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Subestimados do calcio: Cristiano Doni

Num período quinzenal, o Quattro Tratti discorrerá sobre alguns nomes peculiares da Serie A: trata-se de uma lista de grandes jogadores subvalorizados no cenário nacional e internacional. Cristiano Doni dá a largada na seção, chamada de Subestimados do calcio.

Quem acompanha a Serie A sabe faz tempo que Cristiano Doni merece atenção extra. Hoje beirando a aposentadoria – e, mesmo assim, em alto nível – o meio-campista é figura carimbada em qualquer lista de nomes ilustres do futebol italiano. Ídolo da Atalanta, cuja camisa foi comparada por ele ao uniforme do Super-Homem, é difícil entender por que nunca recebeu oportunidade numa grande equipe. Melhor para os nerazzurri, que contam com um atleta qualificado, capitão, bandeira e até cidadão de honra de Bérgamo.

Doni nasceu em Roma, e seu início de carreira não foi nada empolgante. Ao invés da capital, ele cresceu em Verona, e iniciou sua trajetória profissional no Modena, em 1991 – clube no qual não se destacou. Rodou por Rimini e Pistoiese – foi titular em ambos – até chegar no Bologna, em 94, e aí sim ganhar certa projeção. Com os rossoblù, foi titular de um time em ascensão, que foi primeiro colocado na terceira e segunda divisão, alcançando assim a elite do futebol italiano. Cristiano, porém, mantendo uma relação ruim com o então treinador Renzo Ulivieri, preferiu se transferir, assinando com o Brescia.

Novamente na Serie B, ele foi protagonista pela primeira vez. Treinado por Edoardo Reja, consolidou-se como peça chave num time que também subiu. Assim, a temporada 1997-98 seria a primeira de Doni na divisão máxima. A equipe rondinelle, contudo, começou mal, e logo nas primeiras rodadas viu seu técnico pedir demissão, enfrentando um ano conturbado que terminou em rebaixamento. O meia decidiu mudar de ares novamente, vendo na Atalanta a melhor oportunidade para um recomeço. Na segunda divisão, não se sobressaiu sob os comandos de Bortolo Mutti.

As coisas realmente mudaram na temporada 1999-00, com Giovanni Vavassori. Cristiano Doni se tornou referência técnica na Atalanta, comandando quase todas as ações ofensivas do clube, que conseguiu a promoção. Polivalente e técnico, foi o artilheiro nerazzurro, com 14 gols. Outra temporada como protagonista lhe rendeu participação na Nazionale de Giovanni Trapattoni. Foi à Copa do Mundo 2002 e, após esta, só viria a ser lembrado em outras duas ocasiões. A equipe atalantina, depois de ser carregada nas costas por Doni, não resistiu na Serie A e caiu na temporada 2002-03. Com espaço perdido na seleção, era a hora de Maradoni buscar um salto de qualidade.

Seu salto, contudo, não foi tão alto assim. Ele assinou com uma Sampdoria recém-promovida, que acabou tendo um papel positivo ao arrancar boas atuações contra grandes equipes e terminar na oitava colocação. O bom trabalho de Walter Novellino seguiu na temporada seguinte, e a Samp chegou à quinta posição. Nos seus dois anos de blucerchiato, Doni ocupou principalmente a faixa esquerda do meio-campo. Perdeu espaço, porém, graças a problemas no joelho direito, que o acompanharam durante sua passagem por Gênova. Na sua segunda temporada, revezou com Max Tonetto, que vinha de boa passagem pelo Lecce. Cristiano Doni totalizou 48 partidas e 11 gols pela Sampdoria.

Encerrado seu contrato, o meia recebeu propostas de alguns times da Itália, mas preferiu tentar a sorte na Espanha. Ele assinou com o Mallorca de Héctor Cúper por dois anos, e não convenceu. Ao invés de levantar o nível do time, como feito na Atalanta, Doni – que ainda sofria com o joelho – somou pouco ao já fraco Mallorca, um candidato sério ao rebaixamento daquela temporada. Cúper foi demitido; os bermellones se mantiveram na primeira divisão, e o romano não quis cumprir seu contrato até o fim. Pagou sua multa rescisória e voltou ao clube em que cresceu e fez crescer.

Seu retorno dificilmente poderia ter sido melhor. Cristiano Doni se consagrou como um dos maiores atletas da história da Atalanta, permaneceu como titular absoluto e líder do grupo, voltou a ser destaque na Serie A e ganhou o título de cidadão de honra de Bérgamo, pela primeira vez concedido a um jogador de futebol. Hoje, ele é o sétimo atleta que mais vestiu a camisa do clube, e o maior marcador de sua história, com 100 gols em partidas oficiais – número atingido nessa temporada. Se em sua ausência de três anos a equipe oscilou entre divisões, com Maradoni os bergamascos se mantiveram no meio da tabela, sem grandes sustos.

Dono de uma técnica refinada, aliada a uma visão de jogo acima da média, bom porte físico e um passe apurado com as duas pernas, Cristiano Doni teve potencial para chegar muito mais longe em sua carreira. Equipes como Fiorentina, Lazio e Roma poderiam muito bem ter apostado em seu nome, anos atrás, sem quaisquer custos de transferência. Pode-se então, por comodismo, culpar o destino, que quis dar a um clube pequeno uma estrela intocável. Desfrutam os atalantinos, que poderão fazê-lo até o fim desta temporada, quando seu vínculo com o clube termina.

Cristiano Doni
Nascimento: 1º de Abril de 1973, em Roma.
Posição: meio-campo.
Clubes: Modena (1991-92), Rimini (1992-93), Pistoiese (1993-94), Bologna (1994-96), Brescia (1996-98), Atalanta (1998-03 e desde 2006), Sampdoria (2003-05), Mallorca (2005-06).
Seleção italiana: 7 jogos, 1 gol.

Curiosidade: Bepi, tradicional cantor bergamasco, gravou, com seu grupo Il Bepi & The Prismas, uma música em homenagem ao meio-campista. O resultado, que pode ser ouvido aqui, conta com a participação de Doni. Se você não entendeu palavra alguma, não se assuste; a canção é trovada no dialeto bergamasco.

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