Seleção italiana

Do título da Euro à mais uma ausência na Copa: a Itália vive o seu maior drama

A Itália está, de novo, fora da Copa do Mundo. Desta vez, com uma dose extra de drama, de crueldade, de infâmia. Se em 2018 já havia sido traumático pela surpresa chamada Suécia, desta vez, o roteiro é infinitamente mais trágico. Derrota para a Macedônia do Norte, em casa, com um gol no fim, após disparar mais de 30 chutes a gol contra a adversária. Uma derrota que veio por conta de dois pênaltis perdidos ainda na fase de grupos, diante da Suíça. Tudo isso, com uma conquista da Eurocopa no meio. Surreal e inexplicável.

Uma tragédia com dia e local exato. 24 de março de 2022, no estádio Renzo Barbera, em Palermo.

Diante dos desfalques de Federico Chiesa, Giovanni Di Lorenzo e Leonardo Bonucci, Roberto Mancini mandou a campo o que tinha de melhor. Donnarumma no gol, Florenzi, Mancini, Bastoni e Emerson Palmieri na primeira linha, Jorginho, Verratti e Barella no meio-campo, além de Insigne, Berardi e Immobile no trio de ataque.

Desde o primeiro minuto, a Itália sufocou a Macedônia do Norte, exatamente como o projetado. A Itália dominava a posse de bola, trocava passes e colocava em campo toda sua superioridade técnica. Bastoni criava vantagens com seus passes e através de conduções, enquanto Jorginho era o homem do primeiro passe e Verratti circulava por todo o meio-campo, conectando o time. Barella tinha liberdade para atacar os espaços, com Florenzi e Emerson dando muito suporte ofensivo para Berardi e Insigne. Immobile, porém, estava desconexo.

Com mais posse, os azzurri tentaram acelerar o jogo, e também interceptaram muitas bolas em campo ofensivo, tendo a possibilidade de trocar poucos passes e chegar em zona de finalização, acionando mais Immobile, que passou a participar mais da peleja. No entanto, isso acarretou em certa afobação na tentativa de concluir as jogadas. Os números falam por si só: 16 finalizações contra apenas uma da adversária durante a primeira etapa. O problema é que 10 desses 16 arremates da Nazionale foram bloqueados pelo ferrolho da Macedônia do Norte, que marcava, em determinados momentos, com sete ou oito jogadores na própria área. Uma verdadeira barreira humana. E os tiros que não bateram no muro formado pelo rival foram desperdiçados.

Immobile teve duas chances claras, dentro da área, mas mandou ambas para fora. O centroavante da Lazio ainda reclamou de um toque de mão do zagueiro em um outro lance, mas foi ignorado pelo árbitro. Berardi também foi bastante ativo, mas não conseguiu espaço para achar um chute de canhota. Na melhor oportunidade, o ponta do Sassuolo interceptou um passe ruim de Dimitrievski, mas finalizou de maneira displicente, facilitando a defesa do próprio.

Outro resultado desta retranca da Macedônia do Norte foram os nove escanteios concedidos a favor da Itália. Os azzurri, contudo, optaram pela cobrança curta em boa parte deles e, assim, acabaram não assustando através da bola aérea.

No contragolpe, a equipe visitante conseguiu duas jogadas perigosas, mas um mísero chute. Foi do centroavante Ristovski, facilmente defendido por Donnarumma. No fim, a principal chance dos macedônios foi num lance sem conclusão. Graças a Florenzi, que desarmou Churlinov na cara do gol italiano, após bobeira de Mancini, evitando o arremate do adversário. Poderia ter sido o lance fatal para os azzurri nestas eliminatórias europeias. Não foi. Mas este momento ainda chegaria na noite de Palermo.

Mesmo tendo feito ótima partida, Verratti não conseguiu evitar o fracasso italiano (AFP/Getty)

Segundo tempo nervoso

O final da etapa inicial já dava o tom de como seriam os 45 minutos finais. Muito nervosismo, impaciência e irritação por parte dos jogadores italianos, com o contexto da partida. Logo no primeiro minuto após o intervalo, mais um tiro acabou bloqueado pela defesa da Macedônia, que manteve sua estratégia ultradefensiva.

Berardi foi quem melhor entendeu a dinâmica da defesa rival e passou a ter paciência, esperando o momento exato para chutar a gol. Com pouco mais de 15 minutos, os seus chutes, que outrora paravam na defesa, começaram a ultrapassar esta primeira barreira.

Foram quatro oportunidades para o camisa 11 da Itália. No primeiro, o goleiro Dimitrievski fez uma defesa em dois tempos — naquele momento, a quarta intervenção do arqueiro. Depois, o atacante do Sassuolo finalizou ainda mais forte, mas a bola passou à direita da meta da Macedônia do Norte. Na sequência, recebeu dentro da área, girou em cima do defensor, mas isolou com a perna direita. E, por último, dominou no peito praticamente na pequena área, mas seu disparo acabou sendo novamente desviado pela defesa.

Chances incríveis e que iam frustrando, aos poucos, jogadores e torcida presente no estádio Renzo Barbera, em Palermo. Já parecia que muitos pressentiram o que estava por ocorrer ali. De qualquer forma, em pouco tempo, a Itália aumentava de maneira exponencial o seu número de arremates, na medida em que buscava não só finalizar de fora da área, mas, também, chegar mais próxima à meta adversária para concluir. Mas a barreira vermelha seguia firme e forte.

Duas gerações que choram: campeões europeus, Chiellini e Raspadori lamentam a queda para a Macedônia do Norte (Getty)

O ato final

Na altura dos 20 minutos da etapa final, a primeira alteração foi feita por Roberto Mancini. O comandante colocou Raspadori em campo no lugar de Insigne, para tentar dar uma nova dinâmica ao ataque. Immobile, porém, permaneceu no gramado apesar da atuação infeliz.

28 chutes, 14 escanteios. As estatísticas seguiram aumentando, mas o placar do jogo se mantinha alterado. Cerca de 63% de posse de bola para a Itália e quase o dobro de passes trocados. De vez em quando, um lampejo ofensivo da Macedônia do Norte, rapidamente neutralizado pela firme e apressada defesa italiana. A impaciência com a passagem do tempo foi tomando conta de todo o time, que seguiu — na base da insistência — rondando a área adversária. Os mínimos espaços, todavia, custavam a aparecer: os adversários estavam confortáveis em sua estratégia.

Com o relógio batendo nos 30 da segunda etapa, Mancini promoveu mais duas mudanças na seleção azzurra. Saídas de Immobile, para a entrada de Pellegrini, e de Barella, para o ingresso de Tonali. O panorama pouco se alterou até os 44 minutos, quando Chiellini e João Pedro também foram chamados pelo técnico. A última investida para os minutos finais do duelo, que a esta altura já se caminhava para a prorrogação.

Mas isso sequer aconteceu. No quarto chute a gol da Macedônia do Norte em todo o duelo (contra 32 da Itália), o silêncio imperou no Renzo Barbera. Uma bola morta, na intermediária, mas que caiu nos pés de Trajkovski. O camisa 9, então, teve algo que muitos jogadores da Itália buscaram e não conseguiram: espaço para um arremate, concedido pela frouxa marcação de Jorginho e o movimento equivocado de Chiellini.

O Vacilo do sistema defensivo italiano permitiu ao atacante macedônio disparar um chute no canto, que ainda pegou na ponta dos dedos de Donnarumma antes de balançar as redes. Aos 92 minutos de jogo. Trajkovski, um jogador de 29 anos… com passagem pelo Palermo. Em sua antiga casa, o atacante fez o que deve ter sido o gol mais importante da carreira. Ironias da vida que parecem atacar a seleção italiana há alguns anos.

A Macedônia do Norte vai jogar com Portugal por uma vaga na Copa do Mundo do Catar, no final de 2022. E, mais uma vez, a Itália estará assistindo tudo isso de casa. Ou melhor: no mesmo horário, estará em campo em Istambul, num melancólico amistoso de derrotados contra a Turquia.

Dois Mundiais seguidos de uma frustração prévia, após outras duas campanhas pífias. Em 2010 e 2014, a Nazionale não passou da fase de grupos na Copa do Mundo. Resultados que envergonharam, porque ninguém imaginava o que ainda estava por vir. Entre esses fracassos, o sucesso na Euro. Um título que ameniza as dores, mas que, ao mesmo tempo, provoca dúvidas sobre qual é a verdadeira força da seleção italiana.

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