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Leonardo retorna ao Milan para expurgar fama de ‘Judas interista’

Após o chinês Yonghong Li não cumprir com suas obrigações, o fundo norte-americano Elliott assumiu o comando do Milan e trocou a cúpula rossonera. A mudança é vista com bons olhos pela torcida, uma vez que, com a saída do agora ex-presidente Li, o clube conseguiu recuperar o direito de disputar a Liga Europa 2018-19. No entanto, a chegada do brasileiro Leonardo para o cargo de diretor técnico faz muitos fãs torcerem o nariz. A contratação foi oficializada nesta quarta, 25 de julho.

Ídolo do Milan na época de jogador, Leonardo se aposentou dos gramados em 2002 vestindo a camisa rubro-negra, a mesma pela qual havia jogado de 1997 a 2001. No mesmo ano se tornou dirigente e consultor de mercado do Diavolo, sendo braço direito de Adriano Galliani, ex-CEO da agremiação. Foi ele quem intermediou as idas de Kaká (2003), Alexandre Pato (2007) e Thiago Silva (2009) para os rossoneri. Também atuou como diretor da Fondazione Milan até maio de 2006.

Quando Carlo Ancelotti deixou o clube, em meados de 2009, Leonardo foi o escolhido de Silvio Berlusconi, ex-presidente milanista, para a função de técnico. Embora seu contrato fosse de dois anos, o brasileiro durou apenas uma temporada à frente da equipe, deixando os rossoneri em terceiro lugar na tabela da Serie A – sete pontos atrás da Roma e nove de distância para a campeã Internazionale.

Demitido por Berlusconi, que declarou em 2010 ao jornal Corriere dello Sport que “infelizmente, Leo foi cabeça dura, o time esteve mal durante a temporada”, Leonardo acertou com a Inter, arquirrival do Diavolo. Foi aí que sua relação com a torcida milanista estremeceu. Depois de 13 anos de serviços prestados ao Milan – como jogador, cartola e treinador –, o brasileiro aceitou o desafio de Massimo Moratti, então presidente da Beneamata à época.

“Agradeço ao Milan pelos 13 anos que passamos juntos e nunca vou esquecê-los, mas agora começo uma nova aventura”, justificou Leo, na sua entrevista coletiva de apresentação, em dezembro de 2010. “Sou um homem livre, com minha identidade. Não estava procurando emprego, estava procurando um sonho, algo que me estimulasse, um desafio. E esse é o maior desafio que existe”, completou.

O duro mosaico da torcida do Milan em confronto a Leonardo (Getty)

A torcida do Milan, contudo, não engoliu as alegações de Leonardo por ter assinado com os nerazzurri. Não à toa, em seu primeiro – e único – Derby della Madonnina no comando da Inter, o ex-jogador foi hostilizado no San Siro. Antes da partida, os torcedores montaram um mosaico onde Leo aparecia na figura de “Judas interista”, em uma representação bíblica da Última Ceia, onde o traidor Judas senta-se à mesa ao lado de Jesus e seus discípulos. Ele também sofreu com lasers durante o dérbi, que terminou com uma vitória eletrizante do Milan por 3 a 0. Ironicamente, dois gols foram marcados por Alexandre Pato.

O título da Coppa Italia, conquistado em cima do Palermo, não garantiu a permanência de Leonardo na Inter, que concluiu a Serie A seis pontos atrás do próprio Diavolo, campeão italiano. Aliás, quando os milanistas venceram a Roma por 3 a 2 no Olímpico e conquistaram o título de forma antecipada, o ex-jogador e atual treinador rossonero, Gennaro Gattuso, foi em direção aos ultras após o fim do jogo e, junto com o lateral-direito Ignazio Abate, incitou cânticos provocativos ao brasileiro: “Leonardo, uomo di merda (“Leonardo, homem de merda”, em tradução livre).

Doze dias depois de encerrar seu rápido ciclo na Inter, Leonardo voltou ao posto de dirigente no Paris Saint-Germain, com cheque em branco para reforçar o novo rico do momento. Coincidência ou não, um ano depois ele tirou duas das principais referências do Milan, o zagueiro Thiago Silva e o atacante Zlatan Ibrahimovic. Pediu demissão em julho de 2013. Aventurou-se como comentarista nos anos seguintes pela Sky Sports Italia, e em setembro de 2017 aceitou a tarefa de comandar o time turco Antalyaspor. Três meses depois, porém, deixou o clube.

Agora cartola do Milan, fica a dúvida se Leonardo conseguirá executar um bom trabalho e recuperar o prestígio que tinha com a torcida. A priori, a chegada do ex-lateral não é bem vista pelos ultras da Curva Sud. “Ele cuspiu nas nossas cores”, dizia um comunicado do grupo, referindo-se à ida do brasileiro para a Inter. Pichações com os dizeres “Leonardo nós não queremos” foram vistas nos arredores de San Siro e da Casa Milan, sede do clube, quando seu nome ganhou força para fazer parte da nova cúpula da agremiação.

Leonardo parece ter feito as pazes com Gattuso, ainda que haja rumores de que ele esteja em contatos com Antonio Conte, recém-demitido do Chelsea. Agora, basta reconquistar a confiança da torcida, e isto deve acontecer depois de boas contratações – as possíveis chegadas do promissor Mattia Caldara e do artilheiro Gonzalo Higuaín são um bom começo – e, obviamente, títulos.

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