Jogos históricos

Em maio de 2000, temporal e refugada da Juve contribuíram para scudetto da Lazio

No dia 14 de maio de 2000, a Serie A teve um de seus emocionantes desfechos. Na véspera da última rodada da temporada 1999-2000, ainda havia muitas indefinições, como as brigas pela artilharia do campeonato e, principalmente, pelo título, que era disputado entre Juventus e Lazio. Se a contenda individual acabou tendo o resultado mais provável, a história que decidiu o scudetto foi surpreendente.

A Juventus de Carlo Ancelotti tinha a simples missão de vencer um Perugia que já tinha garantido a permanência na elite. As chances da Lazio se resumiam à mera estatística: das nove combinações de resultados possíveis, apenas uma dava o título para os celestes. Era necessário vencer a Reggina em casa e torcer para uma improvável vitória dos grifoni sobre a Velha Senhora.

Ainda em março, faltando oito rodadas para o fim da competição, os alvinegros nadavam de braçada para faturar o caneco, uma vez que tinham 75% de aproveitamento e uma distância de nove pontos para a Lazio, segunda colocada. Dali em diante, a vantagem juventina foi caindo aos poucos: nos sete jogos seguintes, a Juve perdeu três, dentre eles um embate com a própria Lazio dentro de casa. Em contraste, o time de Sven-Göran Eriksson cresceu na reta final da competição, embalado pelo triunfo no dérbi romano, e somou 19 pontos dos 21 possíveis. A diferença para a Juventus tinha sido reduzida para apenas dois pontos.

Pelo segundo ano consecutivo, os laziali entravam na rodada derradeira com chances matemáticas de título e dependendo do Perugia para serem campeões. Em 1999, o adversário era outro – o Milan. A Lazio até fez sua parte, mas viu o título escapar depois da vitória rubro-negra. Em 2000, os ingredientes eram os mesmos: Renato Curi em clima de decisão e um Olímpico lotado de torcedores que sonhavam com o scudetto, mesmo sabendo que as chances eram pequenas.

Del Piero teve de enfrentar um campo pesado no estádio Renato Curi (Allsport)

Dias antes da última rodada, repercutia na mídia italiana que o campeonato estava sem credibilidade, principalmente depois da vitória polêmica da Juventus sobre o Parma, no dia 7 de maio. Na ocasião, os ducali, que brigavam pela quarta vaga na Liga dos Campeões, tiveram um pênalti ignorado e um gol mal anulado – no primeiro turno, o confronto também teve dissabores porque o parmense Dino Baggio, expulso, acusou o árbitro Stefano Farina de estar comprado. Para afastar qualquer rumor de ajudinha à Juve na partida decisiva contra o Perugia, foi escalado aquele que era considerado o melhor árbitro do país: Pierluigi Collina.

Às 15 horas do dia 14 de maio, as equipes entraram em campo para fechar o campeonato. As condições para uma partida de futebol eram ideais em praticamente toda a Itália… exceto em Perúgia, onde nuvens carregadas tomavam conta do céu. A chuva ameaçava cair, mas o pontapé inicial ocorreu com o campo seco. Nos primeiros minutos de jogo, a Juventus atacava com mais frequência, mas de maneira ineficiente. Alessandro Del Piero e Zinédine Zidane chamavam a responsabilidade, mas o sistema defensivo dos alvirrubros, comandado por Marco Materazzi, levava a melhor em quase todos os lances.

A primeira grande chance da Juve nasceu com um lançamento de Alessio Tacchinardi, que encontrou Filippo Inzaghi na grande área. O camisa 9 finalizou, de primeira, mas à esquerda da meta, e não encerrou um jejum de nove rodadas sem estufar as redes. Pouco depois, a Juventus voltou a assustar, com cobrança de falta magistral de Zidane que obrigou Andrea Mazzantini a fazer uma defesa com a ponta dos dedos. Na sequência, Zizou tirou tinta da trave com outro chute perigoso.

Debaixo de uma chuva torrencial, que começara a cair nos minutos finais do primeiro tempo, Collina mandou os times para o descanso na Úmbria. Enquanto isso, na Cidade Eterna, a Lazio já havia encaminhado a vitória, com uma vantagem de dois gols sobre a Reggina. A informação rapidamente chegou ao vestiário bianconero e aumentou ainda mais a pressão sobre os jogadores. Afinal as duas equipes estavam chegando a 72 pontos e o regulamento da época previa um jogo de desempate em campo neutro no caso de paridade na pontuação.

Collina precisou atrasar o retorno do intervalo por causa das condições do gramado (Allsport)

Às 16 horas, a bola voltou a rolar nos gramados da Itália… exceto em Perúgia. Aquela tempestade que se anunciava antes de o jogo começar e que havia aparecido no final do primeiro tempo havia transformado o campo em uma piscina. Collina percebeu que não havia condições de retomar a partida tão cedo. O árbitro monitorava a situação do gramado a cada 15 minutos, ao passo que alguns torcedores deixaram o estádio com a convicção de que a partida seria adiada.

As equipes tiveram que esperar por mais de uma hora no túnel de acesso ao campo. Àquela altura todas as outras partidas já haviam se encerrado. A Lazio tinha vencido por 3 a 0 e, por isso, os juventinos já sabiam que teriam de vencer para serem campeões. Ou ao menos garantirem um ponto para forçarem o jogo de desempate.

No Olímpico, a ânsia por atualizações sobre a partida no Curi tomou conta de grande parte dos torcedores, que permaneceram no estádio. Às 17h11, depois de quatro avaliações do estado do campo, Collina autorizou o início da segunda etapa, sob protestos da diretoria da Juventus – que desejava o adiamento. O fato é que, se no primeiro tempo o desempenho da equipe de Turim já tinha sido ruim, no segundo foi ainda pior.

Era nítido que os jogadores estavam desestabilizados e o gramado encharcado atrapalhava a fluência do jogo, o que deixava os atletas da Juve cada vez mais pilhados. Logo no quarto minuto, o capitão Antonio Conte errou ao tentar afastar um cruzamento e presenteou o zagueiro Alessandro Calori, que estava bastante avançado. Sem cerimônias, o beque mandou para as redes um belo chute de pé direito. O Olímpico explodiu em festa, afinal a Lazio se aproximava do segundo scudetto.

Duelo entre Davids e Amoruso deu o tom de disputa entre Juventus e Perugia (Allsport)

Dali em diante, a Juve se lançou ao ataque desesperadamente para evitar a zebra, mas encontrou dificuldades diante de Materazzi, Calori e Mazzantini. O time visitante acumulava chutes de fora da área, e só. Ancelotti tentou mudar o rumo da partida ao colocar Darko Kovacevic, Gianluca Zambrotta e Juan Esnáider, mas as alterações não foram efetivas. Pelo contrário: Zambrotta teve a proeza de receber dois cartões amarelos em menos de dez minutos em campo e sua expulsão complicou ainda mais a reação da Juventus.

A Juventus continuou a sua blitz em busca do empate, com chutes de fora da área de Zidane e Edgar Davids, mas percebeu que não estava mesmo com sorte quando Inzaghi desperdiçou ótima oportunidade na altura da marca do pênalti. A tragédia alvinegra se concretizou e o placar de 1 a 0 prevaleceu até o apito final.

O Perugia, treinado pelo romanista Carlo Mazzone, tirou o scudetto das mãos da Zebra de Turim e o deu de presente para a Lazio, que comemorava o centenário naquele ano da melhor maneira possível. Já os juventinos tiveram de amargar os insultos dos torcedores biancorossi e alvinegros que invadiram o campo ao término da partida.

Curiosamente, os dois times viveriam histórias similares nos anos seguintes. Em 2002, a Lazio bateu a Inter na última rodada da Serie A e permitiu que a Juventus fosse campeã nacional mais uma vez. Na temporada posterior, foi a vez de a Velha Senhora poder celebrar contra o Perugia e deixar o fantasma para trás. Na 32ª e antepenúltima jornada do Italiano, a equipe treinada por Marcello Lippi empatou com os grifoni e celebrou seu 27º scudetto.

Perugia 1-0 Juventus

Perugia: Mazzantini; Bisoli, Calori, Materazzi; Esposito, Tedesco, Olive, Milanese; Alenichev (Sogliano); Amoruso (Melli), Rapajc (Campolo). Técnico: Carlo Mazzone.
Juventus: Van der Sar; Ferrara, Montero, Iuliano; Conte (Esnáider), Tacchinardi (Kovacevic), Davids, Pessotto (Zambrotta); Zidane; Inzaghi, Del Piero. Técnico: Carlo Ancelotti.
Local e data: estádio Renato Curi, Perúgia (Itália), em 14 de maio de 2000
Gol: Calori (50′)
Cartão vermelho: Zambrotta
Árbitro: Pierluigi Collina (Itália)

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