Brasileiros no calcio

Vestindo a camisa da Itália, Filó foi o primeiro brasileiro a ganhar a Copa do Mundo

O Brasil precisou de seis Copas do Mundo e de Pelé, Garrincha e outros craques para, em 1958, dar um chega para lá no complexo de vira-lata e alcançar o topo do futebol. Antes disso, porém, um brasileiro da gema já havia tido o privilégio de levantar a Taça Jules Rimet. Em 1934, o paulistano Filó foi um dos cinco descendentes de italianos que foram campeões com a Squadra Azzurra, no segundo Mundial da Fifa.

Amphilóquio Guarisi Marques, o Filó, era filho de imigrantes – mãe italiana e pai português. O progenitor era uma figura importante no futebol paulista da época: Manuel Augusto Marques, o segundo presidente da Portuguesa de Desportos. O envolvimento paterno no esporte contribuiu com a aproximação do garoto Filó aos gramados e catalisou a sua formação futebolística.

Ponta-direita habilidoso, Filó deu seus primeiros passos na Lusa, mas logo chegou ao Paulistano, uma das potências da época. Guarisi brilhou como coadjuvante de luxo de Arthur Friedenreich, o maior jogador brasileiro daqueles tempos, seja em excursões pela Europa ou na conquista de Campeonatos Paulistas. Em 1929, como havia uma cisão na cúpula desportiva paulista e torneios organizados por ligas diferentes, Filó chegou a faturar duas vezes o título estadual – uma pelo Paulistano e outra pelo Corinthians.

Filó havia disputado a Copa América de 1925 pelo Brasil e colaborado com vice-campeonato, mas não participou da primeira Copa do Mundo, em 1930. Não por falta de qualidade: um litígio entre as ligas de São Paulo e Rio de Janeiro fez com que apenas atletas cariocas fossem convocados. Assim, Filó, Friedenreich e outros craques paulistas da época, como Feitiço, não foram para o Uruguai.

No ano seguinte à decepção pela não ida à Copa, Filó passaria por uma mudança radical em sua vida. O ponta mudaria de país e passaria a ser conhecido por outro nome. O paulistano foi a principal contratação de Remo Zenobi, empresário italiano que presidia a Lazio e tinha negócios no Brasil. Com o nome italianizado para “Anfilogino” e agora chamado pelo sobrenome Guarisi, Filó se tornaria a cara da “Brasilazio” da primeira metade da década de 1930.

Sob a bandeira fascista, Itália venceu a Copa de 1934. Filó é o penúltimo da foto, da esq. para a dir. (Futebol Portenho)

A Lazio foi o primeiro clube a dar espaço de verdade aos brasileiros na Itália, a partir de 1931. De uma só vez, o presidente Zenobi chegou a contar com 10 oriundi tupiniquins em seu elenco – a começar por Amílcar Barbuy, jogador e técnico. Além de Guarisi, a Brasilazio teve como outros destaques o zagueiro Armando Del Debbio, o meia José Castelli (o Rato), o atacante Alexandre De Maria e os irmãos Fantoni: João, Octávio e Leonízio; respectivamente Ninão, Nininho e Niginho, lendas do Cruzeiro.

A Brasilazio existiu até 1935, mas não alcançou resultados muito significativos dentro de campo. Guarisi, porém, era notadamente o mais talentoso da equipe e atingiu grande destaque individual, chegando a ostentar também a faixa de capitão entre 1933 e 1936. Sua baixa estatura lhe permitia se livrar dos adversários com facilidade e marcar gols — foram 43 em 137 partidas. Filó foi o principal artilheiro laziale em duas temporadas (1931-32 e 1933-34).

A última das artilharias e as atuações naquele campeonato convenceram o técnico Vittorio Pozzo a integrar Guarisi à seleção italiana. O ponta destro estreou em 1932 e, em março de 1934, marcou um gol sobre a Grécia nas Eliminatórias para a Copa, na única ocasião em que o país que sediou a competição teve de disputar a qualificação. Dois meses depois, Filó se tornou o único jogador da Lazio a ser convocado para o Mundial. Entre os cinco descendentes de italianos, era o único brasileiro do plantel – os outros quatro eram os argentinos Luis Monti, Raimundo Orsi, Enrique Guaita e Attilio Demaría.

Filó começou o torneio como titular, diante dos Estados Unidos, mas perdeu a posição para Guaita nos jogos subsequentes. Numa época em que não havia substituições, não entrou mais em campo. Ainda assim, pode celebrar a conquista ao lado de outras lendas, como Eraldo Monzeglio, Attilio Ferraris, Felice Borel, Giovanni Ferrari, Angelo Schiavio e Giuseppe Meazza. Assim, Guarisi não só foi o primeiro jogador nascido no Brasil a erguer a taça Jules Rimet como também foi o primeiro jogador da Lazio a ter a honraria.

Em 1937, Anfilogino voltou a ser Amphilóquio; Guarisi voltou a ser Filó. Depois de deixar a Lazio no ano anterior, o ponta retornou ao Brasil e atuou pelo Corinthians e pelo Palestra Itália (atual Palmeiras) até se aposentar, em 1940.

Filó faleceu em junho de 1974, numa data poética, que nos convida a refletir numa ligação quase sobrenatural entre o ex-jogador, a seleção e a Lazio. Guarisi nos deixou 27 dias após a equipe romana conquistar seu primeiro scudetto e dois dias antes do aniversário de 40 anos da primeira conquista italiana, que ajudou a forjar.

Amphilóquio Guarisi Marques, o Filó
Nascimento: 26 de dezembro de 1905, em São Paulo
Falecimento: 8 de junho de 1974, em São Paulo
Posição: atacante
Clubes: Portuguesa (1922-24), Paulistano (1925-29), Corinthians (1929-31 e 1937), Lazio (1931-36) e Palestra Itália (1938-40)
Títulos conquistados: Campeonato Paulista (1926, 1927, 1929, 1930, 1937, 1938 e 1940), Campeão dos Campeões (1930), Copa do Mundo (1934) e Coppa Internazionale (1935)
Seleção brasileira: 4 jogos e dois gols
Seleção italiana: 6 jogos e um gol

Deixe um comentário