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Ludo Coeck: o craque belga que morreu cedo demais teve uma triste jornada pela Itália

O conceito de eterno retorno foi bastante trabalhado pelo filósofo Friedrich Nietzsche no século XIX. Grosso modo, ele defendia que fatos que ocorrem no presente já aconteceram no passado e se repetirão no futuro. No futebol, bons exemplos de eterno retorno são as “ótimas gerações belgas”: pelo menos dois outros elencos da Bélgica mereceram o rótulo antes do talentoso time da segunda década do milênio. A equipe dos anos 1980, por exemplo, chegou longe em Copa do Mundo e Euro, e teve um grande meio-campista chamado Ludo Coeck.

Ludovic Coeck (pronuncia-se “cuc”) era um rapaz carismático. Além do jeitão de galã setentista das pistas de disco music, Ludo era considerado uma pessoa gentil e inteligente – falava cinco idiomas fluentemente. Profissional exemplar, rapidamente deixou o Berchem Sport, de sua cidade natal, para se destacar no maior time da Bélgica, o Anderlecht.

Regente de meio-campo, Coeck jogava de área a área e era conhecido pela precisão nos fortes chutes de longa distância. Elegante e altruísta, Ludo foi uma peça fundamental da melhor fase da história do Anderlecht, numa época em que os clubes belgas tinham força em nível continental. Nas décadas de 1970 e 1980, os mauves ganharam por duas vezes a Recopa Uefa e a Supercopa europeia, além de uma Copa Uefa. No período vitorioso em que esteve na agremiação de Bruxelas, Coeck teve, em diferentes temporadas, alguns craques como colegas: Paul van Himst, Hugo Broos, Arie Haan, Rob Rensenbrink, François van der Elst, Franky Vercauteren, Morten Olsen e Georges Grün.

O sucesso no Anderlecht logicamente catapultou o meio-campista para a seleção belga. No entanto, Coeck não participou da histórica campanha na Euro 1980, em que a Bélgica ficou com o vice-campeonato. O elenco dos Diabos Vermelhos era muito forte e, como ainda era relativamente jovem, o atleta do Anderlecht foi deixado de fora da lista final de Guy Thys.

Dois anos depois, Ludo foi convocado pelo mesmo técnico para a Copa do Mundo de 1982 e figurou numa das mais famosas fotos futebolísticas de todos os tempos, integrando a horda de belgas que fitavam Diego Maradona. A Bélgica venceu a Argentina por 1 a 0 e Coeck, o camisa 10 daquele time, foi responsável por anular o Pibe de Oro. Na competição, o meia ainda marcou um belo gol de fora da área sobre El Salvador. Em 1983, o destaque internacional o levou ao futebol italiano, o eldorado esportivo da época.

Coeck posa ao lado do diretor interista Sandro Mazzola, em sua apresentação (Storie di Calcio)

Ludo Coeck chegou a ter tudo acertado com o Milan, depois de chamar a atenção do técnico Ilario Castagner e do vice-presidente Gianni Nardi. No entanto, o negócio de Paulo Roberto Falcão com a Inter melou e, com a ida do brasileiro para a Roma, os nerazzurri fizeram uma investida pelo belga e o contrataram.

Provar a sua qualidade no melhor campeonato do mundo era uma das poucas coisas que faltava à Coeck, que era ídolo de seu país quando, aos 28 anos, foi para o futebol italiano. A forma física, porém, o impediu. Em sua única temporada pela Inter, as lesões foram uma constante. Estiramento muscular contra o Livorno, em amistoso; torção no tornozelo em Parma, na Coppa Italia; uma pancada nas costas em Údine, pela Serie A; uma lesão no tornozelo esquerdo no início de novembro de 1983, em Berna, durante o confronto entre Suíça e Bélgica, pelas Eliminatórias para a Euro. Naquele ano, Ludo conseguiu jogar apenas quinze partidas pelo time nerazzurro e não anotou um gol sequer. Ainda assim, foi convocado para a Eurocopa de 1984.

O belga foi emprestado ao Ascoli na temporada seguinte, mas o presidente Costantino Rozzi insistiu para que fosse inserida uma cláusula de devolução gratuita do jogador à Inter, em caso de problemas físicos. Coeck nunca entrou em campo pelos bianconeri: em exames médicos foi descoberta uma malformação no quadril, que rendeu a Ludo a sexta cirurgia de sua carreira. Para piorar, o meia ainda enfrentou problemas matrimoniais e se divorciou em sua passagem pela Itália.

Recuperado da intervenção cirúrgica, Coeck não voltou a ser utilizado pela Inter. Com sua saída para o Ascoli, em 1984, a equipe de Milão contratou o irlandês Liam Brady e o alemão Karl-Heinz Rummenigge, que fizeram ótima temporada e foram confirmados no elenco para 1985-86. Como a liga impunha o limite de dois estrangeiros por clube, Ludo foi liberado pela Beneamata e acertou com o Racing White Daring Molenbeek, importante (agora extinto) clube belga, que buscava voltar a seus melhores momentos.

Em 7 de outubro de 1985, o jogador participou de um programa de TV em Bruxelas. Na atração televisiva, Ludo Coeck falou sobre seus problemas físicos e sobre o contrato recém-firmado com o Molenbeek, clube de uma das comunas da capital do país. Nascido em uma cidade da região metropolitana da Antuérpia, o meio-campista decidiu encarar a estrada logo depois de sua participação; afinal, eram apenas 50 quilômetros de distância. Não foi uma boa ideia.

Em Rumst, pouco depois da metade do caminho, sua BMW se envolveu em um acidente com outro carro e um caminhão. O asfalto molhado não colaborou e Ludo se viu imprensado ao guard rail da rodovia. Coeck sofreu traumatismo craniano, hemorragia cerebral, perfuração do fígado e diversas outras fraturas. Ficou internado dois dias em um hospital de Edegem, mas não resistiu aos graves ferimentos.

O funeral de Coeck emocionou a Bélgica, que parou para dar adeus ao ídolo. Para a seleção belga, a perda foi um baque técnico e psicológico, já que Ludo era um líder técnico e um agregador nos vestiários. Na Copa do Mundo de 1986, os Diabos Vermelhos honraram a memória do astro e voltaram para casa com o melhor resultado de sua história: a quarta posição. Quis o destino que, na semifinal, Maradona fizesse os dois gols da vitória argentina. Se Coeck estivesse em campo, talvez o desfecho fosse outro.

Ludovic Coeck
Nascimento: 25 de setembro de 1955, em Berchem, Bélgica
Morte: 9 de outubro de 1985, em Edegem, Bélgica
Posição: meio-campista
Clubes: Berchem Sport (1971-72), Anderlecht (1972-83), Inter (1983-84), Ascoli (1984-85) e Molenbeek (1985)
Títulos conquistados: Campeonato Belga (1974 e 1981), Copa da Bélgica (1973, 1975 e 1976), Copa da Liga Belga (1973 e 1974), Recopa Uefa (1976 e 1978), Supercopa Uefa (1976 e 1978) e Copa Uefa (1983)
Seleção belga: 46 jogos e quatro gols

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