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O meia Carlo Nervo foi peça vital para a reconstrução do Bologna



Ao pesquisar listas de convocações para a seleção italiana ou buscar quais jogadores atuaram mais vezes por equipes tradicionais da Itália, volta e meia emergem à vista do explorador alguns nomes surpreendentes. Não por apresentarem falta de qualidade, mas por terem conseguido seu espaço comendo pelas beiradas, muito discretamente. Esse é o caso do meia Carlo Nervo, que se consolidou no Bologna e chegou a vestir a camisa da Nazionale.

Nervo começou jogando futebol nas divisões infantis do GSR Solagna, clube da cidade onde cresceu. Logo depois, Carlo passou aos juvenis do Bassano Virtus, de maior porte e visibilidade, já que Solagna tem pouco mais de mil habitantes e Bassano del Grappa é uma das 10 maiores cidades do Vêneto, com cerca de 45 mil.

Em 1988, o meio-campista subiu para os profissionais e, após uma temporada, teve uma fracassada passagem pelo Monza – nem ao menos entrou em campo na Serie B 1989-90. Nervo voltou ao Bassano Virtus, teve um breve período no Cittadella e, em 1992, chegou ao Mantova. Com um ótimo rendimento na Lombardia, levou o time para a Serie C1 em seu primeiro ano e bateu na trave para chegar na categoria superior na temporada seguinte, com uma segunda colocação no grupo. As boas aparições e os graves problemas financeiros do Mantova fizeram com que Carlo fosse vendido ao Bologna, em 1994.

O clube bolonhês acabara de pedir falência e estava na terceira divisão. Por sua situação periclitante, precisava de jovens promessas que custassem pouco e não onerassem seu caixa – essa era a solução proposta pelo novo presidente, Giuseppe Gazzoni Frascara. Nervo aceitou o desafio e posteriormente acabou entrando para a história como protagonista do time que conseguiu dois acessos seguidos e levou os rossoblù de volta para a Serie A, em 1996-97.

Nervo foi o dono do meio-campo rossoblù em boa parte dos anos 1990 e 2000 (Arquivo/Bologna FC)

Além desta grande empreitada, que devolveu o tradicional time ao seu lugar, Carlo também fez parte de grandes equipes do Bologna. Com o meia no centro do gramado – primeiro com a camisa 16 e, depois, com a 7 –, os rossoblù chegaram na semifinal da Coppa Italia de 1996, 1997 e 1999 e da Copa Uefa de 1999, além de terem alcançado um título e uma final da Copa Intertoto. O presidente contratou jogadores importantes durante sua gestão – nomes como Roberto Baggio, Giuseppe Signori, Klas Ingesson, Kennet Andersson, Julio Cruz, Francesco Antonioli e Gianluca Pagliuca –, mas o símbolo de sua presidência foi, sem dúvidas, Carlo Nervo.

Jogando como um meio-campista pelo lado direito, o vêneto era conhecido por conseguir ajudar a recompor a linha defensiva e também por participar de alguns gols. Tais características lhe renderam algumas convocações para amistosos preparatórios da Euro 2004, todas por obra de Giovanni Trapattoni. Nervo acabou não indo para o Campeonato Europeu, o Bologna foi rebaixado no ano seguinte e ele deixou o Renato Dall’Ara em fim de contrato.

O meia quase acertou com o Torino, mas fechou mesmo com o Catanzaro, clube pelo qual teve uma passagem de apenas um ano. Após a falência dos giallorossi, ficou alguns meses parado e retornou para a Emília-Romanha para jogar sua última temporada no Bologna em 2006-07. Ao fim dela, se aposentou.

No total, Nervo jogou 11 anos pela equipe do Bologna e é o terceiro no ranking de mais partidas com a camisa azul e vermelha, com 417 aparições. Até hoje, se entrarmos em sua página no Facebook, conseguimos perceber que o ex-meia é um torcedor fervoroso do time das duas torres. No entanto, a camisa dos veltri não foi a última que Carlo vestiu: em 2008, já com 37 anos, resolveu voltar a jogar, atuando no Virgilio e depois no Rolo, times semiprofissionais de divisões inferiores. Em 2009, parou definitivamente.

Além de ter sido importante no Bologna, Nervo teve carreira política (Libero Quotidiano)

Poucos meses após sua derradeira partida jogando futebol, Carlo resolveu voltar às suas raízes e se candidatar ao posto de prefeito em Solagna, pela Lega Nord. A escolha do partido de extrema direita, famoso por ser xenófobo e separatista, é no mínimo curiosa, tendo em vista que o jogador não foi para a Euro 2004 pois Mauro Camoranesi, cidadão italiano mas nascido e criado na Argentina, acabou sendo o dono da posição.

Felizmente, Nervo não se guiava por essas diretrizes perigosas: o ex-jogador não quis seguir as linhas mais radicais de seus companheiros, se afastou de alguns vereadores e quase foi expulso do partido. Criou uma nova aliança, unindo direita e esquerda, em prol de sua cidade, mesmo sabendo que não seria possível se candidatar a reeleição, tamanha ruptura criada.

Sem querer se envolver em brigas políticas, Carlo se desfiliou e voltou a administrar sua loja de móveis, que existe desde 2005, e em 2017 se tornou presidente do GSR Solagna, o clube em que deu seus primeiros passos no futebol. Ainda em nível semiprofissional, o time não consegue oferecer aos seus jogadores além de uma pequena ajuda de custos, então o projeto inicial é fazer uma equipe ligada às raízes, com jogadores atuando por paixão e esperança de serem observados por equipes mais estruturadas.

Como meio-campista ou prefeito, ambos pela direita, Carlo jamais deixou de reconhecer que o mais importante é a comunhão e o prazer de estar junto daqueles que compartilham a mesma história e identidade. Títulos e reeleições não podem preencher o vazio causado pela desunião.

Carlo Nervo
Nascimento: 29 de outubro de 1971, em Bassano del Grappa, Itália
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Bassano Virtus (1988-89 e 1990-91), Monza (1989-90), Cittadella (1991-92), Mantova (1992-94), Bologna (1994-2005 e 2006-07), Catanzaro (2005-06), Virgilio (2008), Rolo (2008-09)
Títulos como jogador: Serie C2 (1993), Serie C1 (1995), Serie B (1996) e Copa Intertoto (1998)
Seleção italiana: 6 jogos



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