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Review: Copa Viareggio 2010

Immobile (camisa branca, à esquerda) foi o principal jogador da Juve campeã (Getty Images)

Assim como em 2009, a Copa Viareggio deste ano terminou com o título da Juventus. O bicampeonato, sétimo título dos bianconeri na competição, foi justo: a equipe treinada por Luciano Bruni foi mesmo a melhor do torneio carnavalesco. A equipe Primavera da Juve passou fácil pelo seu grupo e, até chegar a final contra o Empoli, eliminou Cesena, Sassuolo e Atalanta nos mata-matas, alcançando a marca de 19 gols realizados e apenas três sofridos (contra o Cesena, nas oitavas, e contra o Empoli, na final). Os prêmios individuais também recaíram sobre os jogadores juventinos. Carlo Pinsoglio foi eleito como melhor goleiro da competição, enquanto o centroavante Ciro Immobile, que já era titular da equipe de 2009, marcou dez gols e bateu o recorde de oito tentos realizados numa mesma edição da Copa – do também juventino Daud (2009) e do viola Banchelli (1992). De quebra, Immobile venceu o prêmio Golden Boy, dado ao melhor jogador da competição.

A 62ª edição da Copa Viareggio também foi recheada de surpresas. A Atalanta está empatada com o Milan na lidrança de seu grupo no Campeonato Primavera, mas o desfalque do atacante Zaza dificultou as coisas para os nerazzurri. Com um ataque no qual apenas Gabbiadini se destacou, mas possuindo uma boa defesa – reforçada com a contratação do finlandês Toivomäki -, surpreendeu que os bergamascos atingissem as semifinais do torneio, principalmente depois de eliminar as fortes equipes da Inter, nas oitavas, e do Palermo, nas quartas. No duelo nerazzurro contra a Inter, a vitória veio apenas nos pênaltis, quando o capitão Donati desperdiçou sua cobrança. Após eliminar um time recheado de talentos como Stevanovic, Alibec, Destro, Crisetig, Donati e Obiorah, a Atalanta ganhou moral para enfrentar o Palermo de Adamo, Laribi, Temperino, Giovio e Mbakogu, que havia goleado o surpreendente Sassuolo por 6 a 0 na fase de grupos. A vitória de La Dea sobre os rosanero foi definida apenas na prorrogação, graças a um gol de falta de Gabbiadini. Porém, as melhores ocasiões do jogo foram do Palermo, que poderia ter decidido o jogo com Mbakogu, que, frente a frente com o goleiro Rossi, chutou para fora. A Atalanta teve bastante sorte e coração para eliminar duas das equipes cotadas para rivalizar com a Juventus pelo título, mas foi pouco para passar pela própria equipe Primavera da Velha Senhora na semifinal. Gabbiadini teve quatro chances incríveis, mas esbarrou no goleiro Pinsoglio e no próprio nervosismo.

Na outra semifinal, mais uma equipe surpreendente brigou para chegar à final, mas foi derrotada pelo Empoli, nos pênaltis. Trata-se do Combinado da Serie D, que se classificou para a fase eliminatória como uma das melhores segundas colocadas. Nas oitavas, a vitória improvável sobre a boa equipe do Genoa, nos acréscimos, já era suficiente para colocar o time formado por jogadores das divisões inferiores italianas no hall das surpresas de Viareggio, mas o time foi mais além: eliminou o Torino do romeno Suciu nos pênaltis e só parou no Empoli. Na boa campanha do combinado, destacam-se o meia Tirelli, o atacante D’Angelo, o zagueiro Benci e o goleiro Forte.

Quanto ao supracitado Genoa, a classificação se deu em um grupo complicado, contra Bari e Dukla Praga, mas as ausências de Aleksic e Gucher nas oitavas atrapalharam o desempenho rossoblù. Mesmo assim, o bom grupo de jogadores, no qual também destacam-se El Shaarawy, Ragusa, Boakye, Polenta e Chinellato, tinha totais condições de passar para as quartas e decepcionou. A Sampdoria, uma das favoritas ao título, caiu ainda mais cedo: acabou eliminada na primeira fase. Desclassificação que pode ser atribuída ao fato de que os dorianos tenham caído no grupo da morte e tenham se recusado a jogar novamente a partida contra o Nacional parada no meio por causa da temperatura congelante que obrigou três jogadores a serem internados em hospitais da região.

A primeira posição deste grupo, aliás, ficou com os paraguaios do Nacional, que sucumbiram à Fiorentina nas oitavas. Os viola, aliás, também tinham uma das equipes mais gabaritadas de Viareggio, formada por vários jogadores com experiência na equipe profissional, como o goleiro Seculin, o lateral Agyei, meia Di Tacchio e os atacantes Carraro, Acosty Badu e Babacar. Tornando a equipe ainda mais forte, Seferovic, artilheiro do Mundial sub-17, vencido pela sua Suíça, foi agregado de última hora à equipe de Renato Buso, para disputar a fase eliminatória. Em seu grupo, a Fiorentina foi soberana e contou com ótimas atuações de Di Tacchio e Carraro, para classificar-se sem sustos na primeira posição. Porém, mesmo com a presença de Seferovic entre os titulares, o time jogou mal contra o Empoli e, numa dia de desatenções de sua defesa, perdeu por 2 a 1 no duelo toscano. Não adiantou nem mesmo o gol do brasileiro Ryder, já que o goleiro Addario – uma das revelações do torneio – foi protagonista de mais uma grande atuação.

Falando em decepções, outra vez a Roma deixou sua marca em Viareggio. Os comandados de Alberto De Rossi, que fazem ótima campanha no Campeonato Primavera, sofreram para se classificar em seu grupo e só conseguiram o feito na última rodada, ao bater os rivais locais da Cisco Roma. As lesões atrapalharam bastante o elenco giallorosso, que não pôde levar o goleiro Frasca para o litoral e ainda jogou com os ótimos Mladen e Sini no sacrifício depois da estreia na competição. Nas oitavas-de-final, veio a queda para o futuro vice-campeão Empoli: depois de um empate sem gols no tempo normal, o zagueiro Antei perdeu o pênalti decisivo. Neste jogo, ficou bem clara a falta que faz Pettinari, autor de quatro gols na fase de grupos, mas suspenso para as oitavas por conta de um cartão amarelo discutível recebido contra a Cisco. Quem caiu na mesma fase foi o Milan, que também sofreu com a falta daquele que foi seu principal jogador nos primeiros jogos: o atacante Beretta, que havia chegado do Albinoleffe no início da temporada. Ele marcou três vezes contra Leme e Esperia Viareggio, mas sentiu uma lesão e só entrou na partida contra o Torino nos dez minutos finais. Outro que deixou boa impressão foi o meia serra-leonês Strasser.

O Torino bem que eliminou o Milan, mas não foi muito longe e caiu logo nas quartas-de-final, para o combinado da Serie D. Os granata não tiveram problemas para passar do grupo 3 e bateram Maccabi Haifa, Bologna e LIAC New York. Na partida com os garotos da quinta divisão, porém, o que estava dando certo desandou e o atacante Comi passou a partida apagado. No fim, foi substituído e nem participou da disputa de pênaltis que eliminaria o time de Turim: ele já havia convertido dois durante o torneio e Di Pietro, que entrou em seu lugar, desperdiçou sua cobrança. O zagueiro Benedetti, como previsto, foi o grande destaque da campanha do time de Antonino Asta. Outro time que não passou das quartas-de-final, mas saiu como uma das grandes surpresas positivas da competição, foi o Sassuolo, que estreou no grupo 6 batendo o Pergocrema (3 a 1), levou uma sonora goleada do Palermo (6 a 0), mas surpreendeu ao vencer o Spartak Moscou pelo placar mínimo. Nas oitavas, os neroverdini tiraram o Napoli nos pênaltis ao ver a estrela adversária, Liccardo, desperdiçar a cobrança decisiva. Nas quartas, o time não resistiu à Juve e caiu pelo placar mínimo. Ainda assim, compensa ficar de olho no goleiro Gallinetta, formado na base da Inter, forte fisicamente e bom no jogo aéreo.

O Brasil também foi representado em Viareggio, pelo Grêmio e pelo Leme. Nenhum dos dois se classificou para as oitavas-de-final, mas o tricolor gaúcho deixou boa impressão. Com a base campeã do Campeonato Brasileiro Sub-20, o time sofreu com as baixas temperaturas e com o gramado sintético presente em dois de seus jogos (derrota para o Nacional por 1 a 0 em Chiavari e empate sem gols em Siena, contra o time da cidade). Na única partida que fez em gramado natural, desbancou a favorita Sampdoria por 3 a 1, com gols de Fogaça, Pessalli e Stum. O camisa 10 Pessalli, meia-atacante, foi o grande destaque gremista no torneio e deve subir em breve para os profissionais. Olho também no lateral-direito Gabriel Spessato. Os cariocas do Leme são uma grande incógnita. Não fizeram uma campanha vexatória, longe disso: após estrear levando 4 a 0 do Milan, se vingou batendo o Guaraní paraguaio por 3 a 2 e ainda humilhou o Esperia Viareggio, dono da casa, numa vitória por 3 a 0. Só no saldo de gols é que o time da zona sul ficou de fora da segunda fase da competição. Amaral, com quatro gols, foi o artilheiro da equipe – ainda que não exista qualquer jogador com este sobrenome entre os incritos para a competição. Procurada pela reportagem, a direção do clube não foi encontrada no telefone entregue pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro.

Voltando lá pra cima, palmas para um Empoli que surpreendeu mesmo sem tendo perdido durante janeiro o principal jogador do time, o atacante Caturano. Num grupo 5 bastante tranquilo, os azzurrini não tiveram dificuldades para alinhar três vitórias fáceis contra Kaposvari (4 a 2), Mantova (1 a 0) e Olbia (um acachapante 9 a 0 mesmo jogando com o time misto, com três gols de Castellani, dois de Shekiladze e outros dois de Pucciarelli). Nas oitavas, o poder ofensivo do Empoli minguou contra a Roma, mas uma ótima partida do goleiro Addario, decisivo na disputa de pênaltis, selou a sorte do time de Ettore Donati. Após passar também pela Fiorentina nas quartas (2 a 1), de novo a cobrança de pênaltis foi responsável por recolocar os azzurrini nos trilhos. Ao passar pelo Combinado da Serie D depois dos tiros de 9 metros com outro show de Addario, que defendeu duas bolas, e se classificar para a final, o Empoli só caiu para a Juventus. O maior destaque da campanha do time foi mesmo Addario, que completou 19 anos no dia da final e, até ter Immobile pela frente, só havia sofrido um gol em seis partidas. O torneio também mostrou que o time toscano poderá colher alguns bons frutos num futuro próximo, como o atacante Dumitru, o meia Pucciarelli e a dupla de zaga formada por Tonelli e Alderotti.

A campanha da campeã
A Juventus era a cabeça-de-chave do fraco grupo 1, que também tinha Livorno, Vicenza e Legia Varsóvia (Polônia). Os bianconeri justificaram o amplo favoritismo no grupo e ganharam todas as partidas de goleada, sem sofrerem um gol sequer. A partida de estreia, contra o Legia, foi a mais complicada. Embora Immobile, de cabeça, tenha feito o primeiro gol dele em Viareggio com dois minutos de jogo, os poloneses tiveram um pênalti a seu favor, que o bom goleiro Pinsoglio defendeu. Logo depois, o mesmo Immobile anotou sua doppietta, cobrando penalidade. Quando o sólido volante Marrone foi expulso, as coisas complicaram, mas o zagueiro Alcibiade definiu o placar. Nas goleadas contra Vicenza e Livorno por 4 a 0, destaque para o meia Belcastro, boa revelação da Juventus, que foi autor de três gols. Immobile marcou mais um e, poupado, ainda deu espaço para o reserva Fischnaller marcar três.

Na fase eliminatória, o ataque bianconero continuou funcionando de maneira formidável. Nas oitavas, o Cesena caiu para a Juve sem impor grandes dificuldades. O nome do jogo foi, mais uma vez, Ciro Immobile, autor dos três gols da equipe. Nas quartas, a Juventus marcou com Belcastro no primeiro tempo e segurou o resultado contra um Sassuolo que se dava por satisfeito de chegar até as quartas. A partir da semifinal contra a Atalanta, cresceu a estrela do espanhol Yago, resgatado de empréstimo ao Bari para cobrir lacunas em caso de lesão na equipe principal da Juve e também para jogar a Copa Viareggio. Quando os nerazzurri estavam melhor em campo e Gabbiadini já havia obrigado Pinsoglio a fazer grandes defesas, o meia aproveitou uma falha da defesa para marcar o primeiro. O segundo veio no segundo tempo, quando Immobile marcou seu terceiro gol de pênalti no torneio.

Na final, a Juventus contou novamente com a dupla para aplicar o 4 a 2 no Empoli. A Velha Senhora chegou a estar com uma vantagem de quatro gols no placar, graças a um belíssimo gol de falta de Yago e a uma tripletta de Immobile, que mostrou ter potencial para se tornar um excelente atacante de área: tem bom posicionamento, finaliza bem com os pés e com a cabeça, além de ter sorte. Sem tirar os méritos desta excepcional Juventus, uma parecela de responsabilidade pelo placar elástico se deve às falhas do goleiro Addario, que fez bom torneio, mas prejudicou sua equipe na final, ao falhar em dois dos gols do centroavante juventino. Se, entre os jovens campeões do último Torneio de Viareggio não houve aproveitamento na equipe principal, será que neste momento de crise, a Juventus dará chances a jovens como Immobile, Belcastro, Yago e Marrone?

Texto em parceria com Braitner Moreira

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