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Roberto Baggio e o budismo: a conversão, o herói e as contradições de um campeão

Roberto Baggio em evento no Japão


Roberto Baggio é protagonista de uma das maiores fábulas do futebol italiano. Em 22 temporadas como jogador, ganhou milhares de páginas e de minutos de TV; fora de campo, aproveitou o período para se consolidar como figura de prestígio na cultura popular da Itália.

Quando a palavra storytelling ainda não era moda, o Divin Codino adicionou uma pitada espiritual na construção de sua própria narrativa: a conversão ao budismo, religião seguida por menos de 0,5% dos italianos.

“A vida de Baggio é um pouco calçada da fama, um pouco via-crúcis.”
Raffaele Nappi, autor do livro Divin Codino

O primeiro contato de Baggio com o budismo ocorreu em 1987, pré-internet e pré-TV a cabo, quando a filosofia oriental não era tão conhecida na Itália. O responsável por apresentá-lo aos conceitos foi um amigo próximo, Maurizio Boldrini, vendedor de discos em Florença.

Naquela época, Baggio estava na Fiorentina havia mais de um ano, mas raramente jogava. Tinha lesionado o menisco do joelho direito pela primeira vez em 1985, ainda na terceira divisão, numa partida pelo Vicenza. A Fiorentina aceitou contratá-lo machucado e decidiu tratá-lo. Baggio estourou o joelho mais duas vezes nas duas primeiras temporadas em Florença. Aos 20 anos, quando conversava com Boldrini, tinha 220 pontos no joelho e mais tempo no departamento médico do que no gramado.

Roberto Baggio com a camisa da seleção italiana na Copa do Mundo

Roberto Baggio com a camisa da seleção italiana na Copa do Mundo (Ansa)

A conversão

Quando o vendedor de discos começou a falar com Baggio sobre revolução interior do ser humano e criação de uma sociedade de paz, aquele jovem católico criado em Caldogno (cidadezinha com menos de 6 mil habitantes da província de Vicenza) viu os conceitos com ceticismo. Depois, com curiosidade. Então, em 1º de janeiro de 1988, prestes a completar 21 anos, Baggio se converteu ao budismo.

Naquele dia, Baggio era um jogador com 16 partidas e 4 gols na Serie A. Ainda nem usava o rabo de cavalo, penteado que consagrou seu apelido. É por isso que a conversão, em si, não virou notícia. Nas décadas seguintes, porém, a vida budista do Codino Divino sempre teve garantido algum espaço midiático.

Baggio gostava de conversar com os jornalistas sobre a doutrina que havia escolhido. Em entrevistas exclusivas a veículos generalistas, chegava a combinar que falaria sobre budismo e outras coisas por quanto tempo fosse necessário – sob a condição de o futebol não aparecer nas perguntas. Costumava dizer que o budismo “ajuda a deixar claro a quais emoções se entregar e quais abandonar”, o que o mantinha sereno.

“Eu precisava de um ponto de referência forte, mas não encontrei ninguém que me encorajasse, que me dissesse que eu conseguiria chegar lá. O budismo favorece a vitória contra os obstáculos do dia a dia, é uma força que nasce dentro de mim e me ajuda a ser mais calmo e a fazer ser mais amado pelo próximo.”
Roberto Baggio, em 1995, em entrevista à revista DuemilaUno, um ano depois de perder aquele pênalti na final da Copa do Mundo dos EUA

Como é óbvio que ocorresse assim, Baggio, um ícone do futebol internacional, cumpriu papel importante na difusão do budismo na Itália. Ele participou da inauguração de diversos templos e também trabalhou de forma mais “direta”, como quando apresentou a doutrina ao goleiro francês Sébastien Frey, seu colega na Inter, que não demorou a se converter.

Roberto Baggio volta ao banco de reservas em Juventus x Fiorentina

Roberto Baggio volta ao banco de reservas em Juventus x Fiorentina (Ansa)

O budismo na Itália

Na Itália, o budismo é a terceira religião mais difundida, com cerca de 293 mil adeptos: 1 a cada 206 habitantes. O Centro Studi sulle Nuove Religioni (Centro de Estudos sobre Novas Religiões) estima que, destes, 94 mil sejam italianos convertidos.

Baggio é seguidor da Soka Gakkai (Sociedade de Criação de Valores, em tradução livre), um movimento derivado da escola japonesa Nichiren Shoshu, que consagrou o mantra Namu Myoho Renge Kyo.

Em 2014, o craque italiano inaugurou o Centro Culturale Ikeda de Corsico, na região metropolitana de Milão, que se tornou o maior templo para culto budista na Europa, com mais de 900 lugares sentados.

A referência

Em várias entrevistas em que tratava apenas de religião, o Codino Divino contava quem era seu “herói”, usando exatamente esta palavra: Daisaku Ikeda. Baggio estava com a esposa, Andreina Fabbi, quando se encontrou com ele em Tóquio pela primeira vez, em 1993.

A Ikeda, “herói moderno” e “herói possível”, Baggio atribuía adjetivos como compaixão, alegria, coragem e determinação. Ikeda perdeu o irmão na II Guerra Mundial, aos 17 anos, e decidiu dedicar a vida a erradicar as causas da violência entre seres humanos.

Hoje, aos 91, Ikeda frequentemente é descrito por críticos como objeto de um culto à personalidade incomum à filosofia budista. Também é posta em discussão a influência dele no partido japonês de centro-direita Komeito, classificado por cientistas políticos como braço político da doutrina.

Por outro lado, o herói de Baggio já recebeu dezenas de reconhecimentos, como a Medalha de Paz das Nações Unidas, e é membro honorário do Clube de Roma, organização que reúne personalidades políticas na discussão de questões globais humanitárias e de desenvolvimento sustentável.

Visita ao templo budista Zenkoji, no Japão (STR/AFP via Getty Images)

As contradições

Mas este texto só pode ser considerado completo se levar em consideração as incompatibilidades entre doutrina e comportamento – algo que os detratores de Baggio sempre gostaram de fazer.

A principal contradição é a paixão de Baggio pela caça. Um dos propósitos fundadores do budismo é não matar um ser vivo, não aprovar a morte de um ser vivo e não causar a morte de um ser vivo. A antítese do hobby do italiano.

Baggio mantém uma reserva na Argentina e chegou a processar o presidente de uma ONG de proteção aos animais que o importunava nas redes sociais por essa escolha. “Sou um caçador, mas amo os animais”, disse o craque, em maio de 2019, ao sair do tribunal. Sempre afirmou ser atacado injustamente pelo hobby que escolheu.

Os críticos gostam, ainda, de lembrar questões comportamentais contraditórias. Baggio manteve relações conflituosas com praticamente todos os treinadores pelos quais foi comandado. Fabio Capello disse que ninguém mais o aguentava no vestiário do Milan. Marcello Lippi decidiu processá-lo após ler sua biografia. Carlo Ancelotti não quis trabalhar com ele no Parma. Renzo Ulivieri pediu demissão depois de Baggio abandonar a concentração do Bologna ao ouvir que ficaria no banco de reservas.

A carreira de Baggio

Roberto Baggio estreou como profissional no Vicenza, em 1982, na terceira divisão italiana, então chamada de Serie C1. Só venceu o primeiro título 11 anos depois: a Copa Uefa de 1993, pela Juventus.

Para Carlo Mazzone, que o treinou no Brescia, Baggio teria sido o melhor jogador do mundo se não tivesse de enfrentar os problemas nos joelhos, que o perseguiram desde os 17 anos.

Ironicamente, Baggio rompeu o menisco direito pela primeira vez em 1985, em uma partida contra o Rimini, treinado por Arrigo Sacchi. Menos de 10 anos depois, Sacchi comandaria Baggio na final da Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994, perdida para o Brasil.

Misto entre camisa 10 e camisa 9, foi batizado de “nove e meio” em uma definição perfeita de Michel Platini, ídolo da Juventus, que treinava a França quando Baggio foi contratado pelo time de Turim.

Baggio marcou 205 gols na Serie A, 32 em competições europeias, 13 na Serie C1 e jogou três Copas do Mundo. Defendeu os três principais times da Itália – Juventus, Milan e Inter –, além de Vicenza, Fiorentina, Bologna e Brescia. Ganhou apenas quatro títulos. Foi eleito o melhor jogador do mundo em 1993.

Roberto Baggio na Copa do Mundo de 1994 (Ansa)

Roberto Baggio
Nascimento: 18 de fevereiro de 1967, em Caldogno
Posição: atacante
Clubes: Vicenza (1982-85), Fiorentina (1985-90), Juventus (1990-95), Milan (1995-97), Bologna (1997-98), Inter (1998-2000), Brescia (2000-04)
Seleção italiana: 56 jogos, 27 gols
Títulos: 2 Serie A (1995, 96), 1 Coppa Italia (1995), 1 Copa da Uefa (1993)

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