), Savona (1942-43), Genoa (1944-45) e Torino (1945-1949)
Títulos: Copa Cidade de Gênova (1945) e Serie A (1946, 1947, 1948 e 1949)
Seleção italiana: 5 jogos

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