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Paolo Maldini, o capitão que não compactuava com os ultras do Milan

O que é necessário para alcançar o status de ídolo no futebol? A resposta é subjetiva a cada torcedor. Afinal de contas, há uma infinidade de nuances que compõem a definição de “ídolo”. Uns consideram mais relevante o amor à camisa, enquanto outros preferem adotar os títulos obtidos como comparativo – só para citar alguns dos argumentos e vertentes que fazem parte deste debate. Sob qualquer destes aspectos, Paolo Maldini e seu elo com o Milan deveriam simbolizar perfeitamente a figura de ícone máximo no futebol.

Com o número 3 às costas, o ex-jogador italiano, que completa 50 anos nesta terça-feira, 26 de junho, nunca jogou por outro clube que não fosse o rubro-negro de Milão. Foram 31 anos de serviços prestados à equipe milanesa, 26 títulos conquistados, vários recordes atingidos e uma posição fixa entre os melhores defensores de todos os tempos. Sinônimo de liderança em sua melhor descrição.

Maldini ganhou o status de entidade divina pela torcida do Milan devido à sua lealdade e respeito que tinha pelo clube. Para ele, a agremiação vinha sempre em primeiro lugar. Quando a fase não era boa, Paolo servia de escudo para o time em meio às críticas da torcida. Tinha quem não gostasse. Por mais que seja uma das maiores bandeiras da história da agremiação, Maldini não é tido como ídolo pelos ultras rossoneri. Isso porque ele foi um ferrenho opositor dos membros de facções organizadas durante sua carreira.

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Um dos primeiros casos de confronto com os ultras ocorreu na temporada 1997-98, justamente a que Maldini herdou a braçadeira de capitão de Franco Baresi, que se retirava dos gramados. Por causa dos maus resultados naquela época, os ultras paralisaram um jogo contra o Parma, no San Siro, pela Serie A, por mais de cinco minutos, arremessando objetos ao campo. Após o fim da partida, Il Capitano foi o único jogador a criticar publicamente a atitude dos indivíduos.

Na temporada seguinte, o Milan conquistou o scudetto na última rodada ao bater o Perugia, fora de casa, por 2  a 1, e Maldini se recusou a comemorar o título com os torcedores. Desceu rapidamente para os vestiários junto com Alessandro Costacurta.

Maldini se desentendeu com os ultras em seu jogo de despedida (Getty Images)

Em 2005, após o Milan perder a taça da Liga dos Campeões para o Liverpool no jogo que ficou conhecido como “Milagre de Istambul”, as desavenças aumentaram. “Jogamos bem, melhor que o Liverpool, mas isso é o futebol”, justificou Maldini, à época, sobre o épico jogo. No entanto, ao desembarcarem na Itália, no dia seguinte à derrota, os jogadores foram recebidos sob protestos de um pequeno grupo de ultras, que discordavam da opinião do capitão. Segundo relatos da imprensa italiana, Maldini se recusou a responder às perguntas dos organizados e os chamou de poveri pezzenti (“pobres mendigos”). Eles nunca esqueceram aquele episódio.

Depois de conquistar a Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes em 2007, o Milan começou seu período de declínio em nível europeu e nacional. Só voltaria a vencer um título relevante – a Serie A – na temporada 2010-11. Enquanto isso, em 2008, a torcida começava a protestar contra os efeitos da gastança descontrolada de Silvio Berlusconi, icônico presidente do clube, e a consequente queda nos investimentos. Ao mesmo tempo, via a Inter, sua rival regional, dominar o panorama italiano. Assim, sob questionamentos dos torcedores em relação à gestão de Berlusconi e perda de domínio local para os nerazzurri, Maldini iniciou sua última temporada em San Siro.

Em fevereiro de 2009, a Inter venceu o Derby della Madonnina por 2 a 1 e tirou o Milan da corrida pelo título italiano. Na semana seguinte, a equipe rossonera foi eliminada pelo Werder Bremen na fase de 16 avos de final da Copa da Uefa (atual Liga Europa), cedendo um empate em 2 a 2 após ter aberto dois gols de vantagem no San Siro. Ao apito final do árbitro, Maldini perdeu a paciência com as vaias dos torcedores e os mandou ficarem calados, fazendo o gesto de silêncio com o dedo indicador em frente à boca. Além disso, o time havia caído na Coppa Italia diante da Lazio, antes do último Natal.

Os comandados de Carlo Ancelotti – que também deixaria o clube ao fim daquela temporada – tiveram um bom desempenho nos meses de março e abril, acalmando os ânimos da torcida e consolidando o Diavolo entre os três primeiros colocados do campeonato. A classificação para a Liga dos Campeões veio, mas a despedida de Maldini do San Siro foi marcada pela derrota por 3 a 2 para a Roma e pelo ápice da desavença entre o capitão e os ultras.

Em meio às faixas criticando Berlusconi, surgiram outras, estas direcionadas a Paolo, na Curva Sud. Elas relembravaram o entrevero após a derrota na final da Liga em 2005: “Pelos seus 25 anos de gloriosa carreira, sentidos agradecimentos daqueles que você definiu mercenários e mendigos”. A faixa era acompanhada de uma camisa de Franco Baresi, outra bandeira do Milan, e um coro: “Existe apenas um capitão”. Após o jogo, Maldini respondeu às provocações. “Tenho orgulho de não ser um deles”, disse.

“Obrigado, capitão: em campo você era um campeão infinito, mas desrespeitou quem o enriqueceu” (The Gentleman Ultra)

Em entrevista à Gazzetta dello Sport, Maldini expressou toda sua decepção com o Milan por ter ficado em silêncio no episódio dos protestos. “O Milan não me defendeu. Nem o presidente falou nenhuma palavra em solidariedade a mim. Sou um idealista, mas creio que o Milan deve se desassociar de certos episódios”, disparou o camisa 3, que ainda revelou: “Há dois anos vivo sob escolta por causa do comportamento das pessoas que contestei. Sol, calor, um jogo à tarde, um estádio cheio de famílias e 70 mil pessoas que me aclamavam. Tristeza pelos 500 que quiseram estragar a minha festa”.

Um dos integrantes da Curva Sud participou do programa Controcampo, do canal de TV fechada Rete 4, e tentou minimizar a onda de protestos. “Aquilo não foi uma reclamação, mas apenas um esclarecimento sobre a relação entre nós e Maldini. Nós certamente não queríamos contestar um jogador que por 24 anos [entre os profissionais] foi uma bandeira do Milan, mas para nós não é ‘a bandeira’, que permanece sendo Franco Baresi”, explicou o ultra.

Depois do revés para a Roma, o Milan venceu a Fiorentina por 2 a 0 – gols dos brasileiros Kaká e Alexandre Pato –, no Artemio Franchi, e encerrou sua participação na Serie A 2008-09 com o terceiro lugar. Quando o apito do árbitro soou o fim do embate, Maldini foi ovacionado por todos os torcedores e não se prolongou em campo: agradeceu rapidamente o carinho dos fãs e rumou aos vestiários. Ele saiu do estádio por conta própria e não entrou no ônibus que levaria a delegação milanista para o aeroporto de Florença.

Peitada em Galliani

Dos grandes times italianos, apenas o Milan não tem um grande ídolo deste século atuando na direção do clube. A Juventus tem o checo Pavel Nedved ajudando os Agnelli. O argentino Javier Zanetti virou vice-presidente da Internazionale. Francesco Totti, disparado o maior ídolo giallorosso, faz parte da cúpula da Roma. Atualmente Baresi, que parou nos anos 1990, atua como brand ambassador milanista (a rigor, a face pública do time), mas o nome de Maldini sempre foi ventilado nos bastidores de Milanello. Oportunidades não faltaram.

Logo depois do último jogo de Maldini como jogador profissional, a diretoria rossonera lhe ofereceu um cargo de diretor técnico do clube, mas Paolo recusou, dada a complexidade da função. A companhia na cúpula da agremiação também não agradava Il Capitano. Na temporada 2009-10, o brasileiro Leonardo assumiu o comando técnico da equipe e queria o ex-defensor na diretoria, mas Adriano Galliani, CEO e braço direito de Berlusconi no Milan, vetou a decisão. Na visão de Galliani, um diretor esportivo não era mais necessário no futebol moderno.

Galliani e Maldini bateram de frente algumas vezes (AC Milan)

Em 2012, Maldini alfinetou o dirigente em entrevista ao jornal La Repubblica: “Eu nunca vi um clube ser dirigido por uma pessoa [Galliani] assim… Eu posso destruir esse mito de que sou ‘um da família’ no Milan. Eles não me querem lá, propriamente”. Massimiliano Allegri, o técnico que levou os rossoneri ao último título de Serie A, também gostaria de ver o ex-jogador exercendo um papel no clube: sugeriu que o eterno camisa 3 fosse uma espécie de canal entre a comissão técnica e os jogadores. Paolo, no entanto, não desceu na goela de Galliani e companhia.

Com a passagem de bastão para o empresário chinês Yonghong Li, que deu um ponto final a 31 anos de gestão Berlusconi à frente do Milan, Maldini voltou a ser questionado sobre ter uma função na hierarquia do clube. O capitão, no entanto, nunca escondeu sua desconfiança em relação ao planejamento dos asiáticos para levar o Diavolo de volta às glórias. “Não tenho absolutamente nenhuma ideia do que o Milan se tornará novamente, mas não parece muito promissor esse novo projeto por enquanto”, refletiu, à Radio 24, em janeiro de 2018.

Quase nove anos depois de abandonar os gramados, Maldini ainda não entrou para o time dos dirigentes do Milan. Por outro lado, fundou, junto com o empresário compatriota Riccardo Silva, o Miami FC, que nasceu em 2015 e disputa atualmente a NPSL – National Premier Soccer League. A experiência como cartola na Flórida será levada um dia ao clube de Milão? O futuro dirá.

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