Serie A

E se Berlusconi tivesse comprado a Inter?

O ano era 1981. Após anos de fechamento aos estrangeiros, o Campeonato Italiano voltava a receber jogadores de fora do país, por liberação da Federcalcio. Mais ou menos na mesma época, patrocínios na camisa dos clubes começavam a serem introduzidos. Tudo para aplacar os efeitos devastante do Totonero, escândalo de manipulação de resultados que rebaixou Milan e Lazio e que suspendeu jogadores importantes, como Enrico Albertosi e Paolo Rossi. Era hora de se reinventar futebolisticamente.

Naquela época, a Itália vivia ótimo momento de recuperação do ponto de vista financeiro e político. O milagre econômico proporcionado pelo Plano Marshall e o aquecimento de setores da economia como indústria e construção durante os anos 1950, 1960 e início dos 1970 haviam cessado, o país entrara em uma era de recessão, austeridade, desemprego, problemas ambientais e políticos: os anos de chumbo, com muita violência e terrorismo. No início dos anos 1980, a economia voltava a crescer, as tensões sociais diminuíam. Em um momento de renovação, parecia uma boa hora para investir em uma das áreas que tendiam a voltar a crescer: o futebol. Era o que desejava fazer Silvio Berlusconi.

Berlusconi, então com 45 anos, era um dos jovens empresários mais respeitados da Itália naquele momento. Cresceu com o boom do milagre econômico e, com sua construtora, que também operava em outras áreas do ramo imobiliário, virou um dos homens mais ricos do país. Recebeu uma honraria da República Italiana, virou Cavaliere, e naquela época já havia juntado dinheiro e respaldo suficientes para abrir canais de TV e ser um magnata das comunicações. Através do grupo Fininvest, Berlusconi fundou, em 1980, o Canale 5, o primeiro canal privado de transmissão nacional na Itália. Para movimentar o recém-criado canal, Berlusconi recebeu uma ideia que envolvia diretamente o futebol. E resolveu unir o útil ao agradável.

Em 1980, a Inter havia acabado de ser campeã italiana. Porém, a torcida criticava muito o seu presidente, Ivanoe Fraizzoli. Ele havia comprado o clube das mãos de Angelo Moratti em 1968 e, em doze anos, conquistara apenas dois títulos nacionais – algo bem longe da realidade da Grande Inter, multicampeã nos anos 1960. Dessa forma, o empresário do ramo têxtil, um pouco cansado no comando do clube, teve a ideia de criar, em 1981, o Mundialito de futebol, torneio de pré-temporada que reuniria equipes que já haviam sido campeãs mundiais. Ele pediu que Sandro Mazzola, ex-bandeira do clube, que trabalhava como dirigente, apresentasse a ideia a um parceiro comercial. Este parceiro acabou sendo Silvio Berlusconi.

Berlusconi topou realizar o Mundialito, que teve três edições. Para a primeira edição, em 1981, apenas Inter, Milan, Santos, Peñarol e Feyenoord aceitaram o convite do Cavaliere. Em uma das reuniões que definiria o formato da competição, o Cavaliere não teve meias palavras. “Mazzola, poderia verificar se Fraizzoli estaria disposto a me vender a Inter?”, perguntou. O ex-atacante da Inter respondeu em tom afirmativo e comunicou ao presidente o pedido do empresário. As aspirações políticas de Berlusconi, existentes desde que entrou no mundo televisivo, passavam pelo futebol, visto pelo Cavaliere como melhor forma de veículo publicitário. Ter um time de futebol e fazê-lo campeão era a chave que Berlusconi queria para ganhar o poder político.

Inicialmente, Fraizzoli pensou em vender metade das ações ao magnata das comunicações, que logo se apressou em preparar documentos que regessem a cessão. Porém, o dono da Beneamata mudou de ideia em seguida. No final das contas, a Inter venceu o Mundialito, nenhuma negociação avançou e a história morreu ali. Dois meses depois, o último grande presidente da Inter, Moratti, também viria a falecer, deixando a torcida nerazzurra em luto.

A Internazionale mudaria de mãos em 1984, quando a Serie A já era o campeonato mais forte da Europa. Mas não seria Berlusconi o seu novo dono – ainda. Após temporadas pouco positivas, um dos vice-presidentes da equipe, o empresário do ramo alimentício Ernesto Pellegrini, comprou o clube e fez alguns investimentos. De cara, contratou craques como Liam Brady e Karl-Heinz Rummenigge, que se juntariam a feras como Giuseppe Bergomi, Giuseppe Baresi, Walter Zenga, Fulvio Collovati e Alessandro Altobelli. Depois, chegaram Marco Tardelli e Pietro Fanna. Era uma Inter forte, mas que bateu na trave duas vezes na Copa Uefa e que não conseguiu brigar pelo título italiano.

Enquanto a Inter investia, o Milan vivia um dos piores momentos de sua história. O clube havia vencido apenas seis títulos nos últimos 15 anos (um scudetto, no fim dos anos 1970) e sido rebaixado em 1980, por participação no Totonero, e novamente em 1982, dessa vez por mau rendimento no campo. Giuseppe (ou Giussy) Farina, antigo presidente do Lanerossi Vicenza, comprara o clube, pouco antes da queda, e levou o clube à derrocada financeira – como fizera no Vêneto; mas ao contrário do que houve com a equipe biancorossa, que teve sucesso nos campos, levou a torcida rossonera à loucura.

Ernesto Pellegrini adquiriu a Inter em 1984

Em fevereiro de 1986, Farina pôs o clube à venda. Berlusconi, então, vislumbrou a possibilidade de, enfim, chegar ao comando de um time de futebol e poder iniciar o seu projeto de avanço ao poder. No entanto, torcedor interista, Berlusconi tinha dúvidas sobre comprar o maior rival. Decidiu, então, no momento de turbulência rubro-negra, fazer uma nova oferta pela Inter, mesmo que Pellegrini estivesse no comando do clube há apenas dois anos.

Pellegrini decidiu refletir sobre a proposta de Berlusconi. Secretamente, porém, um grande empresário, rossonero de coração, se movia para comprar o Milan. Giorgio Squinzi, assim como Berlusconi, vinha do ramo da construção civil. Porém, fabricava, com a Mapei, empresa fundada por seu pai na década de 1930, materiais utilizados para construção. Em comparação com Berlusconi, não era rico. Porém, com a paixão que move os torcedores, fez uma proposta que seu pai consideraria arriscada para a empresa, e moveu parte dos fundos da Mapei como garantia para uma eventual compra do Milan. A tratativa, como dificilmente ocorrem nestes casos, ocorreu em sigilo, e Farina decidiu aceitar. Quando os primeiros jornais começaram a falar sobre o assunto, o negócio já estava avançado e Farina, um homem de palavra, não deixou que Berlusconi atravessasse o acordo.

Com o Milan nas mãos de Squinzi, Berlusconi se sentiu traído. Como ele, um poderoso homem da mídia, não havia tomado conhecimento que estavam comprando um clube de futebol que ele desejava? Afinal, sem a afirmativa de Pellegrini, seria melhor ter um pássaro na mão do que dois voando – paixões futebolísticas à parte, era o projeto de poder, era a própria vida política em construção o que mais importava.

As conversas com o dono da Internazionale não progrediam e o clube já projetava a temporada 1986-87. Giovanni Trapattoni, de grande trabalho na Juventus, chegava para tentar levar a Inter ao sonhado scudetto. Daniel Passarella, experiente líbero, também reforçou a equipe após o Mundial de 1986. Sem paciência, Berlusconi resolveu pagar quase o triplo do que Pellegrini havia gastado para comprar o clube – ofereceu 28 bilhões de libras; o presidente havia pagado 10 – e concluiu a compra do clube em meados de agosto, assumindo a presidência três dias antes de o campeonato começar, dia 14 de setembro.

A Inter de Berlusconi… e o Milan de Squinzi

O primeiro ano de Berlusconi como presidente da Inter foi um ano de transição. Sem poder contratar no mercado, o novo presidente apenas dedicou os primeiros meses de mandato para conhecer o clube por dentro. Se aproximou dos dirigentes, em especial do vice-presidente Giuseppe “Peppino” Prisco, conhecido como “O Advogado” e deixou o diretor esportivo Giancarlo Beltrami trabalhar. No entanto, Berlusconi levou seu sócio no Canale 5, Adriano Galliani, ao clube, onde assumiu o cargo de diretor geral.

Após uma primeira temporada regular, a Inter ficou em terceiro lugar e viu o Napoli de Diego Maradona faturar seu primeiro scudetto e a Juventus de Michel Platini ser vice. Com dinheiro em mãos, Berlusconi decidiu investir. Beltrami já estava de olho em outro alemão e indicou a contratação de Lothar Matthäus, que chegou para manter a explosão germânica deixada por Rummenigge, que rumou à Suíça. De presente, Berlusconi deu também à Inter van Basten. O trio ofensivo formado pelo alemão, pelo holandês e por um experiente Altobelli prometia muito. Com a saída de Platini da Juventus, a Inter seria o grande rival do Napoli e até partia na frente.

No outro lado de Milão, os primeiros anos de Squinzi à frente do Diavolo foram complicados. Com menos poder financeiro do que Berlusconi, o dirigente tentou sanar as dívidas do clube e apostou em pratas da casa, como Paolo Maldini, Franco Baresi, Alberigo Evani e Alessandro Costacurta, que se uniram aos ingleses Mark Hateley e Ray Wilkins e a Roberto Donadoni, Giovanni Galli, Daniele Massaro, Agostino Di Bartolomei e Pietro Paolo Virdis. Aposentado anos antes, Fabio Capello tomou o lugar de Niels Liedholm, foi alçado de técnico dos juvenis e se tornou o técnico da equipe principal.

O jogo defensivo e a fortíssima defesa caíram no gosto da torcida, que gostou de ver o time brigando muito para conseguir uma vaga na Copa Uefa. A força física e a garra daquele time também ajudou a Mapei, que utilizou os próprios jogadores como garotos-propaganda. Afinal, o que seria melhor do que um time sólido para representar uma empresa de produtos como vedantes e demais materiais de construção? Fiel ao Milan, Franco Baresi rejeitou a oferta da Inter para jogar ao lado de seu irmão Beppe. Os motivos? Como pilar da defesa e capitão rossonero, não deixaria o time em um momento delicado, e também respondia ao fato de a Inter tê-lo rejeitado em uma peneira, quando era mais novo, por considerá-lo “baixo e franzino”. Squinzi, em um esforço monumental, cedeu os jogadores ingleses e fez apenas três contratações: tirou Carlo Ancelotti da Roma e deu Ruud Gullit e Aldo Serena para que Capello buscasse aumentar o poder de fogo do time.

Ídolos holandeses, van Basten e Gullit defenderam lados diferentes em Milão

No final do campeonato, a Inter de Trapattoni não encantou, mas foi campeã italiana – o Milan ficou com a terceira posição. Matthäus se destacou, fez 10 gols, mas van Basten acabou prejudicado pelo jogo pragmático e fez apenas 12 – Altobelli, utilizado a conta-gotas por Trapattoni, transferiu-se à Juve no final do ano. Bergomi e Zenga foram os grandes destaques de uma defesa quase intransponível. Para a Copa dos Campeões que estava por vir, Berlusconi queria mais. Achou que havia investido muito e não tinha conseguido o que esperava: um futebol vistoso. Em uma prova de ousadia, não renovou o contrato de Trap, com quem havia discutido ao longo do ano, e ofereceu um longo contrato a Arrigo Sacchi, que havia subido com o pequeno Parma da Serie C para a Serie B – onde havia feito duas temporadas razoáveis, mas com futebol moderno. Como presente a Sacchi, chegou mais um holandês: Frank Rijkaard, campeão europeu com a Oranje em 1988 (como van Basten e o rival Gullit). Pedido expresso do treinador, prontamente atendido.

Em seu primeiro ano em Milão, Sacchi começa mal, é contestado e só depois de muita insistência com seus métodos de treinamento e táticas inspiradas no futebol total holandês. A polivalência de Rijkaard no meio-campo e na defesa, ajudado por um inteligentíssimo Matthäus, acabaram sendo fundamentais, segundo as palavras do próprio Sacchi, ao final de uma temporada que acabou muito bem: a Inter voltou a conquistar a Copa dos Campeões e um Mundial de clubes, 24 anos depois da última vez, e ainda faturou mais um scudetto, muito à frente de seus rivais e sem perder partidas em casa. O Milan de Squinzi e Capello caiu uma posição na classificação da Serie A (4ª colocação), mas chegou às semifinais da Copa Uefa e à final da Coppa Italia, onde perdeu para a Sampdoria. Enquanto a Inter abocanhava tudo com vontade, os milanistas iam se recuperando aos poucos, mas sem ganhar títulos.

O ano seguinte, 1989-90, teve o Napoli de Maradona e Careca voltando às glórias, seguido por uma Juventus liderada pelos novos contratados Jürgen Klinsmann e Salvatore Schillaci. O Milan, pela primeira vez desde as trocas de donos, ficou à frente da Inter, que ficou apenas com a sexta posição na Serie A. No entanto, a equipe repetiu o que havia conseguido na década de 1960 e fez a dobradinha na Copa dos Campeões e na Copa Intercontinental, jogando com quase a mesma fortíssima equipe que conquistara os títulos anteriormente – apenas Nicola Berti havia sido contratado. A Inter chegava também à dobradinha na Bola de Ouro: primeiro, van Basten, depois, Matthäus.

Após a Copa de 1990, disputada na Itália, a Inter correu atrás de Roberto Baggio, declarado torcedor nerazzurro e jovem de talento indiscutível, apesar do gênio difícil – no ano anterior, o Milan já havia fechado com Stefano Borgonovo, seu parceiro de ataque na Fiorentina. As coisas, no entanto, não andaram bem. A Sampdoria, treinada por Vujadin Boskov e comandada por Roberto Mancini e Gianluca Vialli, ficou com o título, e Inter e Milan dividiram a segunda posição, com empate nos pontos – nos critérios de desempate, o Milan ficou com o vice, graças a uma vitória num dérbi, graças a um gol de Serena, ex-nerazzurro, e um gol contra do zagueiro Riccardo Ferri. Surpreendentemente, times como Genoa, Torino e Parma ficaram à frente de Juve, Napoli, Lazio e Fiorentina. Não surpreendeu, no entanto, que Baggio não se adaptasse completamente aos métodos de Sacchi e acabasse por não render o máximo ao lado de tantos craques.

Em 1991, Matthäus voltou para a Alemanha e Rijkaard foi para o Ajax realizar os últimos anos de sua carreira. Para completar, Sacchi assumiu a seleção italiana, o que provocou uma enorme revolução na Inter. Os nerazzurri buscaram Boskov e Toninho Cerezo na Sampdoria, enquanto o Milan mantinha a mesma base e se fortalecia com outros jovens que apareciam, como Demetrio Albertini, unidos a outros elementos experientes, como os já citados e o goleiro Sebastiano Rossi, substituto de Galli. Apesar de Baggio e van Basten enfim se entenderem, a Inter ficou com o quinto lugar e caiu nas semifinais da Copa Uefa. Os rossoneri, pela primeira vez, se sagraram campeões nacionais, saindo de uma fila de 13 anos. O trabalho consistente de Capello e a ascensão de vários jogadores ligados ao clube acabou dando certo.

No ano seguinte, o Milan fechou com o volante Marcel Desailly e o meia Dejan Savicevic, se fortalecendo ainda mais no que propunha, um jogo defensivo e pragmático. No entanto, massacrou o Barcelona na final da Copa dos Campeões e, com uma goleada: 4 a 0 para abocanhar o maior título da gestão Squinzi. Capello já era deus em San Siro. A Inter, por sua vez, dedicou-se à Copa Uefa. Com a demissão de Boskov, era a vez de Sven-Göran Eriksson, vice-campeão europeu com o Benfica, ter a sua chance no comando da Beneamata. Com Baggio no auge da carreira e van Basten ainda um fazedor de gols irrepreensível, a Inter passou por cima de rivais italianas, como Atalanta e Roma, e ficou com a Copa Uefa com folga. O Divino Codino foi eleito o grande jogador do torneio, à frente de van Basten, e forçava passagem na seleção italiana mesmo com os atritos com Sacchi. Em solo nacional, uma Juventus recheada de alemães e italianos, e treinada por Marcello Lippi, voltava a ganhar o scudetto. Pronto: as três gigantes italianas estavam de volta e comemoravam no final da temporada.

Foi ali que, depois de muito tempo, os dérbis entre os times voltaram a se equilibrar. Desde que Berlusconi comprara a Inter, a Beneamata passou um período de mais quatro anos sem perder para os rivais – entre 1978 e 1984, os nerazzurri ficaram seis anos sem perder, até que um gol de Hateley acabou com a escrita. Nestes anos, van Basten se tornou o grande carrasco rossonero, marcando sete gols em oito jogos; Matthäus fez outros quatro. Foi apenas em 1992, graças a gols de Gullit e Maldini que o Milan acabou com a escrita. Por outro lado, o Derby d’Italia ficou ainda mais acirrado entre 1986 e 1988, com o momento pouco próspero do Milan. Esta época foi de muitos empates entre os times, que se opunham com o forte tridente ofensivo interista e a defesa juventina, com Stefano Tacconi, Antonio Cabrini e Gaetano Scirea. Porém, com a reformulação que atingiu a Juve, a Inter conseguiu boas vitórias até 1992, ficando invicta.

Em 1993, porém, aconteceu uma grande perda para a Inter. Van Basten se lesionou e nunca mais voltaria a entrar em campo. Baggio precisou assumir a liderança da equipe e conseguiu, levando a equipe a mais um título nacional e da Copa Uefa, tornando-se o melhor jogador do mundo – levou a Bola de Ouro e o prêmio da Fifa, no final do ano. O Cavaliere, enfim, havia conseguido o que queria. Graças a Baggio e ao forte time que formara, mantendo algumas bandeiras, como Baresi, Bergomi e Zenga, tornou-se cada vez mais popular na Itália. Superou Moratti como o presidente mais vitorioso da Inter, um time que só tinha torcida menor que a da Juventus e que, cada vez mais, conquistava os jovens torcedores em todas as partes do país. A entrada na política, em 1994, rendeu ao empresário a eleição para primeiro-ministro da Itália. Os objetivos haviam sido atingidos e Berlusconi queria mais.

Porém, após a o vice italiano na Copa do Mundo, com Baggio perdendo pênalti no final, a Juventus decidiu que era hora de voltar a ser protagonista no cenário mundial e, com um caminhão de dinheiro, levou o Divino Codino para Turim, onde seria o tutor de Alessandro Del Piero – mais uma vez, a má relação com o técnico e, desta vez, também com Berlusconi, fez com que o jogador deixasse Milão, algo que a torcida demorou muito para engolir. O Cavaliere relutou em vender o principal jogador do time, principalmente após a lesão de van Basten e a eleição para o mais importante cargo do país, mas não houve jeito.

Baggio foi o grande nome da Inter “berlusconiana”, mas se transferiu à Juventus, onde foi parceiro de Del Piero

Para suprir a ausência dos craques, Berlusconi primeiro reformulou toda a diretoria. Trouxe nomes como Giacinto Facchetti, Sandro Mazzola e Luis Suárez para cargos no clube. Os antigos craques indicaram alguns nomes, e a Inter também tentou contratar destaques da Copa, como Gheorghe Hagi, Hristo Stoichkov e Romário. No final das contas, foram contratados Dunga, Gabriel Batistuta, Henrik Larsson, Gianluca Pagliuca e, no ano seguinte, duas promessas: Luís Figo e Javier Zanetti.

Apesar dos custos e dos títulos, a Inter tinha dificuldades em se renovar. Desde que Berlusconi chegara ao comando do clube, o maior problema da equipe estava nas divisões de base, que revelavam muito menos que as de Juventus, Roma e, principalmente, Milan. Dessa forma, Berlusconi gastara, ao todo, muito mais do que Squinzi, que assumira a presidência no mesmo ano que ele. Claro, a Inter havia ganhado muito mais, mas os gastos haviam sido muito grandes. Valia a pena ter gastado tanto para chegar ao topo do mundo e da Itália?

Berlusconi achava que sim. Gozava do bom e do melhor, suas empresas, com sua chegada do poder, tinham cada vez mais trânsito e se valorizavam. Sua rede de TV, a Mediaset, era a maior do país e desbancara a estatal Rai, fazendo propaganda de si mesmo. Sua vida extraconjugal andava mais movimentada do que nunca. Com o sucesso, porém, as primeiras denúncias começavam a aparecer. Envolvimento com a máfia calabresa, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, eram essas algumas das denúncias sobre o presidente da Inter, que acabou se demitindo do cargo de primeiro-ministro em 1995, virando líder da oposição até 2001, quando retornou ao poder.

Em termos esportivos, o restante dos anos 1990 foi bastante equilibrado no futebol italiano. Todas as equipes de ponta e as médias investiram bastante para tentar abocanhar títulos – e isso acabou acontecendo. Na década, sete equipes diferentes conquistaram taças em solo nacional, seja o scudetto seja a Coppa Italia. Fora do país, Copa Uefa, Recopa Europeia, Liga dos Campeões e a Supercopa também tiveram donos italianos. Parma, Roma, Lazio e Fiorentina se juntaram aos três grandes e faturaram títulos.

A Inter, até 2000, ganhou mais um scudetto, uma Coppa Italia e uma Recopa, mas viu a Juventus voltar a dominar, com pequena vantagem, o cenário nacional. Nesse período, o time nerazzurro fechou com alguns dos grandes jogadores da década, como Zamorano, Ronaldo, Seedorf, mas viu outros craques se distribuírem pelos outros times italianos. Mais: Figo, Larsson e Batistuta também não estavam mais em Milão.

Chegamos aos anos 2000. As seguidas tentativas de Berlusconi de fazer uso político do clube já irritavam uma boa parcela dos torcedores. Figuras históricas do clube, como o vice-presidente Prisco e ex-jogadores como Gabriele Oriali (ex-diretor esportivo), Facchetti e Mazzola se afastaram – Prisco, inclusive, faleceu em 2001, e não aparecia em San Siro há dois anos, mesmo ocupando o cargo de vice-presidente honorário. Apesar de tudo, a Inter voltou a ganhar uma Liga dos Campeões, pouco após a morte de Prisco. A campanha foi sofrida, teve a volta de Ronaldo aos gramados após duas sérias lesões, e gols marcados por ele e Christian Vieri, na final contra o Manchester United de David Beckham, Ryan Giggs e tantos outros. Berlusconi dedicou o título ao recuperado Ronaldo, mas principalmente ao ex-vice-presidente, algo que repercutiu mal, pelo cinismo do gesto – já que Prisco havia sido praticamente constrangido por Berlusconi a deixar o clube.

O time vencia, em campo, mas setores da torcida criticavam Berlusconi por desunir a Inter e afastar os que fizeram história no clube antes de ele chegar. As vitórias da Beneamata, o governo desorganizado de Romano Prodi e as costuras políticas do Cavaliere levaram-no de volta ao poder, em 2001, o que gerou, novamente, muita polêmica. Afinal, como o primeiro-ministro do país poderia administrar um dos grandes clubes italianos – e, pior, ser dono de uma das maiores redes de TV da Bota? O conflito de interesses era claro, mas desta vez – mais do que em 1994-95 –, o Cavaliere começava a ser mais contestado, não só pelos adversários, mas também pelos próprios aficionados.

Com parte da torcida jogando contra, a Inter virou um caldeirão. Os últimos anos tinham visto o crescimento da Juventus e algumas contratações darem errado, o que gerou contestação a Galliani e ao próprio Berlusconi. Ronaldo havia sido contratado a peso de ouro, jogou bem durante dois anos, mas viveu com lesões. Após o título da LC e a conquista do Mundial com o Brasil, em 2002, o jogador forçou a barra e foi ser galático em Madrid. O dinheiro da venda de Ronaldo acabou sendo investido em jogadores que não renderam o esperado. Na época, o jovem Andrea Pirlo era o centro do time, ao lado de Vieri, Zanetti e Córdoba, e a Inter acabou ficando apenas com a quarta posição na Serie A.

Já o Milan, que há tempos havia se separado de Capello e agora tinha Carlo Ancelotti como técnico, não tinha mais Squinzi como único dono, e crescia. Com aporte de capital árabe, mas ainda com o italiano na presidência, a equipe havia sido campeã nacional. E também era favorita à Champions League, utilizando praticamente a mesma base do início dos anos 1990 – alguns se aposentaram, mas outros estavam lá, firmes, como Maldini e Costacurta –, polvilhada com outros craques italianos e eslavos, como Zvonimir Boban e Andriy Shevchenko.

O título europeu chegou em 2002-03, sobre a Juventus, e as duas equipes passaram a dominar o início dos anos 2000 no futebol local. Dois técnicos que se criaram no Milan, Capello (na Velha Senhora) e Ancelotti (no próprio Diavolo) davam as cartas. A Inter, que apostara em Louis van Gaal e novamente em Trapattoni, não encontrava muita paz. Nem mesmo quando Marcello Lippi deu o título europeu à equipe – que acabou derrotada na final mundial para o Boca Juniors –, a paz reinou em Appiano Gentile.

Lippi acabou demitido durante a temporada, após perder para o Boca, e o diagnóstico dos jornalistas especializados era o seguinte: a Inter não tinha tantas bandeiras quanto os rivais. Especificamente, não tinha jogadores de muita qualidade revelados no clube nos últimos anos que poderiam segurar a barra, pela identificação com as cores azuis e pretas. Também não tinha ex-jogadores suficientemente capacitados que pudessem assumir cargos na diretoria ou como técnicos – os que poderiam já haviam se afastado, graças ao presidente. Berlusconi, então, tinha construído um império em volta de si e o destruído, sem conseguir manter a empatia do início do mandato.

Descontente com a situação societária e com o crescimento dos rivais, Massimo Moratti (dono da Saras, uma das maiores petroleiras italianas e filho de Angelo Moratti, maior presidente do clube até a chegada de Berlusconi) se uniu com seu amigo Marco Tronchetti Provera (um dos principais acionistas da Pirelli e da Telecom Italia) e, aproveitando o momento de instabilidade do clube, fez uma proposta de compra da Inter. Era a chance de fazer a Inter continuar com as glórias que teve na época do seu pai e longe do nefasto círculo de poder e disputa política que tinha como Berlusconi.

Rapidamente, a Inter havia deixado de ser a Beneamata (Bem Amada, em tradução literal) para ser o clube mais odiado da Itália. Mais do que a Juventus. Inclusive, politicamente, a família Agnelli, dona da Juve, também começa a se tornar adversária de Berlusconi. Joga contra o Cavaliere, tentando fazer ascender outros nomes de centro-direita. Uma célebre declaração de Gianni Agnelli, antes de morrer, em 2003, gerou muita polêmica. “Apenas um nome apoiado por quem comanda instituições verdadeiramente italianas, como a Juventus, a Fiat e a Ferrari, pode querer o bem do nosso país”, disse o patriarca da família.

A princípio, Berlusconi refutou veementemente a possibilidade de vender o clube a Moratti. Porém, os desgastes no seu segundo governo, e a grande quantidade de denúncias tiraram o foco do Cavaliere da equipe. Era Galliani quem administrava a Inter, em termos, já que o cargo político o impedia – de maneira oficial. A Inter começava a lhe dar um prejuízo (especialmente à sua imagem) acima do planejado e suas outras empresas, apesar de envolvidas em esquemas de benefício próprio, começavam a perder a credibilidade. O futebol não era mais um meio de popularidade, uma vez que longe dos títulos há quatro temporadas, a presidência interista mais desgastava sua imagem do que a mantinha em boa conta.

Desta forma, em junho de 2005, Berlusconi optou por virar a página e cedeu a Inter a Massimo Moratti por 580 milhões de euros. Ao todo, Berlusconi faturou quatro scudetti, três Copas/Ligas dos Campeões, duas Copas Intercontinentais, duas Supercopas italianas e duas europeias, uma Coppa Italia e uma Recopa Europeia. Foram 15 títulos em 19 anos, contra oito rossoneri – duas LC, dois scudetti, três Supercopas (duas locais e uma europeia) e uma Coppa Italia. A Inter alargou sua vantagem sobre o Milan com o segundo maior número de títulos do Campeonato Italiano e diminuiu a vantagem da Juventus, que ficou com nove a mais – 16 contra 25. Em termos europeus, a Inter ficou com um título a mais que os rossoneri, e com três acima dos juventinos.

Nos anos que se seguiram à venda da Inter, o futebol italiano passou por uma séria crise. Em 2006, explodiu o Calciopoli, esquema de manipulação de resultados que descobriu partidas vendidas entre 2003 e 2006. A investigação atingiu as principais equipes italianas, incluindo o trio de ferro formado por Inter, Juventus e Milan, que tiveram diretores envolvidos no escândalo. As equipes foram penalizadas em pontos, embora a pena inicial, pedida pela procuradoria, era a de rebaixamento. Porém, como o campeonato perderia muito do ponto de vista econômico sem as três gigantes, as penas foram abrandadas. Hoje, com o renascimento de Roma, Napoli e Fiorentina, Inter, Juve e Milan lutam para se manterem no topo de um campeonato sem dinheiro e em profunda crise técnica.

Já Berlusconi, que levou a Inter ao sucesso em campo, mas ao declínio moral, teve destino parecido. Depois da venda da equipe, o Cavaliere continuou com poder político, se reelegeu outra vez, mas foi processado e condenado por aliciar menores de idade em 2010 – entre outros crimes sexuais contra o patrimônio público. Foi agredido em praça pública algumas vezes, tentou fazer leis que dificultassem a sua prisão e, quando viu que não poderia mais driblar a lei italiana – que, por incrível que pareça, iria fazer com que os seus delitos não terminassem em pizza –, fugiu do país para não ser preso. Pediu asilo político em uma república ditatorial asiática e até hoje realiza suntuosas festas privadas e, com quase 80 anos, desfruta de seus bunga-bungas.

Atenção: Este é um texto ficcional baseado em uma série de declarações que dão conta de que Berlusconi seria torcedor da Inter e que, na década de 1980, tivesse, mesmo, tentado comprar o clube. Enquanto Sandro Mazzola, Peppino Prisco e o advogado Vittorio Dotti, ex-funcionário do Milan, dizem que Berlusconi procurou Fraizzoli e Pellegrini, o Cavaliere afirma que foi procurado por Fraizzoli, e que não aceitou a proposta porque “o Milan é uma religião”. De qualquer forma, a história está no folclore do futebol azzurro. Ah, Giorgio Squinzi realmente existe e realmente é torcedor do Milan. Porém, o ricaço é dono do pequeno Sassuolo, exemplo de administração no futebol local.

Quer relembrar o que de fato aconteceu com Inter e Milan entre os anos 1980 e 2010? Já escrevemos sobre isto! Veja abaixo.

Década de 1980

Inter

Milan

Década de 1990

Inter

Milan

Décadas de 2000 e 2010

Inter

Milan

1 comentário

  • Ótimo exercício de imaginação, parabéns! Sinto saudades do bom futebol italiano dos anos 80. Comecei curtir futebol vendo os gols de Maradona pelo Napoli, depois o excelente time da Inter com com Berti, Zenga, Mathaus. E o grande Milan de Rijkaard, Gullit e Van Basten, Donadoni…..ah e ainda vi um pouquinho do Platini na Juventus…..bela época!

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