Jogadores

Vincenzo Iaquinta brilhou na Udinese, ganhou o mundo e se envolveu com a máfia calabresa

Mescla de centroavante clássico e moderno, Vincenzo Iaquinta fez história na Itália vestindo alvinegro. Defendeu a Udinese por sete anos e se tornou o segundo maior artilheiro da história do clube. Na Juventus, foi a esperança de gols de um time que buscava voltar aos holofotes após a mancha da segunda divisão. Conquistou o planeta em 2006 com a seleção italiana, participando do tetracampeonato mundial. O seu único título em 17 anos de carreira, aliás. Mas, já aposentado, foi condenado a seis anos de prisão por envolvimento com a máfia calabresa e posse ilegal de armas.

Nascido em Cutro, província de Crotone, Iaquinta iniciou sua trajetória para virar um jogador de futebol um pouco tarde. Não por acaso estreou profissionalmente pelo Padova quando já tinha 19 anos, após passar dois anos no amador Reggiolo. As boas exibições pela Serie B – três gols em 13 partidas – vestindo as cores dos biancoscudati lhe renderam uma transferência ao Castel di Sangro, então participante da Serie C1. Permaneceu na equipe giallorossa por duas temporadas até assinar com a Udinese, no verão europeu de 2000.

Em Údine, Iaquinta não apenas realizou um sonho ao jogar na Serie A como se tornou um dos maiores matadores dos zebrette. Sua estreia na máxima divisão italiana aconteceu em 1º de outubro de 2000: balançou as redes e ajudou seu novo clube a vencer o Brescia, em casa, por 4 a 2. À medida que os anos foram passando, o centroavante foi ganhando espaço na Udinese e cativando os torcedores devido à sua determinação dentro de campo. A partir de 2003, Iaquinta começou a ter bons números frente à meta dos adversários.

Ao lado de Antonio Di Natale e David Di Michele, Vincenzo ajudou a equipe friulana a terminar a Serie A 2004-05 em quarto lugar e, assim, se classificar para a Liga dos Campeões. Iaquinta deixou sua marca nas duas partidas contra o Sporting Lisboa, valendo pelos play-offs. Para confirmar a boa fase, fez uma tripletta e destruiu o Panathinaikos, no Friuli, pelo jogo de abertura da fase de grupos da competição. Terminou a temporada como vice-artilheiro da Udinese, com 15 gols, quatro atrás de Di Michele. Di Natale, futuro ídolo bianconero, compunha o trio de ataque e encerrou 2003-04 com 11 tentos.

Apesar de seu 1,89 metro e o jeito meio desengonçado, Iaquinta também era utilizado como ponta (AFP/Getty Images)

Em evidência no cenário nacional, Iaquinta conseguiu aos 25 anos sua primeira chamada para seleção italiana. Antes, ele havia atuando pelas seleções sub-20 e sub-21, com as quais jogou 15 partidas e marcou dois gols. Sua estreia pela Squadra Azzurra ocorreu em março de 2005, num amistoso sem gols com a Islândia, em Pádua. O atacante não saiu do radar de Marcello Lippi e foi convocado à Copa do Mundo de 2006. Na estreia do torneio, marcou seu primeiro gol pela Nazionale, na vitória por 2 a 0 sobre a Gana. Dias depois, se tornaria campeão do mundo – seu primeiro e único título em 17 anos de carreira. Franco Causio e Iaquinta são os únicos jogadores a vencerem um Mundial enquanto vestiam o manto bianconero.

Depois da Copa da Alemanha, o camisa 9 fez mais uma temporada prolífica – 14 gols e cinco assistências em 30 jogos na Serie A –, despertando o interesse da Juventus. Fechou sua passagem pela Udinese, em junho de 2007, com 204 partidas e 69 tentos, sendo o segundo maior goleador da história do clube, atrás apenas de Di Natale – que chegou a 227. A Vecchia Signora visava se reafirmar no Italiano após ser mandada à segunda divisão devido ao esquema Calciopoli, e Iaquinta era visto como um grande nome para o ataque juventino. Ele custou 11,3 milhões de euros à Juve e firmou vínculo por cinco anos.

O debute do bomber pela Juventus foi o melhor possível: substituiu Alessandro Del Piero, aos 15 minutos do segundo tempo, marcou dois gols e forneceu uma assistência na goleada por 5 a 1 sobre o Livorno. O camisa 9 fez uma boa temporada – foi artilheiro da Coppa Italia junto com Julio Cruz e Mario Balotelli, todos com quatro gols –, mas, em abril de 2008, sofreu uma lesão muscular na parte posterior da coxa esquerda que o impediu de disputar a Eurocopa. Aliás, as contusões infernizariam a vida do atleta dali até a sua aposentadoria.

Com as baterias recarregadas, Iaquinta manteve o ritmo na temporada seguinte, na qual anotou 12 gols na Serie A. Dois desses vieram na última rodada, contra a Lazio, em Turim, num 2 a 0 que fizeram os bianconeri terminarem a liga na segunda posição. Em junho, anotou uma doppietta contra a Nova Zelândia, em amistoso vencido por 4 a 3, na preparação para a Copa das Confederações de 2009, competição em que a Itália acabaria eliminada ainda na primeira fase.

Na Copa das Confederações, Vincenzo atuou como ponta-esquerdo no 4-3-3 de Marcello Lippi e foi titular nos três jogos da fase de grupos, mas não estufou as redes. Ele também fez parte de outro vexame da Nazionale: a queda precoce na Copa do Mundo de 2010. Embora tenha passado boa parte da temporada 2009-10 no departamento médico, Iaquinta ganhou mais um voto de confiança de Lippi.

O camisa 15 começou jogando desde o início as três partidas da fase de grupos, e em duas delas executou o papel de centroavante, mas só fez um gol, de pênalti, contra a Nova Zelândia, no empate em 1 a 1. A Itália terminou o Mundial na lanterna do Grupo F. Após o fiasco na Copa, Iaquinta deixou para sempre a Nazionale. Em 40 duelos vestindo azzurro, o atacante balançou as redes somente seis vezes.

Os gols de Iaquinta e Del Piero deram muitos pontos à Juventus (LaPresse)

A temporada 2010-11 foi uma das piores da carreira profissional de Iaquinta. Além das seis lesões que sofreu ao longo da época, que lhe fizeram ausentar-se de 27 jogos, o atacante perdeu a cabeça após marcar contra a Udinese, seu ex-clube. Quando guardou o quarto gol que fechou a conta em 4 a 0 para a Juventus, mandou a torcida friulana tomar “naquele lugar”. A celebração foi tão efusiva que até seus próprios companheiros de equipe pediram calma ao bomber. Ele acabou advertido com cartão amarelo por causa da exaltação após o gol. Em entrevista à Sky italiana depois da partida, o atleta se defendeu justificando que vinha sendo insultado por torcedores do seu ex-time.

Os problemas físicos pesaram na temporada 2011-12, e Iaquinta acabou deixando a Juventus em janeiro de 2012. Foram 108 jogos, 40 gols e 14 assistências em quatro anos na Vecchia Signora. “Peço desculpas por não ter sido protagonista na Juventus de [Antonio] Conte. Uma equipe com uma mentalidade extraordinária. Eu saí de cena bem”, disse Vincenzo, ao Tuttosport, em 2014. Iaquinta trocou a Juventus por outro time alvinegro: foi emprestado ao Cesena por seis meses. As lesões não deram trégua, e o atacante encerrou a temporada com apenas sete jogos e um gol pelos bianconeri da Emília-Romanha, que não conseguiram se salvar do rebaixamento.

Iaquinta voltou à Juventus para a temporada 2012-13. A equipe do Piemonte havia se sagrada campeã italiana após longo tempo de hiato e tinha, no elenco, atacantes como Alessandro Matri, Fabio Quagliarella, Mirko Vucinic, Sebastian Giovinco, Nicolas Anelka e Nicklas Bendtner. Sem espaço e lutando contra as recorrentes contusões, Vincenzo não entrou em campo em nenhum jogo da época – nem mesmo foi inscrito no campeonato. Com isso, anunciou aposentadoria no verão europeu de 2013, aos 34 anos, para seguir a carreira como treinador. Em 2016, conseguiu a licença da Uefa para fazê-lo. Porém, um episódio negativo, um ano antes, colocou em xeque sua carreira de técnico.

Em fevereiro de 2015, policiais da operação Aemilia fizeram uma busca na casa de Iaquinta, localizada na comuna Quattro Castella, província de Reggio Emilia, e encontrou duas armas de seu pai, Giuseppe. As pistolas não poderiam estar na residência do ex-jogador, onde seu pai também reside, porque Giuseppe fora proibido pela prefeitura de Reggio Emilia, em março 2012, de ter porte de armas. Em dezembro de 2015, eles foram julgados por posse ilegal de armas de fogo e possível envolvimento com a máfia calabresa ‘Ndrangheta. Seu pai foi acusado de filiação à organização criminosa através da ‘ndrina Grande Aracri – espécie de unidade da ‘Ndrangheta, que comanda a região da Calábria.

De acordo com testemunho de membros do bando que acabaram presos, a família Iaquinta recebia benefícios em várias situações devido à sua proximidade com a associação e também trocaria favores do clã por presentes relacionados ao futebol (chuteiras, ingressos para jogos, material esportivo). Ainda segundo o depoimento dos integrantes da organização, o Iaquinta pai solicitava aos mafiosos que dessem um jeito de pressionar e ameaçar funcionários de Udinese e Juventus para que o atacante jogasse ou fosse transferido a outro clube.

Em maio passado, os juízes antimáfia de Bologna pediram seis anos de prisão para Iaquinta, apenas pelo posse ilegal de armas. Já para o pai do ex-centroavante, a pena foi mais pesada: Beppe, com o agravante de associação mafiosa, foi condenado, em primeira instância, a 19 anos de cadeia. Outras 145 pessoas foram detidas pelas autoridades italianas por ligação com a ‘Ndrangheta. E agora, será que algum cartola apostaria em Iaquinta como treinador após o imbróglio com a justiça?

Atualizado em 31 de outubro de 2018: Iaquinta acabou condenado a dois anos de reclusão. Furioso, o ex-jogador declarou que foi condenado apenas por ser calabrês e anunciou que irá recorrer.

Vincenzo Iaquinta
Nascimento: 21 de novembro de 1979, em Crotone, Itália
Posição: atacante
Clubes: Reggiolo (1996-98), Padova (1998), Castel di Sangro (1998-2000), Udinese (2000-07), Juventus (2007-12 e 2012-13) e Cesena (2012)
Títulos: Copa do Mundo (2006)
Seleção italiana: 40 jogos e seis gols

Deixe um comentário