Mercado

Invasões “bárbaras”

Contratado pela Juventus, o chileno Vidal é um dos principais extracomunitários a chegarem à Itália, que tem mercado aquecido para a temporada (Juventus.com)

“Estamos todos de acordo”, disse Carlo Tavecchio, vice-presidente da Federcalcio. No dia 6 de julho, a Federação Italiana (FIGC) anunciou que os clubes da primeira divisão podem contratar dois jogadores extra-comunitários a partir desta temporada. Novamente. Porque apenas em 2010-11 que a entidade havia, como forma de tentar valorizar o mercado local, limitado o limite a apenas uma contratação de estrangeiro por clube.

A partir de agora, a cada temporada, um clube pode comprar dois jogadores extracomunitários (ou seja, aqueles de países que não pertencem à União Europeia e que não tenham passaporte de algum dos países membros da comunidade europeia) vindos do exterior, desde que outros dois extracomunitários sejam negociados com clubes também de fora do país na mesma janela. Clubes que não tenham superado o limite de dois extracomunitários podem contratar sem precisar negociar outros atletas.
O motivo alegado pelos cartolas foi que os clubes italianos se tornarão mais competitivos, como alegaram oo presidente da Lazio, Claudio Lotito, e o presidente da Lega Serie A, Maurizio Beretta. A entrada de mais estrangeiros é um fator que também pode contribuir – e muito – para um novo pensamento em competições europeias. O desempenho dos times italianos nas últimas temporadas chegou a ser medíocre, principalmente na Liga Europa.
Para se ter uma noção, o último título da competição de segundo escalão europeia foi do Parma, em 1999. O descaso com o torneio é um dos principais motivos da perda de pontos importantíssimos no coeficiente Uefa. A queda só não foi tão grande devido ao título da Inter em 2009, que adiou a perda da quarta vaga para a Liga dos Campeões na última temporada. A vaga já foi perdida e apenas três italianos se classificarão para a próxima LC.

O fechamento do mercado não ia, milagrosamente, resolver os inúmeros problemas do futebol italiano. A decisão foi uma tentativa de valorizar o mercado interno e fomentar o investimento na formação de novos jogadores, mas também foi de encontro à história do futebol italiano, feito também por estrangeiros (ainda que alguns oriundi) como Omar Sivori, Hidetoshi Nakata, Diego Maradona, John Charles e Zico, e até mesmo ao cenário sociopolítico mundial. Além disso, foi exatamente na “temporada perdida” que se viu o crescimento e valorização de dois excelentes extracomunitários: Alexis Sánchez e Yuto Nagatomo. Como imaginar que o lucro de quase 60 milhões de euros obtido pela Udinese, que contratou Inler, Zapata e Sánchez (os dois últimos são extracomunitários) por menos de 2 milhões pode ser ruim para o futebol italiano?
A reabertura, no entanto, não veio em hora tão oportuna. Se não foi tão às pressas quanto no ano passado, teria sido mais interessante se fosse dado o ok ainda em meados de fevereiro ou março. Os clubes pensariam com antecedência seus movimentos para comprar e vender jogadores. No entanto, o mercado italiano já está aquecido. De acordo com a Gazzetta dello Sport, até o presente momento, foram realizadas 33% mais negociações em relação ao mesmo período da última janela de verão – e o número deve aumentar, graças à liberação ao segundo extracomunitário. Com isso, os grandes clubes – e os menores que tem boa rede de olheiros, como Genoa, Udinese e Palermo, podem avançar sobre o mercado exterior.
A Juventus pensava apenas em Michel Bastos, mas aproveitou a brecha e gastou 10,2 milhões de euros para contratar o chileno Arturo Vidal, podendo ainda partir em busca do brasileiro para dar opções para o flanco esquerdo no 4-4-2 de Conte. O Milan já contratou Taiwo e até pode se mover para contratar Ganso, embora tivesse que negociar um entre Thiago Silva e Alexandre Pato para chegar até o santista, algo impensável. A Inter contratou Álvarez e Jonathan, ambos com passaporte comunitário, e estaria interessada em Casemiro e Guarín. A Roma, por sua vez, fechou com os estrangeiros Bojan, Stekelenburg, José Ángel, Heinze, Négo (comunitários) e a promessa argentina Erik Lamela, este sim extracomunitário.
Até agora foram contratados 46 estrangeiros, dentre os quais, onze extracomunitários. O Genoa foi o clube que mais contratou estrangeiros, sete, seguido pelo Palermo, com seis. São cinco novos brasileiros: Danilo e Neuton (Udinese), Jonathan (Inter), Rômulo (Fiorentina) e Zé Eduardo (Genoa) – todos comunitários. Mais até do que nos tempos do Império Romano, a Península Itálica está sendo invadida por estrangeiros e, como no início da formação do povo italiano, mais do que destruir a cultura nacional (neste caso, a futebolística), os estrangeiros tendem a diversificar práticas e auxiliar na busca pela renovação e renascimento do futebol italiano.

Curiosidade: 221 jogadores brasileiros já disputaram a divisão da elite do futebol italiano. Tudo começou com Arnaldo Porta, oriundo, que foi defender o Verona no longínquo ano de 1914. Outros seguiram o conterrâneo na década de 30 antes mesmo da conquista da Copa do Mundo: Amílcar, Castelli, Del Debbio, Niginho, Ninão e Rizzetti para a Lazio e Fernando Guidicelli para o Torino. Na temporada passada, 42 brasileiros estavam no grupo de atletas que disputaram a primeira divisão.

4 comentários

  • Sempre achei uma baboseira essa de limitar extra-comunitários com desculpa que estará protegendo o mercado interno e o desenvolvimento de novos jogadores.

    A Alemanha passou por esse mesmo problema da Itália e em vez de tomar essa atitude besta que só prejudica a competitividade do campeoanto, optou por obrigar todos os clubes da Bundesliga a construir e manter academias de jovens jogadores, equilibrando as finanças das equipes e desenvolvendo novos talentos.

    O Calcio tem que se espelhar é no exemplo da Bundesliga, que é sim um crescimento gradativo e sustentavel e não da Premier League que vive da bolha economica de milionarios atrás de fama e fugindo da policia.

    Abs

  • Valeu, Rodolfo e Michel. E, ah!, ainda não li o Bola Fora do PVC. hahahaha Ainda.

    Rafael, concordo com você sobre os non-EU. Porém, um passo de cada vez. Creio que não basta apenas abrir o mercado e esquecer das mentalidades que comandam as equipes (seja dirigente ou técnico; extra-comunitários ou europeus). Sobre renovação, vale bastante a leitura deste texto: http://www.quattrotratti.com/2010/03/uma-europa-menos-italiana.html

    Abraços!

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