Esquadrões Serie A

Pequenos milagres: o Pisa, o xamã e os gringos

Em 2016, um dos mais tradicionais times da Toscana voltou às manchetes. O Pisa começou a receber atenção desde que Gennaro Gattuso assumiu o cargo de treinador da equipe, mas teve destaque mais concreto quando conseguiu o acesso à Serie B pela primeira vez após a sua segunda falência, que ocorreu em 2009. Os nerazzurri também estiveram no centro de um imbróglio societário, que resultou na compra do clube por Giuseppe Corrado, presidente de uma cadeia de salas de cinema na Itália.

Ambos os acontecimentos são tentativas para tentar reerguer o clube, que viveu seu auge nos anos 1980 e protagonizou alguns pequenos milagres na elite do futebol local. Nada mais apropriado para a equipe de uma cidade que tem na Piazza dei Miracoli (“Praça dos Milagres”) um de seus maiores pontos turísticos.

Fundado em 1909, o Pisa foi aceito na primeira divisão da Itália em 1912, época em que o campeonato era regionalizado e tinha a disputa final em mata-mata. Neste sistema, a equipe venceu os troféus da Toscana e da Itália Centro-Meridional em 1921, garantindo uma vaga na final nacional, contra a Pro Vercelli. Os bianchi do Piemonte venceram por 2 a 1 e o Pisa acabou ficando com o vice.

Após o estabelecimento do torneio de pontos corridos, oito anos depois, os pisanos demoraram a frequentar a elite. Ficaram muito tempo na segundona e na terceirona, até conseguirem o primeiro acesso, em 1968-69, graças a um time no qual se destacaram o líbero Piero Gonfianti, o lateral Roberto Gasparroni e o meia Fabrizio Barontini. A participação naquela edição da Serie A seria a única dos nerazzurri até a compra do clube por Romeo Anconetani, no fim da década de 1970. A partir daí, muita coisa mudou na cidade da Torre Inclinada.

Sob a égide do Presidentissimo
Podemos dizer que Romeo Anconetani dedicou uma vida quase inteira à gestão de futebol; experiência que atingiu seu auge no Pisa, a partir de 1978. Nascido em Trieste, ele se mudou para Florença a trabalho e viveu tranquilamente até ser convocado pelo exército italiano para a II Guerra Mundial. Aos 25 anos, após o conflito, ele entrou no esporte como secretário do Signa, pequeníssimo clube da Toscana, e depois foi dirigente de Empoli e Prato, times que também são da região. Em 1973, Romeo foi morar em Pisa para ajudar mais de perto o filho Adolfo, que era diretor esportivo da Lucchese, time da vizinha cidade de Lucca.

Naquele momento, Anconetani já desempenhava outro papel no futebol. A partir do fim dos anos 1950, quando foi suspenso pela Federação Italiana de Futebol – FIGC, ele havia se tornado consultor de mercado para equipes de toda a Itália e, segundo estudiosos, foi um dos pioneiros do ofício de procurador esportivo – ele ganhava 5% do valor de cada transação acertada.

Após cinco anos morando na terra de Galileu Galilei, Romeo usou parte do que tinha acumulado com sua consultoria e adquiriu o Pisa, então na Serie C1, por 300 milhões de liras. Um valor baixo para a época e que nem se comparava ao mundaréu de dinheiro à disposição das gigantes da Velha Bota: para se ter uma ideia, Marco Tardelli, meio-campista revelado no clube, havia sido contratado pela Juventus em 1975 por 950 milhões.

O grande trunfo de Anconetani para reerguer o Pisa era um trabalho que ele vinha desenvolvendo há anos e continuava encorpando. O dirigente tinha uma rede de pessoas de confiança que era responsável por avaliar jogadores em toda a Itália, dando-lhes notas a cada atuação. O catálogo, criado originalmente para que ele pudesse indicar novas contratações para os clubes que usavam os serviços de sua consultoria, foi ampliado pelos olheiros dos nerazzurri e também ganhou nomes da América do Sul e de países da Europa – falaremos mais adiante sobre os contratados. Diz a lenda que mais de 40 mil nomes foram listados pelo cartola.

Anconetani e sua superstição: sal à beira do campo para dar sorte à equipe (Il Pisa Siamo Noi)

Os resultados da nova gestão se fizeram sentir quase de imediato. Em 1978-79, o Pisa conseguiu o vice-campeonato da terceira divisão e retornou à segundona após sete anos de ausência. Foram necessárias outras três temporadas na Serie B para que os pisani retornassem ao Olimpo do Belpaese: a elite era realidade. Durante a Era Anconetani, encerrada em 1994, os nerazzurri disputaram a Serie A em seis oportunidades, em anos alternados, faturaram duas vezes a Serie B (1985 e 1987) e a Copa Mitropa (1986 e 1988) e ainda foram semifinalistas da Coppa Italia (1989). O prestígio alcançado fez com que Romeo ganhasse a pomposa alcunha de “Presidentissimo”.

Outro apelido que Anconetani recebeu foi o de Lo Sciamano ou O Xamã, em bom português. Supersticioso até o último fio de cabelo, o mais conhecido ritual do presidente era colocar sal à beira do gramado para espantar a má sorte – antes de um jogo contra o Cesena, ele ordenou que 26 quilos (!) de sal fossem depositados em torno do campo da Arena Garibaldi. Romeo também era muito religioso: católico, se definia como um “bispo de araque” e chegou a levar o elenco em diversas peregrinações, nas quais até pagava promessas em caminhadas com pés descalços.

Além de exagerado, extravagante e supersticioso, Anconetani era vulcânico – um típico presidente folclórico de outros tempos de Serie A. Demitia técnicos por atacado (foram 22 em 16 anos de gestão) e podia passar de uma chuva de elogios a ofensas pesadíssimas no confronto de jogadores e técnicos em uma questão de minutos. Escrevia, a próprio punho, longos desmentidos à imprensa e era capaz de atender o telefone se passando por secretário para fingir que estava indisponível. E esteve presente no clube em seu auge e na primeira falência.

Com o Presidentissimo era oito ou oitenta também na forma como agiam com ele: era amado, mas quase ficou cego em 1993, depois de receber uma garrafada de um torcedor. Morreu em 1999 e, dois anos depois, o estádio do clube teve o nome do cartola incorporado a ele, tornando-se Arena Garibaldi – Romeo Anconetani.

O brasileiro Luís Vinício foi um dos principais treinadores da história pisana (Il Pisa Siamo Noi)

Um ioiô azul e preto

Ser capaz de competir durante um quarto de século em alto nível na Serie B e dificultar os grandes na elite já era um feito e tanto para o Pisa. A torcida entendia que o clube era uma espécie de peixe fora d’água na Serie A e que obter a salvezza era motivo para varar noites comemorando. Nas sete vezes em que disputou a principal categoria do futebol do Belpaese, somente em duas oportunidades a equipe não foi rebaixada: em 1982-83 e 1987-88. Em 1969, 1983, 1986, 1989 e 1991, sucumbiu.

Na primeira ocasião, o técnico dos nerazzurri era o respeitado brasileiro Luís Vinício, um dos maiores andarilhos do futebol italiano. O mineiro já havia feito trabalhos marcantes por Napoli e Lazio e foi contratado por Anconetani com o objetivo de atingir a mesma façanha que conseguira com o pequeno Avellino: manter a equipe na Serie A.

Era a primeira temporada dos pisani na elite sob as ordens do Presidentissimo e, embora o time tenha passado alguns longos períodos sem vitórias, o cartola bancou Vinício. O treinador conseguiu a salvação na última rodada, com um pontinho a mais que o Cagliari, o antepenúltimo colocado.

O artífice da segunda salvezza foi Giuseppe Materazzi – pai do zagueiro Marco Materazzi. Então com 41 anos, o treinador foi contratado após chamar a atenção na Casertana, da terceirona, e precisou fazer o time se superar para não cair. Isso porque o Pisa começou sofrendo quatro vitórias consecutivas, mas o sardo se segurou no cargo.

No decorrer do campeonato, a equipe acumulou pontos em confrontos diretos e vitórias importantes sobre Fiorentina e Inter. Ainda assim, só alcançou a permanência matemática na última rodada, com um triunfo sobre o Torino. O ataque nerazzurro foi pífio – marcou 23 gols e seus artilheiros só balançaram as redes três vezes –, mas a defesa, vazada 30 vezes, foi a quarta melhor da Itália. Materazzi acabou sendo seduzido por uma proposta da Lazio e os pisani seriam rebaixados no ano seguinte.

Berggreen e Kieft: dois dos gringos que entraram para a história nerazzurra (Twitter)

Os gringos

O elenco do Pisa era recheado de italianos, mas foram os “gringos” que deram mais peso ao time. Enquanto jogadores locais, como Alessandro Mannini, Roberto Chiti, Antonio Cavallo, Davide Lucarelli, Stefano Cuoghi, Pasquale Casale, Claudio Sclosa, Daniele Bernazzani, Michele Padovano e Lamberto Piovanelli seguravam as pontas e formavam uma base de coadjuvantes sólida, os estrangeiros eram responsáveis pelo toque de brilho. Lembrando que, durante a maior parte dos anos 1980, a FIGC permitia que cada clube contratasse somente dois jogadores de outras nacionalidades a cada temporada.

Sem dúvidas, o principal estrangeiro que vestiu a camisa nerazzurra foi o dinamarquês Klaus Berggreen – considerado por muitos o maior jogador da história do clube. O meio-campista, então com 24 anos, foi adquirido em 1982 junto ao Lyngby por 270 milhões de liras, como uma prova de que a equipe da Toscana tinha ambições em seu retorno à elite, depois de 13 anos de ausência. O camisa 7, que já fazia parte da seleção de seu país, ficou quatro temporadas no Pisa, pelo qual realizou 124 jogos e anotou 29 gols.

O meia capitaneou os nerazzurri e ganhou mais carinho da torcida porque topou disputar uma Serie B, em 1984-85. Berggreen teve como grandes momentos no Pisa as artilharias do time em seus dois primeiros anos e o gol decisivo de para a vitória pisana sobre o Napoli de Diego Maradona, em pleno San Paolo, em 1986. Enquanto esteve na Toscana, o jogador fez parte do elenco da Dinamarca semifinalista da Euro 1984 e que encantou o mundo na Copa de 1986. Acabou vendido à Roma por 4 bilhões de liras e rendendo um lucro de quase 1500% aos toscanos.

Outro loiro fez sucesso pelas bandas da Torre Inclinada: Wim Kieft. A contratação do centroavante, em 1983, fez ainda mais barulho do que a de Berggreen, pois o jovem de 20 anos havia marcado 32 gols no Campeonato Holandês e sido Chuteira de Ouro com a camisa do Ajax, no ano anterior. Kieft era muito físico e sabia se posicionar muito bem na grande área – especialmente para cabecear, já que tinha 1,90m. Ele tinha tudo para brilhar no futebol italiano daquela época e prometia marcar muitos gols, pois seria o grande terminal ofensivo de uma equipe de ambições modestas. O holandês começou marcando quatro gols na Coppa Italia, mas não engrenou na Serie A: viveu um jejum de quase seis meses e anotou o primeiro de seus únicos três tentos na competição em fevereiro de 1984.

A queda para a Serie B não fez com que Kieft deixasse o Pisa. Pelo contrário, serviu para que ele entrasse em forma: a dupla com Berggreen finalmente engrenou e o holandês marcou 15 gols, sendo o grande nome do título da segundona, em 1985. No início da nova temporada, Kieft foi o autor do tento que deu o primeiro título internacional da equipe nerazzurra: na final da Copa Mitropa, disputada pelo vencedor da Serie B e equipes dos Bálcãs, ele fez o seu contra o Debrecen, da Hungria. O holandês teve um desempenho bom no restante da campanha – marcou 11 gols no total; sete deles na Serie A –, mas o efeito ioiô se fez presente e os pisani foram rebaixados de novo. Kieft acabou negociado com o Torino e depois ainda faria parte da seleção da Holanda campeã da Euro 1988.

Um brasileiro muito conhecido também fez sucesso no Pisa. Dunga, capitão do tetra e ex-técnico da Seleção, teve sua primeira experiência no futebol europeu com a camisa nerazzurra. O gaúcho, então com 23 anos e titular do Vasco, era observado pelos olheiros dos pisani, mas chegou ao clube em 1987 emprestado pela Fiorentina, que já tinha dois estrangeiros no plantel. Dunga foi recebido com pompa no aeroporto e conheceu a cidade em um passeio conduzido pessoalmente pelo presidentíssimo Anconetani. O volante ficou somente um ano no clube nerazzurro, mas foi vital para dar sustentação ao forte sistema defensivo montado por Beppe Materazzi. Cucciolo – nome do anão Dunga em italiano – ainda marcou um golaço na importante vitória sobre a Inter.

O Pisa ainda teve em seu plantel, entre 1990 e 1992, um outro símbolo da raça em campo e da excelência como volante: Diego Simeone. El Cholo já era um prodígio e, aos 20 anos, assumiu a liderança da equipe, que defendeu nas séries A e B, em 55 partidas. Juntamente com ele, outro jovem destaque argentino, o lateral esquerdo José Chamot, também se destacou na Toscana. Os dois fizeram parte do elenco nerazzurro na última temporada que o Pisa disputou a primeira divisão.

Dunga foi um dos poucos brasileiros da história do Pisa, clube que o levou à Europa (Interleaning)

Últimos suspiros na Serie A: a decadência e os anos recentes

Em 1991, o Pisa se despediu da elite e nunca mais voltou. Nem Simeone, Chamot ou o competente Mircea Lucescu, em início de carreira, foram capazes de salvá-lo – o romeno treinou os nerazzurri durante poucos meses e logo foi tragado pela fúria de Anconetani. O Presidentissimo também foi puxado para o olho do furacão e não conseguiu evitar a falência do clube, que foi à bancarrota em 1994. Refundado, o Pisa precisou disputar a Eccellenza toscana, uma das categorias regionais da sexta divisão.

O clube subiu para a Serie C2 em dois anos; alcançou a C1 em 1999 e, em 2000, venceu a Coppa Italia da terceirona. Somente em 2007 garantiu o acesso à Serie B e, justo na temporada 2007-08, quase garantiu outro feito: a diretoria nerazzurra contratou Gian Piero Ventura, atual treinador da Itália, e conseguiu o seu melhor momento no pós-Anconetani, sendo eliminada nos apenas play-offs de acesso à primeira divisão.

O genovês conseguiu montar uma equipe interessante, com jovens como Daniele Padelli, Leonardo Bonucci e Alessio Cerci, além dos rodados Vitali Kutuzov, Gaël Genevier e José Ignacio Castillo, mas seus esforços foram em vão. No ano seguinte, o Pisa faliu de novo e precisou recomeçar da estaca zero. Hoje, atuando na Serie B e com Gattuso como técnico, o time certamente terá a determinação necessária para tentar fazer um novo milagre.

Ficha técnica: Pisa

Cidade: Pisa (Toscana)
Estádio: Arena Garibaldi – Romeo Anconetani
Fundação: 1909
Apelidos: Nerazzurri, Pisani
As temporadas (apenas séries A e B): 7 na Serie A e 32 na B
Os brasileiros: Adriano Mezavilla, Denílson Gabionetta, Dunga, Joelson, Juliano e Wellington.
Time histórico: Alessandro Mannini; Roberto Gasparroni, Antonio Cavallo (Piero Gonfiantini), Davide Lucarelli, José Chamot; Klaus Berggreen (Stefano Cuoghi), Dunga (Fabrizio Barontini), Diego Simeone (Marco Tardelli); Michele Padovano (Sergio Bertoni), Wim Kieft, Lamberto Piovanelli (Enzo Loni). Técnico: Luís Vinício.

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