Serie A Extracampo

O modelo de gestão da Udinese consiste numa ‘máquina de louco’ obcecada pelo lucro

Considerando os times médios do futebol italiano, a Udinese é pioneira em aspectos caros à gestão moderna do esporte. Poucos sabem que antes de termos, por exemplo, Atalanta, Torino, Cagliari ou Sassuolo, praticamente nenhum time deste porte conseguia sustentar bons resultados em médio prazo, visto que sempre dependiam de um grande investidor e bastava apenas um ano ruim para que a equipe se afundasse em grandes dívidas e crises que, normalmente, resultavam em rebaixamento. Foi a Udinese, agremiação situada quase na fronteira com a Eslovênia, que resolveu desafiar esta dinâmica e abriu o caminho para as adversárias.

A história começa a mudar quando a Udinese se envolveu em um escândalo de apostas em 1986 e, como punição, acabou sendo rebaixada. Lamberto Mazza entregou a presidência para Giampaolo Pozzo, neto do fundador da Freud, fábrica muito famosa do ramo de ferramentas, e empresário “de nascença”.

Depois de alguns anos entre as séries A e B, fazendo sempre do mesmo e não apresentando nenhum avanço, Pozzo começou a perceber que poderia criar um plano para colocar a Udinese em outro patamar: em vez de investir em jogadores tarimbados, que são caros e podem não render o suficiente, o time iria apostar em jogadores baratos, normalmente jovens promessas. Se jogarem bem, a equipe de Údine poderia vendê-los por um preço maior do que o gasto; caso contrário, o prejuízo será bem menor. Porém, como achar estes jovens?

As respostas eram as seguintes: fomentar as divisões de base ou montar uma rede de olheiros. São dois caminhos diversos, com seus prós e contras, e o time não tinha o dinheiro para investir de forma pesada em ambos. Escolheu-se o gasto em olheiros, e o presidente fez um investimento extensivo na área. O clube teve a primeira sala de vídeo na Itália (ainda nos tempos do VHS), na qual os olheiros poderiam estudar os jogadores que eram alvo do clube, e foram espalhados “scouts” pela América do Sul e pela Europa, primeiramente. Quem comandava a estratégia do clube no mercado era (e ainda é) seu filho Gino, seu braço direito.

Bierhoff foi uma das primeiras grandes compras dos Pozzo (Bongarts/Getty)

No verão de 1995, um alemão de 27 anos foi artilheiro da segunda divisão pelo Ascoli e acabou vendido para a Udinese pela pequena quantia de 2,5 bilhões de velhas liras. Não era um jovem e também era conhecido por ser pouco técnico com a bola nos pés, mas um grande especialista no jogo aéreo. Era uma contratação de risco, já que um time maior – a Inter – havia aberto mão de contar com ele anos antes e, por isso, a Udinese conseguiu um preço baixo. No verão seguinte, um atacante de 22 anos que jogou poucas temporadas como titular no Brasileirão e que teve uma fracassada passagem no futebol japonês já mostrava potencial, mas os times na Serie A não quiseram apostar nele. A Udinese quis e gastou 7 bilhões de liras. Seus nomes: Oliver Bierhoff e Márcio Amoroso.

Depois da contratação dos dois atacantes, a Udinese finalmente subiu de nível e praticou um futebol envolvente. Com um quinto lugar no Italiano, a equipe se qualificou para a Copa Uefa pela primeira vez em sua história. Ao total, foram quatro participações consecutivas no torneio intercontinental, além de uma taça da Copa Intertoto, uma semifinal de Coppa Italia e um terceiro lugar na Serie A de 1998. A dupla foi vendida neste período por 70 bilhões de liras e rendeu à agremiação um lucro de 60,5 bilhões.

Entre 2000 e 2002, o time teve os primeiros tropeços do novo paradigma da gestão Pozzo e escapou do rebaixamento na penúltima rodada em ambos os campeonatos – principalmente pelas equivocadas escolhas de Luigi De Canio e Roy Hodgson para o comando técnico. Isso se somou ao alto volume de compra e venda de atletas, que era o ponto fraco do plano de Pozzo: financeiramente, apostar em jovens jogadores é muito melhor que em medalhões, mas isso não quer dizer que os resultados serão obtidos. Além disso, o treinador não ter nenhuma segurança quanto ao seu elenco do ano seguinte. Pozzo, porém, sempre foi cristalino como a água e deixava claro que o Método Udinese tinha apenas um lema: “antes de vencermos, devemos lucrar”.

Depois disso, sob a batuta de Luciano Spalletti, o time voltou a ter bons resultados e se classificou para duas edições da Copa Uefa e uma da Liga dos Campeões – foi a primeira participação dos friulanos na competição. O time bianconero competiu bem, mas levou dois gols nos últimos cinco minutos do jogo contra o Barcelona, em Údine, e foi eliminado na fase de grupos pela diferença mínima no saldo de gols.

Spalletti, nos tempos de Udinese, ajudou a valorizar jogadores (Getty)

Aprendendo com alguns erros do passado, a diretoria tentou manter uma base de jogadores e ter um mercado menos volátil, esperando a melhor hora para vender e comprar. O símbolo dessa atualização foi Antonio Di Natale, que se tornaria símbolo do clube. Paradoxalmente, no auge do Método Udinese, o jogador ficou 12 anos no Friuli e se tornou tanto o maior artilheiro da agremiação quanto o jogador que mais vestiu a camisa alvinegra.

Depois de algumas trocas de técnicos e boas colocações na Serie A, além de alcançar as quartas da Copa Uefa de 2009, a Udinese deu o comando do time a Francesco Guidolin no ano seguinte. Em sua segunda passagem pelos friulanos, o vêneto entrou para a história do clube, por diversos fatores. O lendário time era composto inicialmente por Samir Handanovic, Cristián Zapata, Mauricio Isla, Juan Cuadrado, Alexis Sánchez, Totò Di Natale, Mehdi Benatia, Kwadwo Asamoah, Pablo Armero e Gökhan Inler. Praticamente todos eles foram adquiridos em anos anteriores e um grupo verdadeiro estava sendo montado. No primeiro ano, a Udinese alcançou um quarto lugar na Serie A e Di Natale marcou incríveis 28 gols no campeonato.

No ano seguinte, Roberto Pereyra chegou, enquanto Sánchez foi vendido por 26 milhões de euros para o Barcelona. Um lucro de 23 milhões, já que a Udinese o adquirira do pequeno Cobreloa ainda em 2006, quando tinha 18 anos, por 3 milhões de euros. Após uma eliminação para o Arsenal nos playoffs da Liga dos Campeões, o time conseguiu manter a concentração e chegou em terceiro lugar no Campeonato Italiano. Um resultado espetacular, visto que os friulanos terminaram à frente de Napoli, Inter e Roma.

Em 2012, o time vendeu Handanovic à Inter por 15 milhões de euros (lucro de mesmo valor, uma vez que o arqueiro chegara de forma gratuita em Údine, aos 19 anos), ao passo que Isla e Asamoah foram para a Juventus por 31,9 milhões (lucro de 30 milhões de euros). Como reforços, assinaram Allan, Luis Muriel, Piotr Zielinski e talvez o jogador mais odiado em toda Friul-Veneza Júlia: Maicosuel. O time até chegou em quinto lugar na Serie A ao final da temporada, mas com certeza o infame pênalti perdido pelo jogador recém-chegado do Botafogo resultou em profundos traumas na equipe. A entrevista pós-jogo de Guidolin mostrou a profunda tristeza com a eliminação nos playoffs da Liga dos Campeões para o Braga, ainda em agosto.

Quanto a Udinese lucrou com a venda de jogadores retratados nesta foto? Sánchez, Armero, Asamoah, Inler e Isla se valorizaram em Údine (Getty)

Depois desta temporada, Guidolin ficou mais um ano e levou o time às semifinais da Coppa Italia, em 2013-14. Porém, com um decepcionante 13º lugar na Serie A, resolveu se demitir ao final da campanha. O histórico time fora praticamente todo vendido em poucos anos e restava apenas Di Natale, que rejeitou propostas no intuito de ser o ícone das zebrinhas.

Desde 2014, porém, o projeto – que parecia voar em velocidade de cruzeiro – entrou em parafuso. A Udinese teve inacreditáveis 11 técnicos, mais que qualquer outro time da primeira divisão, e não conseguiu um resultado acima de um medíocre 12º lugar na Serie A de 2018-19.

Obviamente, as trocas de comando atrapalham o rendimento do time, mas podemos citar mais algumas razões para este declínio. Um deles é a baixa eficiência de suas categorias de base em comparação a outros times de mesmo porte, como Torino e Atalanta, que têm setores juvenis pujantes. O principal, porém, seria a mudança de foco da família Pozzo, que optou por direcionar investimentos a outras praças. O magnata adquiriu o espanhol Granada em 2010 e o inglês Watford dois anos depois. Em 2016, a holding que controla os negócios dos Pozzo nos esportes se desfez do time ibérico, mas ainda controla os hornets, que disputam a Premier League.

Ademais, montar uma rede de olheiros internacional no início dos anos 1990 era revolucionário, mas atualmente todo time de primeira divisão dos principais campeonatos europeus terá uma rede de “scouting” nos cinco continentes. Com a globalização, é possível assistir um compilado do jogador pelo YouTube, e não mais filmá-lo in loco para depois assistir sua performance em uma fita VHS numa sala de vídeo em Údine. Os friulanos gastam mais de 6 milhões de euros em “scouting” todo ano, o que é uma quantia superior a alguns times, mas ainda não é vantagem suficiente para colocar o time lutando por vagas na Liga dos Campeões.

Gino Pozzo, seu pai Giampaolo e o diretor esportivo Gianluca Nani: atenção ao Watford ajudou a tirar investimentos da Udinese (Getty)

Em 1990, não existia Fair Play Financeiro, não existia Lei Bosman e o campeonato, financeiramente, era uma verdadeira selva: quem colocasse mais dinheiro provavelmente venceria. A Udinese jamais poderia competir com o nível de injeção de capital de Milan ou Juventus, de forma que Pozzo precisava achar uma maneira de aumentar as rendas da equipe e uma saída era via lucro derivado da venda de jogadores. Jamais foi pela ganância, pelo simples prazer de lucro, e sim para tentar colocar um clube de médio porte um nível acima, sem necessariamente se endividar ou ser esmagado pelos maiores.

Não existe método infalível de gestão de clubes e de forma alguma podemos cravar que a diretoria da Udinese foi teimosa por perseguir o mesmo método nas últimas três décadas. Tamanha persistência é louvável e rendeu muitos frutos – a maioria deles, no aspecto financeiro, pouco visto pelos torcedores. Embora a tifoseria queira ver títulos e resultados “palpáveis”, é inegável que a família Pozzo entregou algumas das campanhas mais importantes do clube em toda sua história. E não só.

Desde 1992, são assombrosos 750 milhões de euros acumulados em lucro na venda de jogadores – 41% do faturamento conjunto do clube. “Bom, e o que a Udinese fez com esse dinheiro?”. Por exemplo, em 2013, o time comprou o estádio Friuli da Prefeitura de Údine, o reformou completamente por 50 milhões de euros e agora tem uma arena moderna de sua inteira propriedade – um dos raríssimos casos na Itália.

Este movimento foi feito pois, como já colocado em outros textos aqui da Calciopédia, os antiquados estádios municipais italianos têm gastos altíssimos para os clubes, e a alternativa de construir o próprio é bem mais lucrativa, vide o caso da Juventus. Pozzo definiu o advento o novo estádio como “o nosso scudetto”. Se a Udinese ainda terá que batalhar muito para lutar pelo título italiano, ao mesmo tempo, a agremiação continua no caminho para outras conquistas.

Como se fosse o Moneyball do futebol italiano, a Udinese revolucionou a forma como os times modestos olham para suas situações financeira, ao investir em olheiros e buscar jogadores nos campos mais distantes. Também como Billy Beane, Pozzo nunca ganhou nenhum campeonato, mas se manteve fiel ao seu método e isso acabou trazendo resultados em médio prazo. Porém, um pênalti displicente de Maicosuel ou uma escorregada de Steven Gerrard podem acabar com o planejamento de uma temporada, sem que os dirigentes possam fazer algo para evitar. É a magia do futebol.

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