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O argentino Daniel Bertoni foi campeão mundial em 1978 e teve trajetória sólida na Serie A

A Argentina é um dos países mais ligados à Itália em todo o planeta. A forte imigração italiana à nação sul-americana fez com que esse processo fosse inevitável e, obviamente, ele também respingou no futebol. No entanto, apesar de centenas de argentinos terem atuado nos torneios profissionais da Velha Bota, apenas seis campeões mundiais pela Albiceleste passaram pela Serie A. Um deles foi o meia-atacante Daniel Bertoni – ao centro na foto que abre o texto.

Nascido no seio de uma família de origem italiana, Daniel deixou a cidade de Bahía Blanca ainda menino para morar em Quilmes, na região metropolitana de Buenos Aires – onde o pai, leiteiro, trabalharia como motorista de caminhão. Aos 13 anos, o garoto que tinha como ídolo o ponta Raúl Bernao, do Independiente, ingressou nas categorias de base do Quilmes. Em 1972, quando tinha apenas 16, estreou profissionalmente pelos cerveceros, na segunda divisão.

Capaz de jogar como ponta-direita ou segundo atacante, o garoto rápido, habilidoso e muito eficaz nas finalizações de longa distância teve impacto imediato no Quilmes: marcou 12 gols em 31 jogos e acabou chamando a atenção do Independiente. No Rojo, Daniel desenvolveu uma estreita e longeva parceria com o meia-atacante Ricardo Bochini, que chegou até mesmo a morar na casa da família Bertoni por um tempo. Eles se tornariam dois dos maiores ídolos da história do clube de Avellaneda.

Falcão, da Roma, e Bertoni, da Fiorentina, integraram a primeira leva de estrangeiros contratados após a reabertura das fronteiras na Itália (Pinterest)

Assim como no Quilmes, Bertoni teve sucesso instantâneo no Independiente – e contribuiu fortemente para que o epíteto Rei de Copas impusesse ainda mais respeito aos adversários. Quando Daniel chegou, o Rojo já tinha conquistado dois campeonatos nacionais e uma Libertadores nos anos 1970. Em 1973, ele foi peça importante do triunfo continental ante o Colo-Colo e ainda foi o garçom para Bochini dar o mundo aos diabos vermelhos pela primeira vez, na quarta tentativa. A tabela entre os dois culminou numa cavadinha sobre Dino Zoff e na vitória por 1 a 0 sobre a Juventus, em pleno Olímpico de Roma.

No ano seguinte, Bertoni foi pré-convocado para a Copa do Mundo, mas acabou não integrando o elenco argentino que viajou até a Alemanha Ocidental. Pelo Independiente, contudo, seguiu voando: Daniel foi decisivo na conquista das duas Libertadores seguintes pelo Rojo, que alcançou um inédito tetracampeonato consecutivo.

O atacante anotou sete tentos entre os triangulares semifinais e as decisões, se destacando mais intensamente em 1975, quando marcou um gol olímpico sobre o Cruzeiro e, nas finais, guardou dois contra a Unión Española. Dois anos depois, Bertoni também deu uma assistência fundamental, novamente para o amigo Bochini, e venceu o seu único título nacional pelo clube de Avellaneda. O Independiente visitava o Talleres e, num verdadeiro épico, jogando em oito contra 11, conseguiu o empate que lhe assegurou o Campeonato Argentino.

Àquela altura, Bertoni já era um rodado membro da seleção portenha, então comandada por César Menotti. O atacante integrava a Albiceleste desde 1976 e já havia até mesmo anotado uma tripletta contra a Hungria e uma doppietta contra a Polônia. Era, portanto, presença certa na Copa do Mundo de 1978, da qual a Argentina seria anfitriã.

Bertoni passou quatro temporadas na Fiorentina e se consolidou como um dos principais jogadores da equipe (Torrini Fotogiornalismo)

Daniel iniciou a competição como opção a René Houseman, mas causou uma boa impressão no jogo de estreia, quando saiu do banco e marcou o gol da vitória por 2 a 1 sobre a Hungria. Bertoni não jogou a partida seguinte ante a França, mas acabou promovido ao onze inicial no duelo contra a Itália e não saiu mais do time albiceleste. O ponta-direita foi crescendo durante a competição e, na final, vencida por 3 a 1 sobre a Holanda, contribuiu com uma assistência para Mario Kempes e com o tento que selou o primeiro título mundial da Argentina.

Bertoni tinha apenas 23 anos, mas muito pouco a provar no restante de sua carreira como atleta. Protagonista das maiores glórias do Independiente e da Argentina, decidiu rumar ao futebol europeu, onde teria sucesso financeiro. Por 70 milhões de pesetas, foi adquirido pelo Sevilla logo depois do Mundial e se tornou a contratação mais cara dos rojiblancos até aquele momento.

Quando Bertoni chegou à Andaluzia, o Sevilla era um time de meio de tabela em La Liga. Nos dois anos em que defendeu o clube de Nervión, Daniel não levou o clube além disso na competição – terminou como 11º e 8º colocado –, mas ajudou os palanganas a serem semifinalistas da Copa do Rei em 1979. Individualmente, o ponta mostrou bom futebol e fez uma dupla insinuante com o compatriota Héctor Scotta: combinados, eles marcaram 49 gols pelo Campeonato Espanhol, sendo 24 de Bertoni.

Vivendo o seu auge físico, Bertoni acabaria ganhando, em 1980, a chance de jogar no mais badalado campeonato nacional do mundo: a Serie A, que voltava a abrir suas fronteiras para jogadores contratados de clubes estrangeiros após mais de uma década de proibição. Na primeira temporada depois da queda do veto, 10 atletas forasteiros chegaram à Bota e o argentino reforçou a Fiorentina, recém-adquirida pela família Pontello, que fizera fortuna com a construção civil.

Bertoni e Maradona foram contratados pelo Napoli na mesma janela de mercado, em 1984 (imago)

O início da campanha de 1980-81 foi duro para o argentino, que ganhou da torcida violeta o apelido de Puntero. Bertoni começou bem, com um belo gol de falta num empate com o Catanzaro, pela terceira rodada, mas acumulou cinco partidas de suspensão por cartões vermelhos no primeiro turno – um sexto da Serie A, que era disputada em 30 jornadas naquela época. Daniel melhorou no returno e contribuiu com gols decisivos para as vitórias sobre Avellino e Inter, além de empate contra a Roma. Os gigliati terminaram o Italiano na quinta colocação, quatro pontos atrás dos interistas, últimos classificados à Copa Uefa.

Insatisfeita com os resultados no primeiro ano no comando do clube violeta, a família Pontello montou um time muito forte para 1981-82. O elenco treinado por Giancarlo De Sisti tinha, além de Bertoni, o craque Giancarlo Antognoni, o goleiro Giovanni Galli e os defensores Roberto Galbiati e Renzo Contratto, acabou ganhando reforços importantes: os veteranos Antonello Cuccureddu, Eraldo Pecci e Francesco Graziani, além dos promissores Pietro Vierchowod e Daniele Massaro. Ao lado de tantos colegas talentosos, o argentino ganhou tração em Florença e se consolidou como um dos astros do futebol italiano.

Bertoni disputou os 30 jogos da Serie A 1981-82 e fez nove gols, sendo todos de peso decisivo – sempre que marcou, a Fiorentina venceu. O argentino dividiu a artilharia da equipe com Graziani, seu parceiro de ataque, e conduziu os violetas a uma ferrenha briga com a Juventus pelo scudetto: a formação de Florença chegou a liderar o campeonato de maneira isolada, mas em muitos momentos dividiu a ponta com a Velha Senhora. Nessa toada, as equipes chegaram empatadas à última rodada, que teve um desfecho polêmico e acirrou a rivalidade entre as agremiações.

Na Calábria, a Juve venceu o Catanzaro num jogo bastante atribulado. O árbitro Claudio Pieri não marcou um pênalti do bianconero Sergio Brio sobre Carlo Borghi, na primeira etapa. Na reta final no duelo, observou corretamente um toque de mão de Costanzo Celestini em finalização de Pietro Fanna – permitindo a Liam Brady abrir o placar –, mas também encerrou a peleja um minuto antes do tempo regulamentar. Contra o Cagliari, a Fiorentina teve um gol de Graziani bem anulado, por falta de Bertoni no goleiro Roberto Corti, e apenas empatou em 0 a 0. Por um ponto de diferença, o time de Turim foi campeão italiano.

O argentino era conhecido por dar trabalho aos jogadores adversários com sua velocidade (imago/Buzzi)

Depois da ótima temporada pela Fiorentina, Bertoni embarcou para a Espanha para representar a Argentina na Copa do Mundo de 1982. O ponta não vinha jogando muito pela seleção desde que deixara o futebol sul-americano, mas Menotti o conhecia bem e sabia de suas qualidades – tanto é que lhe deu uma vaga de titular como ala pela direita na campanha dos portenhos. Daniel representou o seu país nas cinco partidas realizadas no torneio, marcou gols contra Hungria e El Salvador, e vestiu a camisa da Albiceleste pela última vez na derrota por 3 a 1 contra o Brasil, no triangular que antecedia as semifinais.

Bertoni retornou a Florença com o amigo Daniel Passarella a tiracolo, como reforço da Fiorentina, e começou bem na temporada 1982-83: marcou três gols nas oito primeiras rodadas da Serie A e também fez um na Copa Uefa e outro num clássico contra o Pisa, pela Coppa Italia. Contudo, Daniel foi acometido por uma hepatite viral que o tirou dos gramados por quatro meses e só recuperou a melhor forma em 1983-84.

Naquela que seria a sua última temporada pela equipe violeta, o argentino contribuiu com 10 tentos, chegando a anotar uma doppietta em três ocasiões – ante Torino, Ascoli e Juventus. Com a participação decisiva de Daniel, a formação treinada por De Sisti ficou na terceira posição da Serie A e voltou a se classificar para a Copa Uefa.

Bertoni já era um dos grandes ídolos da torcida gigliata, porém acabou sendo envolvido na verdadeira dança das cadeiras que ocorreu no verão de 1984, por conta da contratação de Diego Maradona pelo Napoli. As outras equipes italianas tentaram responder à altura e, como cada clube só podia ter dois jogadores estrangeiros, o mercado fervilhou. Entre as grandes negociações daquela janela, a aquisição de Sócrates pela Fiorentina fez com que Daniel tivesse de trocar de clube e fosse escolhido para ser parceiro do seu compatriota em Nápoles – deixando os torcedores órfãos e Passarella insatisfeito.

Em sua segunda temporada pelo Napoli, Bertoni viu Giordano ganhar espaço na hierarquia do elenco (Juha Tamminen)

Na Campânia, Bertoni não repetiu a marca de 122 jogos e 31 gols pela Fiorentina, mas teve seus bons momentos individuais. Em 1984-85, temporada em que o Napoli era treinado por Rino Marchesi, o ponta só ficou atrás de Maradona em número de gols e terminou como vice-artilheiro da equipe, com 15 marcados – sendo 11 na Serie A e quatro na Coppa Italia. Os partenopei, contudo, fizeram uma campanha medíocre: ficaram apenas na oitava posição do campeonato nacional e caíram prematuramente na copa.

Em 1985-86, Ottavio Bianchi substituiu Marchesi e elevou o rendimento do Napoli, que terminou a Serie A na terceira posição. Bertoni, porém, perdeu protagonismo para Bruno Giordano e, por orientação do treinador – com o qual teve diversos atritos –, atuou mais na preparação de jogadas para os colegas do que como definidor. Daniel até foi titular, com 26 jogos em 30 rodadas, mas anotou apenas três gols e acabou trocando de clube mais uma vez. Ao fim do campeonato, rumou à Udinese, abrindo espaço para Andrea Carnevale fazer o caminho inverso.

Na Udinese, Bertoni reencontrou o técnico De Sisti e o atacante Graziani, além de outros bons jogadores, como os veteranos Edinho e Fulvio Collovati ou o promissor Angelo Colombo. Só que a missão no Friuli seria das mais difíceis: o time fora punido com nove pontos por envolvimento no escândalo Totonero bis e teria que ter um aproveitamento de postulante à vaga na Copa Uefa se quisesse se salvar do rebaixamento.

Os bianconeri, contudo, passaram longe disso: desconsiderando a penalidade, teriam evitado a queda por míseros dois pontos. Desmotivado e às voltas com problemas físicos, Daniel disputou apenas 20 partidas e marcou seu único gol contra o Empoli, num jogo da reta final da Serie A, que aconteceu após o descenso da Udinese ter sido matematicamente confirmado. O Napoli de Bianchi, por sua vez, acabou sendo campeão italiano.

Desmotivado, Bertoni se aposentou do futebol depois de uma passagem rápida pela Udinese (Getty)

Depois do rebaixamento, Bertoni recebeu propostas de Boca Juniors, River Plate e Racing, mas não aceitou nenhuma delas. Também não permaneceu em Údine: o argentino surpreendeu ao anunciar a sua aposentadoria com apenas 32 anos. Fora das quatro linhas, o ex-jogador teve brevíssimas passagens como técnico do pequeno Los Andes, da Argentina, e diretor do Independiente. Também foi olheiro da Fiorentina e comentarista da Fox Sports portenha.

Atualmente, Bertoni segue ligado ao Independiente, por sua paixão pelo Rojo e por seu status de ídolo. Não à toa, é figura frequente em Avellaneda e chegou a acompanhar o Rey de Copas no Maracanã durante a conquista da Sul-Americana, em 2017. Porém, a relação com a Fiorentina continua forte.

O Puntero, que desde 2018 faz parte do hall da fama violeta, costuma assistir às partidas da equipe de Florença e dar seus pitacos em entrevistas a veículos de imprensa toscanos. Bertoni também tem o hábito de recomendar jogadores argentinos ao amigo Antognoni, que exerce cargo na diretoria do clube gigliato: o zagueiro Lucas Martínez Quarta, que acabou sendo contratado pela Viola, foi um deles.

Ricardo Daniel Bertoni
Nascimento: 14 de março de 1955, em Bahía Blanca, Argentina
Posição: meia-atacante
Clubes: Quilmes (1971-72), Independiente (1972-78), Sevilla (1978-80), Fiorentina (1980-84), Napoli (1984-86) e Udinese (1986-87)
Títulos: Copa Libertadores (1973, 1974 e 1975), Copa Interamericana (1974 e 1975), Mundial Interclubes (1973), Campeonato Argentino (Nacional; 1977) e Copa do Mundo (1978)
Carreira como técnico: Los Andes (1989)
Seleção argentina: 31 jogos e 12 gols

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