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Da Roma à Lazio, Franco Cordova viveu intensamente os dois lados da Cidade Eterna

No mercado de verão da temporada 2020-21, a ida de Pedro, da Roma para a Lazio, deu o que falar. Natural, afinal se trata de uma das rivalidades mais quentes do futebol mundial. Quase 50 anos antes, Franco Cordova realizou o mesmo caminho, mas com a diferença de que era imensamente identificado com os giallorossi; era capitão e ficou no clube durante quase uma década.

Nascido em Forlì, na Emília-Romanha, Franco Cordova, cujo apelido é Ciccio, cresceu em Nápoles, terra natal de seus pais. Ele passou boa parte da infância e adolescência jogando futebol no bairro Materdei, em um campinho situado ao lado do cemitério local, o Cimitero della Fontenelle. Inquieto desde criança, encontrou no esporte uma crescente paixão.

Com talento acima da média em comparação aos demais, Ciccio encantou Salvatore Rosa, presidente do Flegrea, pequena equipe local, que posteriormente se fundiria ao Internapoli. O time era treinado por Vittorio Pecorella, um atípico napolitano apaixonado pela Juventus. Pecorella, que, antes de ser técnico havia trabalhado como motorista de uma empresa produtora de tomates e como auxiliar em um hospital especializado em doenças pulmonares, acreditou no potencial do jovem, imbuindo-se com firmeza na missão de lapidar a joia bruta.

Carreira profissional

A trajetória de Cordova enquanto atleta profissional teve início na Salernitana, na temporada 1962-63. Em Salerno, disputou a Serie C e, com um gol marcado em seis aparições pelo clube granata, teve um rápido salto na carreira ao transferir-se para o Catania, que jogava a Serie A. Ele tinha 19 anos quando chegou aos rossazzurri.

Na Sicília, apresentou um ótimo futebol e logo foi alçado ao grupo dos meio-campistas mais técnicos do campeonato. O regista, plenamente adaptado ao sol e às águas mornas do mar da cidade, teve duas temporadas de destaque, mesmo jogando pouco, devido à pouca idade. O Catania, em ambas as ocasiões, obteve uma posição confortável na tabela: 8º lugar.

A boa fase com os rossoblù naturalmente despertou alguns interessados. Entre eles, um muito especial. Era Helenio Herrera, treinador da Grande Inter, que buscava uma alternativa a Mario Corso. Herrera via em Cordova uma especial vantagem: a ambidestria; por saber jogar com as duas pernas, era imprevisível na condução de bola. Mas Ciccio não conseguiu desbancar o craque nerazzurro e entrou em campo somente uma vez pela Beneamata, em duelo contra o Napoli, em setembro de 1966.

Seguidos episódios de indisciplina expuseram uma incompatibilidade do meio-campista com as diretrizes do clube nerazzurro. Durante os dias em que viveu em Milão, Cordova reencontrou um amigo de infância que também morava lá e já fazia parte da vida da cidade, especialmente da vida noturna. Outros acontecimentos curiosos permearam a passagem do jogador pela Inter. Certa vez, após uma partida fora de casa pela Serie A, foi esquecido pela delegação ao adormecer na poltrona de um hotel. Ele teve de voltar a Milão de trem, sozinho.

Mesmo sem jogar, fez parte do elenco que faturou a Copa Intercontinental de 1965 e o scudetto em 1966. Seu caráter intempestivo e excêntrico o tirou dos planos da diretoria e da comissão técnica dos nerazzurri. Incapaz de se adaptar à rígida filosofia imposta pelo Mago Herrera, e de entrosar com os companheiros de time, quase todos nomes consagrados, foi para o Brescia.

Depois de passar pela Inter, Cordova se consolidou com a camisa da Roma (LaPresse)

Cidade Eterna, amor eterno

A temporada 1966-67 teve um significado especial para Cordova, pois representou um momento tanto de retomada quanto de projeção para ele. Em 25 atuações, o romanholo demonstrou qualidade e provou que estava apto para atuar em alto nível mais uma vez. O interesse da Roma, muito por conta do treinador giallorosso, Oronzo Pugliese, um admirador do futebol do meio-campista, recolocou Ciccio em uma grande praça. Junto dele, chegaram também Fabio Capello, Giuliano Taccola e o brasileiro Jair da Costa.

Apesar de uma dúvida inicial que pairava no ar quanto ao comprometimento do novo contratado, graças à má fase vivida durante a passagem pela Inter, não tardou para que Cordova cavasse um lugar no coração da torcida; o próprio chegou a dizer que tais episódios de indisciplina tinham ocorrido porque ele era muito jovem. Na Roma, ele era cada vez mais um líder dentro de campo. Em sua primeira temporada, viu o clube terminar a Serie A bem na metade da tabela, na 10ª posição.

Pugliese deixou o comando técnico para assumir o Bologna e o substituto que a Roma escolheu era um velho conhecido de Cordova, mais precisamente dos tempos em Milão: Herrera. O franco-argentino logo em seu primeiro ano conduziu o time à conquista da Coppa Italia; pela segunda vez em sua história, a Loba vencia a competição. O título veio de forma invicta (três vitórias e três empates, além de 11 gols marcados e apenas cinco sofridos) em um quadrangular final que contou com Cagliari, Foggia e Torino.

Fundamental e adorado pela torcida giallorossa, Ciccio viu que sua crescente fama não se resumia somente às quatro linhas. Sua vida extracampo era constantemente alvo de comentários e fofocas, principalmente após ter se casado com Simona Marchini, filha do então presidente da Roma, Alvaro Marchini, em 1970. Meses mais tarde, algumas coisas começaram a mudar. Primeiro, a presidência do clube, com Gaetano Anzalone sucedendo o sogro de Cordova no cargo. Ali iniciava-se uma série de atritos que duraria por alguns anos entre o meio-campista e o novo mandatário, que não aprovava o matrimônio do jogador com a filha de um ex-adversário político.

Das graças à braçadeira

Se fora de campo as coisas estavam um pouco conturbadas, dentro dele havia mais harmonia. Falando em harmonia, Cordova recebeu o apelido de “Mozart do futebol” e passou a ter seu nome entoado nas arquibancadas: “Ciccio Cordova, Amarildo, [Luis] Del Sol, ogni tiro è un gol!” – “Ciccio Cordova, Amarildo, Del Sol, todo chute é um gol”. Mais do que estabelecido como símbolo romanista, tornou-se capitão da equipe em 1972-73. Depois de duas temporadas medianas, a Roma voltou a erguer uma taça em 1972, quando conquistou a Copa Anglo-Italiana ao bater o Blackpool na decisão, por 3 a 1.

Em 1973, chegava o fim da passagem de Herrera pela Roma. Além dos dois troféus vencidos, ele passou a ser lembrado por ter feito a Loba atuar seguidas partidas com o segundo uniforme, o branco; o motivo, segundo o próprio HH, era que tal configuração garantiria uma melhor visão do jogo.

A morte de Giuliano Taccola, quatro anos antes, devido a uma parada cardíaca, deixou mágoas no comandante e acredita-se ter sido um dos motivos para a saída do mesmo. O atleta havia sido diagnosticado com uma anomalia no coração, mas que foi considerada inofensiva pelo departamento médico do clube. A tragédia veio a acontecer após uma partida contra o Cagliari, quando o atacante desmaiou subitamente no vestiário – nos meses anteriores, já havia passado mal diversas vezes. Os médicos tentaram reanimá-lo, mas já era tarde demais; o jogador estava sem vida. O episódio atingiu Cordova de maneira profunda. Ciccio era muito amigo de Taccola e relatou ter ouvido do atacante, no dia anterior à sua morte, que não queria treinar porque não estava se sentindo bem.

O auxiliar Antonio Trebiciani assumiu, provisoriamente, a vaga deixada por Herrera até a chegada de Manlio Scopigno, que venceu o scudetto com o Cagliari em 1970. Passadas seis rodadas, com quatro derrotas e dois empates, Scopigno foi demitido e Nils Liedholm, de história riquíssima no Milan em seus tempos de atleta, assumiu o comando técnico do time. Esta seria a primeira de quatro passagens do sueco pela Roma.

Cordova foi capitão da Roma em época de vacas magras para o clube (LaPresse)

Os giallorossi, capitaneados por Cordova dentro do campo e por Liedholm à beira do gramado, terminaram a Serie A no oitavo lugar; a Lazio, pela primeira vez em sua história, venceu o campeonato. Na temporada seguinte, após um início claudicante com visitas à zona de rebaixamento, a Roma se recuperou e terminou na terceira colocação, atrás de Napoli e Juventus. Uma conquista simbólica para os romanistas foi o triunfo sobre a então campeã, e grande rival, por duas vezes – em ambos os jogos, placar de 1 a 0.

Cordova estreou pela Squadra Azzurra em 1975, contra a Polônia, no Olímpico de Roma. Anteriormente, teve uma breve experiência com a seleção sub-23, quando disputou três partidas. Um mês depois da primeira convocação, jogou contra a Finlândia, naquela que foi sua segunda e última aparição pela Nazionale. O treinador Fulvio Bernardini foi quem chamou o experiente meio-campista, que à época tinha quase 31 anos de idade.

Adeus, Roma; olá, Lazio

As rusgas entre Cordova e Anzalone não cessaram ao longo dos anos. Na verdade, foram crescendo, como uma bola de neve. Com um leve declínio técnico e vindo de uma temporada abaixo do nível mostrado em outras, Franco percebeu que o presidente da Roma pressionava internamente com a intenção de deixar o meio-campista de fora do time. A gota d’água veio quando, em certa manhã, o jogador leu nos jornais que havia sido vendido para o Verona. Estupefato, ele foi conversar com o dirigente, que buscava reformular a equipe montando um elenco jovem e barato.

Ciccio se sentiu brutalmente apunhalado pelas costas. Primeiro, porque amava o clube, e segundo porque não queria deixar a cidade, que tanto apreciava. Então, fazendo-se valer da regulamentação federal – do artigo 31, mais especificamente –, recusou expressamente a transferência para o Verona e teve autonomia para decidir qual seria seu destino. O episódio tomou conta da crônica esportiva e os jornais dedicaram páginas e mais páginas ao caso.

Foi quando surgiu uma inusitada oportunidade, que pôs à prova o quanto realmente Cordova desejava permanecer na Cidade Eterna. Isso porque a Lazio (exatamente, a Lazio) fez uma proposta para contar com o jogador. Quem tomou à frente nas negociações foi o presidente biancoceleste, Umberto Lenzini, mas quem de fato convenceu o atleta a fazer o ousado e sacrílego movimento foi o brasileiro Luís Vinício, então treinador do aquilotti e entusiasta do futebol de Ciccio. Franco era visto como a reposição perfeita para Mario Frustalupi, vendido ao Cesena no ano anterior.

Depois de nove anos, 267 partidas e 19 gols marcados, Cordova, o jovem do cabelo desgrenhado e da inconfundível franja que se tornou capitão e ícone da Roma, deixou o clube sentindo-se magoado. Não levou cinco minutos para que se arrependesse. Logo ele, que se tornara giallorosso de coração ao longo de todo aquele período de devoção. Mas, passado o súbito desespero, encarou o novo e duro desafio. “Sou romanista. Eu nunca iria, eu não queria. Eles me forçaram. Eles se comportaram muito mal comigo e eu tomei essa decisão por orgulho, rancor e teimosia. E eu faria de novo”, declarou Ciccio, em certa ocasião, emocionado.

Os biancocelesti tinham grandes nomes: Giancarlo Oddi, Giuseppe Wilson, Felice Pulici, Luciano Re Cecconi, Renzo Garlaschelli, Bruno Giordano e Vincenzo D’Amico. Inclusive, em um primeiro momento, Cordova, por conta de seu passado romanista, não foi recebido muito bem por alguns companheiros, como o próprio Re Cecconi, que criticava abertamente a chegada do novo reforço. O vestiário, rachado em feudos, certamente não era dos mais amigáveis. A torcida, em sua maioria, o recebeu bem.

Mas a verdade é que, apesar de ser um movimento inusitado, ele não foi o primeiro a ir de uma margem à outra do rio Tibre. Anteriormente, por exemplo, Attilio Ferraris, que passou sete anos na Roma, transferiu-se para a Lazio em 1934, depois de ser bicampeão do mundo com a Itália. Ou o inverso, caso do sueco Arne Selmosson, que trocou os biancocelesti pelos giallorossi na transição da década de 1950 para a de 1960. Quem fez o mesmo caminho, dois decênios depois, foi Carlo Perrone, quando trocou a Águia pela Loba, onde ficou uma temporada, retornando em seguida para o lado azul e branco da cidade. A lista completa de jogadores que defenderam os dois clubes está disponível aqui, em nossa série “Corações Ingratos”.

Cordova, Giancarlo De Sisti e Giorgio Morini: líderes da Roma na década de 1970 (AS Roma Ultras)

Sua chegada dividiu opiniões entre a torcida da Lazio. Alguns eram contra, mas não eram barulhentos. Os que eram a favor logo fizeram questão de estender uma faixa com os dizeres “Ciccio, la Roma ti ha tradito, la Lazio ti ha capito” – “Ciccio, a Roma te traiu, a Lazio te entendeu”. Por outro lado, os giallorossi se mantiveram em um estado que misturava perplexidade e revolta durante algum tempo, já que esperavam qualquer destino menos aquele para o outrora tão adorado capitão. Anzalone ajudou a tumultuar tudo isso, tentando colocar a torcida contra Cordova.

Absorvendo toda a tensão gerada em torno de si, Ciccio ficou reticente quanto ao fato de atuar pela primeira vez com a camisa da Lazio. A partida era contra a Juventus e, momentos antes do apito inicial, o meia se manteve isolado, absorto em seus pensamentos. Cordova entrou em campo graças ao dirigente Vincenzo Paruccini, que implorou para que ele jogasse e acabou por convencê-lo.

Luís Vinício armou uma equipe interessante e com viés ofensivo, capaz de valorizar as características de Cordova, que tinha hábito de pisar na entrada da área adversária e preferia dar um passe para algum companheiro marcar a arrematar em gol. A Lazio fez boa campanha na Serie A – vencida pela Juventus, em disputa acirradíssima com o Torino – e terminou na quinta posição, garantindo uma vaga para a Copa Uefa. A nota triste foram os falecimentos do técnico Tommaso Maestrelli, em dezembro de 1976, e de Re Cecconi, um mês mais tarde.

As expectativas acabaram sendo frustradas, e a temporada 1977-78 não foi lá tão empolgante. A Lazio fechou a Serie A no 10º lugar e foi eliminada na Copa Uefa pelo Lens, na segunda fase. O roteiro foi bastante parecido na campanha seguinte, à exceção da participação em alguma copa europeia. Findada a trajetória construída em 1978-79, Cordova, então com 35 anos de idade, encerrou seu triênio pelos aquilotti e acertou com o Avellino. Ao todo, foram 106 aparições com o uniforme celeste e dois tentos marcados em uma honrosa passagem. Houve, também, um gol contra marcado justamente em um Derby della Capitale, mas os laziali venceram de virada.

Pelo Avellino, Ciccio fez apenas cinco partidas. Os lobos garantiram a 12ª posição da Serie A em um ano marcado pelo escândalo Totonero, insólito episódio marcado por manipulação de resultados. Inclusive, foi essa a razão pela qual Cordova não entrou mais em campo e acabou decidindo por antecipar a aposentadoria: o meia optou por não dedurar os colegas de clube que estavam envolvidos e acabou sendo punido. Com o nome ligado ao escândalo, foi banido do futebol por 14 meses.

Cordova ainda chegou a se arriscar como treinador do modesto Tivoli, mas a experiência foi breve e, após um caminho trilhado e repleto de emoções distintas ao longo de toda a carreira, ele não teve mais contato direto com o futebol. Inclusive, na década de 1980, o seu matrimônio com Simona Marchini, filha do ex-presidente da Roma, acabou – Ciccio ainda foi casado, entre 2001 e 2002, com a atriz Marisa Laurito. Embora não tenha sido perdoado integralmente pelos romanistas, sempre que possível, Franco faz questão de reforçar seu amor pela Loba capitolina.

Franco Cordova
Nascimento: 21 de junho de 1944, em Forlì, Itália
Posição: meio-campista
Clubes: Salernitana (1962-63), Catania (1963-65), Inter (1965-66), Brescia (1966-67), Roma (1967-1976), Lazio (1976-79) e Avellino (1979-80)
Títulos: Copa Intercontinental (1965), Serie A (1966), Coppa Italia (1969) e Copa Anglo-Italiana (1972)
Seleção italiana: 2 jogos

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