Serie A Extracampo

Sócrates e Roma: um casamento que ficou perto de acontecer?



O ano era 1980. No verão europeu, logo depois da Eurocopa que ocorria na Itália, a Serie A voltaria a receber jogadores estrangeiros após 14 temporadas sem aceitar atletas oriundos de outros países. O Brasil, por sua vez, atravessava outra abertura: a política, de forma “lenta, gradual e segura”, que resultaria no fim da ditadura e na volta da democracia. Ao mesmo tempo, um rapaz de 26 anos já conhecido no futebol brasileiro passava a ganhar atenção internacional. Seu nome era Sócrates.

O meio-campista surgira no Botafogo de Ribeirão Preto em 1974 e, enquanto fazia faculdade de medicina, arrebentava nos campos. Sócrates foi contratado pelo Corinthians em 1978, já “doutor”, e foi considerado como “a revelação de 1979”. Era tratado assim pela revista Guerin Sportivo, respeitada publicação italiana que ia às bancas desde os primeiros anos do século XX. Com esse status, o brasileiro – que estreara meses antes pela Seleção – seria pauta da edição do dia 2 de julho de 1980.

Na época, a imprensa não tinha mecanismos ágeis como atualmente. Reportagens para revistas, então, tinham produção ainda mais demorada que as de pautas mais simples ou de notícias diárias para jornais ou programas de televisão, por exemplo. Isso significa que Sócrates foi entrevistado dias antes de a publicação ser disponibilizada para os leitores. No momento em que trocou um papo com os italianos, o jogador passava por um período conturbado no Timão – que viria a ser resolvido depois.

O fato é que, em de maio de 1980, o Jornal da Tarde destacava: “Sócrates está deixando o Corinthians”. No dia anterior, o paraense precisara ser escoltado pela polícia para deixar o estádio Major Levy Sobrinho após um empate por 0 a 0 com a Inter de Limeira, pelo Paulistão. Insultado pela torcida, o Doutor disse que só ficaria mais um mês no clube. A janela de transferências italiana, receptiva aos estrangeiros, estava prestes a abrir naquele momento e o jovem correspondente do Guerin, Gerardo Landulfo, sabia disso.

Landulfo, que ainda hoje é um grande divulgador da cultura italiana no Brasil, era um jornalista iniciante na época. Mas isso não significa que não fosse astuto. Na conversa com Sócrates, Gerardo lhe perguntou se uma transferência ao futebol italiano cairia bem. Uma pergunta habitual, mas que poderia gerar alguma indiscrição por parte do jogador, já que o seu momento no clube era atribulado. Uma questão que também poderia fazer com que dirigentes dos clubes da Itália olhassem de outro jeito para o meio-campista, em tempos em que até videoteipes eram raros.

O Doutor não se abalou com a pergunta, mas reconheceu que, na Itália, poderia – entre outras coisas – “fazer uma pós-graduação em ortopedia para aprimorar conhecimentos e experiências na medicina”. Landulfo insistiu no assunto e logo apareceu com algo que tinha consigo em sua pasta: um uniforme da Roma, utilizado na temporada 1979-80. Uma peça clássica, vermelha, com mangas brancas e listras em amarelo e laranja nos ombros. A camisa em que o famoso lobinho criado pelo designer Piero Gratton estreava como escudo do clube. O jornalista entregou a peça a Sócrates, que a vestiu e se deixou fotografar com o manto giallorosso.

Não demorou para que as especulações começassem. Depois que o Magrão experimentou a camisa da Loba e as fotos circularam, jornais brasileiros afirmaram: “Sócrates está deixando o Corinthians”. O próprio Guerin Sportivo reportou o alvoroço. Contudo, o burburinho durou pouco. A Roma estava mesmo de olho em um meio-campista brasileiro, mas o encontrou no Internacional de Porto Alegre. No dia 10 de agosto de 1980, pouco mais de um mês depois de a reportagem do “Guerino” com o Doutor ir às bancas, Paulo Roberto Falcão aterrissava no aeroporto de Fiumicino para assinar com a Loba.

O volante foi um dos primeiros estrangeiros da nova fase da Serie A, na qual cada clube poderia ter um atleta de fora da Itália em seu elenco. Com o catarinense, chegaram os também brasileiros Enéas (Bologna), Juary (Avellino) e Luis Sílvio (Pistoiese), os argentinos Daniel Bertoni (Fiorentina) e Sergio Fortunato (Perugia), os holandeses Michel van de Korput (Torino) e Ruud Krol (Napoli), o alemão Herbert Neumann (Udinese), o austríaco Herbert Prohaska (Inter) e o irlandês Liam Brady (Juventus). Nos seus anos de Cidade Eterna, Falcão se tornou o Oitavo Rei de Roma, enquanto Sócrates lutava pelas eleições diretas, brilhava no Timão da Democracia Corinthiana e era o capitão da Seleção. O Magrão usou a braçadeira na Copa do Mundo de 1982, tendo o romanista como seu colega de meio-campo.

Dois anos depois do Mundial, desgostoso com o fracasso da campanha Diretas Já, Sócrates deixou o Brasil. E, em 1984, reencontrou Falcão na Itália. Machucado, o colega pouco jogou na temporada 1984-85 – em quantidade. O Doutor também jogou pouco, mas em outro sentido: faltou qualidade. Embora sua técnica fosse indiscutível, o Magrão vivia de lampejos e tinha um estilo de futebol que não casava com o elenco violeta, que ainda era rachado nos vestiários.

A passagem pela Fiorentina foi o “calcanhar de Aquiles” de sua carreira. Nem mesmo os 10 gols marcados na temporada (seis na Serie A, dois na Copa Uefa e um na Coppa Italia) bastaram para que Sócrates desejasse permanecer em Florença ou que a diretoria fizesse questão de mantê-lo. Vale salientar que o limite para estrangeiros havia sido flexibilizado, mas ainda vigorava na Itália: eram dois por elenco, o que fazia com que os clubes só ficassem com aqueles que davam retorno técnico.

Para a Roma, provavelmente foi melhor mesmo ter acertado com Falcão. O volante estava focado inteiramente em jogar futebol, tinha uma mentalidade vencedora invejável e ajudou o clube capitolino a viver um dos períodos mais gloriosos de sua história – o que lhe alavancou ao panteão giallorosso.

Sócrates era bem diferente de Falcão. Politizado, o paraense tinha personalidade peculiar e outros objetivos na vida: para ele, o extracampo importava mais do que o que ocorria dentro do gramado. Quando viveu no Belpaese, o jogador com nome de filósofo estava mais interessado em engrandecimento intelectual, através da leitura das obras de Antonio Gramsci na língua original e do estudo da história do movimento operário, por exemplo. Não dá para dizer que o Magrão desperdiçou seu tempo.



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