Brasileiros no calcio

Müller: em Turim, a vida entre gols e problemas extracampo

Com passagem de destaque pelos quatro grandes paulistas e ainda em atividade, aos 49 anos (jogando a quarta divisão paulista pelo Fernandópolis), Müller tem história de sobra para contar, seja como jogador, treinador, pastor ou mesmo como comentarista. Porém, sua história de sucesso não se resume apenas ao futebol brasileiro. O atacante bicampeão do mundo com o São Paulo e integrante da seleção tetracampeã mundial em 1994 teve duas passagens pelo futebol italiano.

O início da carreira do atacante foi no São Paulo, em 1984, quando ganhou espaço no time conhecido como Menudos do Morumbi, ao lado de dois outros jogadores que também atuariam na Itália: Careca e Silas. Rapidamente assumiu a titularidade com a camisa 7, e se destacou como um atacante que jogava pelo direito, mas também com grande presença na área. Foi nos primeiros anos da carreira que Müller começou a ser utilizado mais vezes como atacante de área, função que exerceu na maior parte do tempo.

Nos primeiros anos de São Paulo, Müller logo alcançou a glória. Foi campeão paulista em 1985, e não demorou de chegar à Seleção. Aos 20 anos, o atacante teve uma grande honra: foi chamado por Telê Santana, juntamente a Careca e Silas, por Telê Santana para integrar o elenco que disputaria a Copa de 1986, no México. Passou em branco no Mundial, mas atuou nas cinco partidas do Brasil na competição, em três delas como titular, e foi um bom parceiro de ataque de Careca, que anotou cinco gols.

Após a Copa, Müller voltou a se destacar no São Paulo, e continuou a ótima parceria com Careca na conquista do Brasileirão de 1986. Careca foi o artilheiro, com 25 gols, e Müller, com 11 gols, teve um bom número de gols para um segundo atacante. As ótimas atuações e o título do Paulista de 1987 fizeram despertar o interesse de equipes italianas. A Roma tentou acertar com o jogador, mas acabou fechando com Renato Gaúcho – uma decisão da qual o presidente Dino Viola se arrependeu publicamente. Müller acabou fechando, então, com o Torino, que havia sido vice-campeão da Coppa Italia e tinha feito boa campanha na Serie A. À época, o Toro tinha jogadores como Luca Marchegiani, Haris Skoro, os ainda jovens Dino Baggio e Diego Fuser, e o também brasileiro Edu Marangon.

Buscando repetir os passos de Júnior, Müller também chegou para ser uma referência. E foi: na primeira temporada, marcou 11 gols na Serie A, foi o artilheiro do time na competição e um dos principais marcadores no campeonato, apesar da queda do Torino para a segunda divisão. Müller começou a temporada no banco, por escolha do técnico Luidi Radice, mas ganhou a titularidade após marcar um gol contra a Fiorentina, na 4ª rodada.

Hábil, veloz, talentoso e bom finalizador, de direita, esquerda ou de cabeça, o brasileiro se destacou, marcando gols contra algumas das camisas mais pesadas da Itália. Ele gostava de jogos grandes, e foi o grande destaque do time em vitórias contra Roma (dois golaços), Lazio (um gol e duas assistências) e, na penúltima rodada, sobre a Inter – marcou um gol no time que era campeão da Itália, com direito a recorde, e que perdeu apenas duas vezes na temporada, uma delas para o Toro. O gol sobre a equipe nerazzurra, aliás, manteve vivo o sonho de o Torino permanecer na elite, mas a derrota para o Lecce na rodada final acabou com o sonho. Naquele ano, Müller ainda faria dois gols no empate por 2 a 2 com o histórico Milan de Arrigo Sacchi, e se destacaria por ter vencido o duelo contra um duro marcador como Frank Rijkaard.

Apesar do destaque individual, a sensação era a de que Müller poderia ter feito muito mais, não fossem os problemas do Torino – a equipe teve três técnicos durante a temporada – e questões pessoais. O brasileiro teve sua primeira temporada marcada também pelos problemas extracampo. Brigas com a esposa, a ex-chacrete Jussara Mendes, presenças em boates, atrasos nos treinos e um suposto pedido de 2,5 milhões de cruzados novos para “evitar” o rebaixamento.

Müller entre os companheiros Lorieri e Comi (La Stampa)

A queda atraiu olhares do Flamengo, que queria repatriar o jogador, e também da Juventus, disposta a pagar qualquer valor para ter o talento brasileiro. Irredutível, o presidente Gian Mauro Borsano, recém-empossado no lugar de Mario Gerbi, não queria abrir mão de Müller para voltar o quanto antes à Serie A. Então, investiu em nomes como Roberto Mussi, Roberto Policano e na volta do talentoso Gianluigi Lentini para facilmente retornar à primeira divisão. O início de temporada do Torino na Serie B foi arrasador, com algumas goleadas, nas quais Müller brilhou. No final da temporada, o brasileiro novamente foi artilheiro da equipe, com 11 gols.

De volta à Serie A e reforçado, o Torino se reergueu do vexame de duas temporadas, mas tinha em seu grande jogador um astro desgastado. Depois da patética campanha brasileira no Mundial de 1990, justamente na Itália, e do desejo de voltar ao Brasil, Müller teve participação discreta na temporada. O jogador deixou o time com a temporada ainda em andamento, com sete jogos realizados e apenas dois gols marcados. No final das contas, contribuiu um pouco para a campanha do time treinado por Emiliano Mondonico, que levou o Torino à quinta colocação, garantindo presença na Copa Uefa da temporada seguinte.

Müller preferiu voltar ao São Paulo. Do Brasil, viu Walter Casagrande chegar no ano seguinte para ocupar seu lugar e ser destaque, chegando à final da competição europeia e ao terceiro posto na Serie A.

A volta de Müller ao São Paulo também não foi um tiro n’água, já que rendeu-lhe diversos títulos, sempre como protagonista. Os mais importantes deles, sem dúvidas, as duas Libertadores e os dois Mundiais Interclubes conquistados pelo tricolor paulista treinado por Telê Santana, em 1992 e 1993. Na final da edição 1993 do mundial, jogou ao lado de outros jogadores que também atuaram ou atuariam na Itália, como Cafu, Toninho Cerezo, Leonardo e Doriva. Na ocasião, voltou a enfrentar o Milan, desta vez treinado por Fabio Capello, e novamente voltou a aterrorizar a equipe rossonera. Ele fez, sem querer, o gol que deu o título ao São Paulo, após uma saída errada do goleiro Sebastiano Rossi. Aos 41 minutos do segundo tempo fez o gol do 3 a 2, placar final.

O atacante ainda atuou pelo São Paulo até 1994, e acabou fazendo parte da seleção brasileira tetracampeã do mundo em 1994 – jogou apenas 10 minutos na campanha, na partida ante Camarões. Müller ainda teve destaque no Palmeiras, pelo qual conquistou o Campeonato Paulista de 1996 e formou o badalado ataque dos 100 gols com Rivaldo, Djalminha e Luizão.

Müller marca contra o Milan: futebol italiano voltou a cruzar caminho do atacante em 1993, com a camisa do São Paulo, e em 1997, quando jogou pelo Perugia (Yahoo)

Mais experiente e com rodagem, o atacante teve uma nova oportunidade de disputar a Serie A pelo Perugia, recém-promovido à elite. Müller chegou na metade da temporada, num contrato de três anos, em uma transferência polêmica: uma brecha na Lei Pelé fazia com que jogadores com mais de 30 anos pudessem se transferir sem que o clube que detivesse seus direitos recebesse uma indenização, em casos especiais; o jogador afirmava que o São Paulo, não lhe pagava salários, e por isso trocou de clube. Na iminência de um novo rebaixamento pelo clube da Umbria, fez apenas seis jogos e logo cavou sua volta ao futebol brasileiro, num acordo que acusou o Santos (seu futuro clube), de não pagamento ao clube italiano.

Com tantas confusões, as portas do futebol italiano se fecharam de vez para Müller, que ainda teve certo destaque no futebol brasileiro, sobretudo por Cruzeiro, Santos e São Caetano. O jogador, no entanto, jamais apresentou o futebol dos tempos de São Paulo. Até hoje, o atacante é o sétimo maior artilheiro da história tricolor, com 160 gols em 387 jogos, segundo dados do próprio clube. Müller ainda tem uma peculiaridade em sua biografia: é um dos poucos jogadores que atuaram pelos quatro times grandes de São Paulo, em um seleto clube, que também tem Neto, Luizão e Antônio Carlos Zago.

Depois de se aposentar, a vida de Müller continuou atribulada: se dedicou à religião e virou pastor; praticamente faliu após intermináveis imbróglios familiares e teve de viver um tempo de favor na casa de Pavão, ex-companheiro de São Paulo; e também se arriscou como treinador e comentarista, sem sucesso. Hoje, Müller vive nova aventura: despendurou as chuteiras para atuar na quarta divisão paulista, assim como Viola.

Luís Antônio Corrêa da Costa, o Müller
Nascimento: 31 de janeiro de 1966, em Campo Grande (MS)
Clubes em que atuou: São Paulo (1984-87, 1991-94 e 1996), Torino (1988-1991), Kashiwa Reysol (1995), Palmeiras (1995-96), Perugia (1997), Santos (1997-98), Cruzeiro (1998-2001), Corinthians (2001), São Caetano (2001), Tupi (2003), Portuguesa (2003), Ipatinga (2004) e Fernandópolis (2015)
Títulos conquistados: Campeonato Paulista (1985, 1987, 1991, 1992, 1996), Campeonato Mineiro (1998), Campeonato Brasileiro (1986 e 1991), Copa do Brasil (2000), Copa Sul-Minas (2001), Taça Libertadores da América (1992 e 1993), Mundial Interclubes (1992 e 1993), Supercopa Libertadores (1993), Recopa Sulamericana (1993), Copa dos Campeões Mundiais (1996) e Copa do Mundo (1994)
Clubes como treinador: Grêmio Maringá (2009 e 2014), Sinop (2010) e Imbituba (2011)
Seleção brasileira: 59 jogos e 12 gols

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