Técnicos

No auge, Claudio Ranieri se confirma domador do improvável

Se o futebol ensinou uma lição em 2015-16 é a de que o mundo dá voltas. Poucos treinadores iniciaram a temporada tão desacreditados quanto o italiano Claudio Ranieri: ele conseguiu fracassar com a Grécia nas Eliminatórias para a Euro 2016 e foi demitido da seleção após perder para Ilhas Faroe e ficar na lanterna de seu grupo. Desprestigiado, ele assumiu o Leicester, tido como favorito ao rebaixamento na Premier League, e a confirmação de sua chegada não foi nada auspiciosa: reforçou o senso comum de que os Foxes cairiam – o próprio Ranieri admitia que o objetivo era brigar para evitar a queda. O que aconteceu foi exatamente o inverso e o provável lanterna foi campeão inglês, no trabalho que marca o auge da carreira de três décadas do treinador romano.

A confirmação do título do modesto Leicester foi, sem dúvidas, um dos maiores feitos da história do esporte: em tempos de gigantes endinheirados e elencos estelares, o time azul escreveu um roteiro digno de filme e capaz de quebrar casas de apostas da Inglaterra. Ao mesmo tempo, ao guiar Riyad Mahrez, Jamie Vardy, N’Golo Kanté e companhia em uma sensacional campanha cercada de improbabilidade, Ranieri não flertou apenas com o sonho e se redimiu, mas pôs em prova a sua especialidade: tirar o melhor de onde não se espera.

Foi assim que o romano conseguiu deixar de lado a sua reputação de treinador medíocre e fracassado – fama que permeou sua trajetória por times grandes – e passou a ser um queridinho do mundo do futebol. Até mesmo na Itália: Ranieri foi o primeiro técnico de time estrangeiro a ser manchete principal da capa do Corriere dello Sport, um dos maiores diários esportivos italianos. Conhecido por sua educação e simpatia, o treinador será lembrado também por ter promovido uma rodada de pizza para unir o time e por suas prioridades: não viu o jogo entre Chelsea e Tottenham, que poderia definir o título do Leicester, porque foi à Itália visitar a mãe de 96 anos e estava voando de volta para a Inglaterra na hora do clássico.

A carreira de Ranieri no banco de reservas é quase imagem e semelhança dos seus anos como jogador. O ex-zagueiro foi revelado pela Roma, mas não foi aproveitado pelo seu time do coração e desenvolveu sua carreira como destaque do pequeno Catanzaro, à época (anos 1970 e 1980) flutuando entre as séries A e B. Como treinador, o simpático técnico dos Foxes também não se deu bem nas grandes praças do futebol italiano e mundial: obteve seus principais resultados com equipes de menor expressão ou em times médios que buscavam se reerguer.

Primeiro trabalho relevante do romano foi com o Cagliari de Francescoli (Gazzetta dello Sport)

O início empolgante
Ranieri começou sua vida como técnico em times praticamente amadores, como a Vigor Lamezia e a Puteolana, ambos do sul da Itália. Como conseguiu alcançar resultados satisfatórios nos dois clubes, Claudio ganhou uma chance maior: fechou com o tradicional Cagliari, que quase duas décadas após a conquista de seu único scudetto, estava fadado à Serie C1. À época, o treinador tinha apenas 37 anos, mas já chegou causando impacto: na primeira temporada, os rossoblù faturaram os títulos da Serie C1 e da Coppa Italia da Serie C. Na segunda, o romano foi responsável por comandar o time ao segundo acesso consecutivo, desta vez para a elite do futebol italiano.

Para a primeira experiência na Serie A, Ranieri ganhou os reforços dos uruguaios José Herrera, Daniel Fonseca e Enzo Francescoli, além do volante italiano Gianfranco Matteoli. Apesar dos bons reforços, o elenco era um dos mais frágeis do campeonato e chegou a ocupar a lanterna, na 22ª rodada. Em incrível arrancada – o time perdeu só uma vez nas 12 rodadas seguintes – os casteddu conseguiram se safar do rebaixamento e Ranieri foi contratado para substituir Alberto Bigon no Napoli, campeão italiano um ano antes, em 1990.

Em Nápoles, Ranieri tinha a grande tarefa de lidar com a saída de Diego Maradona, suspenso por doping e escolheu Gianfranco Zola para isso. No primeiro ano pelo time de Fuorigrotta, o romano de Testaccio levou a equipe a um quarto lugar e à Copa Uefa; no seguinte foi demitido na 9ª rodada do campeonato, depois de uma surra do Milan em pleno San Paolo. Apesar de o trabalho não ter sido exatamente ruim, as expectativas sobre Ranieri, um dos técnicos emergentes do início da década de 1990, eram maiores, e ele fracassou. Foi a partir de então que a carreira do romano se dividiu entre passagens opacas em equipes grandes e bons períodos em times desacreditados.

O treinador se tornou amado em Florença nos quatro anos de trabalho (Gazzetta dello Sport)

Entre altos e baixos
Assim que saiu do Napoli, Ranieri passou alguns meses parado e recebeu uma proposta da Fiorentina, que acabara de ser rebaixada para a Serie B. O romano aceitou o desafio de trabalhar novamente nas divisões inferiores e se tornou um ídolo em Florença, cidade em que morou entre 1993 e 1997. Logo em seu primeiro ano, levou uma Viola guiada por Gabriel Batistuta, Francesco Baiano, Francesco Toldo e Stefan Effenberg ao título da segundona. Nos três anos seguintes, continuou fazendo excelente trabalho na elite.

Na volta à elite, a Fiorentina se desfez de Effenberg, mas ganhou o reforço do português Rui Costa. Em um campeonato de transição, no qual o objetivo era continuar na Serie A, Batistuta fez 26 gols, já preparando os florentinos para o ano seguinte: com outro show do argentino, que anotou 19 tentos no Italiano e oito na Coppa Italia, a Viola foi campeã na copa local e terceira colocada no torneio nacional. Em 1996-97, a Fiorentina de Ranieri também conquistou a Supercopa Italiana e chegou às semifinais da Recopa Uefa. Foi temporada de despedida do romano.

O fim do período na Toscana coincidiu com o início de um longo “exílio”: até 2005, Ranieri só trabalhou em clubes de fora da Itália. Foram tempos de muitos altos e baixos para o técnico, que alternou títulos de segundo escalão com momentos de pressão e demissões. Foi assim em duas passagens pelo Valencia, clube em que brigou com Romário, ganhou uma Copa do Rei e conseguiu uma vaga na Liga dos Campeões (na primeira delas, entre 1997 e 1999), mas pelo qual foi demitido, em 2005. No Atlético de Madrid, ele não se acertou de jeito algum, mas ainda assim recebeu oportunidade no Chelsea, clube em que teve o compatriota Gianluca Vialli como antecessor e que ainda não era comandado pelo bilionário Roman Abramovich.

No Chelsea, o técnico romano teve percurso similar ao que teve no Valencia. Se, pelo clube do Mestalla, ele iniciou o projeto que Héctor Cúper e Rafa Benítez concluíram, com final da Liga dos Campeões e título espanhol, respectivamente, Ranieri preparou o terreno para que José Mourinho virasse um deus vivo em Londres.

Antes da chegada do dinheiro russo, o treinador – que ganhou o apelido de Tinkerman por mudar demais as escalações e nunca informá-las aos jornalistas – fez um trabalho bem avaliado pelos torcedores, mas depois, não suportou a pressão. Os Blues foram vice-campeões ingleses e alcançaram as semifinais da Liga dos Campeões, mas os resultados foram considerados inferiores ao ideal, já que Abramovich investira mais de 100 milhões de libras, com a contratação de jogadores como Juan Sebastián Verón, Hernán Crespo, Adrian Mutu, Joe Cole, Damien Duff e Claude Makélélé. Com isso, Ranieri acabou deixando Stamford Bridge.

Em 2005, o Tinkerman encerrou sua primeira passagem pelo exterior e ficou sem clube por quase dois anos, muito por causa da pecha de “perdedor” que acabou ficando por causa do trabalho no Chelsea. O período de inatividade foi interrompido quando Ranieri aceitou pegar uma batata quente, em fevereiro de 2007: foi convidado para treinar o Parma, que era o penúltimo colocado da Serie A. A partir da chegada do romano, os crociati começaram a jogar melhor e fizeram 24 pontos em 15 jogos, embalados por Igor Budan e Giuseppe Rossi, escapando do rebaixamento e ficando com a 12ª posição no campeonato.

À frente do Parma, Ranieri conseguiu uma improvável salvezza (Sky Italia)

O fracasso onde houver expectativa
A arrancada do Parma fez com que Ranieri voltasse a ser apreciado pelos diretores esportivos italianos. Assim, ele ganhou a chance de comandar a Juventus em sua tentativa de reconstrução: a Velha Senhora precisou disputar a Serie B em 2006-07, punida por envolvimento no Calciopoli, e Didier Deschamps não prosseguiu no cargo. O romano assinou contrato de três anos, mas não ficou nem dois. Apesar de ter classificado a Juve para a Liga dos Campeões duas vezes – algo que Ciro Ferrara e Luigi Delneri, seus sucessores, não conseguiram –, ele deixou Turim antes do fim da temporada 2007-08, por uma crise de resultados ruins que ameaçavam o vice. Pesaram uma série de resultados negativos e o futebol pouco atrativo e sem confiança da equipe.

Ainda assim, Ranieri conseguiu um outro trabalho em equipe de ponta na Itália. Desta vez, foi escolhido não para iniciar a temporada, mas quase isso: a Roma, seu time do coração, decidiu reabrir as portas para ele. Luciano Spalletti foi demitido na 2ª rodada da Serie A e o romano voltou a Trigoria.

O trabalho do Tinkerman na Cidade Eterna durou pouco mais de um ano e meio e ficou marcado pelos atritos com Francesco Totti e Daniele De Rossi – a dupla chegou a ser barrada de um clássico contra a Lazio, que terminou com vitória giallorossa – e pela incrível romada da equipe. Em 2009-10, a Loba ultrapassou a Inter de Mourinho na reta final da Serie A, venceu o dérbi, mas perdeu para Sampdoria, de virada, e deixou o título escapar. No campeonato seguinte, a Roma praticou um futebol pragmático e sem resultados, o que fez com que Ranieri optasse por se demitir.

Parecia que o treinador, então com quase 60 anos, entraria na fase descendente da carreira. Foi aí a Inter surgiu no horizonte: em 2011, a Beneamata escolheu Gian Piero Gasperini como técnico, mas ele foi demitido logo no início da Serie A. Ranieri surgiu para tapar buraco, mas não conseguiu nem concluir a temporada. Organizou o time defensivamente, mas o futebol opaco e a falta de resultados, além da eliminação na Liga dos Campeões, fizeram com que sua rescisão de contrato acontecesse.

Em “casa”, Ranieri viveu às turras com Totti e fez parte de romada histórica (The World Game)

A reviravolta do “senhor gentileza”
Em todos os clubes pelos quais passou, o Tinkerman ficou conhecido pela simpatia e gentileza com a torcida e com os jornalistas. Apesar de tudo, a ternura de Ranieri não importava muito: torcedor gosta mesmo é de bons resultados e de bom futebol. Isso o romano não conseguiu entregar com regularidade em nenhum dos grandes clubes pelos quais passou.

O (relativo) fracasso por Juve, Roma e Inter fechava as portas para Ranieri no futebol italiano – a não ser que ele topasse abaixar suas pretensões novamente e treinar uma equipe menor. Uma vez que Napoli e Fiorentina – clubes em que ainda dispunha de prestígio – já tinham técnicos estabelecidos, ou o romano tentava novas experiências no exterior ou ficaria parado. A primeira opção foi a escolhida.

O magnata russo Dmitrij Rybolovlev acabara de adquirir o Monaco, então na segunda divisão francesa, e deu o comando do time a Claudio Ranieri. O italiano levou o time para a Ligue 1 e, na elite, duelou com o Paris Saint-Germain pelo título – ficou com o vice e acabou licenciado do cargo. Dois meses depois, assinou com a Grécia e deu vexame. Em 2015, o Leicester cruzou o caminho de Ranieri e o resto é história.

Depois do título e a classificação dos Foxes para a Liga dos Campeões, a expectativa se torna maior. Claro, repetir a dose é algo muito complicado, mas se imagina que o Leicester volte a fazer uma boa Premier League. Por outro lado, sempre é possível ficar com uma pulga atrás da orelha com Ranieri, ao menos quando se espera muito do time dele. Um dos grandes duelos de 2016-17 já está estabelecido: vencerá o histórico negativo do Tinkerman e o Leicester terá um ano difícil ou o homem e o time que quebraram tantos paradigmas derrubarão outros?

Claudio Ranieri
Nascimento: 20 de outubro de 1951, em Roma, Itália
Posição: zagueiro
Clubes em que atuou: Roma (1972-74), Catanzaro (1974-82), Catania (1982-84) e Palermo (1984-86)
Carreira como treinador: Vigor Lamezia (1986-87), Puteolana (1987-88), Cagliari (1988-91), Napoli (1991-93), Fiorentina (1993-97), Valencia (1997-99 e 2004-05), Atlético de Madrid (1999-2000), Chelsea (2000-04), Parma (2007), Juventus (2007-09), Roma (2009-11), Inter (2011-12), Monaco (2012-14), Grécia (2014) e Leicester (2015-hoje)
Títulos como treinador: Premier League (2016), Supercopa Uefa (2004), Supercopa Italiana (1996), Coppa Italia (1996), Copa do Rei (1999), Copa Intertoto (1998), Serie B (1994), Ligue 2 (2013), Serie C1 (1989) e Coppa Italia da Serie C (1989)

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