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Riccardo Carapellese liderou o Torino e a seleção italiana após o Desastre de Superga

No rap “Vida Loka I”, Mano Brown e os Racionais MC’s registram: até no lixão nasce flor. Afinal, as situações mais duras podem resultar em algo proveitoso ou que, no mínimo, atenue as suas dificuldades. A vida de Riccardo Carapellese foi um verdadeiro exemplo desse verso. O atacante já era um jogador de alto nível na Itália, mas foi alçado a outro patamar depois do Desastre de Superga, que vitimou o Grande Torino. A morte dos craques daquele time em um acidente aéreo fez com que o atacante tivesse de assumir um papel de liderança no futebol italiano.

Em 1922, Carapellese nasceu em Cerignola, pequena comuna da província de Foggia. Muito cedo, deixou a Apúlia, no sul da Itália, e rumou ao norte: o garoto já andava chutando bolas por aí quando, aos 12 anos, se tornou juvenil do Torino. Após curtas passagens em clubes amadores, Riccardo retornou ao time grená em 1940.

Sem espaço num Torino que começava a formar a espinha dorsal que assombraria a Itália com títulos seguidos, Carappa foi buscar oportunidades em outro clube. As encontrou no Spezia, time pelo qual disputou a Serie B da temporada 1942-43: na campanha do sexto lugar na segundona, o ponta atuou em 19 partidas, marcando três gols.

A partir de 1943-44, com a Serie A parada em função da Segunda Guerra Mundial, Carappa chamou atenção pelas atuações nos chamados campeonatos de guerra – competições regionais que aconteciam nas localidades em que o conflito ainda não havia se alastrado. Atacante rápido e habilidoso, de apenas 1,68m, o apuliano impressionou nas passagens por Casale e Vigevano, de modo a acertou com o Como no pós-guerra.

Carapellese estreou na elite pelo Milan e conquistou espaço na seleção enquanto vestia rossonero (imago/Buzzi)

No clube comasco, Carapellese disputou a segundona de 1945-46 e, no verão de 1946, trocou novamente de clube: fechou com o Novara para a disputa da Copa da Alta Itália, torneio de consolação destinado às equipes do norte do país que não avançaram à fase final da primeira e da segunda divisões. Riccardo foi um dos destaques dos piemonteses na campanha que culminou no vice-campeonato (o Bologna levou o título) e, aos 24 anos, acertou com o Milan. Com a camisa rossonera, poderia, enfim, estrear na elite.

Naquela época o Milan ainda não era um gigante. Era um clube importante, mas que tinha apenas três títulos italianos e que não comemorava nada desde muito antes de Carapellese nascer – o último scudetto havia sido conquistado em 1907. Riccardo, porém, contribuiu para que essa história começasse a mudar: ainda que não tenha levantado troféus, contribuiu para que a equipe fosse vice-campeã em 1948 e formou a espinha dorsal que fez os rubro-negros saírem da fila em 1951.

O apuliano estreou na temporada 1946-47 e logo se tornou, de forma surpreendente, um dos principais nomes do time. Carappa formou dupla de ataque com Héctor Puricelli e deu muitas alegrias à torcida naquela temporada: juntos, marcaram 41 gols em 34 partidas (20 do italiano e 21 do uruguaio) e levaram o Milan ao quarto lugar da Serie A. No início da campanha seguinte, ainda em 1947, Carapellese estreou pela seleção, marcando o tento de honra italiano na derrota por 5 a 1 diante da Áustria. Dali em diante, passou a ser figurinha carimbada nas convocações da Nazionale.

As temporadas seguintes, ainda que sem taças, também foram muito produtivas para Riccardo: em 1947-48, marcou 15 gols e em 1948-49 anotou mais 17 tentos. Era presença certa no ataque e mesmo já sem seu parceiro Puricelli na última campanha, não deixou o nível de atuações cair, sendo útil tanto nas finalizações quanto na criação de jogadas pelas pontas – com fintas desconcertantes, irritava os adversários e sempre encontrava os colegas em boa posição. Se o goleador sueco Gunnar Nordahl colocou 16 bolas nas redes em 1948-49, deve também a Carappa.

O atacante foi o capitão da Itália durante um ano (Fortepan)

Em 4 de maio de 1949, porém, o futebol italiano sofreu um baque radical: a aeronave que transportava o Torino de volta à Itália, após um amistoso em Portugal, se chocou contra o muro da Basílica de Superga, matando toda a tripulação. O timaço, que era pentacampeão nacional e compunha a base da seleção, deixava de existir. Coube a Carapellese, um dos poucos que foram capazes de atuar pela Squadra Azzurra ao lado do bloco de 10 grenás que eram constantemente convocados na época, chamar a responsabilidade naquele momento difícil.

Após a tragédia, Carapellese foi sincero com a diretoria do Milan: queria voltar para casa. Para isso, pediu a liberação do clube rossonero, que não o impediu de retornar. Formado no Torino, voltou para ser o capitão daquela equipe que estava em reconstrução – e, para isso, aceitou uma grande redução salarial. O atacante também assumiu a braçadeira da seleção italiana a partir de 1949. Sucedia, em ambos os postos, o icônico Valentino Mazzola.

Pelo clube que o revelou para o futebol, Riccardo disputou três temporadas, nas quais fez 100 jogos e 30 gols. No Toro, voltou a ser treinado por Giuseppe Bigogno, que o comandara no Milan, e ficou para sempre marcado pelo que deixou em campo e por ter sido peça fundamental para que os grenás se reerguessem. Ainda que em tempos menos gloriosos, capitaneou com bravura o Torino e o levou a um sexto lugar em 1949-50, além de mantê-lo na Serie A nas duas campanhas seguintes. No Piemonte, passou a atuar ainda mais pelas pontas. Os seus movimentos livres pelos flancos do campo o renderam o apelido de Cavallo Pazzo – “cavalo doido”, em tradução literal.

Enquanto militava pelo Torino, Carappa foi convocado por Ferruccio Novo – presidente da agremiação grená e chefe da comissão técnica italiana – para a Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil. Com a braçadeira de capitão, liderou a Itália nas duas partidas do torneio, ambas realizadas no Pacaembu: derrota por 3 a 2 para a Suécia e vitória por 2 a 0 sobre o Paraguai. O atacante deixou a sua marca nessas aparições e ajudou a Itália a competir de maneira digna. Afinal, o desempenho dos azzurri era cercado de expectativas por causa do Grande Torino e, depois, por conta do acidente que o vitimou.

Carapellese defendeu a seleção italiana na expedição ao Brasil, em 1950: no Pacaembu, encarou Suécia e Paraguai (Arquivo/Fifa)

Em 1952, o ponta virou a casaca e trocou o Toro pela Juventus, recém-campeã italiana. Carapellese defendeu a Velha Senhora numa única temporada (1952-53), realizando nove gols em 17 aparições. Aos 30 anos, já figurava mais entre os reservas do que titulares, sendo opção a Karl Aage Praest, Ermes Muccinelli e Pasquale Vivolo. Mesmo assim, contribuiu com o vice-campeonato italiano da equipe.

A última vez que Riccardo trocou de clube na elite foi quando deixou a Juve e percorreu 172km até a capital da Ligúria, para acertar com o Genoa, recém promovido à Serie A. Carapellese defendeu os rossoblù por quatro temporadas. Chegou ao clube já veterano, com 31 anos, mas foi importantíssimo para a manutenção do Vecchio Balordo na primeira divisão naquele período.

Carappa marcou 22 gols em 94 partidas, sendo metade deles na temporada 1955-56, concluída pelo Genoa na 10ª posição da Serie A. Com quase 34 anos, o apuliano voltou a ser convocado para a seleção italiana, que não representava desde 1952, quando ainda era jogador do Torino. No outono da carreira, Carapellese participou de vitórias contra França e Brasil, anotando um tento contra os franceses. Um atleta dos grifoni só voltaria a balançar as redes pela Nazionale 57 anos depois – Alberto Gilardino, em 2013.

Veteraníssimo, Carappa ainda defendeu o Catania, na Serie B, e a Ternana, na quarta divisão. Nas duas experiências, foi também treinador – entre os trabalhos, Riccardo foi técnico de Finale e Sammargheritese, minúsculos clubes da Ligúria. Em 1962, pendurou as chuteiras de uma vez e se dedicou inteiramente à função de técnico.

No Genoa, já veterano, Carappa teve os últimos grandes momentos da carreira como futebolista (LaPresse)

A primeira e única glória como treinador de futebol foi na Ternana, pela qual conseguiu o acesso da Serie D para a terceira divisão, que o clube não frequentava havia 14 anos. Depois dali, passou sem sucesso por Salernitana, Savoia e Martina, que disputavam categorias inferiores.

Afastado do futebol desde 1974, quando teve seu último período como treinador, Carapellese só voltou a ser notícia por causa de más notícias. Em 1984, sua filha, Daniela, de apenas 30 anos, sucumbiu ao abuso de álcool e drogas ilícitas: sofreu uma parada cardíaca fulminante em casa, onde morava com os pais. Riccardo já a havia salvado outras vezes, mas nessa ocasião não foi possível. Era madrugada e ele dormia ao lado de Costanza, sua esposa.

Seis anos depois, Carapellese passou a ser beneficiário da Lei Bacchelli. A legislação, promulgada em 1985, criava um fundo de auxílio a cidadãos ilustres que estavam em situação de necessidade – como Riccardo, que, infelizmente, vivia em penúria. Depois de usufruir da assistência por algum tempo, o ex-jogador faleceu em 1995, aos 73 anos.

Apesar de ter passado por muitas angústias no fim de sua vida, Carapellese não ficou esquecido. O apuliano ficou marcado na história do futebol italiano como um ponta habilidoso, irreverente dentro de campo, que sempre conseguia anotar seus tentos. E, principalmente, por ter tido a fibra de conduzir o Torino e a seleção em momentos de extrema dificuldade.

Riccardo Carapellese
Nascimento: 1º de julho de 1922, em Cerignola, Itália
Falecimento: 20 de outubro de 1995, em Rapallo, Itália
Posição: atacante
Clubes como jogador: Torino (1940-42 e 1949-52), Spezia (1942-43), Casale (1943-44), Vigevano (1944-45), Como (1945-46), Novara (1946), Milan (1946-49), Juventus (1952-53), Genoa (1953-57), Catania (1957-59) e Ternana (1961-62)
Clubes como técnico: Catania (1957), Finale (1959-60), Sammargheritese (1960-61), Ternana (1961-64), Salernitana (1964-65), Savoia (1972-73) e Martina (1973-74)
Títulos como técnico: Serie D (1964)
Seleção italiana: 16 jogos e 10 gols

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