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Giuseppe Sabadini foi absoluto no Milan dos anos 1970, mas quase não jogou pela Itália

Na década de 1970, o Milan teve um dos laterais mais queridos de sua história – embora ele seja pouco conhecido no Brasil. Giuseppe Sabadini era uma flecha pelo flanco direito e sua sintonia com o craque Gianni Rivera marcou época num time que não chegou a faturar scudetti, mas encontrou o sucesso em copas nacionais e internacionais.

Nascido na pequena cidade de Sagrado, a poucos quilômetros da fronteira entre Itália e Eslovênia, Giuseppe se destacou desde cedo no atletismo: ganhou vários campeonatos locais de corridas de tiro curto. Na adolescência, além de se dedicar aos sprints, já praticava futebol – era torcedor do Milan, a propósito – e ainda ajudava o pai, pedreiro, ao ocupar o ofício de marmorista. À época, fez uma aposta com o genitor: um dia, atuaria na Serie A.

A primeira chance de Sabadini surgiria aos 16 anos, quando ele foi levado pelo olheiro Bruno Stabile para uma peneira da Inter. Ele não foi aprovado, mas as versões da história divergem: a revista Forza Milan relata que, por conta da emoção, o jovem teve problemas estomacais e não conseguiu render bem. Ao site Milan Day, Giuseppe afirma que o caça-talentos quis garantir um lucro no negócio maior do que o acordado com os nerazzurri e que, por isso, ele não foi contratado. No fim das contas, parou na Sampdoria.

Sabadini, ao centro, foi um dos principais nomes do Milan em parte da década de 1970 (Acervo pessoal)

Sabadini, carinhosamente chamado de Tato pelos mais próximos, se mudou para Gênova e foi morar num pensionato juntamente a outros jovens futebolistas. O garoto friulano ascendeu na base da Sampdoria como ponta e, nessa posição, foi prontamente notado pelo técnico Fulvio Bernardini, que dirigia a equipe principal e já havia conquistado scudetti com Fiorentina e Bologna. Aos 17, estreou profissionalmente como ala pela direita.

Apesar de ter estreado e feito oito jogos naquela Serie A, Sabadini não terminou o ano da maneira mais feliz. A Samp foi rebaixada para a segundona e, nas duas temporadas seguintes, ele atuou entre os juvenis e os reservas, para amadurecer e aprender a ser defensor. Apenas em 1968, com a equipe novamente na elite, é que Bernardini voltou a lhe escalar, e como titular absoluto da lateral direita: Tato só perdeu um compromisso nas três campanhas seguintes, nas quais os blucerchiati evitaram o descenso.

Depois de 104 aparições em seis temporadas na Sampdoria, Sabadini, então com 22 anos, se juntou ao Milan em 1971 – realizando, assim, um sonho de infância, da época em que colecionava figurinhas dos rossoneri. Em pouco tempo, ele se tornaria ídolo dos torcedores do Diavolo, que o apelidaram de Tarzan por conta de suas corridas pela lateral direita, com físico potente e seus longos cabelos ao vento, para um lado e para o outro, como se estivesse pendurado em cipós. O seu estilo, veloz e dinâmico, caía como uma luva no time milanista.

No entanto, o início de sua trajetória no Milan seria tortuosa, por conta de alguns desentendimentos com o lendário treinador rossonero Nereo Rocco. O comandante chamava o lateral de “lampadinha”, porque ele era intermitente: meio disperso, não conseguia render com regularidade. Em seu 11º jogo pelo Diavolo, por exemplo, Sabadini fracassou na função de marcar o promissor Roberto Bettega, que anotaria uma doppietta – incluindo um gol de letra – na goleada por 4 a 1 da Juventus em pleno San Siro.

O lateral era conhecido por sua velocidade e também pela eficiência no jogo aéreo (imago/WEREK)

Nos treinamentos, Rocco provocava Sabadini com frequência. Usava palavras duras e criticava o jogador na frente de todos. Até que, numa bela tarde, o lateral explodiu e quis agredir o treinador – teve de ser contido por companheiros, como Rivera e Karl-Heinz Schnellinger. Depois, o técnico o chamou em sua sala e, ao contrário do que Tato imaginava, não foi para uma reprimenda: “agora você está pronto para a seleção”, lhe disse o Parón.

Sabadini, que até aquele momento sentia um bloqueio psicológico por atuar ao lado de tantos ídolos de infância e adolescência, virou a chave após o episódio e terminou a temporada de estreia pelo Milan como um dos jogadores mais utilizados – foram 50 partidas, tal qual o goleiro Fabio Cudicini. Quase sempre presente, o lateral desenvolveu forte sintonia com Rivera pelo flanco direito e ajudou o time a ser vice-campeão italiano e semifinalista da Copa Uefa. Mas, principalmente, a levantar a taça da Coppa Italia: durante a campanha, concluída com triunfo sobre o Napoli, marcou o seu primeiro gol pelos rossoneri num dérbi contra a Inter, com uma cabeçada que definiu a peleja.

Adaptado, Tato arrebatou os corações dos torcedores rossoneri. O lateral chegou a ser tão bem visto pela torcida que costumava até frequentar alguns clubes dedicados ao time, especialmente os de Rho e Moncalieri, municípios próximos a Milão e Turim, respectivamente – em suas visitas, costumava tocar violão com os fãs. Em sua segunda temporada, continuou em alta: marcou outra vez contra a Inter e ajudou o Diavolo a repetir o vice da Serie A, numa campanha em que o scudetto escapou na última rodada, após derrota para o Verona, e o título da Coppa Italia. O ápice, no entanto, se deu com a taça da Recopa Uefa, em final com o Leeds.

No período em que defendia o Milan, Tato também conseguiu as suas únicas experiências na seleção italiana. No total, Sabadini somou apenas quatro presenças com a camisa azzurra, tendo sido a primeira numa goleada por 5 a 0 sobre Luxemburgo, em 1973, em partida válida pelas qualificações para a Copa do Mundo do ano seguinte. O lateral fez parte do elenco que disputou a competição em 1974, na Alemanha Ocidental, mas não entrou em campo. Na época, o técnico Ferruccio Valcareggi dava prioridade a jogadores que atuavam juntos na Juventus, antecipando o chamado Blocco-Juve que dominaria as convocações de 1978 e 1982.

Sabadini, à direita, teve grande sintonia com Rivera (a seu lado), craque do Milan nos anos 1970 (Anefo)

Com as escassas oportunidades na Nazionale, restava se dedicar ao Milan. Porém, Sabadini perdeu espaço também no time rossonero a partir da temporada 1975-76 e deixou de ser titular absoluto – apesar de ter conquistado mais uma Coppa Italia.

Na época, o clube vivia uma balbúrdia societária, com várias trocas na presidência, e isso também impactava em campo. Segundo Sabadini, o diretor esportivo Alessandro Vitali pressionava os treinadores a escalarem os seus pupilos. O fato é que, em 1977-78, Nils Liedholm começou a dar oportunidades para alguns jovens das categorias de base, como Fulvio Collovati e Franco Baresi, o que levou Tato a encerrar sua passagem pelo Milan com 244 partidas e acertar transferência para o Catanzaro.

O time do sul da Itália havia retornado à elite e Sabadini chegou à Calábria juntamente a Maurizio Turone, que fora seu companheiro na Lombardia, para dar experiência a um elenco que tinha como destaques o defensor Claudio Ranieri e o atacante Massimo Palanca. Sob o comando de Carlo Mazzone, Tato voltava a batalhar para salvar sua equipe do rebaixamento – e, na primeira temporada, conseguiu com folga, além de ajudá-la a ser semifinalista da copa nacional. Naquele ano, curiosamente, acabou fazendo parte da história do Milan: não faturou nenhum scudetto pelos rossoneri, mas estava em campo no jogo que selou a conquista do décimo título de Serie A do Diavolo. Na ocasião, o Catanzaro foi derrotado por 3 a 1.

Ao longo de cinco anos, Sabadini foi um dos jogadores mais importantes do Catanzaro. Nesse período, contribuiu para que o time giallorosso fizesse algumas excelentes campanhas, como a do oitavo lugar na Serie A, em 1980-81, e a combinação entre o sétimo posto no certame nacional – o melhor da história das Águias do Sul – e mais uma queda nas semifinais da Coppa Italia, em 1981-82. Em 1983, com o rebaixamento dos calabreses, encerrou a sua passagem pelo clube com 136 presenças.

Tato teve boa passagem pelo Catanzaro e se afeiçoou à Calábria (Acervo pessoal)

Sabadini transcorreu o último biênio de sua carreira como atleta na Serie A, mas acumulou dois outros rebaixamentos – com o Catania, em 1984, e com o Ascoli, em 1985. Dessa forma, aos 36 anos, o defensor optou por pendurar as chuteiras.

Após o final de sua carreira como jogador, Sabadini se aventurou como treinador e passou por clubes tradicionais, como Venezia, Messina, Catanzaro e Alessandria – neste último, ganhou a Serie C2, em 1991, e celebrou seu único título como técnico. Tato também passou por times menores, como Corigliano, Avezzano, Castrovillari, Taranto e até o Astrea, pertencente à Polícia Penitenciária italiana. Segundo o próprio ex-lateral, não decolou na profissão por ser honesto e não aceitar sugestões de empresários.

Embora seja milanista de coração e tenha desenvolvido identificação com o clube da Lombardia, o friulano Sabadini fez outro amor ao longo da vida: o sul da Itália. Aposentado, se mudou para Catanzaro com seus familiares e passou a desfrutar do clima quente e dos mares da Calábria. Estabelecido na “sola” da Bota, se dedicou a uma escolinha de futebol e, em seu merecido descanso, se aplica na produção de arte naïf.

Giuseppe Sabadini
Nascimento: 26 de março de 1949, em Sagrado, Itália
Posição: lateral-direito
Clubes como jogador: Sampdoria (1965-71), Milan (1971-78), Catanzaro (1978-83), Catania (1983-84) e Ascoli (1984-85)
Títulos como jogador: Coppa Italia (1972, 1973 e 1977) e Recopa Uefa (1973)
Clubes como treinador: Corigliano (1986-88), Venezia (1989-90), Alessandria (1990-92), Avezzano (1993-95), Messina (1995-96), Catanzaro (1996-97), Astrea (1997-99), Castrovillari (2000-01) e Taranto (2004-05)
Títulos como treinador: Serie C2 (1991)
Seleção italiana: 4 jogos

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