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René Vandereycken, o primeiro belga a brilhar no futebol italiano

Os jogadores profissionais de futebol representam apenas um pequeno grupo entre os que buscam ganhar a vida no esporte: muitos daqueles que tentam seguir este caminho permanecem no amadorismo. Sendo assim, todos os que se profissionalizam seriam muito sortudos, correto? Há controvérsias. A trajetória nos desportos raramente é regular, assim como a história de cada pessoa. Todas tem suas peculiaridades, seus obstáculos e seus infortúnios. A passagem de René Vandereycken pelo Genoa pode ser listada como um símbolo de que mesmo os mais afortunados podem sofrer com o azar. O primeiro belga a disputar a Serie A de pontos corridos até chegou a fazer sucesso, ainda que num curtíssimo período de tempo.

Vandereycken nasceu na pequena Spalbeek, uma vila perto de Hasselt, na região de Genk. Em 1953, quando veio ao mundo, a população do município não chegava a 1.500 pessoas. Apesar disso, havia um clube de futebol por lá e foi nele que René deu os seus primeiros passos no esporte: a trajetória no time homônimo da cidade se iniciou aos 10 anos e foi concluída em 1971, quando o Hasselt o notou o talento especial daquele meio-campista e o ofereceu um contrato profissional.

Após três anos militando pela equipe nas divisões inferiores do país, o jovem recebeu o convite de um dos grandes da Bélgica: o Club Brugge queria contar com os seus serviços. No FCB, Vandereycken fazia o serviço sujo no meio: desarmava e já deixava a bola com quem era mais hábil para articular o jogo. Atuando de forma simples e eficiente durante sete temporadas, conquistou quatro títulos nacionais e, no triênio em que foi comandado pelo austríaco Ernst Happel, ajudou o time azul e negro a alçar voos mais altos: foi finalista da Copa Uefa, em 1976, e da Copa dos Campeões, em 1978. Em ambas as ocasiões, o Liverpool saiu vitorioso.

Vandereycken era absoluto no Club Brugge e, como já havia despontado para o futebol mundial, também se tornou integrante da primeira geração belga que poderia receber a alcunha de “ótima”. A partir de 1975, René começou a fazer parte de um grupo que também contava com os goleiros Jean-Marie Pfaff e Michel Preud’homme, o lateral-direito Eric Gerets e os atacantes François van der Elst e Jan Ceulemans.

Nas Eliminatórias para a Euro 1980, Vandereycken anotou o seu primeiro gol pela seleção num empate por 1 a 1 com a Áustria. Os Diabos Vermelhos se classificaram para a fase final, que acontecia na Itália, e fizeram companhia à anfitriã na Grupo 2 do torneio. Nele, a Bélgica empatou com a Nazionale e com a Inglaterra, além de vencer a Espanha, e avançou à decisão porque marcou duas vezes a mais que a dona da casa. A finalíssima foi realizada no Olímpico de Roma, mas dessa vez os belgas não conseguiram superar a a Alemanha Ocidental, que acabou ganhando por 2 a 1. Cobrando pênalti, René foi o autor do tento do seu país.

Em 1981, Vandereycken se tornou o primeiro estrangeiro do Genoa após a reabertura das fronteiras na Itália (Olympia)

Em 1981, o volante tinha 28 anos e já era um atleta consolidado no cenário internacional. Vivendo sua maturidade, Vandereycken deu um passo importante na carreira: rumou ao Campeonato Italiano, que uma temporada antes reabrira as fronteiras para jogadores provenientes do exterior. Segundo o regulamento, cada clube da Serie A podia contar com apenas um estrangeiro, de modo que os craques se espalhavam pelas equipes do país. O destino de René, por exemplo, foi o Genoa.

O time da Ligúria retornara à elite naquele verão e o histórico presidente Renzo Fossati quis passar uma clara mensagem: ainda que o objetivo fosse o da permanência na primeira divisão, o Genoa não se contentaria em ser um mero coadjuvante na Serie A. Vandereycken chegava na condição de um dos estrangeiros mais célebres do futebol italiano daquele momento, ao lado de Daniel Bertoni (Fiorentina), Herbert Prohaska (Inter), Liam Brady (Juventus), Joe Jordan (Milan), Ruud Krol (Napoli), Paulo Roberto Falcão (Roma) e Michel van de Korput (Torino).

Naturalmente, o belga era o reforço mais importante dos grifoni, seguido de perto pelo atacante Massimo Briaschi, adquirido junto ao Vicenza. A dupla seria treinada por Luigi Simoni, importante ex-jogador do Genoa, e teria a missão de manter os rossoblù na elite. Vandereycken pode começar a se adaptar à nova realidade nos confrontos da fase de grupos da Coppa Italia, que naquela época antecediam a Serie A. Depois de estrear num empate sem gols com o Varese, o volante fez mais três partidas e viu os genoanos serem eliminados por causa do saldo. Só um time se classificava e a Fiorentina teve um melhor desempenho.

A primeira aparição de Vandereycken na Serie A aconteceu na segunda rodada, na qual o Genoa viajou até a Lombardia para encarar o Como no estádio Giuseppe Sinigaglia: o duelo terminou empatado em 1 a 1. Dali em diante, o Vecchio Balordo conviveu com a modéstia de suas pretensões e fez o que pode para permanecer na máxima categoria do futebol italiano.

As naturais oscilações empurraram a equipe para a parte de baixo da tabela. O Genoa venceu apenas seis dos 30 jogos disputados, sendo três em cada turno, e colecionou empates: 13. Com boas atuações, Vandereycken se tornou insubstituível no meio-campo rossoblù: não foi substituído em nenhuma das partidas que disputou pelos grifoni, pois eram o seu senso tático e os gols de Briaschi que mantinham o time vivo na luta contra o rebaixamento.

Com grande desenvoltura, Vandereycken se tornou absoluto no time do Genoa no início dos anos 1980 (Guerin Sportivo)

René fugia da numeração tradicional conferida aos volantes da época, que vestiam a camisa 4, e costumava exibir em suas costas o número 7. O craque esteve presente em 25 das 30 rodadas daquela Serie A e, para sua infelicidade, não pode entrar em campo nos três últimos – e decisivos – compromissos do Genoa no campeonato. Vandereycken lesionou o joelho esquerdo num amistoso entre Bélgica e Bulgária, no fim de abril, e só pode assistir, das tribunas, ao dramático fim de certame.

O resultado mais comemorado pelos genoveses naquela temporada não seria uma vitória. Na última rodada, no estádio San Paolo, o Genoa enfrentou o Napoli com um enorme risco de ser rebaixado. Briaschi abriu o placar logo aos três minutos e deu relativa tranquilidade aos visitantes. A virada azzurra aconteceu e os rossoblù precisavam pelo menos do empate, já que o Milan, adversário na briga contra o descenso, estava vencendo o Cesena por 3 a 2.

Aos 85 minutos, então, Mario Faccenda marcou o gol que salvou o Vecchio Balordo e o deixou na 13ª posição, um ponto acima da zona da degola. Além do Diavolo, o Bologna também seria condenado à segundona pela primeira vez em sua história. Até podia não parecer numa análise superficial, mas o Genoa conseguira um feito e tanto.

Depois do alívio na Itália, Vandereycken foi convocado para representar a Bélgica na Copa do Mundo de 1982, disputada na Espanha. Apesar disso, o meio-campista não apresentou condições físicas de jogo e sequer foi utilizado na competição: o menisco lesionado, que fora tratado com cirurgia, ainda não havia cicatrizado totalmente.

René retornou ao Genoa para a época 1982-83 e continuou sentindo dores no joelho. Chegou a fazer a pré-temporada e participou de três jogos – inclusive na derrota por 3 a 2 contra o Milan, pela Coppa Italia, ocasião em que marcou o seu único gol com a camisa rossoblù –, mas o incômodo não passava. Após novos exames, o belga foi submetido a outra operação no mesmo local e ficou de fora de quase toda a campanha dos lígures. Vandereycken voltou aos campos apenas na penúltima rodada da Serie A e disputou os derradeiros 22 minutos do empate com a Roma, que garantiu o time de Simoni na elite por mais um ano.

Depois de ótimo desempenho na primeira temporada, o craque belga sucumbiu a uma grave lesão (Guerin Sportivo)

Ao fim da temporada, o departamento médico do Genoa informou ao presidente Fossati que Vandereycken, então com 30 anos, não teria mais condições de recuperar a melhor forma física e técnica. Assim, o cartola preferiu se desfazer do craque belga, que encerrava a sua passagem pela Itália após 33 jogos e voltava a seu país de origem para defender o Anderlecht.

Em Bruxelas, René mostrou que a avaliação dos especialistas italianos estava equivocada. Tendo como parceiro o excelente Enzo Scifo, o volante foi titular absoluto do time branco e violeta que conquistou duas vezes o título nacional e, em 1985-86, foi semifinalista da Copa dos Campeões. Vandereycken também defendeu a Bélgica na Euro 1984 e, principalmente, no Mundial de 1986, contribuindo para que a seleção fosse quarta colocada – o seu melhor desempenho no torneio até então.

Com 33 anos recém-completados após a Copa do Mundo, Vandereycken deixou o Anderlecht e ainda jogou por Blau-Weiss Berlin, da Alemanha, e Gent, da Bélgica – em ambos, amargou o rebaixamento. René pendurou as chuteiras em 1989, aos 36, quando também já era treinador. O craque devolveu os búfalos à elite de imediato e, na sequência, o classificou à Copa Uefa.

Na condição de técnico, Vandereycken se destacou por ser muito cuidadoso com a fase defensiva de seus times. Em sua carreira, também teve passagens por Standard Liège, Molenbeek, Anderlecht, Mainz, Twente, Genk e seleção belga, mas sem resultados muito notáveis: foi vice-campeão da Copa da Holanda pelo Twente e levou Molenbeek e Genk à Copa Uefa.

Certamente, René é muito mais lembrado como jogador do que como técnico. Dentro dos campos, ele teve a sorte (e a competência) de despontar para o futebol numa época em que a Bélgica produziu alguns de seus melhores talentos, o que contribuiu para que ganhasse respaldo em torneios internacionais. Vandereycken também teve a fortuna de conseguir uma chance de atuar na fortíssima Serie A dos anos 1980, onde outros grandes craques alcançaram o ápice pelas mais diversas equipes. O azar, que constitui a outra face do destino, também se apresentou para o volante através das lesões e foi responsável por impedir que se tornasse ainda mais idolatrado do que foi pela torcida do Genoa.

Colaborou Felipe dos Santos Souza, do Espreme a Laranja.

René Vandereycken
Nascimento: 22 de julho de 1953, em Spalbeek, Bélgica
Posição: volante
Clubes como jogador: KSC Hasselt (1971-74), Club Brugge (1974-81), Genoa (1981-83), Anderlecht (1983-86), Blau-Weiss Berlin (1986-87) e Gent (1987-89)
Títulos como jogador: Campeonato Belga (1976, 1977, 1978, 1980, 1985 e 1986), Copa da Bélgica (1977) e Supercopa da Bélgica (1980 e 1985)
Carreira como treinador: Gent (1989-93), Standard Liège (1993-94), Molenbeek (1994-97), Anderlecht (1997), Mainz (2000), Twente (2002-04), Genk (2004-05) e Bélgica (2006-09)
Seleção belga: 50 jogos e 3 gols

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