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Fausto Salsano, um ídolo ‘lado b’ da Sampdoria

Fausto Salsano poderia até se considerar um azarado. O meia-atacante teve os seus grandes momentos na Sampdoria, mas foi despachado para a Roma, onde jogou por três temporadas, pouco antes de os blucerchiati ganharem o scudetto e chegarem à final da Copa dos Campeões. O jogador campano não compunha o elenco genovês durante estes feitos, mas foi graças ao seu esforço de anos anteriores que o time pode ter esses deleites. Afinal, Fausto foi um dos maiores vencedores da história da agremiação.

Nascido no município litorâneo de Cava de’ Tirreni, na província de Salerno, Salsano deixou a Campânia muito cedo. Na adolescência, iniciou sua trajetória futebolística nos juvenis da Pistoiese, equipe toscana em que permaneceu até 1979, quando, aos 16 anos, passou ao time Primavera da Sampdoria. O pequenino meio-campista, de 1,67m, foi um dos reforços adquiridos pelo presidente Paolo Mantovani, que buscava construir uma base com jovens talentosos.

Salsano concluiu a sua formação na Samp e foi agregado ao plantel profissional em 1980-81. Após frequentar o banco de reservas em algumas partidas, sem de fato ser utilizado, Fausto foi emprestado para maturar. Na Serie C1, defendeu Empoli e Parma: primeiro, não conseguiu impedir a campanha pífia dos toscanos, quase rebaixados, mas passou ao time da Emília-Romanha por conta do bom desempenho. Em duas temporadas com a camisa gialloblù, se tornou um dos grandes protagonistas da conquista da terceirona, em 1984, mostrando apurado senso tático e consistência – característica que o acompanharia durante a carreira.

Fausto foi um dos primeiros jogadores adquiridos por Mantovani durante a construção das bases de uma Samp vencedora (Arquivo/UC Sampdoria)

Em sua volta à Sampdoria, logo após o fim do alegre período com o Parma, o meio-campista era visto com bons olhos pela comissão técnica, liderada por Eugenio Bersellini. Salsano atendia a todos os requisitos desejados pelo treinador para se juntar a formação titular: assim, cinco temporada após ser adquirido por Mantovani, Fausto, de 21 anos, estreava com a camisa blucerchiata na Serie A.

A temporada de estreia foi um sucesso. Salsano ganhou a posição do experiente Evaristo Beccalossi e costumou fazer ao lado de Roberto Mancini o papel de auxiliar do centroavante – Gianluca Vialli ou Trevor Francis. Fausto marcou seis gols na Serie A, dividindo a artilharia da equipe com Francis, e participou dos jogos mais importantes do time, como os confrontos das fases finais da Coppa Italia de 1984-85, vencida heroicamente pela Samp. Num dos duelos da decisão, contra o Milan, o meia contribuiu com uma assistência.

Em 1985-86, Fausto perdeu algum espaço para Gianfranco Matteoli no time de Bersellini, mas seguiu importante na rotação do elenco. Na temporada seguinte, com a contratação do técnico Vujadin Boskov e a saída do colega de posição, foi titular por um ano, antes de voltar ao rodízio promovido pelo iugoslavo. Salsano, então, acabou se tornando uma espécie de 12º jogador doriano, com participação em mais de 90% dos compromissos em cada uma das campanhas que a equipe fez até 1990.

Apesar das consistentes atuações ao longo de vários anos com a Samp, o meia jamais foi convocado para representar a Squadra Azzurra no mais alto nível. Salsano foi “vítima” de alguns fatores: em primeiro lugar, da grande concorrência no seu setor; depois, da dificuldade de conseguir se impor como titular em seu clube; e, por fim, do fato de atuar em todas as posições do meio-campo e nas pontas do ataque sem, de fato, ser excepcional em alguma delas. Útil e regular, mas não brilhante, Fausto disputou apenas alguns amistosos pela seleção olímpica da Itália entre 1987 e 1988, mas não foi chamado para os Jogos de Seul.

Versátil, Salsano desempenhava diversas funções no meio-campo (imago/Buzzi)

No mesmo ano da Olimpíada, Salsano teve papel de destaque na decisão da Coppa Italia, contra o Torino. A Sampdoria havia ganhado o primeiro jogo por 2 a 0 e, na volta, gols contra de Pietro Vierchowod e Antonio Paganin levaram a final para o tempo extra. Fausto, que começara na reserva, aliviou a tensão genovesa com um tento antológico aos 112 minutos: o potente e calibrado chute de canhota não deu chances para o goleiro Fabrizio Lorieri. Os blucerchiati também faturaram a edição seguinte, com uma vitória sobre o Napoli, mas dessa vez o meia não teve uma participação influente na campanha.

Salsano também teve importância nas expedições europeias da Samp. Em 1989, contribuiu com uma assistência na vitória sobre o Mechelen, nas semifinais da Recopa Uefa, e foi titular na decisão perdida para o Barcelona. Em 1990, na edição seguinte do torneio, os italianos disputaram a final contra o Anderlecht e Fausto ofereceu a sua contribuição. O meia entrou durante o jogo e foi quem deu o chute, rebatido por Michel Preud’homme, que originou o primeiro dos dois gols de Vialli. A glória europeia foi a última conquista do campano naquele seu período no Marassi.

Naquele mesmo ano, o bom relacionamento de Dino Viola, histórico dirigente da Roma, com o presidente Mantovani resultou na transferência de Salsano para o time da capital – o que, inicialmente, causou um descontentamento do meia com a diretoria blucerchiata. Fausto até telefonou para o amigo Mancini para contar que, a contragosto, havia aceito a proposta da Loba, mas o atacante não estava em casa. Depois, Mancio afirmou que teria tentado convencê-lo a permanecer em Gênova, se tivesse atendido a chamada.

Em Roma, Salsano ganhou mais minutos em campo. Foi titular dos giallorossi durante a temporada 1990-91 e ainda se encontrou com o seu antigo time na final da Coppa Italia, vencida pela Roma por 4 a 2. Porém, ao mesmo tempo em que celebrava a vitória com os romanos no Marassi, o meia sentia a frustração de não ter participado da conquista do scudetto pela Sampdoria – e, um ano mais tarde, da final da Copa dos Campeões, perdida para o Barcelona. Fausto, inclusive, foi homenageado por Mancini com uma carta aberta: o ícone doriano atribuiu a conquista do primeiro título italiano da Samp aos esforços de atletas que já haviam deixado o clube, como o polivalente meio-campista.

Em 1990, Salsano ajudou a Samp a conquistar o título da Recopa Uefa, sobre o Anderlecht (Allsport)

Os três anos de Fausto na Cidade Eterna foram positivos, ainda que no biênio final ele tenha perdido um espaço considerável devido à contratação de Thomas Hässler. Em 1992-93, a sua última temporada na capital, Salsano foi treinado por Boskov, seu velho conhecido, mas a superioridade do meia alemão impediu que a sua minutagem crescesse de forma significativa. Mesmo assim, totalizou 110 partidas pela Roma.

De volta a Gênova em 1993, Salsano foi recebido de braços abertos por Mancini. O meia caminhava para a parte final da carreira e estava ciente de que teria uma nova função na Sampdoria: em suma, atuar onde e quando fosse necessário, mas oferecendo suporte aos mais jovens. Consolidado como alternativa de segundo tempo, Fausto participou de mais uma conquista da Coppa Italia, em 1994, tornando-se um dos jogadores com mais títulos da competição: cinco no total.

Numa equipe sem o brilho de épocas anteriores, Salsano, sem a mesma agilidade e a potência físico de outrora, teve um decente fim de trajetória pela Samp. A sua última partida num grande palco do futebol aconteceu justamente contra a Roma, em 1998, quando o meio-campista já passava dos 35 anos de idade. Com 377 aparições, Fausto está na lista dos 10 jogadores que mais vezes vestiram a camisa blucerchiata. Ainda que não seja tão incensado fora de Gênova, é um ídolo doriano.

Salsano se manteve na região da Ligúria até sua aposentadoria, que aconteceu em 2000. No seu último biênio como atleta, atuou nas divisões inferiores por Spezia, Sestrese e Imperia, conquistando o título da Serie C1 pelos spezzini. Na sua derradeira experiência como profissional, Fausto foi jogador e técnico do pequeno Imperia.

Na passagem pela capital, Salsano teve um primeiro ano mais positivo do que os demais (La Roma)

O baixinho campano nunca mais teve uma experiência como treinador, mas sentou muitas vezes em bancos de reservas. Salsano foi auxiliar de Vierchowod, seu ex-companheiro de Sampdoria, em Catania e Fiorentina. No entanto, a partir de 2004, estabeleceria uma longa parceria de sucesso com outro amigo dos tempos de Samp: Mancini.

Naquele ano, Fausto se juntou ao estafe de Mancio, que havia acabado de assumir a Inter. Ali, ganhou corpo uma união que existe, com pequenas interrupções, desde o início da década de 1980. Salsano foi auxiliar de Roby em todos os seus trabalhos: Manchester City, Galatarasay, Inter (duas vezes), Zenit e, enfim, na seleção italiana.

Entre os vários títulos conquistados por Salsano na simbiose com Mancini, nenhum foi mais saboroso que o da Euro 2020, já que o núcleo da comissão técnica da Nazionale foi quase inteiramente formado por amigos de seus tempos de Sampdoria. Além de estar ao lado do treinador, o campano trabalhou juntamente a Vialli, Attilio Lombardo, Alberico Evani e Giulio Nuciari.

Fausto Salsano
Nascimento: 19 de dezembro de 1962, em Cava de’ Tirreni, Itália
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Sampdoria (1980-81, 1984-90 e 1993-98), Empoli (1981-82), Parma (1982-84), Roma (1990-93), Spezia (1998-2000), Sestrese (2000) e Imperia (2000)
Títulos como jogador: Serie C1 (1984), Coppa Italia (1985, 1988, 1989, 1991 e 1994), Recopa Uefa (1990) e Serie C2 (2000)
Clubes como treinador: Imperia (2000)

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