Cartolas

Enrico Preziosi fez do Genoa o seu brinquedo mais valioso

Enrico Preziosi foi de trabalhador comum a empresário e, em poucos anos, tornou a Giochi Preziosi, companhia de brinquedos criada por ele, uma das maiores da Europa em seu setor. Depois, influenciado por Silvio Berlusconi, adquiriu um time de futebol. Como gestor, o magnata foi vulcânico: demitiu técnicos a rodo, fez grandes contratações, protagonizou escândalos e viveu infernos com Como e Genoa. Isso tudo fez com que o dirigente se tornasse uma das maiores personalidades da Serie A no século XXI, assim como no setor empresarial, já que, até hoje, a sua holding vive constante crescimento.

O meteórico empresário

Filho de um relojoeiro e de uma professora, Enrico nasceu em 1948, e concluiu os estudos na adolescência, já na década de 1960. Começou a trabalhar nos negócios do pai, que faleceria após um infarto, poucos anos depois. Sua mãe herdou a loja da família e o jovem, que acreditava ser o escolhido para a tarefa, saiu de casa, decepcionado, aos 16. De Avellino, sua terra natal, partiu para a região da Calábria, onde seria empregado de uma companhia que instalava grades de proteção em rodovias.

Em seguida, mudou-se para Milão. Lá, os trabalhos como vendedor nas empresas Perfetti, Phillips e, depois, no emprego mais duradouro, em uma concessionária de eletrodomésticos, lhe dariam certa experiência no mundo corporativo. Perto dos 30 anos, fez seu primeiro empreendimento. O dono de uma firma de brinquedos infantis convenceu Preziosi a investir numa companhia chamada Gavegad. O projeto fracassou, e Enico, que injetara uma grande quantia de dinheiro, decidiu começar o próprio negócio.

Na garagem de sua casa, fundou a Giochi Preziosi, empresa que, inicialmente, funcionava como uma revendedora de brinquedos importados: as peças vinham de Hong Kong e eram revendidas a ambulantes. Com pouquíssimo tempo de funcionamento, a companhia já contava com um imenso armazém e um bom número de funcionários. Em 1989, quase uma década após a fundação, a primeira loja foi inaugurada por Enrico.

Nos anos 1990, diversas companhias de jogos haviam sido adquiridas pela Giochi Preziosi, incluindo a GiG, uma das mais tradicionais no setor, e a Cicciobello, fabricante da famosa boneca de mesmo nome. Além disso, em 1993, a empresa passou a produzir os próprios brinquedos. O equivalente a 30 milhões de euros anuais seriam investidos na mídia – em especial, na emissora Mediaset, do amigo e ídolo Berlusconi – para a divulgação da marca, então maior distribuidora italiana do ramo.

A primeira aventura no futebol

O enorme sucesso de Berlusconi com o seu poderoso Milan, bicampeão da Copa dos Campeões em 1989 e 1990, inspirou Enrico, que passara a desejar um joguete daquele tipo, isto é, um time de futebol. Inicialmente, ainda tateando no ramo, o empresário estabeleceu um contrato de patrocínio com a Fiorentina, que teve o logotipo da Giocheria, uma das marcas da Giochi Preziosi, estampado em suas camisas na temporada 1992-92.

Em seguida, o pequeno Saronno, da província de Varese e militante da Serie D, foi comprado pelo magnata, em 1992. A camisa branca e azul celeste do time lombardo virou, consequentemente, um espaço para propaganda de brinquedos licenciados pela Giochi Preziosi. De 1993 a 1995, a malha exibiu a marca da Milton Bradley Company (criadora do Jogo da Vida) e, entre 1995 e 1998, foi estampada pelo logotipo do Subutteo, jogo de futebol de mesa muito popular na Europa.

Na temporada 1994-95, a posterior ao acesso à Serie C2, os biancocelesti da Lombardia alcançaram os playoffs da terceira divisão nacional. Sob o comando de Giuseppe Savoldi e com os gols do bomber Carlo Taldo, a equipe derrotou o Lumezzane na final, conquistando, assim, a sonhada vaga para a categoria superior.

Com resultados fracos, Savoldi foi substituído por Eugenio Bersellini, que chegava para impor a disciplina característica nos seus trabalhos. O Sargento de Ferro, experiente e vencedor, conseguiu uma tranquila salvezza com os biancocelesti. Amado pela torcida e amigo do presidente Preziosi, o técnico resolveu continuar na cidade de Saronno, agora como diretor esportivo.

Preziosi construiu sua fortuna com a venda de brinquedos e, posteriormente, investiu em três clubes: Saronno, Como e Genoa (Il Giornale)

A maior glória do pequeno time foi alcançada na temporada 1996-97, com um jovem treinador chamado Mario Beretta. Os biancocelesti terminaram em quarto lugar na classificação final, o que os levou aos sonhados playoffs para a Serie B. Na primeira partida da semifinal, contra o Carpi, a equipe de Preziosi venceu por 1 a 0. Entre 1 de julho a 8 de julho de 1997, datas das disputas das pelejas de ida e volta, uma péssima notícia assolaria a torcida e, principalmente, os jogadores.

Preziosi estava prestes a deixar a presidência dos biancocelesti. Isso porque o processo de compra do Como, também da Serie C1, pelo empresário, já chegava aos capítulos finais. Desse modo, o desânimo reinou no vestiário: na partida de volta, o Saronno sofreu uma derrota por 3 a 0. O clube declarou falência em 2000, justamente três anos após a saída do magnata.

Os azuis reais de Preziosi

No momento em que a Giochi Preziosi alcançava o pódio das maiores companhias de brinquedos da Europa, o presidente Preziosi resolveu aumentar seus investimentos no futebol, com a compra do Como. Inicialmente, foi investido no clube um valor equivalente a 2 milhões de euros.

Beretta, o comandante jovem do Saronno, foi o primeiro treinador da era Preziosi às margens do Lago de Como. Nos dois jogos iniciais da Serie C1 de 1997-98, o time conseguiu duas vitórias por 2 a 0. Quatro empates nas quatro rodadas seguintes deixaram a equipe entre as cinco melhores colocadas. Então, inesperadamente, o professor foi informado da sua demissão. Para o presidente, o começo não foi bom. “Estou mandando você embora agora porque depois pode ser tarde demais”, explicara o empresário ao técnico.

O substituto, Enrico Catuzzi, durou apenas quatro jogos. Arrependido, Preziosi chamou Beretta de volta. No entanto, como se estivesse manejando um dos brinquedos da Giochi Preziosi – neste caso, o Como –, ele resolveu exonerar o treinador outra vez, na 24ª rodada. Capitão do time desde 1995, o atacante Luca Cecconi disparou contra o dirigente: “Se continuar assim, seremos rebaixados”. Dias mais tarde, depois de um verdadeiro caos no vestiário, o empresário encerrou o contrato do jogador de forma imediata, mesmo com o campeonato ainda em andamento.

Naquela temporada, o time só escapou do rebaixamento na última rodada, sob a ordens de Giancarlo Centi. Um jovem Tommaso Rocchi chegou, por empréstimo da Juventus, no início de 1998. Com Giovanni Trainini no comando – do começo ao fim –, os lariani terminaram na segunda colocação da Serie C1. Nos playoffs, perderam para a Pistoiese.

A intensa troca de treinadores se repetiria na temporada 1999-2000, com Walter De Vecchi, Gianpiero Marini e Loris Dominissini ocupando o cargo. Novamente, o time ficou em perigo, mas conseguiu se salvar. Em paralelo, Preziosi adicionava mais um tijolo importante a sua construção: em dezembro de 1999, o magnata adquiriu a GiG, sua maior concorrente em solo italiano. A empresa de Florença entrou em bancarrota, mas tinha ativos importantes: era licenciatária da Nintendo e, inclusive, patrocinara a Fiorentina de 1997 a 1999.

Em Como, o projeto esportivo começava a dar frutos. Finalmente, com a permanência de Dominissini no comando técnico, os azuis reais subiram à Serie B, no campeonato 2000-01. Vitórias contra Spezia e Livorno nos playoffs relaxaram Preziosi, que passaria a investir mais do seu dinheiro no clube. Com a ascensão, uma barca de jogadores chegou aos lariani, com destaque para Carlo Taldo, bomber do Saronno, Luís Oliveira, atacante belgo-brasileiro, e Francesco Pedone, meio-campista.

Desbancando Napoli, Sampdoria e Genoa, o esquadrão comandado por Dominissini, mantido por Preziosi, brigou ponto a ponto pelo título da segundona com o Modena, enquanto os grandes permaneciam no meio da tabela. Um ano e alguns meses antes, um jogo entre Como e Modena, na Serie C1, fora palco de um episódio trágico. Massimiliano Ferrigno, então capitão dos lariani, deu um forte soco em Francesco Bertolotti, do Modena, que bateu com a cabeça no gramado. Bertolotti precisou interromper a carreira no futebol, enquanto Ferrigno sofreu um banimento de três temporadas.

Na penúltima rodada da Serie B, os gols de Oliveira e Taldo deram a vitória aos lariani, no decisivo jogo contra o Cittadella. A partida final, ante o Napoli, no San Paolo, foi vencida com mais um tento de Taldo. Pela terceira vez na história, os azuis reais da Lombardia alcançavam o título da segundona, e Preziosi assistia, pela primeira vez, um time presidido por ele levantar um troféu.

Após altos e baixos pelo Como, Preziosi repetiu a dose no Genoa: aqui, comemora o acesso à Serie B (imago/IPA)

Em 2001, um desconhecido adolescente chamado Lionel Messi era alvo dos observadores do Como. O ótimo desempenho do argentino entre os juvenis chegou ao conhecimento do patrono. Audições foram feitas, mas o empresário não se interessou, pois o físico de Messi equiparava-se ao de uma criança. Não seria a única vez que Preziosi dispensaria um futuro Melhor do Mundo.

No mercado para a Serie A, o presidente abriu os cofres para contratar jogadores experientes. Levou para o Como os atacantes Nicola Amoruso, Benito Carbone, Jorge Horacio Serna, Daniel Fonseca e Nicola Caccia,  os meio-campistas Fabio Pecchia e Benoît Cauet, os zagueiros Juarez e Pasquale Padalino, e também o goleiro Fabrizio Ferron. Oliveira foi cedido ao Catania.

O começo não poderia ser pior. Até a véspera de natal de 2002, 11 jogos haviam sido disputados. Nenhuma vitória para a equipe de Dominissini, que seria convidado para um tête-à-tête com o chefe. O técnico mais longevo da era Preziosi alegou que as lesões o atrapalharam; mas as escusas não foram aceitas pelo empresário, que resolveu mandá-lo embora.

Eugenio Fascetti, experiente, foi o escolhido por Preziosi. E, mesmo assim, os lariani não ganharam um jogo sequer no primeiro turno do campeonato. O rebaixamento batia à porta do time biancoblù, ao passo que o cartola já planejava sua saída. Com algumas rodadas de antecedência, a queda do Como para a segunda divisão foi confirmada – restava apenas a briga com o Torino pela pior campanha.

Para aliviar os cofres do clube, muitos jogadores foram vendidos. O presidente, autor da ideia, realizou a maioria das vendas. Curiosamente – ou não –, vários deles rumaram para o Genoa, propriedade do empresário a partir de julho de 2003. Em dezembro de 2004, o Como, rebaixado para a Serie C1, declarou falência.

Ao mesmo tempo, um processo foi aberto contra o ex-dono, Preziosi, suposto culpado pelo colapso dos azuis reais. Segundo a acusação, as vendas de Stephen Makinwa, Roberto Colacone, Luca Belingheri, Nicola Caccia, Giuseppe Greco, Nikola Lazetic, Cyril Yapi, Sasa Bjelanovic e Daniele Gregori – todas para o Genoa – foram feitas de forma irregular. Ao vender esses jogadores abaixo do preço real, o cartola teria causado um prejuízo de 15 milhões de euros aos cofres do clube.

Já em 2005, o empresário finalmente vendeu o Como. No entanto, a compradora era uma companhia pertence ao oligopólio Giochi Preziosi. Enrico tentava aliviar sua barra, mas o ato “caridoso” não foi aprovado, já que uma pessoa não pode presidir duas agremiações ao mesmo tempo. Por essa razão, os azuis reais foram barrados da Serie C2 de 2005-06; com novos proprietários, e agora sem o fantasma de Preziosi, os lariani se inscreveram e disputaram a quinta categoria daquele ano.

A compra do Genoa e o primeiro ano

Graças ao Caso Catania, que ocorreu na Serie B 2002-03 e mexeu com toda a estrutura do futebol italiano, o Genoa escapou do rebaixamento para a terceira divisão naquele campeonato. Apesar disso, o time rossoblù ainda estava em apuros financeiramente e corria sério risco de falência. Ao assumir a presidência da agremiação, Preziosi aplicou, imediatamente, 27 milhões de euros nos cofres do clube – dinheiro da sua própria conta. Era um novo patamar de relacionamento entre o empresário e a agremiação da Ligúria, que foi patrocinada pela Giocheria em 1995-96.

A segunda divisão italiana de 2003-04 seria disputada com 24 times – dentre esses, Fiorentina, Torino, Napoli, Verona, Cagliari, Palermo e Genoa. Primeiro treinador da era Preziosi, Roberto Donadoni tinha a difícil tarefa de alcançar, ao menos, os playoffs. O zagueiro Aldair, com seus 38 anos de idade, o também experiente Zé Elias e Marco Rossi, que mais tarde se tornaria ídolo na Ligúria, eram os principais jogadores da formação rossoblù.

Três derrotas nos três primeiros jogos, mais a eliminação na Coppa Italia, puseram fim ao trabalho de Donadoni, demitido com a justificava característica de Preziosi: “porque depois poderia ser tarde demais”, dizia. Dez rodadas depois, com Luigi De Canio no comando, pouca coisa mudou: o Genoa ainda estava na zona de rebaixamento.

Em quase duas décadas de Genoa, Preziosi fez contratações importantes, como a de Toni (imago/Buzzi)

No mercado de inverno, em janeiro de 2004, Preziosi buscou, no Racing de Avellaneda, aquele que seria o principal jogador da sua gestão, o atacante Diego Milito. Além do argentino, o meio-campista Giovanni Tedesco e o goleiro Alessio Scarpi chegaram em Gênova.

Milito marcou na estreia, contra o Ascoli. Também anotou ante Verona, Palermo, Messina, Avellino e Como, além de assinar uma tripletta sobre o Cagliari e uma doppietta às custas do Piacenza, num frenético 4 a 4. Gols importantíssimos para a salvezza do Grifone, 16º lugar ao fim da competição. De Canio foi demitido em agosto de 2004, após a eliminação na Coppa Italia, antes mesmo de a Serie B 2004-05 ter início.

Título da Serie B e o Caso Genoa-Venezia

Com a permanência de Milito, Rossi, Scarpi, Tedesco, entre outros, e a chegada de Sabri Lamouchi e Roberto Stellone, o esquadrão rossoblù, que seria comandado por Serse Cosmi, era um grande favorito para a conquista do acesso à Serie A. E o empolgante primeiro turno provou isso.

Grandes vitórias contra Salernitana (5 a 0), Vicenza (5 a 2), Ascoli e Veneza (3 a 0), anteciparam o favoritismo da equipe genovesa ao título da Serie B. Ao fim do primeiro turno, os rossoblù ocupavam a liderança, com 46 pontos, sete a mais do que o Perugia, segundo colocado. Milito acumulava 12 gols em 21 jogos, enquanto Tedesco tinha sete. A volta não foi tão boa, mas o time de Cosmi permaneceu na briga pela ponta, com Empoli, Perugia e Torino.

Para vencer a Serie B, o Genoa precisaria ganhar do Venezia, já rebaixado, na derradeira rodada. Assim, no dia 11 de junho de 2005, no estádio Marassi, o Grifone, com uma doppietta de Milito e um gol de Rossi, venceu a partida por 3 a 2 e se sagrou campeão. Uma volta à primeira divisão muito celebrada, já que a última participação do time fora em 1995, 10 anos antes.

Poucos dias após o fim da competição, dois procuradores genoveses entregaram à justiça desportiva uma denúncia de possível fraude no derradeiro jogo, que deu o título ao Genoa. Movimentos foram feitos e, no dia 14 de junho, perto do prédio principal da Giochi Preziosi, o carro de Giuseppe Pagliara, dirigente do Veneza, foi parado pela polícia. Em posse do cartola, um envelope destinado ao clube rossoblù, contendo 250 mil euros, em dinheiro vivo, e um contrato de venda do paraguaio Rubén Maldonado, jogador dos arancioneroverdi.

Os policiais suspeitaram do contrato e do dinheiro, então Pagliara foi conduzido à delegacia. De fato, a papelada continha irregularidades, o que levou a polícia à conclusão de que ali estava a prova da fraude esportiva. Mais tarde, os investigadores interceptaram uma ligação entre Preziosi e Franco Dal Cin, então presidente do Venezia. Na chamada, o empresário rossoblù comentava com o dirigente vêneto sobre uma suposta proposta de cartolas do Torino, concorrente ao título, de um “prêmio” caso o Genoa perdesse para o Venezia. Mas, na verdade, Enrico recusou a fraude, sugerindo um jogo limpo entre as equipes.

No mês de julho, houve a primeira instância do julgamento de fraude esportiva. O Genoa, campeão da Serie B 2004-05, seria movido para última colocação do campeonato, consequentemente rebaixado à terceirona, e também penalizado com três pontos a menos no torneio posterior. Preziosi, Pagliara, Dal Cin e Stefano Capozucca, dirigente rossoblù e suposto atuante nas negociações da fraude, foram condenados a cinco anos de prisão por fraude esportiva; outros executivos também sofreram algum tipo de condenação. O Venezia se safou das penas porque, um mês antes, um processo de falência fora aberto.

O caso passou por várias cortes e a condenação de Preziosi chegou a ser anulada. O processo chegou ao fim em 2012, com a pena do presidente sendo reduzida – alguns anos antes, o empresário já havia se livrado das condenações referentes ao Caso Como, do qual ele fora o principal culpado.

O ressurgimento e a era Gasperini

Antes da reviravolta – de campeão a último colocado –, Preziosi havia contratado o técnico Francesco Guidolin, o atacante Ezequiel Lavezzi, o defensor André Ooijer e o goleiro Christian Abbiati. Mas com a queda, devido ao escândalo, todos eles tiveram os vínculos quebrados, e Milito, por sua vez, foi vendido ao Zaragoza. Scarpi, Rossi e Tedesco permaneceram.

Após os tempos de vacas magras que sucederam o êxito da era Gasperini, o empresário ficou isolado no Genoa (Getty)

O pragmático Giovanni Vasassori comandaria os grifoni na terceira divisão, tendo certa obrigação de conseguir o acesso. Nas 10 primeiras rodadas, seis vitórias e quatro empates. Porém, num desses triunfos – o 3 a 1 contra o Ravenna –, o defensor camaronês Antonio Ghomsi foi escalado irregularmente, e a justiça esportiva impôs uma derrota de 3 a 0 ao Genoa.

A disputa ponto a ponto pelo topo da tabela com os lígures do Spezia persistiu durante todo o campeonato. E, mesmo com o time na liderança, Preziosi via com maus olhos o desempenho de Vasassori. Na 25ª rodada, os grifoni sofreram a primeira derrota, no jogo contra o Pro Patria. O treinador, então, foi demitido logo depois. Attilio Perotti, ex-jogador e ex-técnico rossoblù, assumiu o comando.

As derrotas para Spezia e Sambenedettese praticamente anularam as chances do time conseguir a vaga direta, com o primeiro lugar. Mas o título do Spezia só seria confirmado com a derrota da equipe de Perotti para o Cittadella, na penúltima rodada. Em mais uma ação questionável, Preziosi exonerou o treinador e chamou Vavassori de volta, para dirigir os grifoni nos playoffs. Contra a Salernitana, após uma derrota por 2 a 1 e depois uma vitória pelo mesmo placar, os rossoblù avançaram por terem melhor campanha no campeonato. Já no confronto ante o Monza, gols de Igor Zaniolo e Ivica Iliev deram o esperado – mas difícil – acesso à Serie B.

Na temporada seguinte, aquele que seria o melhor técnico da era Preziosi assumiu o posto: Gian Piero Gasperini, que fazia um bom trabalho no Crotone. Ivan Juric, recomendado pelo comandante, e os brasileiros Adaílton, ex-Verona e futuro camisa 10 do Genoa, e Rubinho, o goleiro, foram as principais contratações para a disputa de uma segunda divisão engrandecida, com Napoli e Juventus como principais concorrentes ao título.

Os grifoni empataram em 1 a 1 com o Napoli, no primeiro turno; já no confronto contra os juventinos, Adaílton perdeu um pênalti, e o placar se repetiu. Enquanto a Juventus disparava na liderança, mesmo com nove pontos a menos devido ao Calciopoli, a segunda e a terceira colocações eram disputadas por partenopei e genoveses, além de Mantova, Bologna e Rimini. O time de Gasperini superou os três últimos concorrentes no confronto direto, e chegou à derradeira rodada para uma tarde de festa com os napolitanos, com os quais a sua torcida mantinha relação de amizade. Pela vantagem de 10 pontos sobre o quarto colocado, sequer houve a disputa dos playoffs de acesso.

Preziosi contratou o atacante Marco Borriello para a aguardada temporada de retorno do Genoa à elite, após mais de 10 anos fora dela. Ao lado de Marco Di Vaio, o bomber foi o principal jogador rossoblù na campanha, com 19 gols em 38 jogos. A equipe conquistou um tranquilo 10º lugar.

Para 2008-09, além da continuação de um Gasperini em ascensão, com seu 3-4-3, o presidente Preziosi acertou o retorno de Milito, as contratações do grego Sokratis Papastathopoulos, do uruguaio Rubén Olivera, do defensor Matteo Ferrari e, sobretudo, do excelente meia ítalo-brasileiro Thiago Motta, além da permanência do capitão Rossi.

Contra Milan, Roma e Napoli, os grifoni se sobressaíram com vitórias – muito graças a Milito, que marcou em todos os confrontos. Já no dérbi com a Sampdoria, o Príncipe fez o único gol do jogo, numa bela cabeçada. Um agressivo e ofensivo Genoa mostrava que estava entre os grandes, lutando por vagas europeias. No returno, se destacariam a expressiva vitória sobre os blucerchiati, no centésimo Derby della Lanterna – 3 a 1, com uma incrível tripletta de Milito –, e o triunfo sobre a Juventus, no Marassi, em que Motta anotou duas vezes.

A excelente campanha da equipe de Gasperini resultou num quinto lugar. O Genoa empatou em pontos com a Fiorentina, que ficou com a vaga na Liga dos Campeões devido à vantagem no confronto direto. De qualquer forma, após 18 anos, os grifoni retornavam à Europa: a única participação ocorrera com Osvaldo Bagnoli, na presidência de Aldo Spinelli, na temporada 1991-92.

Com as saídas de Milito e Motta para a Inter, por um total de 40 milhões de euros, Preziosi buscou Hernán Crespo, em fim de contrato com os nerazzurri, Rodrigo Palacio, Alberto Zapater, Emiliano Moretti e Sergio Floccari. Além disso, algumas joias da base subiram ao time principal, como Stephan El Shaarawy e Mattia Perin. Rossi, Sokratis e Domenico Criscito, já um dos principais atletas da equipe, permaneceram. Apesar disso, o Genoa não superou a fase de grupos da Liga Europa – foi terceiro colocado numa chave com Valencia, Lille e Slavia Praga. Na Serie A, o Grifone foi nono colocado.

As rusgas entre Preziosi e a torcida resultaram em constantes protestos no Marassi (Getty)

Considerado o “rei das transferências”, Preziosi continuou suas empreitadas para 2010-11. As compras de Miguel Veloso, Kakhaber Kaladze, Rafinha e Luca Toni fizeram do Grifone uma das equipes mais fortes da Itália, mesmo com a saída de Crespo para o Parma. Naquele mercado, Robert Lewandowski, do Lech Poznan, foi oferecido ao dirigente, mas ele achou, assim como no caso Messi, que o porte físico do atacante não era bastante para ter sucesso na Serie A.

A bem da verdade, não existia treinador ou jogador intocável para o imprevisível Preziosi; muito pelo contrário, todos eram suscetíveis a descartes. Com Gasperini, quiçá o maior emblema da gestão, não foi diferente. Após um mau começo – cinco derrotas em 10 jogos –, o técnico foi despedido. Davide Ballardini assumiu o posto, e os grifoni ficaram na 10ª colocação. Mesmo com o desempenho razoável, houve festa naquela temporada: com o rebaixamento da rival Samp, presidida por Riccardo Garrone, os torcedores do Genoa encheram as ruas da capital da Ligúria.

Os anos 10

Depois das grandes contratações e do auge com Gasperini, o Genoa de Preziosi só alternaria entre o papel de coadjuvante e o flerte com rebaixamento. Por isso, a partir de 2012, quando os grifoni ficaram perto da queda, a torcida começaria um grande boicote ao empresário e aos jogadores considerados péssimos.

Por exemplo, na temporada 2011-12, quando já não mais havia Toni ou Rafinha, Preziosi demitiu Alberto Malesani, contratou Pasquale Marino; depois Malesani voltou e, até antes do fim, foi exonerado de novo. Por fim, Luigi De Canio assumiu o comando e salvou a equipe do rebaixamento.

Curiosas decisões se repetiram na temporada seguinte. O time base não era lá essas coisas, mas havia bons jogadores, como o veterano Rossi, o goleiro Sébastien Frey, o atacante Borriello e o recém-contratado Juan Manuel Vargas. No entanto, as bizarras trocas no comando técnico continuaram. De Canio, demitido na oitava rodada, deu lugar a Luigi Delneri, que, com um péssimo trabalho, abriu espaço para a volta de Ballardini. Mais uma vez, um 17º lugar foi conquistado com muito esforço.

Com Gasperini de volta, em 2014-15, houve uma luz no fim do túnel. Diego Perotti, Mauricio Pinilla e Iago Falqué faziam o ataque do 3-4-3 característico do técnico, que alcançaria triunfos sobre Juventus (1 a 0), Milan (1 a 0) e Inter (3 a 2). Novamente, a maestria de Gasperini levava os genoveses à Europa; mas, desta vez, problemas com a retirada da licença necessária para disputar os torneios europeus acabavam com o sonho, e a vaga foi cedida, melancolicamente, à rival Sampdoria, sétima colocada.

Dali em diante, entre 2015 e 2021, o Genoa seguiu em cirandas: alternou anos de meio de tabela a lutas contra o rebaixamento; sofreu com intenso fluxo de entradas e saídas de jogadores; e, claro, foi palco de uma frenética dança das cadeiras entre treinadores, temperadas pelas idas de vindas de Ballardini. Enquanto o veterano Goran Pandev foi um atleta fiel e esteve presente em todo o ciclo, Giovanni Simeone e Krzysztof Piatek foram as contratações mais bem-sucedidas do período, marcado por forte contestação da torcida a Preziosi.

A venda do Genoa e o fim da era Preziosi

Em julho de 2021, o fundo de investimentos norte-americano 777 Partners assinou a compra de 99,9% das ações do Genoa, pondo fim ao martírio que o empresário vivia há pelo menos uma década. Brigado desde sempre com os torcedores e “sem forças” para continuar na presidência do clube, após 18 anos, o dono da Giochi Preziosi viu-se livre de um casamento que durou até demais.

Ao longo de sua gestão, Preziosi trocou de técnicos 28 vezes e investiu cerca de 500 milhões de euros no clube. Foi protagonista de uma época que, mesmo bem longe de ter sido a melhor da história dos grifoni, será relembrada por um bom tempo, mesmo que a torcida rossoblù queira esquecê-la. Depois da venda, o magnata manteve um cargo no conselho de administração do Genoa, mas sem poder de definir o seu rumo. É como se o irmão mais velho proporcionasse ao caçula a chance de jogar videogame mas não conectasse o controle da criança ao dispositivo.

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