Serie A

A falta de excelência

Manfredonia e Matina entram em campo pelo campeonato Eccellenza da Apúlia:
improviso vem de baixo e enfraquece estrutura do futebol italiano (Lucia Melcarne)

Em julho, quando falávamos sobre a situação de penúria em que se encontra a Lega Pro – e que acabou por alijar 20 clubes das disputas regulares, entre a Prima e Seconda Divisione – dissemos que a categoria era a síntese de um sistema que não consegue separar clubes profissionais e amadores com base em critérios estruturais, limitando-se somente aos resultados esportivos. A falta de normas para determinar as condições estruturais necessárias à profissionalização das equipes levou ao inevitável enfraquecimento da categoria, que se viu obrigada a trocar qualidade por quantidade e abrigar clubes com pouco ou nenhum apoio das instituições de suas cidades, nem apelo suficiente junto àquele que deveria ser seu público torcedor exclusivo.

No total, 20 clubes alçaram a bandeira branca às portas da temporada 2010-11. Aos trancos e barrancos, como sempre, a Lega Pro deu remédio à situação, promovendo o maior número de repescagens já registrado no futebol europeu. Seriam necessárias 29 promoções, mas apenas 24 clubes tinham condições mínimas de sobrevivência em seus novos campeonatos. O anzol foi lançado mais vezes da Seconda Divisione para a Serie D (a elite nacional de amadores, relativa à quinta divisão), de onde foram puxadas 16 equipes. À parte as boas performances momentâneas de alguns clubes, como Vigor Lamezia, Latina, Matera e Pro Vercelli, a ausência de nível nos grupos da quarta divisão nacional é notável: times como Entella, Sanremese, Campobasso e Renate estão claramente despreparados para um campeonato profissional.

Não há dúvidas de que medidas como estas desacreditam ainda mais a Lega Pro e, consequentemente, enfraquecem os torneios amadores, que também são obrigados a realizar um festival de repescagens entre si. Mas, no futebol italiano de hoje, ainda é melhor ostentar um título profissional do que assumir o amadorismo. No último dia 7, o blog Eccellenza Puglia, totalmente dedicado à cobertura da primeira divisão regional da Apúlia, publicou uma carta aberta, escrita por alguém próximo ao torneio – especula-se que um jogador. A seguir, o documento:

Caríssimo Senhor Presidente da FIGC Puglia,

Gostaria de destacar as particularidades de um campeonato de futebol, aquele de Eccellenza da Apúlia, o qual melhor definiria como um torneio de trabalhos forçados. Entre campeonato e copa, de 29 de agosto a 19 de dezembro (mais precisamente: em menos de quatro meses) as equipes que avançarem na copa vão disputar cerca de 27 jogos. Este número […] de compromissos seguidos é mais adequado a equipes profissionais, nas quais os jogadores contam com o apoio de um staff de especialistas em medicina, nutrição e psicologia. […] Daqui a não muito tempo, os campos estarão extremamente pesados por causa das chuvas.

Jogar a cada três dias não é fácil. […] Em muitas partidas se veem situações de pouco brilhantismo, imprecisão e um lógico desgaste atlético. Ainda que nossas equipes não disputem a Liga dos Campeões, sempre se vai a campo para vencer. E os eventuais vacilos da equipe são sempre reportados à diretoria e à cidade.

Não nos esqueçamos que, além do cansaço físico, existe também o psicológico. Os atletas que vão a campo são garotos de 18 a 20 anos, […] Outro aspecto não menos importante é que, no momento em que são feitos os calendários do campeonato de Eccellenza da Apúlia, esquece-se que os dirigentes, massageadores, jogadores e técnicos pertencem ao mundo dos amadores.

Ou seja: disputar uma partida no meio da semana traz alguns problemas com o trabalho (é preciso pedir alguns dias de férias, alternar o turno, pedir um favor a algum colega etc). Além disso, alguns atletas frequentam a escola, muitos deles em fase de exames vestibulares. Para que se chegue a uma partida em condições decentes, muitas vezes são realizados treinos matutinos; isso significa que, não raro, esses meninos são obrigados a renunciar à escola de duas até três vezes por semana.

Certo de que, nos próximos anos, ter-se-á mais atenção no momento em que forem formatados os calendários do campeonato de Eccellenza, deixo as minhas mais cordiais saudações e o desejo de sorte para a sequência de sua difícil tarefa de dirigente.

Um profissional da área.

O escrito chega a ser chocante para um torneio que se intitula como “o melhor campeonato regional da Itália” e que, neste ano, abriga sociedades importantes do local, como Monopoli, Atletico Tricase, Lucera e Manfredonia. É impossível falar sobre estrutura quando o melhor campeonato amador de uma região que conta com clubes em todas as séries profissionais da Itália vive do mais puro assistencialismo e não prepara seus participantes para o salto de qualidade que vem com as promoções. Em pouco tempo, pelo menos um destes clubes terá a chance de real de vencer um dos grupos regionalizados da Serie D e festejar a promoção ao futebol profissional, enfraquecendo, provavelmente, uma construção convictamente débil.

Se o Eccellenza da Apúlia é, de fato, o melhor entre todos os torneios regionais italianos, a situação tende a se agravar ainda mais em outras regiões, como provam as 20 repescagens efetuadas dos torneios de Eccellenza para a Serie D, em 2010-11. Passadas seis rodadas, apenas Santhià, Castelnuovo Sandrà (de propriedade do presidente do Hellas Verona, Giovanni Martinelli), Treviso, Spoleto, Jesina, Bacoli e Arzanese ocupam posições destacadas em seus grupos.

Como fortalecer o futebol profissional se a LND recebe um número cada vez maior de equipes com mais condições de serem rebaixadas que promovidas? Urge uma reforma profunda, que qualifique, desde os mais baixos torneios de Seconda ou Terza Categoria, quais cidades estão em condições de sustentar em médio e longo prazo, a prática federada do futebol, fazendo com que, ao longo dos anos, o sistema divisional seja saneado. Até lá, constataremos, temporara a temporada, a falta de eccellenza da Itália com seu futebol.

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