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Pequenos milagres: a ‘incaível’ Reggina

Do inferno ao céu e do céu ao inferno. Esta é a saga da Reggina, equipe que alcançou a Serie A pela primeira vez no final dos anos 1990, superou obstáculos quase intransponíveis, mas hoje passa por maus bocados. Depois de falir, a equipe do sul da Itália caiu para a Serie D e, atualmente, tenta voltar para a terceira divisão. Iremos relembrar, no entanto, momentos mais gloriosos da história amaranta, como os sete anos consecutivos na elite do futebol da Bota.

Muito antes de chegar à Serie A, a Reggina penou. O clube foi fundado em 1914, mas demorou bastante para ser notado em nível nacional: não havia passado da terceira divisão até a década de 1960, e só em 1965 a equipe da Calábria alcançou a Serie B, na gestão do presidente Oreste Granillo – que acabou homenageado, anos depois, com o nome do estádio de Reggio Calabria. A Reggina continuou frequentando a segunda divisão nas três décadas seguintes, mas o máximo que alcançaria seria a quinta posição, em 1988-89. Acabou ficando à frente do rival Cosenza, mas perdeu o mata-mata do acesso para a Cremonese.

Exatamente dez anos após a decepção, os amaranto conseguiram a glória: quarta colocada na Serie B 1998-99, a equipe garantiria a sua estreia na elite do futebol italiano. O que havia de comum entre as duas campanhas? A presença de Pasquale (ou Lillo) Foti, dirigente do clube. Trabalhando na Reggina desde 1986, primeiro como administrador geral e, a partir de 1991, como presidente, foi com o empresário do setor têxtil que a Reggina teve seus anos de ouro.

A base de ouro e os reforços gringos
O primeiro acesso do time dirigido por Lillo Foti teve como marca algo que se tornou praxe nos anos em que os amaranto ficaram na Serie A: a utilização de jogadores que passaram pelas categorias de base do clube. Em 1998-99, jogadores muito importantes nos anos seguintes e que já faziam parte do elenco saíram do vivaio de Sant’Agata, como o goleiro Emanuele Belardi, o zagueiro Bruno Cirillo, o lateral direito Giandomenico Mesto e o meia-atacante Francesco Cozza – atual treinador dos calabreses.

Entre juvenil, profissional e técnico, o habilidoso Cozza já tem 18 anos de casa (Eurosport)

O acesso foi conquistado sob o comando do técnico Elio Gustinetti, mas ele acabou substituído por Franco Colomba, que permaneceria no clube até 2002. A estreia da Reggina na Serie A foi muito boa e o time concluiu o campeonato na 11ª posição: ajudaram alguns reforços importantes, como os jovens Andrea Pirlo – então meia-atacante – e Mohamed Kallon, ambos emprestados pela Inter, e o volante Roberto Baronio, que se juntaram à base anterior.

Após a saída do trio, o defensor checo Martin Jiránek e o volante brasileiro Mozart foram os maiores reforços, embora a equipe tenha acabado rebaixada. Um pequeno escorregão, porque o retorno à Serie A foi imediato, e, em 2002-03 a Reggina destaria e novo entre os principais times do país.

À tática de utilizar a base, Foti adicionava outro expediente: dava espaço a jogadores estrangeiros de diversas nacionalidades, muitas vezes desconhecidos. Entre os estrangeiros, alguns de nacionalidades exóticas, como o serra-leonês Kallon, o hondurenho Julio César De León e o albanês Erjon Bogdani, e outros mais “mainstream”, como o checo Jiránek, o chileno Jorge Vargas, o argentino Ricardo Verón, o português Marco Caneira e o brasileiro Mozart.

Japonês Nakamura foi um dos ídolos do período de ouro da Reggina (Getty)

O retorno ao panteão do futebol italiano coroou a fórmula de Foti. Enquanto Belardi, Cirillo, Mesto, Mozart, Jiránek e o capitão Cozza continuavam no time, o dirigente fechou com dois jogadores que disputaram a Copa do Mundo de 2002, entre eles aquele que foi sua contratação mais ousada: o japonês Shunsuke Nakamura.

Em uma época em que poucos nipônicos atuavam na Europa – em 2002, o Mundial tinha acabado de acontecer na Ásia –, ser melhor jogador da J-League e ter vencido uma Copa da Ásia não contava muito. Mesmo assim, Naka ganhou a camisa 10 e, em três anos pelos amaranto, mostrou que merecia o posto. O outro contratado naquela janela, o paraguaio Carlos Humberto Paredes, também virou titular absoluto.

Entre 2002 e 2009, a Reggina não saiu da primeira divisão, mesmo tendo um orçamento muito baixo – em algumas ocasiões, entre os menores da Serie A e muito longe dos gigantes. Mas quem disse que isso seria impedimento para uma equipe milagreira?

Sete anos de sonho e uma temporada inesquecível
A primeira temporada com Nakamura na equipe foi sofrida. O nipônico formou um quarteto ofensivo com Cozza, o habilidoso David Di Michele (também contratado naquela janela) e mais um centroavante – Emanuele Bonazzoli e Gianluca Savoldi se alternavam na função. No final da temporada, Bonazzoli, Di Michele marcaram sete gols cada e, com duas vitórias nas rodadas finais, contra a campeã Juventus e o Bologna, a Reggina conseguiu levar a decisão do rebaixamento para o desempate (ou spareggio) com a Atalanta. No primeiro jogo, no Granillo, 0 a 0. Em Bérgamo, os amaranto fizeram 2 a 1 e se salvaram.

Em 2003-04, a Reggina teve campeonato mais atribulado – com resultados esdrúxulos, como um 4 a 4 contra o Brescia e uma goleada por 6 a 0, sofrida diante da Inter –, mas conseguiu se salvar na penúltima rodada. Assim como no ano anterior, uma vitória em casa contra o campeão da Serie A (desta vez, o Milan) garantiu a tranquilidade. Tudo isso aconteceu muito por causa do fiel público calabrês, que lotou o estádio Oreste Granillo nas duas primeiras temporadas da equipe que voltava à elite – em 2002-03, a Reggina teve a 6ª maior média de público e sócios-torcedores do campeonato e em 2003-04 ficou com a 8ª.

A grande virada em Reggio Calabria aconteceu a partir de 2004. Lillo Foti contratou Walter Mazzarri, técnico que havia levado o Livorno de volta para a primeira divisão após 50 anos de ausência, e buscava no treinador toscano o que ele podia dar: um futebol combativo, bastante físico e com contra-ataque forte, ideal para equipes de menor porte que tinham uma ambição a mais no campeonato. O objetivo da Reggina sempre foi escapar do rebaixamento, mas quem contrata Nakamura – jogador muito técnico e de grande apelo midiático – quer algo mais. Com Mazzarri, ficou mais possível.

Mazzarri levou a Reggina a resultado improvável e se projetou nacionalmente (Stretto Web)

Logo em sua estreia, o técnico toscano teria de contar com as saídas de Cozza e Di Michele, e com um elenco inferior ao da temporada passada. Isso não foi problema para Mazzarri, que deu a faixa de capitão para Mozart e reorganizou o time em um 3-5-2 eficiente, capaz de dar trabalho para os grandes. Foi assim que, em um dos campeonatos mais equilibrados dos últimos tempos, a Reggina ficou na 11ª posição, com 44 pontos – à frente de Lazio, Fiorentina, Parma e Bologna e com um ponto a menos que a Roma, oitava colocada.

Em 2005-06, a equipe calabresa perdeu Nakamura e Mozart, mas teve a volta, por empréstimo, de Cozza e o início da participação constante do meia central Simone Missiroli, revelado no vivaio de Sant’Agata. Importantes reforços, como os centroavantes Rolando Bianchi e Nicola Amoruso (que seriam essenciais na história do clube), o goleiro Ivan Pelizzoli e os defensores Francesco Modesto e Alessandro Lucarelli também chegaram a Reggio Calabria. A temporada foi concluída com a Reggina na 15ª posição – muito graças aos 11 gols de Amoruso e oito do capitano Cozza –, mas os desdobramentos do Calciopoli levaram ao rebaixamento da Juventus e à puniçao da Lazio. Com isso, o time amaranto ficou com a 13ª colocação.

Só que a Reggina também se envolveu no Calciopoli: Lillo Foti, assim como outros dirigentes, influenciava a escolha de árbitros para as partidas do seu time e os pressionava para que eles as manipulassem. O presidente foi banido do futebol por dois anos e meio, e o time, além de multado, começou a Serie A com punição de 15 pontos – reduzida para 11 em dezembro, meados da temporada 2006-07.

Os jogadores e o técnico, que não tinham a ver com as falcatruas da diretoria, se dedicaram em dobro e levaram a Reggina a sua melhor temporada na história. O ataque amaranto funcionou de vento em popa e foi um dos 10 mais prolíficos da Serie A 2006-07, com 52 gols – destes, mais da metade foram marcados pela promessa Bianchi (o atacante, que jogaria no Manchester City, fez 18) e pelo experiente Amoruso (17). A verve goleadora levou o time à salvação apenas na última rodada, quando bateu o Milan por 2 a 0, chegando aos 40 pontos – não fosse a punição, os calabreses teriam feito 51 pontos e ficado com a 8ª posição, algo impensável para um time provinciano e de baixo investimento. Àquele momento, a Reggina parecia “incaível”.

A fama de equipe difícil de ser batida em seus domínios e a mística que a fazia praticamente impossível de ser rebaixada acabaria por ali. Mazzarri foi contratado pela Sampdoria, a equipe perdeu algumas peças importantes (como Lucarelli e Bianchi) e nem mesmo a permanência de jogadores como Salvatore Aronica, Amoruso, Modesto e Missiroli, além dos reforços de Emil Hallfredsson, Édgar Barreto, Bruno Cirillo, Franco Brienza e Francesco Cozza, melhoraram muito a sua situação. A Reggina conseguiu mais uma salvezza, em 2007-08, mas foi rebaixada no ano seguinte e nunca mais voltou à Serie A.

A partir daí, o clube de Reggio Calabria viveu um período de queda livre. A não ser pelo ensaio de voltar à primeira divisão em 2010-11, a Reggina ocupou a parte baixa da tabela em quatro temporadas da segundona e caiu para a terceira divisão em 2014, quando começou a flertar também com um rebaixamento para a Serie D.

Lillo Foti acabou se licenciando da presidência de forma definitiva em 2015, quando entrou com um pedido de falência do clube, que já não se sustentava mais. Refundada, a sociedade calabresa está na quarta divisão e é candidata ao acesso à Lega Pro, terceiro nível do futebol italiano. Ao que parece, vai demorar para que o time sulista volte para a elite – por outro lado, o Crotone, que também é da Calábria, está quase lá.

Ficha técnica: Reggina

Cidade: Reggio Calabria (Calábria)
Estádio: Oreste Granillo
Fundação: 1914
Apelidos: Amaranto
As temporadas (apenas séries A e B): 9 na Serie A e 22 na B
Os brasileiros: Adriano Louzada, Bruno Lança, Emerson, Gleison Santos, Joelson, Josias, Mozart, Paulo Pereira e Rodrigo Ely.
Time histórico: Emanuele Belardi (Ivan Pelizzoli); Giandomenico Mesto, Bruno Cirillo, Alessandro Lucarelli, Salvatore Aronica; Simone Missiroli, Mozart; Shunsuke Nakamura, Francesco Cozza, David Di Michele; Rolando Bianchi (Nicola Amoruso, Emiliano Bonazzoli). Técnico: Walter Mazzarri.

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